Friday, December 16, 2005

Um pequeno poema de Rumi... :)

O Mar é uma coisa...

a espuma, outra;

Esquece a espuma e contempla o mar noite e dia,

Tu olhas para a ondulação da espuma e não para o poderoso mar.

Como barcos, somos jogados daqui para ali,

Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.

Ah! tu que dormes no barco do corpo,

Tu vês a água; contempla a Água das águas!

Sob a água que tu vês há outra água que a move,

Dentro do espírito há um espírito que o chama.

excerto do rubaiyat de Omar Khayyam

Admito que já resolveste o enigma da Criação;

e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;

e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes

e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

Friday, December 09, 2005

... sobre o amor

Comecemos pela definição de amor. Deepak Chopra elucida-nos: "Amor significa aquilo que dissolve todas as impurezas, deixando apenas o verdadeiro e o real". E é isso que o amor é: uma força purificadora, que nos devolve a nós próprios.

Na verdade, quando somos peregrinos na senda do amor, sangramos de bom grado com as feridas do amor... sim, porque o amor depende apenas de nós, da nossa entrega, da nossa doação ao próprio amor. O amor existe em nós e é em nós que se manifesta. Se aceitarmos incondicionalmente o amor, isto é, se aceitarmos o amor cada vez que este nasce em nós, mesmo quando sabemos que não o poderemos realizar do modo como gostariamos, seja lá por que razão for, nessa altura crescemos no amor e, desse modo, o amor purifica-nos e leva-nos ao encontro da nossa verdadeira essência: amor.

Porque haveríamos de ter medo de sofrer? Sofrer não é nada.Todos nós sofremos por amor, mais tarde ou mais cedo. Só não podemos fechar-nos ao amor, com medo do sofrimento. Se o fizermos, perdemo-nos. E o que é pior: não temos quaisquer garantias de não voltarmos a sofrer, poderemos não sofrer por amor, mas sofreremos outras dores, talvez ainda mais amargas, porque reflectem o vazio da nossa vida...

Que sentido faz o amor se olharmos para as diferenças entre nós e aqueles que amamos? Que sentido faz o amor se acharmos que deveríamos ser amados, ou até como deveríamos ser amados?... O amor é um milagre, um milagre que se repete a cada instante e que devemos agradecer a cada instante. Nós ou outro não amamos por querer amar ou dever amar, amamos porque, volto a repetir, um milagre acontece na nossa vida. Não somos nós que escolhemos o amor. É o amor que nos escolhe. E, para aqueles que seguem o caminho do amor, o amor faz aquilo que o rei sugeriu que a Alice fizesse: "começa pelo princípio e vai até ao fim". O amor purifica-nos. E, se deixarmos, purifica-nos completamente. Apenas temos que nos abrir ao amor, a começar pelo amor por nós próprios. Livrarmo-nos do medo e do egoísmo, permitindo-nos amar verdadeiramente, independemente do que o outro sente por nós. Quando damos amor, também recebemos. Sim, pode acontecer que esse amor se concretize numa direcção diferente daquela para onde pensávamos canalizar o nosso próprio amor... Mas isso já são novamente os caminhos do amor, que nos transcendem. Seja como for, é possível recebermos aquilo que precisamos, simplesmente dando.

...

O amor como caminho só pode estar submetido ao princípio supremo: o Bem. O amor é, assim, o caminho do Bem, da bondade, da felicidade.

Platão, nos seu diálogos, dizia o seguinte: Diotima para Sócrates: "diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons, já que os homens até consentem que lhes cortem pés e mãos, sempre que essas partes de si mesmos lhe pareçam malignas." É preciso que mesmo Eros seja ainda um amor bom, positivo, um amor que nos torna melhores, doutra forma Eros não evoluirá. Mas temos que estar de sobreaviso, porque a paixão é SEMPRE motivada pelo Belo. Pelo Belo e não pelo Bom, ou pelo Bem. Mas a paixão ainda não é a felicidade, ou o caminho de volta à nossa verdadeira casa. A motivação da paixão é outra: a imortalidade. Exactamente, a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.

Não quero dizer com isto que a paixão seja negativa, muito pelo contrário. É muitas vezes o umbral, não apenas o ponto de partida, mas para muitos de nós o único ponto de partida possível... quando eu conheci o Alexandre, apaixonei-me perdidamente, como outras vezes me tinha apaixonado, mas desta vez entreguei-me completamente ao que sentia e fui também amada. Com o tempo, o amor carnal evoluiu para o amor ternura. E este novo amor ternura por vezes manifesta-se de tal forma que eu não posso deixar de amar também toda a humanidade... nessas alturas, citando o Gibran, sinto verdadeiramente que "eu estou no coração de Deus".

Eu creio que é como nos dizem Gitton e Antier, no livro da sabedoria e das virtudes reencontradas: "... à medida que se avança na sabedoria e na virtude, desligamo-nos dos desejos egoístas e elevamo-nos nos graus do amor. Primeiro, só se ama a si mesmo, depois o outro e depois os outros."

Contudo, creio que tudo isto pressupõe conhecimento. Temos que estar conscientes de quem somos, das nossas motivações, daquilo que queremos alcançar. Sabendo isto, poderemos servir-nos da nossa força e mantermo-nos perseverantes no caminho do amor. Se só nos amarmos a nós mesmos, não evoluimos, não conhecemos outros graus de amor. Moralidades à parte, é ainda um estado limitativo.

Sim, sei bem que cada um de nós segue o seu próprio caminho. Eu acredito, como sempre acreditei que o meu caminho de volta a casa é o caminho de Ágape. Eu acredito que quando vivencio o verdadeiro amor, enriqueço-me de um modo fabuloso. Mas vivenciar o amor é acima de tudo transmiti-lo. Que importa que eu sinta o amor, se eu não tenho empatia suficiente para intuir a real necessidade do amor em alguém e num momento, esse sim transcendente, transmitir o amor? O que eu quero dizer é que sentir o amor é um acto natural, os bebés sentem-no, todos. Mas, transmitir o amor já é um acto transcendente. Começa logo por ser um acto que não ocorre espontaneamente, mas sim devido a uma necessidade alheia. Ao intuirmos essa necessidade, ao nos assumirmos como seres perfeitos face a essa mesma necessidade e ao libertarmos o outro da sua limitação, dando-lhe por momentos a verdade da sua perfeição, naturalmente transcendemo-nos. E já não somos simplesmente Um com o universo, somos Um numa tríade: nós, o outro e o espírito unificador do Amor.

Mas, voltemos a Gitton e Antier: Ágape "é o ideal. «O ideal da santidade», sublinha Kant. Ele guia-nos e ilumina-nos. É uma virtude pois é uma excelência. E, milagre, «o amor que realiza a moral liberta-nos dela». «Ama e faz o que quiseres», dizia Santo Agostinho. O amor é pois o começo de tudo."

Mas, como eu dizia, por vezes Eros é o ponto de partida... se assim for, temos que ter cuidado e estar atentos. E pronto, nada mais tenho a dizer. Quero apenas terminar com o poema de Gibran:

"Quando o amor vos chamar, segui-o,
embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
e quando ele vos falar, acreditai nele,
embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
assim também desce até vossas raízes
e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento,
vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor,
para entrar num mundo sem estações,
onde rireis, mas não todos os vossos risos,
e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
"Deus está no meu coração",
mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus".
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
pois o amor, se vos achar dignos,
determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
sejam estes os vossos desejos:
de vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
que canta sua melodia para a noite;
de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
e de sangrardes de boa vontade e com alegria;
de acordardes na aurora com o coração alado
e agradecerdes por um novo dia de amor;
de descansardes ao meio-dia
e meditardes sobre o êxtase do amor;
de voltardes para casa à noite com gratidão;
e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
e nos lábios uma canção de bem-aventurança."

:)

Magia e Rituais


Mircea Eliade dizia referindo-se à criação/necessidade do ritual pelo homem primitivo, que ao transformar até os actos mais insignificantes em cerimónias, em rituais onde se repete um arquétipo realizado in illo tempore pelos antepassados ou pelos deuses, o homem primitivo esforça-se por passar além, por se projectar para lá do tempo, na eternidade. E é também neste sentido que eu entendo os rituais.

Eu acredito que na religião a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, o tal espaço/tempo sagrado, onde um ritual é a continuação imediata de outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. No espaço/tempo sagrado estamos num tempo fora do tempo e num espaço fora do espaço, comunicamos com milhões de seres humanos, em diferentes momentos da história do mundo... é outra realidade.

Creio, no entanto, que na actualidade se torna mais difícil alcançar realmente este espaço/tempo sagrado (qualquer que seja o método), basicamente porque nós valorizamos demasiado o conceito de espaço/tempo. Medimos a rotação da terra e somos levados a acreditar que esta nossa noção de espaço-tempo é tudo o que existe. Mas estes conceitos ganharam consistência com as leis de Newton, isto é, como conceitos são relativamente recentes. Assim, pode muito bem ser tudo o que existe para nós agora, mas certamente não era tudo o que existia na mente do homem primitivo. E a mim interessa-me sobretudo a visão inocente do homem primitivo, profundamente integrado com a natureza. O homem primitivo que vivenciava uma experiência religiosa, isto é, projectava-se numa dimensão espaço/tempo sagrada, pela simples contemplação de um símbolo. O símbolo revelava-lhe por si e em si mesmo toda a sua sacralidade. Se encaramos isso num contexto de espaço/tempo sagrado, nós em qualquer instante da actualidade, ao contemplarmos um símbolo, estaríamos na mesma realidade do homem que produziu esse símbolo e, desse modo, seríamos capazes de o entender integrados na realidade da sua criação.

O problema é encontrar essa realidade nua e pura, que existe para lá dos conceitos. Porque, repito, quer queiramos quer não, mesmo espaço e tempo não passam de conceitos, são abstracções da realidade, esquemas desenvolvidos pelo intelecto para representar a realidade e não a realidade per se. Definições. Definimos uma coisa e partimos do princípio que tudo está representado, conhecido. Isso apenas nos limita. Não limita a realidade, limita a nossa compreensão dessa mesma realidade. Por isso é que eu falo insistememente na busca da inocência, na procura da visão que vê para lá dos rótulos e dos conceitos...

O que eu sinto muitas vezes, sobretudo na abordagem wicca, é que os símbolos ganham outra vida, já não são um meio mas um fim em si mesmo. Mesmo os próprios conceitos de Deus e Deusa são em si mesmo limitadores quando nos prendemos a eles em demasia, uma vez que na verdade representam uma realidade desconhecida, sem nome... e nunca nos podemos esquecer disso. Deus e Deusa são conceitos que nunca conheceremos e, partir do princípio que sabemos tudo sobre esses conceitos afasta-nos ainda mais da realidade para onde esses símbolos nos deveriam canalizar. Contudo, muitos pagãos ou wiccans falam de deuses quase como se fossem personagens de um romance – são elementos arquétipos que necessariamente temos que encontrar e vivenciar em nós... mas certamente nada será literal nem tão conhecido como nos fazem crer.

