Thursday, September 22, 2011

A história do homem que caiu das nuvens

Esta história foi-me contada pela minha avó materna, que dizia ter acontecido quando o avô dela era ainda um jovem. E foi ele quem lha contou. A história aconteceu numa tarde de verão, em que o avô da minha avó, os pais dele e alguns vizinhos andavam a apanhar feno nos lameiros do rio, tendo surgido de repente uma violenta tempestade, que fez os bois juntarem-se no meio do lameiro e levou as pessoas a refugiarem-se na azenha. Quando a trovoada acabou, saíram da azenha e viram no meio do rio, com água até à cintura, um homem despido e queimado do sol. Ficaram cheios de medo, pois sabiam bem que era um dos homens que andava nas nuvens a fazer as trovoadas e que tinha caído. Mas, como o avô da minha avó contava, ainda tiveram mais medo do que lhes podia acontecer se não o ajudassem, de modo que dois ou três homens foram ao meio do rio e trouxeram-no para a margem. O homem não falava e eles colocaram-no no carro de bois e levaram-no para a aldeia. Já na aldeia, vestiram-no, ajudaram-no a sentar-se a uma mesa e puseram à frente dele um pão de centeio e uma faca, para que comesse. Ele começou então a partir bocadinhos de pão e a fazer figuras estranhas na mesa, o que aterrorizou toda a aldeia. Como já tinha anoitecido, deixaram-no ficar até de manhã. Logo que amanheceu, montaram-no num cavalo e levaram-no para a aldeia seguinte, onde o deixaram. O homem continuava ainda sem falar. Quem o levou até à outra aldeia foi o avô da minha avó, que contava que daí o levaram também para a aldeia seguinte e assim sucessivamente, até deixarem de ouvir falar do homem que caiu das nuvens.

Foi assim que eu ouvi contar esta lenda. Sem outro nome que não fosse o homem que caiu das nuvens. Muito mais tarde encontrei, em lendas relacionadas com esta, a terminologia Secular das Nuvens, assim como a referência à Caçada Selvagem, no livro do Consiglieri Pedroso - Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988. - Note-se que esta lenda está também intimamente relacionada com o Nubeiro do folclore galego. Por tudo isto, parece-me algo importante e muito gostaria de ver algum estudo académico acerca desta bela lenda. Nesse sentido, transmiti-a por email, no dia 15 de Junho de 2011, ao Doutor Alexandre Parafita. Hoje, decidi deixar aqui a referência, na esperança de que alguém se interesse por estas lendas e prossiga os estudos do senhor Consiglieri Pedroso.

Já agora, deixo aqui o cenário da lenda (ainda que o caminho tenha sido feito ao contrário, da aldeia em direção ao rio): Rio Tuela

Tuesday, July 12, 2011

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna é um texto escrito por um habitante da Gallaecia romana, do século XI, que conta como encontrou a Ilha do Solstício, para lá da Torre de Hércules, na Corunha, e onde viveu sete anos. Trata-se de um relato na primeira pessoa, muito interessante, de alguém que encontrou a mítica Ilha do Verão, dos celtas.
Se tivermos este texto em mente, Santiago de Compostela, ou mesmo Finisterra, não poderão representar o término da peregrinação, que necessariamente continuará, talvez pela bela Costa da Morte, até à Torre de Hércules, na Corunha. Ou, quem sabe, até a uma ilha que não existe. :)

Wednesday, July 06, 2011

Se os meus carvalhos tivessem rostos, como seriam?

Na verdade, esse exercício de imaginação não precisa de ser feito. Os meus carvalhos têm rostos... ;)

De certa forma, fazem lembrar rostos com barbas. Mas, serão sempre masculinos? Hum, a imagem seguinte tem o seu quê de carvalha, não? ;)


Bem, mas nada disso importa, pois não? É um bosque de carvalhos no verão, cheio de vida, dum verde luxuriante. É um mundo que nos liberta, sim, de tudo o que nos foi aprisionando. Que outra coisa podemos fazer, senão regressarmos à floresta?... :)))

Sunday, June 19, 2011

Somos todos especiais

Estive a ver com o meu filho, na televisão, o Comboio dos Dinossauros, as aventuras de um tiranossauro rex que vive com uma família de pteronodontes. No genérico diz: «não te preocupes se és diferente dos demais, porque na verdade somos todos especiais». Belo, não é? 

Somos todos especiais... e eu sou um pequeno triskel. ;)

Recentemente, numa carta, tentei explicar porque é que essa é a minha imagem. Para mim, o triskel está intimamente ligado à percepção do espaço/tempo sagrado. Na carta, usei a terminologia tempo linear versus tempo cíclico, mas essa nem é a terminologia que uso habitualmente. Nem sequer é a concepção de tempo profano versus tempo sagrado, do Mircea Eliade. Na verdade, a minha percepção do triskel está associada à ideia de Platão de tempo comum, de Zeus, versus tempo invertido, de Saturno. Ainda que, possivelmente, todas estas teorias traduzam a mesma realidade.

