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Tuesday, April 30, 2013

Um pequeno bosque

Boa tarde.

Permitam-me que lhes fale um bocadinho do meu bosque. Fica a cerca de 200km da minha casa e, por isso, não vou lá muitas vezes. Mas, dedico todos os dias alguns minutos àquele lugar. Mesmo assim, não consigo protegê-lo. O ano passado cortaram um jovem abrunheiro e deixaram-no lá, caído no chão. Não sei por que o fizeram. Disseram-me que talvez tenha sido «apenas» para experimentar o gume de uma foice. O que causa ainda mais tristeza... Bem, creio que nunca fariam isso a uma oliveira ou qualquer outra fruteira. O corte dos sobreiros e das azinheiras é proibido por lei, mas nem isso é respeitado. E, na mente dos meus conterrâneos, que importância pode ter um abrunheiro, um espinheiro-alvar ou um sabugueiro? Cortam-nos se lhe apetecer, mesmo que estejam em terras que não lhes pertencem.

Os teixos praticamente desapareceram, em parte devido aos pastores, que os cortavam sempre que os viam. O veneno do teixo condenou-o...e, pelo menos no meu mundo, das teixeiras já só há memórias. Tenho alguns pés a crescer em vasos, mas ainda não me atrevi a colocá-los no meu bosque.

Depois, bem depois há ainda os caçadores, sobretudo os caçadores furtivos. Há javalis que frequentemente percorrem o meu bosque e todos os dias peço aos deuses que olhem por aqueles belos animais, para que os seus trilhos sejam seguros. Contudo, a ameaça dos caçadores furtivos mantém-se bem real. Sei que muitos deles apanham os javalis com armadilhas. Cortam uma árvore, um freixo ou um carvalho e prendem-no à armadilha. Quando o animal é apanhado, não morre logo, corre em desespero amarrado a uma árvore, causado imensa devastação e sofrendo uma morte lenta e dolorosa. Nem é só a questão de matarem um animal, o que é pior é que o matam de um modo vergonhoso. E eu arrepio-me só de pensar nisso.

E temo também por um belo freixo que já faz parte de mim e que, infelizmente, está numa posição que o candidata a ser uma dessas árvores abatidas e presas às armadilhas.

Oh! Como eu gostava que o mundo fosse diferente...

Bem, na semana passada, descobri que as minhas aveleiras tinham desaparecido. Sei bem que o responsável foi o meu vizinho que, provavelmente, pensou que me estava a fazer um favor. Eram pequenos pés, plantados no último outono. Jovens rebentos imersos num mar de erva alta, que havia de ser tirada, com cuidado. Mas, antes que eu tivesse oportunidade de tirar a erva, o meu vizinho limpou essa parte do terreno com uma roçadora e lá se foram as aveleiras. Confesso que nunca pensei que as aveleiras corressem perigo...

Na verdade, no último Lughnasadh, que foi quando comecei a dedicar-me a este bosque/jardim, tinha uma visão de tudo isto bem mais romântica... Era um terreno que eu conhecia, mas onde já não ia há muito tempo. Quando lá voltei, deparei logo na entrada com um maravilhoso urzal, que me deixou num estado de espírito fantástico. Sentei-me num rochedo a observar uma águia. De repente, tive consciência da coincidência e senti-me transportada para a canção de Amergin, foi um momento de revelação. Fiquei com a convicção de que seria um caminho muito fácil de percorrer, mas isso não é verdade. É um caminho árduo, que me causa tristeza, mas também imensa alegria. Vou tendo fracassos - as minhas bétulas não nasceram -, mas também há sucessos - deparei com uma macieira silvestre, que eu nem sabia que lá estava, com uma floração magnífica, que me deixou com o coração em festa.

Contudo, não me sinto mais perto das respostas. Na verdade, nem sei ainda quais as questões que devo colocar. Mas, isso é a meta. E, de alguma forma, a meta deixou de importar. Podia dizer que é o calcorrear do caminho que é importante, mas eu nem sei bem se isto é um caminho, no sentido espiritual, quero eu dizer. É quanto muito um sonho. Um sonho que eu gosto de sonhar, só me custa saber que não sou capaz de proteger aquele pequeno bosque.


Sunday, June 19, 2011

Somos todos especiais

Estive a ver com o meu filho, na televisão, o Comboio dos Dinossauros, as aventuras de um tiranossauro rex que vive com uma família de pteronodontes. No genérico diz: «não te preocupes se és diferente dos demais, porque na verdade somos todos especiais». Belo, não é? 