Wednesday, November 23, 2005

Ainda a simbologia da escadaria do Bom Jesus

Vamos continuar, então, a interpretação da simbologia presente na escadaria do Bom Jesus, que começamos no post anterior. :)

No Escadório dos Cinco Sentidos o caminho contínua serpentiforme, pela estrutura em M das próprias escadas. Há que ter este aspecto em atenção.

José Ramos: «Segundo H. P. Blavatsky, esta é a mais sagrada das letras, assumindo um carácter místico quer no Ocidente quer no Oriente. Representa as ondas na Água do grande Oceano Primordial. É a Matriz, a Mater, a Mãe, Mut no Egipto, Maria no cristianismo, Maya no budismo, etc. É a Matéria Primordial como princípio da Grande Obra alquímica.»

A letra M está ainda associada ao Pentagrama, símbolo por excelência da Magia praticada desde tempos imemoriais no hemisfério norte. A letra M expressão alfabética do hieróglifo das “ondas da água”, símbolo do “Grande Oceano”, fonte de sabedoria, é realmente uma letra mística para muitos idiomas. É uma letra ao mesmo tempo masculina e feminina.


1ª fonte: As Fontes das Serpentes
José Ramos: «Vamos encontrar duas extraordinárias fontes, uma de cada lado da escada, comportando na sua base um recipiente para o qual são vertidas as águas. Sobre este encontram-se quatro cabeças de crocodilo dirigidas para os quatro pontos cardeais. Este facto é muito significativo já que o crocodilo, nas mais diversas mitologias, é o Senhor das Águas Primordiais. Trata-se de uma divindade ctoniana que reina no mundo inferior, constituindo assim um símbolo das trevas e da morte, mas também do renascimento. Neste sentido, equivale ao Seth egípcio e ao Tifão grego. Para os Miztecas e os Aztecas, a Terra nasceu de um crocodilo que vivia no Mar Primordial; para os Maias, a Terra era carregada às costas de um crocodilo. É o Senhor dos Mistérios da Vida e da Morte, o grande iniciador.

Sobre as quatro cabeças de crocodilo desenvolve-se uma espiral ascendente de nove voltas, por onde corre a água que é vertida, no cimo da mesma, pela boca de uma serpente para o interior de um cálice. A espiral evoca a evolução de uma força, de um estado. Representa os ritmos repetidos da vida, assim como todo o carácter cíclico do caminho evolutivo. O número nove anuncia ao mesmo tempo um fim e um recomeço, isto é, faz a transposição para um novo plano através de um processo de morte e renascimento; por isso, é o número da iniciação. Assinala o fim de uma fase do desenvolvimento espiritual e o início de uma outra superior. Fecha um ciclo de multiplicidade, para um reencontro com a Unidade, pois, esotericamente 10=1+0=1.

A serpente encarna a vida original, visto que as Águas Primordiais e a terra profunda formam a Substância Primordial da qual é constituída a serpente. Dessa forma, encontramo-la ligada às correntes de água subterrâneas, as quais são a origem oculta dos chakras da Terra, da energia telúrica. A serpente simboliza a sabedoria e os iniciados (os duas vezes nascidos), pois ela é a atenção constante, o eterno rejuvenescimento e a guardiã do poder e dos tesouros ocultos.»

Para Paulo Pereira também se pode interpretar em termos alegóricos como se tratando da redenção do peregrino ou romeiro. “Da serpente, símbolo [cristão] do pecado brota o elemento purificador por excelência, que preside a todo o sacromonte, mas muito em especial ao segmento seguinte, dedicado aos cinco sentidos. O Mal transforma-se em Bem através do domínio dos instintos (dos sentidos) e pela valorização do espírito e não dos fundamentos corpóreos e carnais da existência. No dizer de José Fernandes Pereira, que dedicou ao Escadório dos Cinco Sentidos um importante estudo: «a animação luminosa de todo o conjunto constitui um dos seus elementos estruturantes. No percurso ascensional, o espectador, saído de um verdadeiro túnel de penumbra, encontra-se de súbito mergulhado numa zona de intensa luminosidade, intensificada pela omnipresença do branco da cal, pontuado pelo negro granito de fontes e esculturas. (…) à forma dinâmica e movimentada da pedra associa-se o fluxo ininterrupto da água lançada do alto por uma serpente: repetição, movimento dentro do movimento, em suma, definição clara de uma estética barroca.

No terraço imediatamente anterior ao conjunto de escadas dedicadas aos cinco sentidos encontram-se duas capelas em cada extremo, uma a Capela das Quedas, outra a Capela da Crucificação, como que acentuando a dor de Cristo ou a via dolorosa como elemento de purificação.”

Capela das Quedas: Jesus cai sob o peso da cruz e Cireneu ampara-lhe o madeiro. Ambas as esculturas são de Evangelista Vieira. Na porta a incrição:Et venerunt in locum qui dicitur golgotha. Math. 27, 33.- "E vieram a um lugar chamado Golgota".

Capela da Crucificação: as imagens desta capela são as originais do século XVIII. A inscrição diz Erat autem hora tertia, et crucifixerunt eum. Marc. 15, 25 "Era a hora da terça quando o crucificaram".

Paulo Pereira: “O mote para o tema dos sentidos é lado pela primeira fonte das fontes, que se refere precisamente ao sofrimento de Cristo, apresentando-nos o símbolo que sintetiza, por excelência, a Via Crucis: trata-se da Fonte das Cinco Chagas.”

2ª fonte: Fonte das Cinco Chagas
Símbolos: cálice, escudo.
José Ramos: «No primeiro pátio jorra a Fonte das Cinco Chagas. A fonte lança, numa concha de sete semi-círculos, cinco vertentes saídas de um escudo. Estes cinco orifícios formam o quincôncio, ou seja, a quinta-essência que tem o poder de agir sobre a matéria e de transformá-la. Representa o homem espiritual que desperta do quadrado da matéria que constitui a sua personalidade. Cinco são os sentidos que permitem captar as cinco formas sensíveis da matéria e assim, transcendê-la.

Quanto ao cálice para onde jorra a água, ele representa o vaso que contém a poção da imortalidade e da abundância; é o seio materno do qual emana o Leite da Vida, leite esse que não é mais do que o Soma, bebida da imortalidade. O cálice é também o símbolo do coração do iniciado.»

Paulo Pereira: “É encimada por uma eloquente inscrição que diz: «PURPUREOS / FONTES ODIUM / RESARAVIT / ADOXUM / NUNC IN CHRISTALLOS HIC TIBI / VERTIR AMOR», o que em tradução de Alberto Feio dá: «Rubras fontes abriu o ódio amargo, para ti agora o amor aqui as converte em cristais», acentuando nesta mensagem ao peregrino o valor redentor do sofrimento do Salvador. A cartela da fonte apresenta em relevo os instrumentos da Paixão de Cristo.”


Escadório dos Cinco Sentidos

Este lance dos escadórios também é da responsabilidade do arcebispo D. Rodrigo de Moura Teles que não os chegou a ver concluídos pois morreu em 4 de Setembro de 1728. Para a conclusão a administração da confraria obteve os recursos de um modo singular. A Companhia de Jesus e o seu colégio da Igreja de São Paulo em Braga estava em litígio com outros colégios de Braga, em particular com o Convento dos Congregados. Houve então em Braga manifestações dos estudantes dos outros colégios contra os jesuítas. Estes conseguiram fazer prender os rapazes mais rebeldes, e obrigar as suas famílias a pagar multas proporcionais aos seus rendimentos. O dinheiro recebido foi entregue à confraria para a feitura das estátuas de pedra que terminariam o escadório dos cinco sentidos. Os jesuítas inspirados na mitologia Grega escolheram as figuras, que a Mesa da Confraria em Edital de 22 de Abril de 1774 julgou indecorosíssimas e indecentíssimas. Em satisfação a este edital foram mudados os nomes e os dísticos às imagens. Argos passou a chamar-se Vir Prudens; Orfeu- Editum; Jacinto-Vir Sapiens; Ganimedes-Joseph e Midas-Salomão.

Nesta parte do escadório estão cinco lances de escadas, intervalados por patamares com fontes alegóricas aos cinco sentidos, pela seguinte ordem: Visão, Audição, Olfacto, Paladar e Tacto.

Paulo Pereira: «Neste escadório procede-se ainda a uma hierarquia do tema dos cinco sentidos, como que revelando no percurso ascensional o grau de corporeidade que se deve atribuir a cada um dos sentidos em causa.» (...) «O primeiro sentido é, portanto, o da Vista e o último o do Tacto, começando, como vimos, no mais incorpóreo dos sentidos (a águia é o animal alegórico e o Sol preside à alegoria) e terminando no mais corpóreo e impuro (a aranha é o animal escolhido para simbolizar esta faculdade).

O escadório dos cinco sentidos – retomando as palavras de José Fernandes Pereira – é uma alegoria ao corpo humano mas está longe de constituir uma elegia. Ao contrário ele representa a mundovisão católica sobre o seu carácter pecaminoso e efémero, acrescido de uma desmistificante narrativa sobre o carácter erróneo do conhecimento sensorial; se é pelos sentidos que “se deriva o princípio do nosso conhecimento”, como escrevia um dos primeiros moralistas do Bom Jesus, a atitude do crente não pode ser passiva nem acrítica no acto de conhecer. É necessário ir além das ilusões da imagem, como dizia Santo Agostinho ou o Padre António Vieira – é necessário ir além de todos os dados imediatos da percepção, dizem sem cessar todas as fontes do Escadório dos Cinco Sentidos. Tudo o que é sensorial é do domínio do reino animal: e serão sempre animais a exemplificar nas várias fontes as capacidades de cada sentido como que a quererem dizer que não é essa a condição humana.»


3ª fonte (1ª fonte dos sentidos): Fonte da Visão
Símbolos: sol e águia – visão
Na fonte da Visão existe uma estátua lançando água pelos olhos e tem na mão esquerda uns óculos. Três águias olham para o sol.

Estamos perante uma dupla referência Solar: a Águia, com o seu forte simbolismo solar – ela pode olhar o sol de frente – , e o próprio Sol. Note-se que a águia identifica-se com forte conteúdo simbólico e que se encontra bem presente em variadas representações heráldicas no Ocidente medieval, sendo mesmo uma das mais comuns representações de animais nos brasões.

José Ramos: «Esta, tal como as restantes fontes dos sentidos, procura mostrar o lado transcendente do próprio sentido, aqui representado através do Sol, símbolo da claridade que permite conhecer a verdadeira realidade, oculta nas sombras da ignorância. A águia, como animal solar, constitui a aspiração a essa mesma luz que vem do alto; por isso a vigilância é também uma das suas características.»