Assim, o tempo comum, divergente, é-nos mostrado quando olhamos e vemos a roda a projectar-se para fora. Mas ao mesmo tempo, o triskel também é a representação perfeita do tempo invertido, convergente, onde tudo o que o tempo comum projecta e espalha por milhares de momentos e por milhares de espaços, converge agora para o interior da roda, para o eterno aqui e agora. Tal como o tempo comum ou invertido, o triskel é divergente ou convergente, alternadamente. Não vejo nenhuma possibilidade de ser divergente e convergente, ao mesmo tempo.

Este conceito de tempo às avessas sempre me acompanhou, desde a infância, nesta ou noutra formulação. E o triskel é o símbolo que representa o tempo e que mostra que é possível a mudança de percepção. Claro que lhe estão associadas outras simbologias, mas esta é, para mim, a mais importante.

Sempre gostei dos gregos. Como não consigo enquadrar-me em nenhum grupo, nenhuma religião, recorro a ideias dos filósofos gregos, para me orientar. Essas ideias são, em primeiro lugar, a verdade como sensação invariável e, em segundo lugar, os sentidos como teste da verdade. Recrio essas ideias, dou-lhes um uso bem diferente daqueles que as conceberam e, de certa forma, acabam por me pertencer. E, assim, parto:

Rumo ao êxtase harmónico
E ao heroísmo da descoberta.

É a minha iluminação no inferno, do Rimbaud. :)

De certa forma, tudo e todos me servem de mestres. Mesmo os programas infantis, que vejo com o meu filho. Ele gosta da música da Xana TocToc, que diz que gosta de bater em todas as portas, só para saber quais são as respostas. Eu também quero saber tudo. E, tal como a Xana, também vou de porta em porta. Porque não?

Mas, não tenho dúvidas de que uma sabedoria superior à minha me conduz, praticamente pela mão. E eu entrego-me às vivências e às pessoas que vão passando pela minha vida. É essa a minha natureza. Dou, mas também espero receber, até porque nenhuma relação, seja de que tipo for, subsiste se os papeis não se forem alternando, não pode haver eternos protectores e eternos protegidos, e nenhum de nós pode apenas dar ou apenas receber. Temos que saber dar e saber receber, e ir dando e recebendo.

Que mais? Eu acredito verdadeiramente que tudo isto - a minha personalidade, a minha demanda espiritual, a minha vida - é apenas bagagem que transporto nesta viagem, uma viagem entre muitas que já fiz e que farei.

Tem sido uma viagem sofredora. Aprendi com o Camus que o sofrimento volta, inevitavelmente. Tal como o Sísifo (pois, novamente os gregos), levamos a rocha até ao topo do monte mas, ela acaba sempre por rolar outra vez até lá em baixo e, de novo, temos que a carregar pelo monte acima. Mas, ainda assim, tal como Camus dizia, é possível imaginar Sísifo feliz a carregar a rocha até ao topo do monte, mesmo sabendo que esta há-de rolar até cá baixo e, de novo, terá que se carregada montanha acima. Isso é a viagem. E, na viagem, mesmo que o sofrimento nos encontre, ainda temos a brisa suave do vento nos nossos cabelos, o calor do sol no nosso rosto, a água cristalina que refresca o nosso corpo e a terra imensa, que se estende aos nossos pés. Face a isso o desespero nunca dura muito tempo.

E tal como o meu Merlin, também tenho o meu esplumoir, o meu ninho, o lugar secreto, dentro de mim, onde se dá a transformação.

Merlin é o meu mestre, um Merlin que eu encontro nos meus sonhos, que pressinto nas clareiras das minhas florestas. E o que eu mais gosto no meu Merlin é do seu riso. Que seria de mim se o riso do meu Merlin não me acompanhasse? O riso que purifica, o riso que cura, o riso que é transe, o riso ritual.

A minha oferenda ao meu Merlin, quando o procuro nas velhas clareiras, também é sempre o meu riso, não o riso falso e teatral, mas o riso genuíno que vem com memórias que guardo dentro de mim, instantes luminosos e eternos, onde eu sou inteira. O riso feliz da antecipação do encontro, ainda que o encontro se dê apenas no meu coração. E ninguém pode dizer que eu não amo o meu Merlin, que para mim é bem mais que um arquétipo. Teria eu qualquer interesse nos celtas se não fosse pelo meu Merlin?...

Saturday, June 18, 2011

Menina e Moça

«O livro das Saudades [Menina e Moça, de Bernardim Ribeiro] sendo entre nós o mais perfeito testemunho da espiritualidade e tradição da nossa etnia celta, ele será também o mais livre de influências, adaptações ou posteriores apresentações em forma cristianizada desse anterior fundo: vindo até nós, na Idade Média, das Ilhas britânicas ou da Armórica, como aquelas sofridas pelos romances «ao divino», ou romances do «ciclo bretão»; ou ainda as que teriam sofrido as nossas lendas de origem arcaica.
Ele será assim o livro mais totalmente pagão, ou pré-cristão, da nossa cultura.
Criptomnesicamente, realizando uma regressão, ou repossessão, duma idade nossa espiritual e época cultural revoluta. Esse, um dos seus altos testemunhos, nacional e europeu, para nós, agora, vivendo no século XX.»


Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida

Thursday, June 16, 2011

Saudade

Sentir a canção da terra a subir ao céu... essa canção é a Saudade.

Saudade, a saudade galaico-portuguesa, não é uma palavra, é um método de ascensão, de transfiguração.

Saudade é peregrinação. Seguir a cartografia da saudade é subir degrau a degrau o «caminho da paixão libertação».

«Na Idade Média, aqui na Península, no território galaico-português, duas vias em direcção ao centro, como vias de depuração e libertação, teriam sido oferecidas ao Ocidente. Uma, a Peregrinação a Santiago de Compostela, dada abertamente e então seguida por toda a sua humanidade.

Mas uma outra, mais secreta, não traçada nos caminhos concretos da terra exterior, mas nos caminhos concretos da terra interior, a do espírito, teria ficado aqui, só vivida escondida e nunca depois conhecida e dada a partilhar ao Ocidente e ao futuro. Como Peregrinação da Saudade.

Será essa, agora finalmente neste século, que cumprirá desvendar e oferecer. Para outro caminhar até a um centro. Sempre o mesmo. Mas agora traçado no espaço do espírito.

A saudade é o segredo de Apolo.

24-VIII-1974»

Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida.

Wednesday, June 01, 2011

Caminhos Solitários

Na senda do paganismo, é frequente encontrar caminhantes solitários. Nem sempre é uma opção, muitas vezes acontece por força das circunstâncias.

Eu tenho-me interrogado sobre isso, se será ou não vital pertencer a um grupo que partilhe, pelo menos em parte, a nossa visão espiritual. Ainda não tenho respostas, mas para aqueles que tal como eu se debatem com este dilema, gostaria de deixar um pensamento de Paul Connerton, do seu livro Como as Sociedades Recordam, em que o autor diz que aquilo que une as nossas memórias não é o facto de serem contíguas no tempo, mas o facto de fazerem parte de um conjunto de pensamentos comuns a um grupo. Para Connerton é através da pertença a um grupo social que os indivíduos são capazes de adquirir, localizar e evocar as suas memórias.

Interessante, não é? E certamente dá que pensar… Assim, na demanda espiritual solitária, que acontecerá então às nossas memórias não partilhadas e que não conseguimos enquadrar na vivência espiritual de nenhum grupo? Desvanecem-se na bruma?...

Nota: esta bela foto, que é em si mesma um invocação das brumas do tempo, é da autoria do meu amigo António.

Tuesday, May 31, 2011

Lagoa dos Druidas

No final de Janeiro deste ano, descobri na net um lugar fantástico, uma bela clareira de carvalhos junto a uma lagoa lindíssima, da qual já me tinham falado há uns anos, mas não me souberam dizer exactamente onde era e na pesquisa na net, que fiz na altura, nada apareceu. Acabei por me esquecer do lugar, até o reencontrar por acaso. Creio que o nome da lagoa – Lagoa dos Druidas – foi dado por algum grupo neo-pagão da Galiza que, segundo me disseram, frequentam a lagoa e a clareira.

