Friday, December 16, 2005

Um pequeno poema de Rumi... :)

O Mar é uma coisa...

a espuma, outra;

Esquece a espuma e contempla o mar noite e dia,

Tu olhas para a ondulação da espuma e não para o poderoso mar.

Como barcos, somos jogados daqui para ali,

Somos cegos, embora estejamos no brilhante oceano.

Ah! tu que dormes no barco do corpo,

Tu vês a água; contempla a Água das águas!

Sob a água que tu vês há outra água que a move,

Dentro do espírito há um espírito que o chama.

excerto do rubaiyat de Omar Khayyam

Admito que já resolveste o enigma da Criação;

e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;

e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes

e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

Friday, December 09, 2005

... sobre o amor

Comecemos pela definição de amor. Deepak Chopra elucida-nos: "Amor significa aquilo que dissolve todas as impurezas, deixando apenas o verdadeiro e o real". E é isso que o amor é: uma força purificadora, que nos devolve a nós próprios.

Na verdade, quando somos peregrinos na senda do amor, sangramos de bom grado com as feridas do amor... sim, porque o amor depende apenas de nós, da nossa entrega, da nossa doação ao próprio amor. O amor existe em nós e é em nós que se manifesta. Se aceitarmos incondicionalmente o amor, isto é, se aceitarmos o amor cada vez que este nasce em nós, mesmo quando sabemos que não o poderemos realizar do modo como gostariamos, seja lá por que razão for, nessa altura crescemos no amor e, desse modo, o amor purifica-nos e leva-nos ao encontro da nossa verdadeira essência: amor.

Porque haveríamos de ter medo de sofrer? Sofrer não é nada.Todos nós sofremos por amor, mais tarde ou mais cedo. Só não podemos fechar-nos ao amor, com medo do sofrimento. Se o fizermos, perdemo-nos. E o que é pior: não temos quaisquer garantias de não voltarmos a sofrer, poderemos não sofrer por amor, mas sofreremos outras dores, talvez ainda mais amargas, porque reflectem o vazio da nossa vida...

Que sentido faz o amor se olharmos para as diferenças entre nós e aqueles que amamos? Que sentido faz o amor se acharmos que deveríamos ser amados, ou até como deveríamos ser amados?... O amor é um milagre, um milagre que se repete a cada instante e que devemos agradecer a cada instante. Nós ou outro não amamos por querer amar ou dever amar, amamos porque, volto a repetir, um milagre acontece na nossa vida. Não somos nós que escolhemos o amor. É o amor que nos escolhe. E, para aqueles que seguem o caminho do amor, o amor faz aquilo que o rei sugeriu que a Alice fizesse: "começa pelo princípio e vai até ao fim". O amor purifica-nos. E, se deixarmos, purifica-nos completamente. Apenas temos que nos abrir ao amor, a começar pelo amor por nós próprios. Livrarmo-nos do medo e do egoísmo, permitindo-nos amar verdadeiramente, independemente do que o outro sente por nós. Quando damos amor, também recebemos. Sim, pode acontecer que esse amor se concretize numa direcção diferente daquela para onde pensávamos canalizar o nosso próprio amor... Mas isso já são novamente os caminhos do amor, que nos transcendem. Seja como for, é possível recebermos aquilo que precisamos, simplesmente dando.

...

O amor como caminho só pode estar submetido ao princípio supremo: o Bem. O amor é, assim, o caminho do Bem, da bondade, da felicidade.

Platão, nos seu diálogos, dizia o seguinte: Diotima para Sócrates: "diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons, já que os homens até consentem que lhes cortem pés e mãos, sempre que essas partes de si mesmos lhe pareçam malignas." É preciso que mesmo Eros seja ainda um amor bom, positivo, um amor que nos torna melhores, doutra forma Eros não evoluirá. Mas temos que estar de sobreaviso, porque a paixão é SEMPRE motivada pelo Belo. Pelo Belo e não pelo Bom, ou pelo Bem. Mas a paixão ainda não é a felicidade, ou o caminho de volta à nossa verdadeira casa. A motivação da paixão é outra: a imortalidade. Exactamente, a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.

Não quero dizer com isto que a paixão seja negativa, muito pelo contrário. É muitas vezes o umbral, não apenas o ponto de partida, mas para muitos de nós o único ponto de partida possível... quando eu conheci o Alexandre, apaixonei-me perdidamente, como outras vezes me tinha apaixonado, mas desta vez entreguei-me completamente ao que sentia e fui também amada. Com o tempo, o amor carnal evoluiu para o amor ternura. E este novo amor ternura por vezes manifesta-se de tal forma que eu não posso deixar de amar também toda a humanidade... nessas alturas, citando o Gibran, sinto verdadeiramente que "eu estou no coração de Deus".

Eu creio que é como nos dizem Gitton e Antier, no livro da sabedoria e das virtudes reencontradas: "... à medida que se avança na sabedoria e na virtude, desligamo-nos dos desejos egoístas e elevamo-nos nos graus do amor. Primeiro, só se ama a si mesmo, depois o outro e depois os outros."

Contudo, creio que tudo isto pressupõe conhecimento. Temos que estar conscientes de quem somos, das nossas motivações, daquilo que queremos alcançar. Sabendo isto, poderemos servir-nos da nossa força e mantermo-nos perseverantes no caminho do amor. Se só nos amarmos a nós mesmos, não evoluimos, não conhecemos outros graus de amor. Moralidades à parte, é ainda um estado limitativo.