Moisés - Argos/Vir Prudens - VISTA - Jeremias

A estátua central é a imagem de um pastor com a mão sobre o peito e os olhos fechados. A inscrição é Vir prudens quasi in somnis vide et vigilabis. Eccles. C. 13, v. 17. - «Varão prudente, toma-as (as lisonjeiras palavras) por um sonho e assim vigiarás».

Argos Panoptes (Argo de muitos olhos) era um gigante com cem olhos. Servo fiel de Hera, é incumbido pela deusa de tomar conta de Io, uma princesa e amante de Zeus transformada em novilha. Era um excelente boiadeiro, visto que, quando dormia, mantinha 50 de seus olhos despertos. Para libertar Io a mando de Zeus, Hermes o pôs a dormir e em seguida cortou-lhe a cabeça. Ainda assim, Hera homenageou Argos, transformando-o em pavão – a sua ave sagrada-, em cuja cauda pôs seus cem olhos.

À direita a estátua de Moisés, tendo na cabeça dois raios de luz e na mão direita a vara com a serpente enroscada. A inscrição diz: Moysés. Quem cumpercussi aspicerent, sanabantur. Num.21, 9. - «Moisés. Aqueles que, feridos, a olhavam, saravam»

À esquerda a estátua de Jeremias representa o sol e tem na mão direita uma vara com olhos, significando a que lhe mostrou numa visão. Na inscrição diz: Jeremias. Virgam vigilantem ego video. Jer. I -«Eu vejo uma vara vigilante». José Ramos: «Tudo fica mais claro se recordarmos que a vara ou cajado é símbolo do conhecimento que permite ao sábio caminhar seguramente.»

Outra possibilidade de interpretação: associação aos 4 elementos. A tradição esotérica do nosso continente refere sempre as provas relacionadas com os quatro elementos. Aqui aparecem-nos aos pares, o que também acontece em Tomar, nas construções dos Templários.

Vista (visão) – Sol – Fogo – elemento Masculino
Águia – Ar – elemento Masculino


4ª fonte (2ª fonte dos sentidos): Fonte da Audição
Símbolos: boi/touro – ouvidos
A fonte da audição, está representada por uma figura que lança água pelos ouvidos. Por baixo três cabeças de boi.

Manuel Luís Real, no seu estudo sobre a arte figurativa românica portuguesa, refere a representação de cabeças de boi, em várias igrejas, no primeiro modilhão das cornijas do lado oriental destas. Sobre a sua presença, afirma que ”tais cabeças devem ter possuído certas faculdades propiciatórias, pois só assim se entende que figurem aos pares, a servir de consolas aos tímpanos na entrada das igrejas”.

Boi: podemos interpretá-lo como sendo símbolo da bondade, força pacífica. O boi é considerado na Ásia Oriental e na Grécia um animal sagrado, para ser oferecido nos sacrifícios. O boi, ou touro, representa também as paixões sensoriais existentes no Homem que deverão ser superadas no seu processo de crescimento interno; não através da mera repressão do boi mas, antes, através de um delicado equilíbrio entre essas paixões e os seus componentes mais humanizados, de forma a vir a obter um todo ainda fértil, porém mais harmonioso.

O boi é geralmente um símbolo da fertilidade da terra, contrapondo-se em certa medida à fertilidade celestial – cujo primeiro símbolo é o carneiro (Áries). Enquanto símbolo de fertilidade, a figura bovina está presente em muitos mitos. No Egipto antigo, por exemplo, o boi Ápis era filho do primeiro raio matinal do deus-sol, Rá, que fecundou a terra do fundo do rio Nilo – o grande responsável pela fertilidade das terras egípcias. Nas mitologias da Antiguidade clássica este animal está fortemente associado à virilidade e poder masculinos. A forma dos cornos simbolizava a potência masculina. Na mitologia grega, Zeus transformou-se num touro para raptar e seduzir Europa.

Rei David - Orfeu/Idito - AUDIÇÃO - Esposa dos Cantares

A estátua central é de um jovem a tocar cítara com a inscrição: Idithum. Qui in cithara pro phetabat super confitentes et laudantes dominum. Paral. 25, 3. «Que cantava ao som da cítara, presidindo os que cantavam e louvavam o Senhor».

Orfeu - Personagem de um mito descrito de maneiras diferentes pelos poetas e obscurecido por numerosas lendas. Entretanto, Orfeu se destaca sempre como o músico por excelência que, com a lira ou a citara, apazigua os elementos desencadeados pela tempestade, enfeitiça as plantas, os animais, os homens e os deuses. Graças a esta magia da música, chega a obter dos deuses infernais a libertação de sua mulher Eurídece, morta por uma serpente, quando fugia das investidas de Aristeu. Mas uma condição foi imposta: que ele não a olhasse antes de ela voltar à claridade do dia. Em dúvida, no meio do caminho, Orfeu se vira: Eurídice desaparece para sempre. Inconsolável, Orfeu acaba os seus dias mutilado pelas mulheres trácias, cujo amor ele desdenhava.

Símbolo: falta de força anímica. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

À esquerda está a estátua do Rei David tocando Harpa e a legenda David. Auditui meo dabis gaudium et laetitiam. Psalm. 50. - «Ao meu ouvido darás gozo e alegria».

À direita a figura de uma mulher a tocar lira que diz esposa dos cantares. Sonet vox tua in auribus meis. Cant. 2 - «Tua voz soe aos meus ouvidos».

José Ramos: «É através da audição que surgem todas as vozes da Natureza que fazem eco no interior do homem. É a voz da sabedoria que penetra o homem tornando-o fecundo de uma nova vida, de uma capacidade criadora.»

Associação aos 4 elementos:

Ouvidos (audição) – Ar – elemento Masculino
Boi (Touro) – Terra – elemento Feminino

Nota: a audição normalmente está associada à quinta-essência, mas também pode referenciar o elemento Ar.


5ª fonte (3ª fonte dos sentidos): Fonte do Olfacto
Símbolos: cão – nariz

Na fonte do Olfacto a figura da fonte deita água pelo nariz, tem nas mãos uma caixa aberta e de cada lado um cão.

Na Idade Média o cão nem sempre se associou a uma simbologia positiva. No entanto, progressivamente ele tende a representar o símbolo, por excelência, da fidelidade, tal como, de resto, foi transmitido pelos autores da Antiguidade. Louis Charbonneau-Lassay refere, a tal propósito, que a arte cristã “le hizo justicia e hizo de él el símbolo de Fidelidad, de todas las fidelidades. En este sentido estaba echado al pie de las reinas y de las mujeres de bien, en sus monumentos funerarios, y también a los pies de los señores vasallos y de los escuderos fieles". Gerd Heinz-Mohr reitera esta simbologia, referindo que a Idade Média elevou o cão a símbolo “de fidelidade dos vassalos para com o Senhor das terras, da mulher para com o marido”. Por sua vez Marie Osterreicher-Mollwo, acentua em tal animal o valor da fidelidade conjugal, evocando a sua representação tumular “um bom casamento”.

Batista Vicente diz-nos que “o símbolo do cão é bastante complexo na sua tradição mitológica. Frequentemente comparece associado à idéia de morte, à imagem dos infernos, do mundo subterrâneo regido por divindades ctônicas ou selênicas. Por vezes, cumprindo o princípio da duplicidade arquetípica, a simbologia do cão completa a sua regência tanatológica com o reverso, sugerindo, assim, as ideias de renovação e iniciação trazidas pela morte como etapa necessária para um recomeçar vital.

Chevalier e Gheerbrant, no seu Dicionário de Símbolos, afirmam que a primeira função mítica do cão, universalmente atestada, é a de psicopompo, guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida (1992, p.176). Consta também ser intercessor e intermediário entre vivos e mortos, estando ligado à trilogia dos elementos – terra, água e lua. Apesar de suscitar pouco temor por seu caráter doméstico, o cão é tratado, na tradição bestiária, como símbolo da sagacidade, fidelidade e presciência, aspectos que correspondem à modelização arquetípica do simbolismo desse animal.”

Noé - Jacinto /Vir Sapiens - OLFACTO - Sunamita

A estátua por cima da fonte é de um varão sustendo a capa com a mão direita e pegando numa flor com a esquerda e a inscrição: Vir sapiens. Florete flores quasi lilium e date odorem. Eccl. 39, 19. - «Varão sábio. Dai flores como o lírio e rescendei suave cheiro».

Jacinto era um jovem mortal muito amado pelas divindades, principalmente por Apolo que o seguia aonde quer que ele fosse. Certa vez em que ambos se divertiam com um jogo, Apolo lançou o disco com tal habilidade para o céu que Jacinto olhando admirado correu para pegá-lo, ansioso por fazer sua jogada. Porém, o disco caiu em terra e voltando, bateu na testa de Jacinto, que caiu desmaiado. Apolo correu em desespero até Jacinto e com toda sua habilidade médica tenta reavivar o corpo de Jacinto, mas a sua cura estava além de qualquer habilidade. Apolo se sente tão culpado por sua morte que promete que Jacinto viveria pra sempre com ele na memória do seu canto. Sua lira celebraria-o, seu canto entoaria a canção de seu destino e ele se transformaria numa flor. Nisso o sangue de Jacinto que manchara a erva, se transforma numa flor de um colorido mais belo que a púrpura tíria. Uma flor muito semelhante ao lírio, porém, roxa. Nela foi gravada a saudade e o pesar de Apolo com o lamento "Ai! Ai!" que ele escreveu na flor, como até hoje se vê. A flor carrega seu nome e renasce toda primavera relembrando seu destino (a flor mencionada não parece ser o jacinto moderno).
Diz-se que Zéfiro (o vento oeste), que também amava o jovem, enciumado pela preferência por Apolo, mudou a direção do disco para que este atingisse Jacinto.

À esquerda está Noé sustentando nos braços um cordeiro, junto dum altar com a inscrição: Noé. Odoratus est dominus odorem suavitatis. Genes. 8.- «Noé. Percebeu o Senhor um suave cheiro».

À direita Sunamites abraçada a uma palmeira dizendo: Sunnamites. Statura tua assimilata est palmae...et odor oris tui sicut malorum. Cant. Cantic. Cap. 7, vv 7 e 8. - «A tua estatura é semelhante a uma palmeira... e o cheiro da tua boca é como o das maçãs». Recordemos que a maçã é o fruto do conhecimento e da imortalidade. Contudo, esta fruta possuía um sentido ambíguo durante a Idade Média. Por um lado foi identificada como aquela que causou o pecado original. Porém, também pode ter um significado positivo, pois, segundo Lurker, desde o século XI a maçã nas mãos do menino Jesus e na de Maria significava uma referência à absolvição do pecado e à vida eterna.

José Ramos: "O olfacto, tal como a visão, encontra-se muitas vezes associado à clarividência, à capacidade de percepcionar aquilo que o sentido físico não capta."

Nariz (olfacto) – Terra – Elemento Feminino
Cão (animal lunar) – Água – Elemento
Feminino


6ª fonte (4ª fonte dos sentidos): Fonte do Paladar
Símbolos: macacos – boca
Na fonte do paladar a figura deita água pela boca e tem na mão esquerda uma maçã e de cada lado um macaco.