Decidimos ir lá no dia de Imbolc. E fomos: eu, o meu marido e um amigo muito querido. Chegamos pouco depois da hora do almoço. Ao tirar da mala do carro um casaco velho, caiu de um bolso um pêndulo, que estava perdido há imenso tempo. Bem, decidi usá-lo. E o pêndulo disse-me que a resposta estava para cima, para o lado oposto daquele que deveríamos seguir, que era descer em direcção ao rio. Subimos e como não tivemos nenhuma revelação, voltamos a descer e, um pouco antes do nosso ponto de partida, acabámos por encontrar uma velhota que, não sabendo o significado da palavra druidas, sabia muito bem como chegar à lagoa dos antigos. Mas, ainda tínhamos que andar uns dois quilómetros e encontrar um trilho que, segundo a velhota, já mal se dava por ele.
Partimos por uma paisagem belíssima, num caminho cheio de regatos e inúmeras quedas de água. E aconteceu o inevitável: o meu marido e o meu amigo rapidamente ficaram para trás, a tirar fotografias.
Eu cheguei a um ponto do caminho em que via claramente o lugar onde queria chegar, mas não sabia como ou quando lá chegaria. Avancei mais uns metros e parei junto a um velho carvalho. Havia um trilho, disfarçado pelo mato, e eu senti um chamamento de tal ordem que nem hesitei, avancei por ali fora. E como as silvas estavam por todo o lado e mal se conseguia avançar, a rir disse a velha fórmula:
– Por cima de silveirais e por baixo de carvalhais, vou daqui até aos areais…
E, verdade seja dita, foi como se de alguma maneira o mato se tivesse tornado menos denso. Avancei quase sem dificuldade. Entretanto, o trilho acabou, mas eu continuei, na esperança de o reencontrar pouco depois. O que não aconteceu. E quando tentei voltar para trás, verifiquei que era impossível. Já não fazia ideia do lugar onde estava o velho trilho que eu tinha abandonado e, à minha volta, havia uma floresta impenetrável. Ainda repeti novamente a velha fórmula, já sem grande convicção e, naturalmente, de nada me serviu. Como não havia rede nos telefones móveis, decidi esperar que o resto do grupo passasse por ali para lhes pedir ajuda. Bem, quando estavam perto, comecei a gritar por eles, gritei até à exaustão que tinha entrado no trilho junto ao velho carvalho e que precisava de ajuda para voltar ao caminho. E eles continuamente me diziam que não entendiam o que eu estava a dizer. Desesperei, sem perceber como é que eu podia entendê-los na perfeição e eles não entenderem nada do que eu dizia. Entretanto o meu marido gritou que já tinha encontrado o trilho para a lagoa que procurávamos e perguntou se eu estava lá. Gritei várias vezes que não! Mas não serviu de nada, ainda os ouvi dizerem que iam para a lagoa, para eu esperar lá por eles e, pouco depois, deixei de os ouvir de todo. Resignei-me a ficar à espera mais um tempo, até que voltassem. Olhei novamente à minha volta e vi, a poucos metros de mim, um carvalho mesmo muito velho, fui até lá. Sentei-me no chão e encostei-me ao tronco do carvalho. A energia que senti foi mesmo muito intensa... e percebi, então, a razão de me ter perdido. Hum, daquilo que não se pode falar, nada mais resta que manter o silêncio… :)

Quando tudo acabou, decidi tentar novamente voltar ao caminho. Vi um pássaro ali perto a voar de ramo em ramo e, porque de certa forma tanto fazia, decidi segui-lo. Segui o pássaro durante um bocadinho e, de repente, deixei de o ver. Continuava sem encontrar o trilho. Pensei que era bem feito, quem me mandava acreditar em sinais daqueles. Bem sei que é absurdo, mas ainda assim é real! Por mais sinais que haja na minha vida, eu tendo sempre para a falta de fé, o que é deprimente! Mesmo depois da experiência por que tinha acabado de passar, eu continuava como sempre... Mas, a verdade é que mais uns passos e eu vi-me outra vez no velho trilho, pelo qual voltei rapidamente ao caminho.
Pouco depois, encontrei o meu marido e o meu amigo, que andavam à minha procura, para lá e para cá, desesperados. Verifiquei que a minha percepção do tempo estava desajustada da realidade, eu tinha-me perdido lá pelas 14h30, pensava ter estado no máximo meia hora no meio do bosque, mas já eram 16h.
Apesar da escassez de tempo, ainda acabamos por ir todos à lagoa, que afinal era o destino da nossa viagem. E foi um belo momento. De resto, aquele é um lugar maravilhoso, ao qual havemos de voltar muitas vezes...


A Lagoa dos Druidas fica muito perto do Santuário da Senhora da Peneda, na aldeia de Tibo, freguesia de Gavieiras. Tibo fica na estrada que vai do Soajo para o Santuário da Peneda.

Como chegar lá: em Tibo, estaciona junto à igreja. E, partindo da igreja, desce por uma rua que tem uma casa com uma divisão com telhado de zinco. Quase logo, há um degrau de cimento que dá para uma pequena ruela à direita, vai por aí. Tens que passar por baixo de uma ramada que atravessa a rua. Continuas pelo mesmo caminho, mantendo-te sempre à direita. Fazes um caminho lindíssimo, tendo ao teu lado esquerdo a imponência da Fraga das Pastorinhas. Não viras para lado nenhum, segues sempre por esse caminho, talvez cerca de dois quilómetros. Por fim, chegas a um ponto do caminho em que tens que virar à esquerda e voltar para trás, ao longo do rio, mas não exactamente junto à margem, mais acima no monte. É um pequeno trilho, que mal se dá por ele. Mas, está assinalado com três pedras, umas em cima das outras. Antes de entrares nesse velho trilho, o caminho que percorres faz parte de um dos trilhos pedestres do Gerês, o Trilho da Mistura das Águas. Este desvio de que te falo, já não faz parte... de resto, a Lagoa dos Druidas é um lugar perdido, esquecido... e talvez fosse assim que devesse ser deixado. Mas, também não creio que haja muita gente a ler-me e, quem sabe, talvez eu esteja a indicar o caminho a alguém que precise de lá ir. :)

Nota: estas fotos maravilhosas foram tiradas pelo meu querido amigo António, um dos companheiros desta aventura.

Monday, May 30, 2011

Voltando ao conceito de paganismo

Em tempos, escrevi num fórum uma resposta emotiva, reagindo a um post que apresentava fotografias de galos sacrificados, restos de velas e mais não sei o quê, que tinham vindo num jornal local, e que apresentava aquilo como vestígios do paganismo. Bem, essa é uma das razões porque muitos grupos ligados a cultos ancestrais têm reservas na utilização de expressões como pagão ou paganismo.

