Tuesday, April 26, 2011

Rituais de Beltane

Começo este post com uma referência a outro post e ao texto de Ernesto Veiga de Oliveira.

Até ler Veiga de Oliveira, ainda que eu entendesse a necessidade de nos libertarmos daquilo que nos mutila ao longo dos diversos invernos da nossa vida, eu não ritualizava essa libertação em Beltane. Contudo, agora, isso parece-me absolutamente necessário.

Para provar o novo chá é necessário primeiro esvaziar a chávena. Se deitarmos o novo chá na chávena que ainda tem chá velho, não estaremos verdadeiramente a provar o novo chá...

O ritual de comer o caldo de castanhas, antes do nascer do sol de Beltane, rapidamente se tornou essencial, para mim. Porque considero que é essencial libertarmo-nos das forças do Inverno, do Inverno em nós, esvaziarmo-nos de tudo o que nos mutilou, morrer para nascer de novo. Só assim renascemos com a força do novo dia.

E que melhor maneira de nos libertarmos daquilo que já não queremos, o nosso Inverno, do que digerindo-o? As castanhas, naturalmente, vêm de Samhain, são o fruto do Inverno. Comemo-las e digerimo-las, e assim nos libertamos... e aceitamos libertos e vazios o novo, a outra metade do ano.

Há uma beleza e uma sabedoria maravilhosas nesses velhos e esquecidos rituais, que a tradição popular trouxe até nós. E que, na minha opinião, não deveriam ser ignorados.

Assim, dos meus rituais de Beltane, fazem parte a manducação cerimonial do caldo de castanhas antes do nascer do sol e o piquenique após o sol nascente, de onde regresso com as flores amarelas das giestas, que coloco na porta da minha casa, assumindo que também eu estou presente na regeneração do cosmos.

Termino com novo link, para outro dos meus textos sobre Beltane.

Monday, April 18, 2011

Velhas Orações Populares

Já noutro post fiz referência a estas velhas orações populares: http://peregrinar.blogspot.com/2010/02/outeiro.html

Contudo, hoje gostava de partilhar convosco uma bela oração de proteção, recolhida por Consiglieri Pedroso em Briteiros, Guimarães.

Oca, marnoca,
Três vezes oca;
Pé no pé,
Freio na boca.
Tista com tista,
Três vezes tista,
S. Pedro, S. Paulo, S. João Evangelista
Derredor da nossa casa assista.

Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988, pp 268.

Nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, proibe-se o uso de palavras innotas. Teófilo Braga, no seu livro O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições diz que o poder das palavras é tanto maior quanto ellas são mais desconhecidas. No mesmo livro faz-se referência ao Sermão de Santo Eloy, do século VII, onde se diz expressamente que nenhum christão ligue credito ás rimas nem aos cantos magicos, porque são obra do diabo.

Não devemos esquecer que feitiço é uma palavra sagrada que produz um encantamento. Vejamos, a este respeito, a definição de Nostradamus: o feitiço é uma fórmula em verso ou em prosa medida, à qual se atribui a virtude de perturbar a ordem da natureza. O encantamento é a acção de pronunciar essa fórmula.
Nostradamus, Excellent et Moult Utile Opuscule, 1555.