José Ramos: «A boca é o símbolo da força criadora, o órgão da palavra ou Verbo. Por isso, a seu lado aparece o macaco ou cinocéfalo que também representa o deus Thot no Egipto, o escriba divino que toma nota da palavra de Ptah, o deus criador.»

Macacos: para muitas culturas estes primatas representam os instintos básicos da natureza humana. Na Europa Cristã, os macacos foram desde sempre alvo de desagrado, devido à sua sexualidade desinibida.

Jónatas - Ganimedes/São José - PALADAR - Esdras

A estátua cental representa José do Egipto com um cálice na mão direita e um prato com frutas na esquerda e a inscrição Joseph. De benedictione domini in terra ejus, de pomis coeli, et rore. Deuter. 33, 13. - «A tua terra seja cheia das bênçãos do senhor, dos frutos do céu e do orvalho».

Na mitologia grega, Ganímedes era um príncipe de Tróia, por quem Zeus apaixonou-se. Nas imediações de Tróia, o jovem cuidava dos rebanhos do pai, quando foi avistado por Zeus. Atordoado com a beleza do mortal, Zeus transformou-se em uma águia e raptou-o, possuindo-o em pleno voo. Ganimedes foi levado ao Olimpo e, apesar do ódio de Hera, substituiu a deusa Hebe e passou a servir o néctar aos deuses, bebida que oferece a imortalidade, derramando, depois, os restos sobre a terra, servindo aos homens. Em homenagem ao belíssimo jovem, Zeus colocou-o na constelação de Aquarius.

À esquerda Jónatas com uma lança, desculpando-se de ter provado o mel do cortiço que tem ao lado, dizendo Jonathas. Gustans gustavi in sommitate vergae; et ecce morior... I Reg. C 14. «Jonatas. Provei um pouco de mel na ponta duma vara; e eis porque morro...»

Na estátua da direita Esdras segurando um cálice e pão, com o letreiro: Esdras. Gusta panem et nom derelinquas nos sigut pastor in medio luporum. Esdr. 4 C. 5 - «Esdras. Prova o pão, e não nos abandones, como o pastor no meio dos lobos».

Boca (paladar) – Água – elemento Feminino
Macaco – Ar – elemento Masculino


Note-se que nas primeiras representações egípcias, temos quatro tipos designados para a Mãe na sua forma estrelada, tratando-se de representações dos quatro elementos, sendo estes quatro tipos os seguintes: Hipopótamo para a água, Macaco para o ar, Leão para o fogo e Crocodilo para a terra.


7ª fonte (5ª fonte dos sentidos): Fonte do Tacto
Símbolos: aranhas - mulher, cântaro
Na fonte do Tacto uma figura tem uma bilha segurada por duas mãos, donde cai água, sendo as aranhas animais simbólicos.

José Ramos: «Por último temos a Fonte do Tacto. A figura segura uma bilha que verte água, sendo as aranhas os animais simbólicos que a acompanham. Esta fonte representa, fundamentalmente, a acção e o destino forjado pelo homem. A mão, como veículo privilegiado do tacto, é o símbolo da actividade e do poder. É passiva naquilo que retém e activa naquilo que liberta. A mão é signo do labor, sendo extremamente interessante o facto de estar aqui associada à bilha, pois as bilhas construídas pelo oleiro são os elementos do nosso karma, o fruto das nossas acções. A aranha é a tecelã da realidade e senhora do destino e o fio por ela tecido é o meio ou suporte da realização espiritual.»

A estátua central da fonte é de Salomão, segurando o ceptro, com a inscrição: Salomão. Venter meus intremuit ad tactum ejus. Cant. Cap. 5, v 4. - «Salomão. As minhas entranhas estremeceram ao seu toque».

Midas pediu a Dionísio que lhe concedesse o dom de transformar em ouro tudo que tocasse; mas não pôde mais alimentar-se, pois toda a comida que tocava transformava-se em ouro; para se purificar, banhou-se nas águas do rio Pactolo, cujo fundo ficou coberto de pepitas de ouro.

À esquerda a estátua de Isaías que diz: Isaias. Tetigit os meum. Isai. 6 - «Isaias. Tocou a minha boca».

À direita a estátua de Isaac, cego com as mãos estendidas à procura do filho e proferindo: Accedehuc, ut tangam te, filii mi. Genes, 27. - «Chega-te a mim, meu filho, para que te toque».

Tacto – Mulher segurando Cântara – Ar – elemento Masculino
Aranha (teia) – Ar – elemento Masculino

José Ramos: «Há ainda a assinalar, relativamente ao escadatório dos cinco sentidos, que em todas as suas fontes encontramos a presença de cinco interessantes castelos ou torreões formados por quatro taludes e uma porta. Fulcanelli diz-nos o seguinte a propósito da representação do Athanor alquímico: "Os fornos estão representados como se fossem torreões com os seus taludes, as suas ameias, as suas seteiras". O athanor é o seio no qual se juntam os quatro elementos (torreão quadrado com quatro taludes) que são zelosamente vigiados (as ameias) com o objectivo de alcançar a obra (seteiras), permitindo a libertação do quinto elemento (a porta).»

Terminamos o Escadório dos Cinco Sentidos e passamos para um novo escadório, que data de 1837:


Escadório das Três Virtudes
Paulo Pereira: “Segue-se-lhe, imediatamente, o Escadório das Virtudes (que são as Virtudes Teologais – e não as Cardeais, que aqui não figuram –, reforçando desta feita o alcance católico do programa), executado já no tempo do arcebispo D. Gaspar de Bragança, na segunda metade do século XVIII, acrescentado portanto ao Escadório dos Sentidos, e já da provável traça de Carlos Amarante. O esquema geral é idêntico ao anterior (uma imagem central ladeada por outras duas), pese embora as fontes encontrarem-se instaladas em grandes nichos, no meio do espaldar das escadas. As figuras complementares são, neste caso, alegóricas e não remetem para a Bíblia ou para a mitologia. A fonte comporta um símbolo relativo à virtude teologal correspondente.”

Nota: As virtudes mais excelentes são as virtudes teologais (fé, esperança e caridade) que se referem diretamente a Deus; mas também são importantes as virtudes morais, que aperfeiçoam o comportamento do indivíduo nos meios que conduzem a Deus. Se pensamos no modo de adquiri-las, umas são virtudes naturais ou adquiridas, pois são conseguidas com as forças da natureza; outras, sobrenaturais, se são concedidas por Deus, de modo gratuito. As virtudes teologais sempre são sobrenaturais ou infusas; mas as virtudes morais podem ser adquiridas ou infundidas por Deus. O ser humano pode realizar actos bons com as forças naturais, adquirindo virtudes. Por exemplo: a sinceridade, a laboriosidade, a discrição, a lealdade...

As principais virtudes morais – chamadas também cardeais – porque são o ponto de apoio das demais virtudes – são a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança.
A prudência é a virtude que dispõe a razão prática para discernir – em toda as circunstâncias – nosso verdadeiro bem, escolhendo os meios justos para realiza-lo.
A justiça é a virtude que nos inclina a dar a Deus e ao próximo o que lhes é devido, tanto individual como socialmente.
A fortaleza é a virtude que no meio das dificuldades assegura a firmeza e a constância para praticar o bem.
A temperança é a virtude que refreia o apetite dos prazeres sensíveis e impõe a moderação no uso dos bens criados.

Benignidade -- Fonte: Coração – CARIDADE -- Paz
Confidência -- Fonte: Arca – ESPERANÇA -- Glória
Docilidade -- Fonte: Cruz – FÉ --Confissão


1ª Fonte de Fé – símbolos: cruz
A fé geralmente é associada a experiências pessoais e pode ser transmitida a outros através de relatos. Nesse sentido é geralmente associada ao contexto religioso e a decisão de "ter fé" é unilateral, ou seja, depende da vontade exclusiva de quem quer ter fé. A bíblia, um livro religioso e considerado sagrado por muitas religiões cita bastante a fé. Nela se encontra a seguinte definição geral: "(...) a fé é acreditar em coisas que se esperam, a convicção de factos que se não vêem, independentemente daquilo que vemos, ou ouvimos."

A fonte da Fé apresenta uma cruz simples com três goteiras nas aberturas dos cravos e a inscrição: Ejus fluent aquae vivae. Joan. 7, 38. - «Correrão dele águas vivas».

Segundo CHEVALIER, J. e GHEERBRANT a cruz é o terceiro dos quatro símbolos fundamentais, juntamente com o centro e o círculo e o quadrado. E estabelece uma relação entre os três outros: pela interseção das duas linhas rectas que coincidem com o centro, abre o centro para o exterior; inscreve-se no círculo, que divide em quatro segmentos; engendra o quadrado e o triângulo, quando suas extremidades são ligadas por quatro linhas retas. A simbologia mais complexa deriva dessas singelas observações: foram elas que deram origem à linguagem mais rica e mais universal. Como o quadrado, a cruz simboliza a terra; mas exprime dela aspectos intermediários, dinâmicos e subtis. A simbólica do quatro está ligada, em grande parte, à da cruz, principalmente ao fato de que ela designa um certo jogo de relações no interior do quatro e do quadrado. A cruz é o mais totalizante dos símbolos. Apontando para os quatro pontos cardeais, a cruz é, em primeiro lugar, a base de todos os símbolos de orientação, nos diversos níveis de existência do homem. A orientação total do homem exige um triplo acordo: a orientação do sujeito animal com relação a ele mesmo; a orientação espacial, com relação aos pontos cardeais terrestres; e, finalmente, a orientação temporal com relação aos pontos cardeais celestes. A orientação espacial articula-se sobre o eixo Este-Oeste, definido pelo nascer e por-do-sol. A orientação temporal articula-se sobre o eixo de rotação da Terra, ao mesmo tempo Sul-Norte e Em baixo-Em cima. O cruzamento desses dois eixos maiores realiza a cruz de orientação total. A concordância, no homem, das duas orientações, animal e espacial, põe o homem em ressonância com o mundo terrestre imanente; a das três orientações, animal, espacial e temporal, com o mundo supratemporal transcendente pelo meio terrestre e através dele. A cruz tem, em consequência, uma função de síntese e de medida. Nela se juntam o céu e a terra. Nela se confundem o tempo e o espaço. Ela é o cordão umbilical, jamais cortado, do cosmo ligado ao centro original. De todos os símbolos, ela é o mais universal, o mais totalizante. A tradição cristã enriqueceu prodigiosamente o simbolismo da cruz, condensando nessa imagem a história da salvação e a paixão do Salvador. A cruz simboliza o Crucificado, o Cristo, o Salvador, o Verbo, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. No entanto, não podemos esquecer que a cruz é mais do que uma figura de Jesus, uma vez que se identifica com a história humana e com a nossa própria pessoa.