Assim, permitam-me trazer de volta essa antiga resposta de um fórum e dizer, aqui no meu blog, o que o meu paganismo não é:

«Peço desculpa, mas não posso deixar de manifestar a minha indignação.

No teu post escreveste: “De vez em quando aparece nos jornais locais o descontentamento de alguns por descobrirem sob os penedos imponentes restos de "mezinhas" e "bruxedos".” E acrescentas que “o paganismo ainda não desapareceu”.

Eu, que sou pagã, que uso o termo bruxa com orgulho, já chorei de dor ao ver a profanação de lugares sagrados, com esses restos de mezinhas e supostos bruxedos.

Se olharmos para os mais famosos grimoires - o grupo de Honorius, o Sepher Raziel e os códices ingleses do Lemegeton – o que encontramos é:

1. Profanação dos mistérios da religião (quer do cristianismo, quer das antigas religiões);
2. Um sacrifício de sangue caracterizado com pormenores monstruosos e a consequente profanação do espaço, da natureza. (Que é sempre muitíssimo mau, mas quando a profanação é feita a antigos lugares sagrados, é crime!)

Sei bem que muitas vezes a profanação não é intencional, mas nem assim deixa de ser uma profanação.

Outra coisa: se tens dúvidas quanto às invocações que fazem, por favor, lê meia dúzia dos grimoires medievais (de onde derivam sempre este tipo de coisas). Verás, de imediato, que se trata de literatura cristã. Sim, cristã!

Vou dar um exemplo retirado do famoso Grimoire de Honorius. Não vou colocar a razão do pedido, nem os preparativos... o ritual propriamente dito começa assim:

“Após o nascer do sol, deverá recitar de joelhos a seguinte oração: «Meu Soberano Salvador Jesus Cristo, Filho do Deus perfeito! Tu que para a salvação de toda a humanidade sofreste a morte na cruz; Tu que, antes de seres abandonado aos Teus inimigos, por um impulso de inefável amor, instituíste o Sacramento do Teu Corpo; Tu que concedeste a nós, miseráveis criaturas, o privilégio de fazer comemorações diárias; concede a este Teu humilde servo, toda a força e capacidade para a boa aplicação desse poder que lhe foi concedido contra a horda dos espíritos rebeldes. Tu que és o seu verdadeiro Deus, e se eles tremerem à expressão do Teu Nome, sobre esse Santo Nome eu chamarei, gritando Jesus Cristo! Jesus, sê a minha ajuda, agora e para sempre! Amen.»
De seguida deve ser morto um galo preto, a primeira pena da sua asa esquerda deve ser arrancada e preservada para a utilização em devido tempo. Os olhos devem ser arrancados, o mesmo quanto à lingua e ao coração; esses devem ser secos ao sol e depois reduzidos a pó. Os restos devem...”

Creio que já chega.

Isto não é de modo nenhum paganismo. É disparate, demência e crime. E, acredita, é algo muito parecido com o que eu acabei de transcrever, retirado deste ou de outro das centenas de grimoires medievais, que esteve na origem dos rituais cujos vestígios mostras.

Para terminar, quero ainda dizer que eu acredito que a Magia no seu significado belo e original foi (e é) sinónimo de sabedoria. Mas a verdadeira Magia certamente não possui nenhuma ligação causal com os vestígios que aparecem nas tuas fotografias.»

O que é então o meu paganismo? Bem, sobre isto já muito escrevi por aqui, basta ver alguns dos posts dentro do tópico Caminhos. Ainda assim, gostaria de voltar a alguns conceitos, mostrando aquilo que significam para mim, mesmo que seja através as mesmas ideias, já tantas vezes expressas, quer neste blog quer noutros lugares. Volto a repetir que não se trata de definições, é apenas aquilo que estes conceitos significam para mim.

Magia

Para mim, a Magia é, acima de tudo, a Arte da integração com o mundo, um mago é aquele que se integra na natureza de um modo absoluto, como se fosse um lobo ou uma árvore. Só aquando da sua absoluta integração na natureza é que o mago é mago. Ao se integrar na natureza o mago reencontra-se, volta à realidade imanente, à sua verdadeira natureza. E transforma-se, transformando o mundo à sua volta, isto é, transforma o SEU mundo

Rituais

Na minha perspectiva, a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, que chamaríamos de espaço/tempo mágico ou sagrado, onde um ritual é solidário a qualquer outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. A utilização dos símbolos e de certas palavras é o meio pelo qual tento comunicar com o inconsciente, tentando a partir dali alcançar o inconsciente colectivo, ou a memória de espécie. E, através desta, o espaço/tempo sagrado.

Assim, penso que os rituais têm como objectivo devolver, ainda que por instantes, o homem à sua natureza intrínseca. Há muitas diferenças entre os rituais de natureza transcendente e de natureza imanente, residindo talvez a principal no facto de não haver uma verdadeira experiência imanente sem a intervenção dos sentidos...