Somos todos especiais... e eu sou um pequeno triskel. ;)

Recentemente, numa carta, tentei explicar porque é que essa é a minha imagem. Para mim, o triskel está intimamente ligado à percepção do espaço/tempo sagrado. Na carta, usei a terminologia tempo linear versus tempo cíclico, mas essa nem é a terminologia que uso habitualmente. Nem sequer é a concepção de tempo profano versus tempo sagrado, do Mircea Eliade. Na verdade, a minha percepção do triskel está associada à ideia de Platão de tempo comum, de Zeus, versus tempo invertido, de Saturno. Ainda que, possivelmente, todas estas teorias traduzam a mesma realidade.

Assim, o tempo comum, divergente, é-nos mostrado quando olhamos e vemos a roda a projectar-se para fora. Mas ao mesmo tempo, o triskel também é a representação perfeita do tempo invertido, convergente, onde tudo o que o tempo comum projecta e espalha por milhares de momentos e por milhares de espaços, converge agora para o interior da roda, para o eterno aqui e agora. Tal como o tempo comum ou invertido, o triskel é divergente ou convergente, alternadamente. Não vejo nenhuma possibilidade de ser divergente e convergente, ao mesmo tempo.

Este conceito de tempo às avessas sempre me acompanhou, desde a infância, nesta ou noutra formulação. E o triskel é o símbolo que representa o tempo e que mostra que é possível a mudança de percepção. Claro que lhe estão associadas outras simbologias, mas esta é, para mim, a mais importante.

Sempre gostei dos gregos. Como não consigo enquadrar-me em nenhum grupo, nenhuma religião, recorro a ideias dos filósofos gregos, para me orientar. Essas ideias são, em primeiro lugar, a verdade como sensação invariável e, em segundo lugar, os sentidos como teste da verdade. Recrio essas ideias, dou-lhes um uso bem diferente daqueles que as conceberam e, de certa forma, acabam por me pertencer. E, assim, parto:

Rumo ao êxtase harmónico
E ao heroísmo da descoberta.

É a minha iluminação no inferno, do Rimbaud. :)

De certa forma, tudo e todos me servem de mestres. Mesmo os programas infantis, que vejo com o meu filho. Ele gosta da música da Xana TocToc, que diz que gosta de bater em todas as portas, só para saber quais são as respostas. Eu também quero saber tudo. E, tal como a Xana, também vou de porta em porta. Porque não?

Mas, não tenho dúvidas de que uma sabedoria superior à minha me conduz, praticamente pela mão. E eu entrego-me às vivências e às pessoas que vão passando pela minha vida. É essa a minha natureza. Dou, mas também espero receber, até porque nenhuma relação, seja de que tipo for, subsiste se os papeis não se forem alternando, não pode haver eternos protectores e eternos protegidos, e nenhum de nós pode apenas dar ou apenas receber. Temos que saber dar e saber receber, e ir dando e recebendo.

Que mais? Eu acredito verdadeiramente que tudo isto - a minha personalidade, a minha demanda espiritual, a minha vida - é apenas bagagem que transporto nesta viagem, uma viagem entre muitas que já fiz e que farei.

Tem sido uma viagem sofredora. Aprendi com o Camus que o sofrimento volta, inevitavelmente. Tal como o Sísifo (pois, novamente os gregos), levamos a rocha até ao topo do monte mas, ela acaba sempre por rolar outra vez até lá em baixo e, de novo, temos que a carregar pelo monte acima. Mas, ainda assim, tal como Camus dizia, é possível imaginar Sísifo feliz a carregar a rocha até ao topo do monte, mesmo sabendo que esta há-de rolar até cá baixo e, de novo, terá que se carregada montanha acima. Isso é a viagem. E, na viagem, mesmo que o sofrimento nos encontre, ainda temos a brisa suave do vento nos nossos cabelos, o calor do sol no nosso rosto, a água cristalina que refresca o nosso corpo e a terra imensa, que se estende aos nossos pés. Face a isso o desespero nunca dura muito tempo.

E tal como o meu Merlin, também tenho o meu esplumoir, o meu ninho, o lugar secreto, dentro de mim, onde se dá a transformação.

Merlin é o meu mestre, um Merlin que eu encontro nos meus sonhos, que pressinto nas clareiras das minhas florestas. E o que eu mais gosto no meu Merlin é do seu riso. Que seria de mim se o riso do meu Merlin não me acompanhasse? O riso que purifica, o riso que cura, o riso que é transe, o riso ritual.

A minha oferenda ao meu Merlin, quando o procuro nas velhas clareiras, também é sempre o meu riso, não o riso falso e teatral, mas o riso genuíno que vem com memórias que guardo dentro de mim, instantes luminosos e eternos, onde eu sou inteira. O riso feliz da antecipação do encontro, ainda que o encontro se dê apenas no meu coração. E ninguém pode dizer que eu não amo o meu Merlin, que para mim é bem mais que um arquétipo. Teria eu qualquer interesse nos celtas se não fosse pelo meu Merlin?...