Note-se ainda que a crucificação era uma forma de pena oriental que foi introduzida no Ocidente pelos persas. Foi pouco usada pelos gregos, mas muito utilizada pelos cartagineses e romanos. Na literatura romana, a crucificação é descrita como punição cruel e temida, não sendo aplicada aos cidadãos romanos, mas apenas aos escravos e aos não-romanos que houvessem cometido crimes atrozes, como assassínio, furto grave, traição e rebelião. A cruz não é mencionada no Antigo Testamento. Os romanos crucificavam os criminosos inteiramente nus e não motivo para se pensar que tenha sido feita alguma exceção para Jesus. As vestes do crucificado eram entregues aos soldados (Mt 27, 35). Uma inscrição com o nome do criminoso e a natureza do seu crime era feita sobre uma tabuinha, que o condenado levava pendurada no pescoço até o local da execução; essa tabuinha com a inscrição foi depois afixada acima da cabeça de Jesus na cruz. Por ironia de Pilatos, a inscrição de Jesus não indicava um crime, mas registrava simplesmente a expressão "rei dos judeus" (Mt 27, 37; Mc 15, 26; Lc 23, 38; Jo 19, 19-22).

No Novo Testamento, o simbolismo teológico da cruz só aparece numa afirmação do próprio Jesus e nos escritos de Paulo. Jesus disse que aqueles que o seguem deve tomar a sua própria cruz, perdendo assim a vida para conquistá-la (Mt ao, 38; 16,24; Mc 8, 34; Lc 9,23; 14,27). Não se trata apenas uma alusão à sua própria morte, mas também da afirmação de que seu seguimento exige a "negação de si mesmo" (Mc 8,34), o total desprezo pela própria vida, pelo bem estar, pelas posses pessoais, a tudo aquilo a que se deve renunciar para seguir a Jesus. Paulo pregava Cristo e — Cristo crucificado —, embora isso fosse escândalo para os hebreus e loucura para os gentios (1Cor1, 23; 2,2) ...

José Ramos: «Ouçamos, mais uma vez, Fulcanelli, a este propósito: "A cruz tem a marca dos três pregos que serviram para imolar o Cristo-matéria, imagem das três purificações pelo ferro e pelo fogo".Do sacrifício do homem-físico, crucificado entre dois mundos, desperta o homem-espírito, o Christos ou Iluminado. Por essa razão, no letreiro em cima pode ler-se: "Correrão dele águas vivas". »

A estátua central representa a Fé, figura de mulher com os olhos vendados, segurando um cálice com uma hóstia na mão esquerda e com a direita apontando para o ouvido. Na legenda lê-se: Fé. Fides... Argumentum nom apparentium...Ex auditu: Auditus Autem per verbum Christi. Ad Hebr. 11, 1, Rom. 10, 17. - «Fé...argumento das coisas que se não veêm...a fé é pelo ouvido: e o ouvido pela palavra de Cristo».

José Ramos: «A Fé constitui a passagem de um estado a outro, que ainda não se vê, mas se vislumbra no horizonte.Assim sendo, no cimo vamos precisamente encontrar a estátua da Fé representada por uma mulher de olhos vendados, já que a Fé é a capacidade de ver com o coração.»

À esquerda a estátua da docilidade. É uma mulher com o braço esquerdo levantado, apertando na mão uma serpente. No braço direito um escudo com uma cabeça de elefante, rematada por uma ampulheta coroada com uma sepente entre dois espelhos. A inscrição diz: Docilidade. Corde enim creditur ad justitian. Ad Rom. 10, 10. - «Com o coração se crê para alcançar a justiça».

À direita a estátua da confissão, sustentando na mão esquerda as Tábuas da Lei e com a direita apontando para os mandamentos. A inscrição diz: Confissão. Ore auten confessio fit ad saluten. Ad Rom. 10, 10. - «Mas com a boca se faz a confissão para conseguir a salvação

2ª Fonte da Esperança – símbolos: arca da aliançaEsperança é uma crença emocional na possibilidade de resultados positivos relacionados com eventos e circunstâncias da vida pessoal. A esperança requer uma certa perseverança — i.e., acreditar que algo é possível mesmo quando há indicações do contrário.

A fonte da Esperança é simbolizada pela arca de Noé por baixo da qual cai água com a legenda:Arca in qua...animae salvae factae sunt...Petr. 3, V. 20. - «Arca na qual... se salvaram almas».

José Ramos: «A arca é o símbolo do cofre ou tesouro de regeneração cíclica, constituindo assim o princípio da conservação e do renascimento. É o vaso alquímico onde se processa a transmutação dos metais, ou o coração do homem-alquimista no qual se opera a transmutação do humano em divino.»

A fonte tem no seu topo a estátua da esperança, pegando numa âncora na mão esquerda e uma pomba na direita e a inscrição: Esperança. Expectantes beatam spem et adventum gloriae. Ad Tit. 2, 13. «Aguardando esperança bem-aventurada e a vinda da glória

Do lado esquerdo a estátua da Confiança com um navio na mão e a inscrição: Confidentia. In spe erit fortitudo vestra. Isai 30, 15. - «Na esperança estará vossa fortaleza

Do lado direito a estátua da Glória que segura o sol e uma palma com a inscrição: Gloria... Oculos non vidit nec auris audivit. Ad Corint. I C, 9. - «O olho não viu nem o ouvido ouviu».

3ª Fonte da Caridade – símbolos: coração

Caridade no vocabulário cristão é o amor que move a vontade à busca efetiva do bem de outrem e procura identificar-se com o amor de Deus;

Caridade - é a ação de ajudar ao próximo através de gestos e palavras sem a necessidade de reconhecimento público. Este sentimento pode ser representado pelo amor ao próximo incondicional. "... Que a mão direita não saiba o que a esquerda faz ...."

Aqui, a Caridade é representada por duas crianças de pé, tendo nas mãos um coração com uma bica de água.

Duas crianças – gémeos: todas as culturas e mitologias testemunham um interesse particular pelo fenómeno dos gémeos. Quaisquer que sejam as formas pelas quais são eles imaginados: perfeitamente simétricos; ou um escuro e o outro luminoso; um voltado para o céu, o outro para terra; um negro, o outro branco, azul ou vermelho; um com cabeça de touro, o outro com cabeça de escorpião – exprimem, ao mesmo tempo, uma intervenção do além e a dualidade de todo ser ou o dualismo de suas tendências, espirituais e materiais, diurnas e noturnas. Os gémeos simbolizam o estado de ambivalência do universo mítico. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)
Segundo Lurker, o coração que aparece muitas vezes associado à árvore e também à maçã, trata-se do órgão central do corpo humano e simbolicamente centro do homem e do mundo. Para Santo Agostinho o coração é o recipiente do amor divino e os homens devem procurar o conhecimento através do amor. O coração é o rei do corpo, pois sem ele não há vida. Pode-se por isso fazer uma analogia entre o coração e o monarca.

José Ramos: «A criança é o símbolo do renascer do homem, do regresso a um estado puro, da conquista da paz interior. São duas as crianças, uma feminina e a outra masculina, unidas num coração que ambas seguram. Esta dualidade espiritual designa nomeadamente a dádiva e a receptividade, o espírito e a alma que se unem graças ao coração, sendo este o centro onde reside a Vida do homem. É interessante referir que, para os Egípcios, o coração era simbolizado por um vaso, já que este último permite não só conter as águas da vida, mas também verter. Um vaso que não se esvazia vai transbordando sem que possa regenerar as suas águas e, dessa forma, ganhará no fundo os limos e impurezas do egoísmo.A Caridade é o acto de dar e, acima de tudo, de se dar para que seja possível receber, naturalmente, um novo alento no coração.»
Ao centro e no plano superior está uma estátua de mulher com duas crianças nos braços e a inscrição: Caridade. Tria haec...major auten horum est charitas. Ad Corint. I C. 13, 13. - «São três estas virtudes... a maior delas, porém, é a caridade.
No cimo da fonte está a estátua da Caridade: uma mulher de alegre semblante sustenta duas crianças nos braços. Trata-se de Ísis, a Virgem, a Natureza fecunda: é a caridade suprema, a dadora de Vida.»

À esquerda a estátua da Benignidade. Uma figura feminina com diadema coroado pelo sol, encostada a um elefante, com os braços abertos e um ramo de pinheiro na mão direita. A inscrição dis: Benignidade. Charithas...benigna est. I Cor. 13, 4. - «A caridade é benigna».
À direita a estátua da Paz, com um ramo de oliveira na mão direita e a inscrição:Paz. Pax fratribus, et charitas cum fide. Eph. 6, 23. - «Paz seja aos irmãos e caridade com fé».

Terminados os escadórios, passemos ao Terreiro de Moisés, que é uma praça elíptica, situada entre o fim dos escadórios e a adro. A praça, tal como a igreja, foram projectadas por Carlos Amarante. Era aqui que se situava a primitiva igreja, terminada em 1725, mandada construir por D. Rodrigo de Moura. Era uma construção elipsoidal, rematada por uma platibanda rendilhada, com oito pilastras em contraforte. A construção não foi das melhores, e em 1780 a pressão da abóbada deslocou as paredes, que foi necessário escorar com troncos de árvore. Data daí a ideia de construir templo actual. No local onde se situava a torre da primitiva igreja, sobre um penedo, está actualmente a Estátua de São Longuinhos.

A Estátua de São Longuinhos é uma estátua equestre está sobre um penedo onde existira a torre da primitiva Igreja do Bom Jesus, e representa São Longuinhos. É um soldado de avantajada estatura, com escudo e lança tudo de granito da região. Foi oferecida em 1819 por Luis de Castro de Couto de Pico de Regalados e executada pelo escultor Pedro José Luis.
São Longuinhos viveu no primeiro século, contemporâneo de Jesus, e seria o soldado que feriu o lado de Jesus com a sua lança.(Jo :19:34). Provavelmente porque Longinus é derivado do grego "longche" que significa lança.

Diz a tradição que a água que saia do lado ferido de Jesus respingou em seu rosto e ele imediatamente sarou de uma grande problema de visão, converteu-se e reconheceu Cristo como sendo o "filho de Deus" na crucificação. Veja Mateus 27:54; Marcos 15:39 e Lucas 23:47. Deixou depois o exército, recebeu instrução dos apóstolos e tornou-se um monge na Caesarea, Capadócia (hoje Turquia) .

Diz a tradição que foi preso e torturado para renegar sua fé tendo seus dentes sido arrancados e a língua cortada, mas o juiz encarregado do martírio ficou cego e Longuinhos voltou a falar dizendo que o juiz só ficaria curado após a sua morte. Foi imediatamente decapitado e de imediato o juiz ficou completamente são e também se converteu.