Sim, sei bem que cada um de nós segue o seu próprio caminho. Eu acredito, como sempre acreditei que o meu caminho de volta a casa é o caminho de Ágape. Eu acredito que quando vivencio o verdadeiro amor, enriqueço-me de um modo fabuloso. Mas vivenciar o amor é acima de tudo transmiti-lo. Que importa que eu sinta o amor, se eu não tenho empatia suficiente para intuir a real necessidade do amor em alguém e num momento, esse sim transcendente, transmitir o amor? O que eu quero dizer é que sentir o amor é um acto natural, os bebés sentem-no, todos. Mas, transmitir o amor já é um acto transcendente. Começa logo por ser um acto que não ocorre espontaneamente, mas sim devido a uma necessidade alheia. Ao intuirmos essa necessidade, ao nos assumirmos como seres perfeitos face a essa mesma necessidade e ao libertarmos o outro da sua limitação, dando-lhe por momentos a verdade da sua perfeição, naturalmente transcendemo-nos. E já não somos simplesmente Um com o universo, somos Um numa tríade: nós, o outro e o espírito unificador do Amor.

Mas, voltemos a Gitton e Antier: Ágape "é o ideal. «O ideal da santidade», sublinha Kant. Ele guia-nos e ilumina-nos. É uma virtude pois é uma excelência. E, milagre, «o amor que realiza a moral liberta-nos dela». «Ama e faz o que quiseres», dizia Santo Agostinho. O amor é pois o começo de tudo."

Mas, como eu dizia, por vezes Eros é o ponto de partida... se assim for, temos que ter cuidado e estar atentos. E pronto, nada mais tenho a dizer. Quero apenas terminar com o poema de Gibran:

"Quando o amor vos chamar, segui-o,
embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
e quando ele vos falar, acreditai nele,
embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
assim também desce até vossas raízes
e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento,
vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor,
para entrar num mundo sem estações,
onde rireis, mas não todos os vossos risos,
e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
"Deus está no meu coração",
mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus".
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
pois o amor, se vos achar dignos,
determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
sejam estes os vossos desejos:
de vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
que canta sua melodia para a noite;
de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
e de sangrardes de boa vontade e com alegria;
de acordardes na aurora com o coração alado
e agradecerdes por um novo dia de amor;
de descansardes ao meio-dia
e meditardes sobre o êxtase do amor;
de voltardes para casa à noite com gratidão;
e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
e nos lábios uma canção de bem-aventurança."

:)

Magia e Rituais


Mircea Eliade dizia referindo-se à criação/necessidade do ritual pelo homem primitivo, que ao transformar até os actos mais insignificantes em cerimónias, em rituais onde se repete um arquétipo realizado in illo tempore pelos antepassados ou pelos deuses, o homem primitivo esforça-se por passar além, por se projectar para lá do tempo, na eternidade. E é também neste sentido que eu entendo os rituais.

Eu acredito que na religião a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, o tal espaço/tempo sagrado, onde um ritual é a continuação imediata de outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. No espaço/tempo sagrado estamos num tempo fora do tempo e num espaço fora do espaço, comunicamos com milhões de seres humanos, em diferentes momentos da história do mundo... é outra realidade.

Creio, no entanto, que na actualidade se torna mais difícil alcançar realmente este espaço/tempo sagrado (qualquer que seja o método), basicamente porque nós valorizamos demasiado o conceito de espaço/tempo. Medimos a rotação da terra e somos levados a acreditar que esta nossa noção de espaço-tempo é tudo o que existe. Mas estes conceitos ganharam consistência com as leis de Newton, isto é, como conceitos são relativamente recentes. Assim, pode muito bem ser tudo o que existe para nós agora, mas certamente não era tudo o que existia na mente do homem primitivo. E a mim interessa-me sobretudo a visão inocente do homem primitivo, profundamente integrado com a natureza. O homem primitivo que vivenciava uma experiência religiosa, isto é, projectava-se numa dimensão espaço/tempo sagrada, pela simples contemplação de um símbolo. O símbolo revelava-lhe por si e em si mesmo toda a sua sacralidade. Se encaramos isso num contexto de espaço/tempo sagrado, nós em qualquer instante da actualidade, ao contemplarmos um símbolo, estaríamos na mesma realidade do homem que produziu esse símbolo e, desse modo, seríamos capazes de o entender integrados na realidade da sua criação.

O problema é encontrar essa realidade nua e pura, que existe para lá dos conceitos. Porque, repito, quer queiramos quer não, mesmo espaço e tempo não passam de conceitos, são abstracções da realidade, esquemas desenvolvidos pelo intelecto para representar a realidade e não a realidade per se. Definições. Definimos uma coisa e partimos do princípio que tudo está representado, conhecido. Isso apenas nos limita. Não limita a realidade, limita a nossa compreensão dessa mesma realidade. Por isso é que eu falo insistememente na busca da inocência, na procura da visão que vê para lá dos rótulos e dos conceitos...

O que eu sinto muitas vezes, sobretudo na abordagem wicca, é que os símbolos ganham outra vida, já não são um meio mas um fim em si mesmo. Mesmo os próprios conceitos de Deus e Deusa são em si mesmo limitadores quando nos prendemos a eles em demasia, uma vez que na verdade representam uma realidade desconhecida, sem nome... e nunca nos podemos esquecer disso. Deus e Deusa são conceitos que nunca conheceremos e, partir do princípio que sabemos tudo sobre esses conceitos afasta-nos ainda mais da realidade para onde esses símbolos nos deveriam canalizar. Contudo, muitos pagãos ou wiccans falam de deuses quase como se fossem personagens de um romance – são elementos arquétipos que necessariamente temos que encontrar e vivenciar em nós... mas certamente nada será literal nem tão conhecido como nos fazem crer.