Wednesday, May 26, 2010

Linha Ley

A terminologia linha ley foi criada pelo inglês Watkins, no início do século XX, para designar «antigos caminhos em linha recta». Watkins considerava que «os antigos caminhos rectilíneos eram tão velhos para os romanos como as estradas destes são para nós». Watkins escolheu o nome «ley» para estes antigos caminhos porque, sob a forma de sufixo, este topónimo aparecia frequentemente nos locais por onde estes velhos caminhos passavam. Mas, mesmo Watkins considerava que estes velhos caminhos deveriam ter tido também algum significado religioso, dado que os poços sagrados, os círculos de pedras e os bosques sagrados conhecidos surgiam nas imediações ou no próprio traçado destes caminhos.

Assim, na teoria de Watkins, uma linha ley é um alinhamento, um caminho construído de pontos avistáveis entre si. A teoria de Watkins foi rejeitada pela arqueologia, sobretudo proque estes alinhamentos incluíam elementos de períodos arqueológicos diferentes.

Actualmente, temos ainda um grupo que se mantém rigidamente fiel à interpretação de Watkins das linhas leys, definindo-as como caminhos, alinhamentos de locais. Contudo, existe outro grupo que interpreta os alinhamentos do tipo identificado por Watkins como provas da existência daquilo a que chamam as «leys de energia». Aqui as linhas ley são consideradas para lá da teoria inicial do seu criador, sendo vistas não como caminhos, mas como linhas de energia telúrica. É esta a escola que eu defendo.

Resta ainda dizer que a procura de linhas ley faz-se no terreno, ligando lugares antigos, sendo que os diversos sítios terão sempre que ser avistáveis entre si, estando cada um colocado exactamente na linha de horizonte do anterior. Em certos lugares haverá a intersecção de várias linhas ley, esses são os lugares especiais, os lugares mágicos.

O regresso aos rituais

Creio que chegou o tempo de vivenciarmos o ritual. Mais uma vez vou citar Tom Graves, que nos diz que uma das formas de controlarmos a matriz de energia é o ritual. Nós e a Terra-Mãe precisamos de ser curados e também eu não vejo outra solução que não seja o regresso ao ciclo eterno dos rituais mantidos pelas comunidades pagãs. Esses rituais possuem um efeito real na matriz. Mas a nossa cultura civilizada tem-se vindo a certificar de que os velhos rituais que ainda sobrevivem percam gradualmente o significado.

Possivelmente, a única atenção ritualística que a terra recebe actualmente é a libação semanal da água suja e cheia de sabão, fruto do ritual urbano do "dia das limpezas" ou do ritual suburbano da "lavagem do carro". E, quer gostemos ou não, é o que fazemos, é o que ensinamos aos nossos filhos.

Se conseguirmos ver os rituais como aquilo que eles realmente são (não como superstições ou jogos, mas sim como ferramentas ou construções com efeitos reais) poderemos então compreender a sua importância e o seu valor como parte de uma reintrodução da consciência pagã na nossa cultura civilizada padecente.

Por favor, não me digam que não acreditam na magia e no sobrenatural. Eu não quero saber. Eu não apelo à vossa fé. Apelo à acção. Eu quero que os velhos rituais se voltem a fazer, que os façam, quer acreditem neles ou não, mas que os façam... e que deixem a energia fluir.

E, de resto, o que é a magia, o que é o sobrenatural? Aquilo que negamos porque não o conseguimos explicar? Chamamos a essas coisas o «sobrenatural» e dizemos que elas não podem acontecer ou existir, dado que estão situadas para além dos limites da nossa visão limitada da Natureza que a ciência e a religião exigem. Mas, essas coisas são aspectos da realidade da Natureza, mas não são exteriores ao que é natural. Aquilo que não é natural é a nossa ciência, a nossa religião e a nossa economia. Porque todas elas são conduzidas numa total e deliberada ignorância face à Natureza, na crença ou esperança de que um dia seja ela a mudar de modo a satisfazer comodamente as nossas necessidades. Dá-nos uma agradável ilusão de controlo, mas que não é natural e que constitui uma verdadeira loucura, em todos os sentidos da palavra.

Precisamos voltar a reconhecer a velha matriz de energia que percorre os lugares antigos, que passa pelos menires e pelas antas. Precisamos recuperar o velho saber ligado à magia. É a magia (em todos os sentidos) que a nossa civilização perdeu, soterrada por coisas pouco fidedignas como a ciência ignorante e a religião arrogante. E é de magia (mais uma vez, em todos os sentidos) que a nossa civilização necessita se quiser recuperar a sua sanidade, a sua alegria e a sua razão de viver.

Se quisermos que a nossa cultura recupere os seus magos (os seus «sábios»), teremos que recuperar a nossa consciência da Natureza, a nossa consciência de mágicos. Como os mágicos e como mágicos, necessitamos de aprender a conhecer-nos. Precisamos de aprender a sentir as necessidades da terra, de modo a que possamos aprender não só a dominá-la mas também, simultaneamente, a enchê-la. Para isso são necessárias alterações radicais à nossa cosmovisão. Necessária e literalmente alterações radicais, dado que precisaremos de recuperar uma consciência das nossas raízes (quer em termos do nosso passado, quer da Natureza), de modo a torná-las realidade.

Excertos do livro Agulhas de Pedra de Tom Graves.