Na Espanha e no Brasil, São Longuinhos é o protetor para encontrar objectos perdidos.
No terreiro há duas capelas: a de São Pedro e a de Santa Maria Madalena. No largo há mais duas capelas. A sul a capela da elevação e a norte a capela do descimento, ambas com esculturas em madeira de Fonseca Lapa.
Capela da Elevação: representa Cristo pregado na cruz a ser erguido sobre o calvário. Na portada tem a inscrição: Et ego exaltatus fuero a terra, omnia traham ad me ipsum. Joan. 12, 32-"E quando eu for levantado da terra todas as coisas atraírei a mim."
Capela do Descimento: a inscrição diz:-Deponentes eum de ligno. Act. Apost. C. 13, v. 20. - "Tirando-o do madeiro".

O fundo do largo é ornamentado pela fonte do pelicano concluída em 1819, obra do canteiro Jerónimo António da Silva.
Quanto à Igreja, foi desenhada pelo arquitecto Carlos Amarante, por encomenda do Arcebispo D. Gaspar de Bragança, para substituir uma primitiva igreja, mandada construir por D. Rodrigo de Moura Teles que se encontrava em ruínas. As obras começaram em 1 de Junho de 1784, tendo ficado concluídas em 1811. É um dos primeiros edifícios neoclássicos em Portugal. Movimento cultural do fim do século XVIII, o Neoclassicismo está identificado com a retomada da cultura clássica por parte da Europa Ocidental em reação ao estilo barroco.

A fachada da Igreja é ladeada por duas torres e termina num frontão triangular. Aos lados da porta principal, em nichos, entre as colunas de seis metros de altura, as estátuas dos profetas Jeremias e Isaías.

Mas voltemos à via iniciática e às suas fontes finais:

1ª fonte – Fonte do Pelicano
Pelicano alimenta os filhos numa árvore de três níveis.
José Ramos: «No cimo deste escadatório encontra-se um terraço no qual, antigamente, existia um jardim formando um labirinto. Aqui deparamos com a fonte denominada Cascata, onde um pelicano rasga o peito com o bico a fim de dar alimento aos seus filhos. Simboliza os Mestres que se sacrificam para dar ao homem a sabedoria, água e sangue da Vida que neles habita: "O pelicano rega-te com o seu sangue e com a água do seu coração" (Silesius).»
Esta é aparentemente a última das fontes iniciáticas. Mas, na verdade, ainda temos que subir um pouco mais, procurar na parte de trás do santuário. Assim, continuando a nossa peregrinação, encontramos escondidas no meio do monte mais duas fontes:

2ª fonte – Fonte de Hércules
José Ramos: «Por detrás da igreja que culmina a escadaria, encontramos no bosque aí existente uma magnífica fonte, cujo nome se desconhece: montado sobre um ser bestial, um homem empunha na mão direita uma maça e na esquerda um escudo com um quincôncio gravado. O seu nome é Hércules ou outro equivalente. Trata-se daquele que dominou a natureza animal através de duras provas; a sua protecção é o escudo da pureza da quinta-essência. É o homem que alcançou o seu centro, o grande alquimista.»

3ª fonte – Fonte da origem
José Ramos: «Penetrando mais profundamente no bosque, precisamente no ponto mais alto da montanha, num local rodeado de carvalhos, encontramos um enorme rochedo no cimo do qual um homem, segundo se diz, Moisés, crava uma lança na rocha, daí brotando uma nascente que é a origem de toda a água que corre ao longo da escadaria: "Lá está a nossa famosa fonte, cuja água límpida corre na base da árvore sagrada (carvalho), tão venerada pelos druidas, e que os antigos filósofos chamaram Mercúrio, embora não tenha aparência de azougue vulgar. Porque a água de que temos necessidade é seca, não molha as mãos e jorra do rochedo ao toque da vara de Abraão" (Fulcanelli in o Mistério das Catedrais).Que melhor elucidação poderíamos querer sobre tão maravilhoso encontro com a origem?!»

O relato do Êxodo de Israel, sob a liderança por Moisés, prefigura a libertação da escravidão do pecado, passando os cristãos a usufruir a liberdade gloriosa pertencente aos filhos de Deus.
E é assim, junto a um carvalho e à estátua do homem que crava na pedra a sua espada ou lança, fazendo brotar as águas primordiais (infelizmente agora já não é uma fonte, já não há espada/lança nem água, mas ainda lá está a estátua e a imponência do gesto), que deixam assim de estar mergulhadas nas trevas cósmicas, que temos a indicação de que a via iniciática acabou.

Permintam-nos uma última referência: o Carvalho, em todos os tempos e por toda a parte, é sinónimo de força: e essa é claramente a impressão que dá a árvore na idade adulta. Aliás, carvalho e força exprimem-se pela mesma palavra latina: robur, que simboliza tanto a força moral como a força física. De acordo com certa passagem da obra de Plínio, o Velho, que se apoia sobre a analogia do grego (drus), o nome dos druidas está em relação etimológica com o nome de carvalho; daí resulta a tradução homens de carvalho, que conseguiu se introduzir até mesmo nas obras eruditas modernas. O nome druida é, etimologicamente, o da ciência (dru [u] id — os muitos sábios) e há uma primeira equivalência semântica com o nome do bosque e da árvore (-vid). Mas a árvore é, também, um símbolo de força, e os druidas celtas têm direito à sabedoria e à força.

Ainda segundo Chevalier, a Árvore é um dos temas simbólicos mais rico e mais difundido. Símbolo da vida, em perpétua evolução e em ascensão para o céu, ela evoca todo o simbolismo da verticalidade. Árvore põe igualmente em comunicação os três níveis do cosmo: o subterrâneo, através de suas raízes sempre a explorar as profundezas onde se enterram; a superfície da terra, através de seu tronco e de seus galhos inferiores; as alturas, por meio de seus galhos superiores e de seu cimo, atraídos pela luz do céu. Simbólica: raízes (terra); galhos (céu) — universalmente considerada como símbolo das relações que se estabelecem entre a Terra e o Céu.

E pronto, nós ficamos por aqui.
Obrigada. :)

Percurso esotérico na escadaria do Bom Jesus, Braga

Podemos considerar três métodos de uso corrente para a explicação do símbolo:

O método etnográfico, que o interpreta no contexto das intenções e valores de uma cultura em particular, ou de várias delas comparativamente.

O método psicológico, que o interpreta no contexto das estruturas mais ou menos permanentes da psique humana.

O método esotérico (também chamado tradicional), que associa o símbolo a uma intencionalidade supra-humana.

Na escadaria do Bom Jesus, em Braga, estamos sem qualquer dúvida perante uma simbologia esotérica. Segundo Paulo Loução, “o esoterismo é a essência das religiões, uma linguagem universal por excelência. Expressa-se por símbolos que têm impacto na nossa mente espiritual. Esta linguagem inclui a razão, mas supera-a, daí a necessidade das chamadas iniciações. Os iniciados nos conhecimentos esotéricos captam instantaneamente as marcas deixadas por qualquer esoterista, de qualquer civilização, de qualquer tempo, seja em monumentos, seja na arte ou literatura.”

Klein também afirma que “os símbolos são universais” e que “as verdadeiras transmissões de segredos ocultos, sempre foram e serão feitas através de símbolos.” Por sua vez, Mircea Eliade diz que “os símbolos nos revelam certos aspectos da realidade – os mais profundos – que desafiam quaisquer outros meios de conhecimento.”

Ainda segundo Mircea Eliade, “as imagens, os símbolos, os mitos, não são criações irresponsáveis da psique, elas respondem a uma necessidade e preenchem uma função: revelar as mais secretas modalidades do ser.”

Para Jung o símbolo é a porta para o inconsciente colectivo, a memória da espécie.

Como proceder, então, à interpretação dos símbolos? Segundo Fernando Pessoa, há que “primeiro sentir os símbolos, sentir que os símbolos têm vida ou alma – que os símbolos são gente. Mais tarde virá a interpretação, mas sem esse sentimento a interpretação não vem.”

Para terminar esta breve introdução, citamos novamente Paulo Loução: “sempre que o homem teve algo de muito profundo a comunicar, transmitiu-o por símbolos. Nestes podemos sentir uma forma de solidariedade que ultrapassa o espaço-tempo. Os símbolos transportam uma ideia metafísica, despertam a alma e iluminam o coração. Para recebermos a sua mensagem é necessário calarmos a fantasia, alimentar a imaginação, sentir no silêncio a sua ideia-força e a alma de quem o esculpiu. Parar, olhar e escutar...”

Passemos, então, aos símbolos... :)

Vou-me socorrer de algumas fontes, nomeadamente o trabalho de Paulo Pereira, Enigmas e Lugares Mágicos de Portugal: Montes Sagrados, Altos Lugares e Santuários. Bem como Percurso alquímico na escadaria do Bom Jesus de Braga de José Ramos, pag da Nova Acrópole
Link: http://www.nova-acropole.pt/Artigos/artigo_percurso_alq_bomjesus.htm

E, entre outros que por esquecimento ficam por referir, a Wikipédia e o Dicionário de Símbolos, de Chevalier e Gheerbrant.

Comecemos, então, pelo simbolismo associado a Montanha Sagrada:
José Ramos: «O ser humano sentiu desde sempre uma forte atracção, admiração e veneração pela Montanha. No Minho, para citarmos apenas alguns exemplos, temos inúmeros locais de culto cristianizados como a Senhora da Penha em Guimarães, o Sameiro, a Nossa Senhora da Peneda e o próprio Bom Jesus de Braga.

Qual é a razão de toda esta ligação sagrada entre o homem e a montanha? É sempre difícil entender racionalmente o conteúdo de um símbolo e, no caso das montanhas sagradas, ainda se torna mais complexo por não se tratar apenas de um símbolo mas, na maior parte das vezes, de locais fortemente carregados de energia. No entanto, tentaremos ver um pouco do seu significado simbólico.

A montanha transmite-nos ideias como estabilidade, imutabillidade e, por vezes até, pureza. A sua elevação em direcção ao céu permite entrar em relação com a divindade; é o retorno às origens. A montanha é o Axis-Mundi: o Monte Meru na Índia, o Kuen-Luen na China, o Fuji-Yama no Japão, o Olimpo grego, o Alborj persa, o Moriah maçónico, a Montanha Ka'ba de Meca, o Gólgota do cristianismo, o Montsalvat do Graal, a Montanha Qaf do Islão, a Montanha Branca celta, o Potala tibetano.

Richard de Saint-Victor traduz-nos muito bem o que significa a Montanha para o homem sagrado: "A ascensão dessa Montanha pertence ao conhecimento de si, e aquilo que se passa no topo da Montanha conduz ao conhecimento de Deus". Aqui o citado autor revela todo o sentido alquímico como arte da transmutação: elevar o homem, da sua natureza de chumbo, até ao estado purificado do ouro.”»