Quatro Elementos

Para mim, Ar, Fogo, Água e Terra são diferentes manifestações da natureza, mas não a realidade de que derivam os seus nomes. São as quatro não-substâncias básicas que formam toda a substância (em diferentes proporções), toda a matéria, incluindo nós próprios. Quando os invocamos, invocamos o campo de todas as possibilidades onde podemos trabalhar a matéria-prima do universo e onde somos também nós seres criadores.

Citando Deepak Chopra: "A diferença entre uma coisa material e outra coisa material – por exemplo, a diferença entre um átomo de chumbo e um átomo de ouro – não se estabelece a nível da matéria. As partículas subatómicas, como os protões, os electrões, os quarks e os bosões que formam um átomo de ouro ou de chumbo são exactamente as mesmas. Além disso, embora lhes chamemos partículas, eles não são coisas materiais; constituem impulsos de energia e informação. Aquilo que torna o ouro diferente do chumbo é a organização e a quantidade desses impulsos de energia e informação.
Tudo na criação material se estrutura através de informação e energia. Todas as ocorrências quânticas constituem basicamente flutuações de energia e informação. E esses impulsos de energia e informação constituem a não-substância que forma tudo aquilo que consideramos substância ou matéria."

Deuses

Um dos mais belos pensamentos Taoistas diz o seguinte: "Aja com a força concentrada do masculino e conserve a suavidade alimentadora do feminino. Abrace a mágica e harmoniosa dança destes opostos e aprecie a sua dinâmica fusão no seu ser."

O modo como nos relacionamos com os deuses, quer trabalhando com eles internamente, na qualidade de arquétipos, quer atribuindo-lhes uma existência exterior a nós e cultuando-os, é sempre um processo pessoal, profundamente íntimo, sobre o qual não há muito a dizer.

O cristianismo relevou a face masculina de Deus e esqueceu a face feminina... e eu esforço-me por também cultura a Deusa. Contudo, para mim, mesmo Deus e Deusa são meros rótulos, sei bem que a natureza divina não é cognoscível.

Roda do Ano

Porquê viver a passagem do tempo, as estações, as mudanças no mundo e os ritmos cósmicos? Porquê valorizá-los? Antes de mais, porque acredito que, como seres da natureza, participamos das mudanças na própria natureza. Assim, é importante que sintamos o Inverno e o Verão, a chuva e o sol. É importante que tenhamos momentos determinados para reviver a primavera do mundo. É importante que sejamos capazes de nos regenerar e participar na regeneração do cosmos.

Festividades Celtas

Celebro as festas pagãs e de influência celta, misturando um certo e necessário revivalismo moderno, com uma verdadeira tradição, daqui, destas gentes e lugares. Uma tradição que, por assim dizer, faz parte da minha herança cultural

A tradição celta, por estar inscrita no quadro de uma civilização que rejeitava a escrita, é conhecida através de outras civilizações, não havendo acesso directo à fonte, à origem. E a interpretação que é feita é de acordo com a visão de alguém que vive no século XXI, outro tempo e outro mundo.

Assim, por mais que eu procure os sinais, que tente conhecer os antigos mitos, que procure em alguns rituais cristianizados o velho culto, tudo isso é sempre sujeito a uma interpretação, a minha interpretação, de acordo com o meu saber e o meu sentir. E nunca poderá ser mais do que isso.

Mas, quando recrio, à minha maneira, no meu tempo e no meu mundo, as festas celtas da roda do ano estou a fazer aquilo que posso para que antigas tradições voltem, por amor e respeito por uma antiga religião, mesmo que desse antigo culto só tenha um vislumbre e eu não seja capaz de o intuir ou compreender na sua totalidade.

Para terminar, resta dizer que quando talho o círculo na clareira de uma antiga floresta, debaixo de carvalhos sagrados, isso é apenas a minha religião.

Saturday, May 28, 2011

Serpente versus Vara

Começo com a história da moura e do moleiro de Nozelos, retirada do livro A Mitologia dos Mouros, de Alexandre Parafita:

«Perto de Nozelos, no concelho de Macedo de Cavaleiros, havia há muito tempo, à beira do rio, um moinho onde vivia o moleiro. Numa manhã, o moleiro encontrou junto a uma fraga que ainda lá existe um pente de ouro. Apanhou-o e ficou todo contente.
Nisto apareceu-lhe uma donzela muito bonita, que lhe disse:
- Esse pente é meu, mas, se o quiseres, pode ser teu. E posso ainda dar-te mais riquezas. Só tens de me desencantar, pois eu sou uma moura e estou encantada numa cobra.
E explicou-lhe como tinha de fazer. Ir lá num determinado dia, a uma determinada hora e esperar que a cobra viesse e subisse por ele acima, até lhe dar um beijo. E também lhe disse que se tivesse medo, estragaria tudo.
O moleiro aceitou e à hora combinada lá foi. Sentou-se na dita pedra e esperou. De repente, sentiu atrás de si um barulho a roçar nas ervas, o que o fez tremer de susto. A seguir olhou para trás e já nada viu. Apenas uma voz:
- Ah, maroto, que me dobraste o encanto!
E nunca mais encontrou nem a moura, nem a cobra.»*

Creio que se pode dizer que este moleiro foi um bocadinho mais assustadiço do que é habitual. Normalmente, nestas lendas, o homem que vai desencantar a moura aguenta um pouco mais, fica hirto como uma vara enquanto a serpente vem e sobe por ele acima, aguenta enquanto pode, mas quase sempre acaba por fugir antes da serpente lhe poder um beijo.

