Esta história foi-me contada pela minha avó materna, que dizia ter acontecido quando o avô dela era ainda um jovem. E foi ele quem lha contou. A história aconteceu numa tarde de verão, em que o avô da minha avó, os pais dele e alguns vizinhos andavam a apanhar feno nos lameiros do rio, tendo surgido de repente uma violenta tempestade, que fez os bois juntarem-se no meio do lameiro e levou as pessoas a refugiarem-se na azenha. Quando a trovoada acabou, saíram da azenha e viram no meio do rio, com água até à cintura, um homem despido e queimado do sol. Ficaram cheios de medo, pois sabiam bem que era um dos homens que andava nas nuvens a fazer as trovoadas e que tinha caído. Mas, como o avô da minha avó contava, ainda tiveram mais medo do que lhes podia acontecer se não o ajudassem, de modo que dois ou três homens foram ao meio do rio e trouxeram-no para a margem. O homem não falava e eles colocaram-no no carro de bois e levaram-no para a aldeia. Já na aldeia, vestiram-no, ajudaram-no a sentar-se a uma mesa e puseram à frente dele um pão de centeio e uma faca, para que comesse. Ele começou então a partir bocadinhos de pão e a fazer figuras estranhas na mesa, o que aterrorizou toda a aldeia. Como já tinha anoitecido, deixaram-no ficar até de manhã. Logo que amanheceu, montaram-no num cavalo e levaram-no para a aldeia seguinte, onde o deixaram. O homem continuava ainda sem falar. Quem o levou até à outra aldeia foi o avô da minha avó, que contava que daí o levaram também para a aldeia seguinte e assim sucessivamente, até deixarem de ouvir falar do homem que caiu das nuvens.
Foi assim que eu ouvi contar esta lenda. Sem outro nome que não fosse o homem que caiu das nuvens. Muito mais tarde encontrei, em lendas relacionadas com esta, a terminologia Secular das Nuvens, assim como a referência à Caçada Selvagem, no livro do Consiglieri Pedroso - Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988. - Note-se que esta lenda está também intimamente relacionada com o Nubeiro do folclore galego. Por tudo isto, parece-me algo importante e muito gostaria de ver algum estudo académico acerca desta bela lenda. Nesse sentido, transmiti-a por email, no dia 15 de Junho de 2011, ao Doutor Alexandre Parafita. Hoje, decidi deixar aqui a referência, na esperança de que alguém se interesse por estas lendas e prossiga os estudos do senhor Consiglieri Pedroso.
Já agora, deixo aqui o cenário da lenda (ainda que o caminho tenha sido feito ao contrário, da aldeia em direção ao rio): Rio Tuela
Thursday, September 22, 2011
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2 comments:
Felicito-a por ter aqui trazido esta interessante narração e agradeço ter-ma já transmitido no início do Verão. Pois quero dizer-lhe que, logo após, e tomando a peito a sua sugestão, passei pela aldeia (Vila Nova da Rainha) e fui ouvir tal narração junto da senhora Maria Adelaide Martins, de 70 anos, que me confirmou, de viva voz, o teor das memórias que a Maria traz da infância. Esta simpática senhora contou-me a história tal como já ouvia contar aos seus avós, mas também me disse que o homem não dizia palavra que se entendesse e que só comia fruta, especialmente uvas. Por isso, tal fenómeno terá acontecido por esta altura do ano, com as vindimas a correr. Talvez até num dia como hoje, em que, à hora do Porto-Benfica, se anuncia a queda na terra de um satélite desintegrado. Oxalá, pelo menos, não vá cair nenhum pedaço em Vila Nova da Rainha, para que não vá conturbar as memórias, já por si muito ténues, sobre o homem que caiu das nuvens.
Alexandre Parafita
Caro Alexandre Parafita,
Agradeço-lhe o interesse e a pesquisa. Confesso que me surpreendeu a versão das uvas. Só conhecia a versão do pão. Fico feliz por ter encontrado outros registos.
Cumprimentos,
Maria
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