Segundo Chevalier, o simbolismo da montanha é múltiplo: prende-se à altura e ao centro. Na medida em que ela é alta, vertical, elevada, próxima do céu, participa do simbolismo da transcendência; na medida em que é o centro das hierofanias atmosféricas e de numerosas teofanias, participa do simbolismo da manifestação. Ela é assim o encontro do céu e da terra, morada dos deuses e objectivo da ascensão humana. Vista do alto, ela surge como a ponta de uma vertical, é o centro do mundo; vista de baixo, do horizonte, surge como a linha de uma vertical, o eixo do mundo, mas também a escada, a inclinação a escalar. A montanha exprime ainda as noções de estabilidade, de imutabilidade, às vezes, até mesmo de pureza. Na mitologia taoísta, os Imortais iam viver sobre uma montanha, que era chamada A Montanha do Meio Mundo, em torno do qual giravam o Sol e a Lua. O simbolismo mitológico da montanha primordial ou cósmica encontra certo eco no Antigo Testamento: as altas montanhas, lembrando fortalezas, são símbolos de segurança (Salmos 30, 8). Deve-se lembrar o sermão sobre a montanha (Mateus 5, 1 s.) que, sem dúvida, na nova aliança, responde à lei do Sinai na antiga. Observemos ainda a descrição da transfiguração de Jesus sobre uma alta montanha (Marcos 9, 2) e a da ascensão sobre o monte das Oliveiras (Lucas 24, 50; Atos 1, 12). Resumindo as tradições bíblicas e as da arte cristã, que ilustram com diversos exemplos, de Champeaux e dom Sterckx extraem três significações simbólicas principais da montanha: 1. A montanha faz a junção da terra ao céu; 2. A montanha santa se situa no centro do mundo; 3. O templo é associado a essa montanha (CHAS, 164-199).


Escadaria – Umbral
O Pórtico do Bom Jesus, um arco à entrada da escadaria, mostra o brasão de D. Rodrigo de Moura Teles, Arcebispo de Braga, responsável pela construção, em 1723, do primeiro grande lanço de escadaria e capelas.

No exterior dos pilares duas inscrições:
"Jerusalem sancta restaurada e reedificada no anno de 1723" e "Pelo illustrissimo senhor Dom Rodrigo de Moura Telles Arcebispo primaz"

Vejamos, então, segundo CHEVALIER, J. e GHEERBRANT o simbolismo do portal: a porta simboliza o local de passagem entre dois estados, entre dois mundos, entre o conhecido e o desconhecido, a luz e as trevas, o tesouro e a pobreza extrema. A porta abre-se para um mistério, tendo um valor dinâmico, psicológico, pois não somente indica uma passagem, mas convida a atravessá-la. A passagem à qual ela convida é, na maioria das vezes, na acepção simbólica, do domínio profano ao domínio sagrado.

Nesta primeira parte, estão as capelas do início da Via-Sacra: cenáculo, horto, prisão, trevas, açoutes, coroação, pretório, caminho do calvário, queda e crucificação.

Voltemos então à escadaria do Bom Jesus: começando mesmo no início da escadaria, antes da parte que serpenteia pelo monte, temos nas paredes junto ao portal de entrada duas fontes: de um lado a fonte do sol e do outro a fonte da lua. Não nos deixam sequer margem para dúvidas, somos devidamente informados que estamos perante uma via iniciática e possivelmente alquímica.

1ª fonte: Fonte do Sol – princípio masculino
2ª fonte: Fonte da Lua – princípio feminino


SOL – desde os mais remotos tempos, o Sol é o símbolo da luz, do conhecimento, do esclarecimento mental e intelectual. O simbolismo do Sol é tão diversificado quanto é rica de contradições a realidade solar. Se não é o próprio deus, é, para muitos povos, uma manifestação da divindade. Pode ser concebido como filho do Deus supremo. O Sol imortal nasce todas as manhãs e põe-se todas as noites no reino dos mortos; portanto, pode levar com ele os homens e, ao se pôr, dar-lhes a morte; mas, ao mesmo tempo, pode guiar as almas pelas regiões infernais e trazê-las de volta à luz no dia seguinte. Função ambivalente de psicopompo assassino e de hierofante iniciático.

Na República, Platão faz dele a imagem do Bem. A iconografia algumas vezes representa esses raios sob a forma alternativamente rectilínea e ondulada, para simbolizar a luz e o calor. Além de vivificar, o brilho do Sol manifesta as coisas, não só por torná-las perceptíveis, mas por representar a extensão do ponto primordial, por medir o espaço. Sob outro aspecto, o Sol é também destruidor, o princípio da seca, à qual se opõe a chuva fecundadora. Se a luz irradiada pelo Sol é o conhecimento intelectivo, o próprio Sol é a inteligência cósmica, assim como o coração é, no ser, a sede da faculdade do conhecimento.

LUA – cultuada desde a mais remota antiguidade, como a mãe universal, o princípio feminino que fertiliza todas as coisas, representa a alma. O simbolismo da Lua manifesta-se em correlação com o Sol. As suas duas características mais fundamentais derivam, de um lado, de a Lua ser privada de luz própria e não passar de um reflexo do Sol; de outro lado, de a Lua atravessar fases diferentes e mudança de forma. Por isso ela simboliza a dependência e o princípio feminino, assim como a periodicidade e a renovação. A Lua é o símbolo dos ritmos biológicos. Ë o astro que cresce, decresce e desaparece, cuja vida depende do movimento e da morte. A Lua tem uma história patética, semelhante à do homem, mas a sua morte nunca é definitiva. Este eterno retorno às suas formas iniciais, essa periodicidade sem fim fazem com que ela seja por excelência o astro dos ritmos de vida. O mesmo simbolismo liga entre si a Lua, as águas, a chuva, a fecundidade das mulheres, dos animais, da vegetação, o destino do homem depois da morte, as cerimónias de iniciação. As sínteses mentais formadas, possíveis de revelação do ritmo lunar, colocam em correspondência e unem realidades heterogéneas. A Lua é também o primeiro morto. Durante três noites, em cada mês lunar, ela está como morta, desapareceu. Depois reaparece e cresce em brilho. Ela é para o homem o símbolo dessa passagem da vida à morte e da morte à vida. A Lua representa o conhecimento indirecto, discursivo, progressivo, frio. Como a sua luz não é mais que um reflexo da luz do Sol, a Lua é apenas o símbolo do conhecimento teórico, conceptual, racional. Nesse ponto está ligada ao simbolismo da coruja.

Note-se que as fontes que assinalam o início da opus, são também “estrelas de oito pontas” – o número oito é o símbolo da geração espiritual, o símbolo do conhecimento espiritual do ser humano.

José Ramos: «As estrelas estão associadas ao simbolismo do espírito e ao conflito entre as forças espirituais (a luz) e as forças materiais (as trevas), pois trespassam a obscuridade». Mas o octógono (símbolo místico universal) é também o símbolo da totalidade: o octógono resulta da união entre o quadrado da terra (símbolo da ordem terrestre) e o círculo do céu (expressão da ordem celeste), simbolizando a comunicação entre ambos. Do centro desta ligação emerge o “homem perfeito” de Pitágoras. «É um símbolo de regeneração, de passagem do que é efémero ao que tem validade eterna.

Na Alquimia, segundo Fulcanelli, a estrela é a assinatura do tema inicial da Obra: "A presença do sinal estrelado encontra-se em todas as modificações internas dos corpos tratados filosoficamente."

Subindo as primeiras escadarias, em forma cónica, confrontamo-nos com um umbral que teremos de ultrapassar. Trata-se da porta de acesso que nos recorda que a vida é dual: dia e noite, luz e trevas, masculino e feminino, branco e preto, positivo e negativo, acção e pensamento, ouro e prata, etc. O Sol é o espírito divino e a Lua, que reflecte a luz solar, é a alma. Por isso, num dos pilares laterais encontra-se a Fonte do Sol e no outro a Fonte da Lua, unindo-se ambos através do arco de fecho. Sol e Lua são símbolos da eterna dualidade que possibilita a criação e a vida.

Acerca da união entre o Sol e a Lua, Fulcanelli, na sua obra "O Mistério das Catedrais", escreve o seguinte: "A Lua recebe os raios do Sol e conserva-os secretamente no seu seio. É a dispensadora da substância passiva que o espírito solar vem animar (...) Da união desses dois princípios resulta a matéria viva, submetida às vicissitudes das leis da mutação e da progressão.»

Passamos, então, o umbral e dá-se início à peregrinação.

Vejamos, ainda segundo Chevalier, o simbolismo das escadas: os diferentes aspectos do simbolismo da escada estão todos ligados ao problema das relações entre o céu e a terra. A escada é o símbolo por excelência da ascensão e da valorização, ligando-se à simbólica da verticalidade. Mas ela indica uma ascensão gradual e uma via de comunicação em sentido duplo entre diferentes níveis. Quando se trata de valor, observou Bachelard, todo progresso é concebido como uma subida; toda elevação se descreve por uma curva que vai de baixo para cima. A verticalidade seria a linha do qualitativo e da elevação; a horizontalidade, a linha do quantitativo e da superfície. A altura seria a dimensão de um ser visto do exterior. Na arte, a escada aparece como o suporte imaginário da ascensão espiritual. Ela é também o símbolo das permutas e das idas e vindas entre o céu e a terra.

No pórtico de entrada encontramos as seguintes capelas:

Capela da Última Ceia (ou do Cenáculo): está representada, em imagens de tamanho natural, a última ceia. Na frente da capela a inscrição: Coena facta... accepit Jesus panen...et ait...commedite:Hoc est corpus meum. Joan. 13, 2. Math. 26, 26. Em português: "Acabada a ceia...tomou Jesus o pão...e disse comei: este é o meu corpo."

Capela da Agonia (ou de Cristo no Horto): representa o episódio do Monte das Oliveiras. Tem a inscrição: Factus in agonia prolixius orabat. Luc. 22, 43 – "Posto em agonia orava com mais fervor".

Coroamento piramidal destas capelas: para Paulo Pereira «O coroamento destas capelas é piramidal, em degraus, evocando a arquitectura mítica antiga e, mais do que isso: o Templo de Salomão. Sabemos que esta forma ou figura arquitectónica – a cúpula piramidal com doze degraus, aliás raríssima entre nós (…) – anda desde meados do século XVI associada à imagem deste templo sagrado, a mais importante peça da arquitectura bíblica, confirmando o estatuto especial do lugar.»

Estamos agora perante conjuntos de escadas compostos por 39 lanços, sempre num caminho serpentiforme.

Escadaria dos planetas – fase de purificação/preparação.

3ª fonte: Fonte de Diana
Símbolos: mão, arco e flecha; esfera armilar
Diana: deusa romana identificada com a Ártemis dos gregos. É a deusa da caça e a irmã gémea de Apolo. Para os romanos, Diana é principalmente a deusa da castidade e da luz da lua. Assim, representando nas fontes dos planetas a Lua, está relacionada, pela simbologia astrológica, com o centro emocional da pessoa e o seu lado inconsciente.

José Ramos: «Diana é muito bem definida por Délia Guzmán nos seguintes termos: "Sob o símbolo superficial da deusa dos bosques e dos animais – às vezes para protegê-los e outras vezes para destruí-los e caçá-los - está a vigilância da Natureza, a limpidez da Vida, a pureza dos costumes, dos sentimentos e dos pensamentos. Digna complementaridade de Apolo, ela não quer que o Sol ilumine nada que não possa ser mostrado em toda a sua plenitude e nobreza". Desta forma, Diana aponta a necessidade de o homem se purificar a fim de poder penetrar nos profundos mistérios da Natureza.