Em termos simbólicos podemos ver a VARA como o princípio masculino, rígido, enquanto a SERPENTE é o princípio feminino, maleável. Tom Chetwynd diz-nos que «a serpente e a vara opõem-se em todos os sentidos - vivo/morto, enrolado/direito, etc., e em conjunto simbolizam a UNIÃO de todos os OPOSTOS que, em primeira instância, é realizada num nível muito primitivo.»**
















Então, não vos apetece reescrever esta história? Não gostavam mais de uma história em que o homem encontrasse a moura - uma moura encantada, a precisar de ser salva - e a salvasse? Esse homem haveria de ter um carácter mais heróico que o nosso moleiro, teria coragem para deixar a serpente subir suavemente por ele acima, envolvendo-o numa espiral de forte e densa energia telúrica, que lhe despertaria todos os sentidos. E no final o beijo.

Que querem? Eu gosto de histórias com finais felizes. ;)

Só um último pormenor: a voz da serpente, gritando que lhe dobraram o encantamento, é ainda a voz doce, quase infantil, da moura. A voz não muda, só o aspecto visual da moura se altera. Confesso que gosto que seja assim, que as velhas lendas vão de encontro à minha crença de que a voz é o elemento mais verdadeiro. É pena que não seja mais valorizado. Infelizmente, vivemos num mundo dominado pelo sentido da visão. Mas, se a visão se sobrepõe aos outros sentidos, também a razão se sobrepõe ao mundo sensorial. E o nosso mundo, infelizmente, é um mundo onde nós já não somos capazes de encarnar os velhos mitos, que há muito perderam o seu cariz sagrado.

* Alexandre Parafita, A Mitologia dos Mouros, Gailivro, 2006, pp. 253, 253
** Tom Chetwynd, Dicionário dos Símbolos, A Linguagem do Inconsciente, Vol 2, Planeta Editora, 1982, pp. 330

Sunday, May 22, 2011

Feiticeiras

«A natureza fê-las feiticeiras. É o espírito próprio da Mulher e o seu temperamento. Ela nasce Fada. Pelo retorno regular da exaltação, é Sibila. Pelo amor, torna-se Mágica. Pela finura e malícia (muitas vezes fantasiosa e benéfica), é Feiticeira e enfeitiça, ou pelo menos adormece e ilude os males.

Todos os povos primitivos têm o mesmo princípio; vemo-lo através das Viagens. O homem caça e combate. A mulher recorre ao espírito, imagina; cria sonhos e deuses. É vidente em certos dias; possui a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor contar o tempo, observa o céu. Mas a terra não está menos no seu coração. Com os olhos amorosamente postos nas flores, também ela jovem e flor, trava com elas um conhecimento pessoal. Como mulher, pede-lhes que curem aqueles que ama.»

As Feiticeiras, Jules Michelet

Em Trás-os-Montes conta-se a história da Maria Feiticeira, uma bela história que Alexandre Parafita recria num dos seus livros de contos e lendas da tradição oral, para miúdos e graúdos. No livro Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras, lá aparece a Maria Feiticeira e a sua velhinha peneira, porque, tal como nos diz o autor, «segundo a tradição popular, a peneira é o objecto mágico das feiticeiras, tal como a vassoura é o objecto mágico das bruxas e a varinha de condão é o das fadas». E que fazia então a tia Maria Feiticeira com a sua peneira? Bem, é muito simples, em tempo quente, peneirava o estio para que viesse o frio, e quando arrefecia, peneirava o frio para que viesse o estio.

Munida da sua peneira, a feiticeira «peneirava o sol, peneirava a noite, a solidão, a tristeza... e o que mais lhe conviesse». E assim a velha feiticeira, a mulher a quem cabia gerar, criar e amar, peneirava a fome e o frio, peneirava o medo e a dor, peneirava o desespero e a morte... que outro objecto poderíamos escolher para a feiticeira que não fosse a sua velha peneira? Círculo mágico que a feiticeira faz dançar nas suas mãos, ao mesmo tempo que vai recriando o seu mundo... dando-lhe vida, alegria e cor.

