Thursday, October 21, 2010

Lua Cheia de Samhain

Deparei com uma tese de mestrado sobre rituais do dia dos mortos, em que a autora diz claramente que Samhain era “celebrado no dia 1 de Novembro ou no dia, mais próxima desta data, em que surgia a lua nova”, não apresentando sequer outra possibilidade. Creio que há alguns sites new age que difundem esta ideia, sobretudo porque a lua nova parece mais apropriada, tratando-se de um início de ciclo. Eu não concordo. E, na verdade, também é possível encontrar defensores de outras opiniões. Vejamos um exemplo retirado da internet: “the Coligny calendar seems to indicate that the Samhain festival was celebrated on the day after the full moon” – Fonte: http://druidjournal.net/2009/02/11/the-coligny-calendar/ 
Data: 11 de Fevereiro de 2009.

Por sua vez, na introdução ao livro de Jean Markale, A Grande Epopeia dos Celtas, publicado pela Ésquilo, Paul Fetan diz que “sendo um facto que o ano celta possuía doze meses lunares, mais um mês intercalar para alcançar o ciclo solar, e que cada mês começava com a lua cheia, as festas de Samain e de Beltaine não calhavam em datas fixas: será mais concreto dizer «na lua cheia mais próxima do 1º de Novembro ou do 1º de Maio»”.

Contudo, há que dizê-lo, tudo isto são possibilidades, não há nenhuma certeza. Também há quem defenda que os meses para os celtas começavam com a lua nova, mas mesmo nesse caso, continua a haver quem pense que os festivais ocorriam na lua cheia: “There is some actual evidence that the Celts who used the Coligny style lunar calendar actually held their holy festivals in the middle of the month (presumably on the full moon).” – Fonte: http://technovate.org/web/coligny.htm
Data: 22 de Novembro de 2001.

Em qualquer caso, na minha opinião, e vivendo eu nas terras da Galécia, faz todo o sentido seguir um padrão antigo e celebrar na lua cheia, uma vez que sabemos que já em tempos imemoriais por aqui se celebrava a lua cheia, como refere este post: http://pedraserpe.blogspot.com/2010/07/culto-lua.html
Data: 19 de Julho de 2010.

Tuesday, October 19, 2010

Aveledas

“(…) O abade de Baçal, no artigo Toponímia, suas Memórias Histórico-Arqueológicas do Distrito de Bragança, tomo X, e na rubrica Aveleda, citando o Padre Pedro Augusto Ferreira (Portugal Antigo e Moderno) diz: «no seu entender, o nome de Aveleda deriva da sacerdotisa druídica que, por exercer suas funções nestes sítios, ou lá ter habitado, ou por outras razões, ligadas ao seu culto, lho legou. Deve notar-se que o nome Veleda se tornou depois comum às diversas sacerdotisas druídicas».

A Veleda primacial, famosa profetisa dos germanos, viveu no tempo de Vespasiano (7-79, anos de Cristo) e foi adorada como divindade depois de morta. (…)

Memória desta função feminina, de ver o oculto surgindo ligado às aveleiras, o podemos encontrar nesse nosso tesouro de ritos arcaicos, as cantigas de Amigo trovadorescas, onde ao vivo essas Aveledas nos surgem ainda como celebrantes. Na cantiga de João Zorro:

Bailemos agora, por deus, ai velidas,
So aquestas avelaneiras froridas…
Bailemos agora, por deus, ai louçanas,
So aquestas avelaneiras granadas…

Ou na cantiga de Aires Nunes, que D. Carolina Michaëlis considera como do mais antigo que subsiste na nossa poesia popular, em que «huã pastor» canta:

Ay estorninho do auelanedo,
cantades uós, e moyro eu e peno,
d’amores ey mal!...
e fazi uã guirlanda de flores;
e des y choraua muy de coração
e dizia este cantar enton:
Que coyta ey tan grande de sofrer!
Amar amigú e non ousar ueer
E pousarey so auelanal.

Bosque de aveleiras, aqui. Mas sempre como memória do bosque sagrado, lugar privilegiado de culto dos celtas: o nemetom. Do qual teria ficado memória no nome duma cidade da Gallaecia, segundo Ptolomeu: Nemetobriga.

Vestígios dum cenário ritual celebrado por mulheres consagradas adoradoras da Grande-Deusa, tal nos deverão surgir estas cantigas.

E lembrança perenizada destas mulheres, então na sua função de iniciadoras e mistagogas, perpassará, ainda intacta, num dos nossos romances místicos da Idade Média, de origem celta, e um dos mais lidos pelo homem português, o Conto do Amaro. Em que uma solitária, Valides, trazendo assim talvez e ainda no seu nome, toda a sua pertença a essa longa teoria de mulheres sagradas, memorizadas na toponímia galaico-portuguesa, conduz ao paraíso terrestre o santo herói da aventura: como iniciadora nos mais altos mistérios da vida e da morte. (…)

Será ainda um poeta absoluto, Gil Vicente, que nos irá dar outro testemunho de uma iniciação tradicional, incluindo o poder profético, incumbido a uma mulher: no auto da Lusitânia (…). A descrição dessa iniciação, trará em si todo o cenário terrífico próprio desse acto supremo, e com todos os sinais de sua veracidade: um arrebatamento, súbito, anulando o estado quotidiano corpóreo do iniciado, a passagem por um bosque, o aspecto infernal, desse lugar de saber supremo, assim como a denominação diabólica dessa iniciadora, como desvalorização de época religiosa pretérita. Assim o autor relata pela boca do Licenciado, sua iniciação:

Dizem que achou o diabo
Em figura de donzela,
E elle namorou-se della:
Porem ella
Era diabo encantado
Levou-o a huns arvoredos;
Vai a dama assi a furto
E alevanta os cotovelos,
E levou-o pelos cabelos,
E fez-lhe o pescoço curto.
E mete-o logo essora,
Sem lhe valerem seus gritos,
Aonde a Sebila mora,
Encantada encantadora,
Antre os malinos espritos
E ali foi ensinado
Sete anos e mais hum dia.
E da Sebila informado
Dos segredos que sabia
Do antigo tempo passado.
Em especial
O antigo Portugal,
Lusitânia que coisa era,
E seu original.

Mas voltemos mais uma vez à iniciadora de Amaro. Valides aqui, possuirá ainda as mesmas atribuições de iniciadora; e nas suas mãos, ela deterá o ramo mágico que permite a entrada no Outro Mundo (…)

Profetisa, solitária e mistagoga, iniciada na sua mais alta sapiência, mulher eleita, a quem Deus fez conhecer o paraíso, ou, como a Ninfa, Tétis, que recolhe o saber profético «no Reino fundo», por Júpiter. Valides mostra-se com todos os atributos que já conhecemos dessas mulheres detentoras da sapiência suprema e das funções as mais altas dentro da sociedade celta. (…)”

Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada, Lello & Irmão Editores, Porto, 1984, Pag. 208, 209, 210, 211 e 212.