Por outro lado, o facto de a Fonte de Diana estar presente no início da escadaria é bem interessante, pois um dos sinais que muitas vezes se encontra no princípio da Obra alquímica é precisamente o arco e a flecha, indicando que se está no caminho certo. Ouçamos mais uma vez Fulcanelli sobre o assunto: "O Artista caminhou durante muito tempo: errou pelas vias falsas e pelos caminhos duvidosos; mas a sua alegria explode finalmente! O ribeiro de água viva corre a seus pés; sai aos borbotões do velho carvalho oco. O nosso Adepto atingiu o alvo. E assim, desdenhando o arco e as flechas com que, a exemplo de Cadmo, trespassou o dragão, vê ondular o límpido caudal cuja virtude dissolvente e a essência volátil é confirmada por um pássaro pousado na árvore".»

Ártemis (Diana) – filha de Zeus e de Letona (Leto), Ártemis é a irmã gêmea de Apolo. Virgem severa e vingativa, indomável, aparece na mitologia como o oposto de Afrodite. Castiga cruelmente todo aquele que lhe faltar o respeito, transformando-o, por exemplo, em um cervo e ordenando a seus cães que o devorem; em contraposição, recompensa com a imortalidade seus adoradores fiéis, como no caso de Hipólito, que morreu vítima de sua castidade.

Simboliza a fecundidade. Aos olhos de certos psicanalistas, Ártemis simbolizaria o aspecto ciumento, dominador e castrador da mãe. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Associação entre fontes e capelas:
Capela da Prisão de Cristo (ou da Traição) com a Fonte de Diana.
Na Capela da Traição está representada a traição de Judas. A inscrição diz:Manus injecerunt in Jesum, et tenuerunt eum. Math. 26, 50- "Lançaram as mãos a Jesus e o prenderam"

4ª fonte: Fonte de Marte
Símbolos: pistola, espada e flecha; esfera armilar
José Ramos : «Prosseguindo a escalada vamos encontrar a Fonte de Marte com os seus atributos guerreiros. Astrologicamente, Marte é a energia, a vontade, o ardor, a tensão e a combatividade. No homem, é o combate dos desejos e das paixões. Alquimicamente está associado ao Ferro. Para a Alquimia "os metais são os elementos planetários do mundo subterrâneo; os planetas, os metais do céu: o simbolismo de uns e de outros é paralelo. Os metais simbolizam energias cósmicas solidificadas e condensadas, com influências e atribuições diversas" (Dicionário dos Símbolos, J. Chevalier).»

Marte: deus da guerra, poderá estar aqui associado com o guerreiro místico, ora o valor de um guerreiro místico provem do seu desapego face à vida material. Na simbologia astrológica, Marte é acção, motivação para agir, coragem, força e vontade pessoal. O poder do guerreiro místico residia precisamente no exercício da vontade.

Ares (Marte) - Deus da guerra, Ares é filho de Zeus e de Hera. Entretanto, é o mais odioso de todos os Imortais, diria seu pai; esse louco que ignora as leis, diria sua mãe; esse exaltado, esse mal encarnado, esse cabeça-de-vento, diria Atena, sua irmã.
Simboliza a força bruta. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Associação entre fontes e capelas:
Capela das Trevas com a Fonte de Marte.A capela tem uma só figura de Cristo, sentado numa pedra, com os pulsos presos e os olhos vendados. A inscrição diz: Tunc expuerunt in facien ejus...alh auten palmas in faciem ejus dederunt. Math. 26, 67.-"Então uns lhe cuspiram no rosto... e outros lhe deram bofetadas."

5ª fonte: Fonte de Mercúro
ímbolos: mão segura o caduceu
José Ramos: «No patamar seguinte encontra-se a Fonte de Mercúrio. Ele é o filho do Sol e da Lua, assumindo assim o papel de mediador. É o princípio de todas as ligações, dos intercâmbios, do movimento e da adaptação. Mercúrio porta o caduceu, símbolo de uma natureza dualista na qual se confrontam e se harmonizam os princípios contrários e complementares: negativo-positivo, passivo-activo, feminino-masculino, etc. No homem está relacionado com a inteligência e o discernimento. Nos metais alquímicos é o Mercúrio propriamente dito.»

Mercúrio: rápido como o pensamento, era o mensageiro de Júpiter e dos outros deuses. Mercúrio está identificado com Hermes dos gregos. Os atenienses e seguindo o seu exemplo outros povos da Grécia, e depois os romanos, colocavam Hermes/Mercúrio nas encruzilhadas das cidades e grandes estradas, porque Hermes/Mercúrio presidia às viagens e aos caminhos. Tem por atributo sandálias aladas, que significam a força de elevação e a aptidão para os deslocamentos.

Hermes simboliza os meios de troca entre o Céu e Terra, a mediação, em suma, meios que se podem perverter em comércio simoníaco ou elevar-se, ao contrário, até a santificação. Assegura a viagem, a passagem entre os mundos infernais, terrestres e celestes. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Assim, a mudança, a transição, a passagem de um estado a outro forma personificados em Mercúrio. O caduceu de Mercúrio é, por excelência, o símbolo do Iniciado.

Associação entre fontes e capelas:
Capela da Flagelação (Açoutes) com a Fonte de Mercúrio.
Flagelação (Açoutes): é uma obra incompleta e de má qualidade de Fonseca Lapa, escultor de Vila Nova de Gaia. Cristo está atado a uma coluna. A inscrição diz:Apprehendit Pilatus Jesum, et flagelavit. Joan. 19, 1-"Prendeu Pilatos a Jesus, e o fez açoutar."

6ª fonte: Fonte de Saturno
Símbolos: mão, ceifeiroJosé Ramos: «Em seguida temos a Fonte de Saturno. Ele é o planeta ligado à morte, pois ceifa tudo aquilo que não constitui uma verdadeira realidade. Por isso, Saturno é aquele que põe à prova as obras e as ideias, acabando por ceifar todas as falsas realidades temporais. Daí que o seu símbolo - que está gravado na sua fonte -, seja a foice. Deste modo, está associado a todo o fenómeno de desprendimento da história do ser humano: desde a ruptura do cordão umbilical do recém-nascido até ao despojamento do ancião, passando pelos vários desprendimentos e renúncias que a vida nos proporciona: libertação dos instintos e da parte animalizante. Constitui assim um factor importante na conquista da vida espiritual. Saturno representa o cessar de um ciclo e o início de um novo. No homem, corresponde ao corpo físico. Na Alquimia, relaciona-se com o chumbo e a cor negra da matéria dissoluta e putrefacta.»

Saturno: pai de Júpiter. Na simbologia esotérica, indica-nos o caminho da disciplina, da responsabilidade e do trabalho. O simbolismo do Saturno romano não se identifica com o Cronos grego. Entre os romanos ele representa a era de ouro; é o herói civilizador, que ensina o cultivo da terra. Nas festas que lhe eram consagradas, as Saturnais, as relações sociais eram invertidas – os criados mandavam em seus senhores e estes serviam os seus escravos à mesa. Isso talvez seja uma obscura lembrança do facto de que Saturno havia destronado o pai, Urano, antes de, por sua vez, ser destronado por seu filho Zeus ou Júpiter. Para os sumérios e babilónios, Saturno é o astro da justiça e do direito, ligado às funções solares de fecundação, de governo e de continuidade na sucessão dos reinos e das estações.

Associação entre fontes e capelas:
Capela da Coroação de Espinhos com a Fonte de Saturno.

Na capela, temos um quadro que é formado por três figuras, e é obra do escultor Evangelista Vieira. Tem a inscrição: Exivit Jesus portans coronam spineam. Joan. 19, 5. - "Saíu Jesus trazendo a coroa de espinhos."

7ª fonte: Fonte de Júpiter (deslocada do lugar original)
José Ramos: «Continuando a ascensão da escadaria chegamos ao pátio circular onde se encontrava a fonte de Júpiter (actualmente está no alto, próximo de um hotel). Astrologicamente, Júpiter encarna o princípio do equilíbrio, da autoridade, da ordem, da abundância e da preservação da hierarquia estabelecida. Júpiter é o deus do raio e do trovão, e é precisamente o raio que encontramos na sua fonte. No homem está associado ao elemento vital e, na Alquimia, o metal que lhe corresponde é o estanho.»

Júpiter – Deus supremo dos romanos, corresponde ao Zeus dos gregos. É apresentado como a a divindade do céu, da luz diurna, do tempo que faz, e da também do raio e do trovão... poder soberano, presidente do conselho dos deuses, aquele de quem emana toda a autoridade.

Júpiter simboliza a ordem autoritária, imposta do exterior. Seguro do seu direito e do seu poder de decisão, não busca nem diálogo nem persuasão: troveja. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Zeus – Descende dos reinos de Urano e de Cronos. É o organizador do mundo interior e exterior; é dele que depende a regularidade das leis físicas, sociais e morais. senhor dos deuses no panteão romano, era o deus do trovão, do céu, do tempo e do universo. Na simbologia esotérica Júpiter representa o Mestre. Na simbologia astrológica, Júpiter é crescimento, evolução, necessidade de aperfeiçoamento e fé, desejo de dar sentido à vida.

Símbolo: Zeus simboliza o reino do espírito, deus único. Lançando o relâmpago, simboliza o espírito e o esclarecimento da inteligência humana. Desencadeando o raio, simboliza a cólera de Deus, a punição, o castigo, a autoridade ultrajada: é o justiceiro. (Chevalier e Gheerbrant, 1998)

Capela do Caminho do Calvário: está representado Cristo levando aos ombros a cruz, arrastado por um soldado romano e seguido por Cireneu e várias mulheres. A inscrição diz: Bajulans sibi crucem exivit in...calvariae locum. Joan. 19, 5.-"Levando a cruz às costas, saíu para...o lugar do calvário."

A partir daqui as fontes deixam de estar associadas a uma divindade. Começa uma nova fase, mas antes de passarmos a esta nova parte da escadaria onde o percurso serpentiforme é ainda mais vincado, temos novo umbral, desta vez ladeado por duas colunas e uma enorme serpente enrolada em cada coluna. Estamos perante uma representação da Kundalini – quer nas duas serpentes na passagem à segunda fase, quer no próprio percurso serpentiforme.

Terminamos, então, a fase preparatória e iniciamos agora uma nova etapa: estamos prestes a iniciar o Escadório dos Cinco Sentidos – estética barroca, construído na vigência de D. Rodrigo, a partir de 1725.

Tuesday, November 22, 2005

Triskel



evoco a ordem na minha unidade tríplice...
sinto a força, o conhecimento e o amor...
e recrio-me na espiral celta da vida, da morte e do renascimento...