Saturday, May 21, 2011

A Dama Pé de Cabra

Bem perto da aldeia onde nasci, em Trás-os-Montes, conta-se a lenda da bela princesa moura que vivia numa torre, onde recebia os cavaleiros que a procuravam ou, segundo outra versão, que ela escolhia, sem que nenhum voltasse a sair vivo dessa torre. Até que um deles, mais astuto, deixou a princesa adormecer e roubou-lhe um anel, que mostrou às sentinelas da torre que, assim, o deixaram passar. Quando a princesa acordou e viu que o cavaleiro tinha partido, soube que o seu segredo tinha sido revelado - a princesa tinha pernas de cabra.
Depois, conforme a versão da lenda, a princesa ou se atira à sua cisterna e morre, ou desaparece num encantamento. E assim termina a história da bela princesa
Dona Chamorra,
pernas de cabra,
cara de senhora.

Dalila Pereira da Costa refere «a provável existência entre nós do xamanismo. Vestígios da existência de seus poderes extáticos, poderão estar na inconografia do monumento de Sá, do Museu Martins Sarmento, que representa um morto ou vivo glorificado, ascendendo ao céu montado num cavalo; e ainda na figura lendária da Dama pé de cabra, possuindo fortes características de mulher xamã, no seu poder de voar, na sua íntima ligação com o onagro, o cavalo primitivo, nas suas artes mágicas e toda sua natureza marcadamente infernal».

Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada, Lello & Irmão Editores, Porto: 1984, pp.10

Thursday, May 19, 2011

Sempre Verde

Sempre verde venerado
Nado sem ser semeado...

Muitas das nossas rezas populares e benzeduras começam assim, com a referência ao sempre verde venerado. Mas, sobre isso já falei noutros posts. Hoje, quero deixar apenas uma resposta à questão: o que é o sempre verde? De acordo com Leite Vasconcelos, o sempre verde é o sabugueiro - José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Livraria Portuense de Clavel & Companhia Editores, Porto: 1882, pp. 122.

Tuesday, April 26, 2011

Rituais de Beltane

Começo este post com uma referência a outro post e ao texto de Ernesto Veiga de Oliveira.

Até ler Veiga de Oliveira, ainda que eu entendesse a necessidade de nos libertarmos daquilo que nos mutila ao longo dos diversos invernos da nossa vida, eu não ritualizava essa libertação em Beltane. Contudo, agora, isso parece-me absolutamente necessário.

Para provar o novo chá é necessário primeiro esvaziar a chávena. Se deitarmos o novo chá na chávena que ainda tem chá velho, não estaremos verdadeiramente a provar o novo chá...

O ritual de comer o caldo de castanhas, antes do nascer do sol de Beltane, rapidamente se tornou essencial, para mim. Porque considero que é essencial libertarmo-nos das forças do Inverno, do Inverno em nós, esvaziarmo-nos de tudo o que nos mutilou, morrer para nascer de novo. Só assim renascemos com a força do novo dia.

E que melhor maneira de nos libertarmos daquilo que já não queremos, o nosso Inverno, do que digerindo-o? As castanhas, naturalmente, vêm de Samhain, são o fruto do Inverno. Comemo-las e digerimo-las, e assim nos libertamos... e aceitamos libertos e vazios o novo, a outra metade do ano.

Há uma beleza e uma sabedoria maravilhosas nesses velhos e esquecidos rituais, que a tradição popular trouxe até nós. E que, na minha opinião, não deveriam ser ignorados.

Assim, dos meus rituais de Beltane, fazem parte a manducação cerimonial do caldo de castanhas antes do nascer do sol e o piquenique após o sol nascente, de onde regresso com as flores amarelas das giestas, que coloco na porta da minha casa, assumindo que também eu estou presente na regeneração do cosmos.

Termino com novo link, para outro dos meus textos sobre Beltane.

Monday, April 18, 2011

Velhas Orações Populares

Já noutro post fiz referência a estas velhas orações populares: http://peregrinar.blogspot.com/2010/02/outeiro.html

Contudo, hoje gostava de partilhar convosco uma bela oração de proteção, recolhida por Consiglieri Pedroso em Briteiros, Guimarães.

Oca, marnoca,
Três vezes oca;
Pé no pé,
Freio na boca.
Tista com tista,
Três vezes tista,
S. Pedro, S. Paulo, S. João Evangelista
Derredor da nossa casa assista.

Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988, pp 268.

Nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, proibe-se o uso de palavras innotas. Teófilo Braga, no seu livro O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições diz que o poder das palavras é tanto maior quanto ellas são mais desconhecidas. No mesmo livro faz-se referência ao Sermão de Santo Eloy, do século VII, onde se diz expressamente que nenhum christão ligue credito ás rimas nem aos cantos magicos, porque são obra do diabo.

Não devemos esquecer que feitiço é uma palavra sagrada que produz um encantamento. Vejamos, a este respeito, a definição de Nostradamus: o feitiço é uma fórmula em verso ou em prosa medida, à qual se atribui a virtude de perturbar a ordem da natureza. O encantamento é a acção de pronunciar essa fórmula.
Nostradamus, Excellent et Moult Utile Opuscule, 1555.