Thursday, May 13, 2010

Todos os Deuses e todas as Deusas

O sentimento pagão da divindade viva consistia sobretudo em sentir a divindade em tudo. Daí a solenidade da invocação de Demóstenes quando invocava todos os deuses e todas as deusas. Há que ter em atenção, como insiste Unamuno, que o termo deus é um adjectivo, uma qualidade predicada de cada um dos deuses, assim, o deus não é mais do que o divino. E eu não vejo que necessidade há de substantivar o termo deus, de lhe criar uma persona, de o transformar efectivamente numa personagem. A natureza divina é sempre incognoscível. Se a personalizarmos, afastamo-nos ainda mais da sua verdadeira essência. Os rótulos limitam-nos.

O Deus e a Deusa que invoco, assim, sem outras designações, são a própria consciência da Terra, na sua manifestação passada, presente e futura.

Todos os deuses e todas as deusas são a consciência total e infinita que abarca e sustenta todas as consciências, infra-humanas, humanas e sobre-humanas.

Memórias do Lugar

Tom Graves, no seu magnífico livro Agulhas de Pedra, dedica alguns capítulos a estas memórias do lugar.

Graves refere que um holograma óptico é uma imagem tridimensional produzida a partir de uma chapa fotográfica especial através de um processo que depende de feixes de luz que confluem um para o outro e para a referida chapa, partindo de direcções precisas. Este processo depende também dos feixes serem formados inicialmente por ondas de luz precisamente alinhadas umas com as outras. Da mesma maneira, a memória do lugar é também uma projecção feita por uma pessoa num determindo tempo e num determinado lugar, que fica arquivada numa espécie de chapa da Terra e que é projectada quando se verificarem certas condições, podendo ser vista por uma ou várias pessoas.

Existe um enorme número de tipos diferentes de memórias do local, desde as emoções presas, aos sons, cheiros, visões e até mesmo sequências de acontecimentos, como se fosse um filme. Mas o tipo mais comun é o sentimento ou atmosfera de alguma casa ou local.

As memórias do lugar são inofensivas e impessoais. Para nós é como assistir a um filme. O único dano que nos podem causar é o que provém do terror face ao desconhecido.

Contudo, ainda que sejam estas memórias do lugar o que esteja na origem da grande maioria dos ditos fenómenos de assombramento, nem tudo o que captamos num lugar tem a ver com a interacção humana. A juntar à interacção humana, consciente e deliberada ou inconsciente, há ainda a considerar a interacção não-humana com o local.

Tom Graves refere ainda que, num estudo sobre as energias da terra, é necessario abordar de imediato a ideia errada de que, nos lugares sagrados, tudo é luz e doçura. É mais seguro e mais exacto classificarmos os lugares sagrados simplesmente como pontos de força. Trata-se de pontos de distribuição de várias energias. Locais que recolhem essas energias directamente da Terra e as canalizam ao longo de diversas linhas ley. Desse modo, cada vez que um desses pontos deixa de funcionar, todo o sistema fica entupido, a energia fica estagnada e o efeito que produz não é aquele que se associa a um lugar sagrado.

Assim, é necessário voltar a colocar a funcionar os velhos sistemas energéticos da nossa terra. Tudo está interligado, se os velhos sistemas energéticos voltarem a funcionar, se os velhos rituais se voltarem a realizar, a velha identidade da tribo voltará, as pessoas voltarão a encontrar na comunidade um sentimento de pertença.

Caldeirão na Encruzilhada

Em tempos escrevi num fórum, a propósito de uma velha festa transmontana, o seguinte:

Na pequena aldeia de Cidões, concelho de Vinhais, ainda se mantém uma velhinha tradição. Na noite das bruxas, a 31 de Outubro, celebra-se como sempre se celebrou esta noite mágica, numa noite de folia e transgressão, de generosidade e alegria.

Canhotos é o que por aqui chamam aos troncos que hão-de criar a magnífica fogueira desta noite noitíssima. Uma fogueira que ainda se faz numa encruzilhada... e ai daquele que não se aquecer nesta fogueira ou não comer do banquete que Cidões oferece a todos os forasteiros que os velhos deuses trouxerem àquela encruzilhada...

Enormes panelas de três pernas, que aqui se chamam potes, cozinham velhas e boas cabras. E do velho caldeirão há-de sair um repasto que chegue para todos... suculenta carne de cabra, pão cozido em antigos e comunitários fornos de lenha, castanhas assadas, maçãs, figos e nozes.

Aqui a tradição é o que sempre foi, não há bruxas de vassouras e chapéus cónicos nem há abóboras iluminadas. Há o que sempre houve: a velha tradição de dar de comer a quem aparecer, o interminável vinho e aguardente que aquece a noite escura e fria, as histórias de arrepriar de outros tempos, as tropelias dos rapazes que evocam as energias renovadoras e propiciatórias do caos que caracteriza o fim e princípio de ciclo... e há a fogueira intemporal e eterna, para que também nós sejamos faróis na noite escura.

Há o que sempre houve...

Ao reler o livro de Teófilo Braga, O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, 1885, deparo com a referência à feiticeira que adivinha pelo caldeirão (o alguidar), nas encruzilhadas. Teófilo Braga diz-nos que era nas encruzilhadas, ou no encontro dos caminhos, que colocavam o caldeirão mágico. Cita Garret que, no Arco de Sant'Anna refere feitiços que fervem n'um caldeirão de trez pés. No mesmo livro está ainda a seguinte citação, de Gil Vicente, Auto das Fadas:

Este caminho vae para lá
Est'outro atravessa cá;
Vós no meio, alguidar,
Que aqui cruz não hade estar.