Thursday, June 16, 2011

Saudade

Sentir a canção da terra a subir ao céu... essa canção é a Saudade.

Saudade, a saudade galaico-portuguesa, não é uma palavra, é um método de ascensão, de transfiguração.

Saudade é peregrinação. Seguir a cartografia da saudade é subir degrau a degrau o «caminho da paixão libertação».

«Na Idade Média, aqui na Península, no território galaico-português, duas vias em direcção ao centro, como vias de depuração e libertação, teriam sido oferecidas ao Ocidente. Uma, a Peregrinação a Santiago de Compostela, dada abertamente e então seguida por toda a sua humanidade.

Mas uma outra, mais secreta, não traçada nos caminhos concretos da terra exterior, mas nos caminhos concretos da terra interior, a do espírito, teria ficado aqui, só vivida escondida e nunca depois conhecida e dada a partilhar ao Ocidente e ao futuro. Como Peregrinação da Saudade.

Será essa, agora finalmente neste século, que cumprirá desvendar e oferecer. Para outro caminhar até a um centro. Sempre o mesmo. Mas agora traçado no espaço do espírito.

A saudade é o segredo de Apolo.

24-VIII-1974»

Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida.

The sleep of Titania by John Simmons (1823-1876).


Wednesday, July 15, 2009

Senhora, há aqueles que nos dizem que são engenheiros ou doutores e isso define-os. Eu não sei até que ponto tinha verdadeira percepção, mas ser tua era uma parte muito grande da minha identidade. Quando isso desapareceu, bem, simplesmente deixei de saber exactamente quem era. Sabia que uma nova identidade se iria construir, a pouco e pouco, e eu haveria de ficar outra. Fui dizendo a mim própria que sentir-me perdida era natural, uma vez que toda a minha identidade se estava a refazer.
Não sei quantas vezes repeti que pouco me importava que me tivesses retirado o dom, se é que havia algum dom, ou o que quer que fosse. Insisti até me convencer, que apenas me custava esse processo em que eu tinha deixado de ser quem era e o meu novo eu ainda não estava completamente definido.
Nunca senti que me estivesse a afastar de ti. Achei sempre que tu, Senhora, é que me tinhas abandonado. Quantas vezes implorei a tua ajuda? E a tua ajuda simplesmente não chegou...
Quando entrei em privação de sono e pensei que ia enlouquecer, pedi-te que me enviasses alguém capaz de te encarnar, alguém que me ouvisse por ti. Senhora, não fiz eu isso umas quantas vezes?...
Bem, não considerei que o psiquiatra, que veio ter comigo no hospital, fosse enviado por ti. Mesmo assim, dei-lhe o benefício da dúvida. Mas, não, nada tinha a ver contigo.

Ó virgem entre todas singular, mãe amantíssima, senhora da sabedoria... que te posso eu dizer?

Ontem à tarde, o meu marido levou-me à gruta da Senhora da Lapa. Apenas uns minutos depois de termos chegado, apareceu uma jovem que abriu a capela/gruta. Ela vinha completamente vestida de vermelho e isso, por si só, fez-me pensar se não seria uma sinal teu. E, de imediato, disse a mim própria que isso era irrelevante, uma vez que eu já não acreditava em sinais.
Entramos e ela disse-nos se não queríamos beber água da gruta, que era água sagrada. Já sabíamos disso. Eu já tinha bebido aquela água, noutro tempo. Ainda por sugestão dela, o meu marido foi ao carro buscar uma garrafa, para levar água para casa. Eu fiquei sentada num banco de madeira... depois, num impulso, levantei-me, descalcei-me e dirigi-me à parede da gruta, junto ao altar. Foi nessa altura que começou a ouvir-se um som estranho na gruta, mas não liguei, pensei que era apenas o som de água a correr. Mais tarde, a rapariga dirigiu-se a mim, tratou-me por senhora e perguntou-me se eu sabia que som era aquele. Perguntei-lhe se não era água. Ela disse que não. Insistiu que nunca ouvira aquele som antes. Mas eu não quis saber, ignorei o barulho. Contudo, durante escassos segundos em que me concentrei no som que parecia vir da pedra, por trás do altar, pensei que, o que quer que fosse, fazia-me pensar num coração a bater. Lembrei-me das minhas pedras-coração. E mais nada.
A rapariga retirou algumas flores das que estavam no altar e deu-mas, disse-me que a Senhora da Lapa queria que eu ficasse com as flores. Achei o gesto bonito e agradeci. E fomos embora.
Ainda estávamos a meio das escadas, quando a rapariga veio a correr à porta e nos disse que o som tinha terminado quando deixamos a capela.
Foi nesse instante, e só nesse instante, que eu decidi que era um sinal teu. E que tu, Senhora, estavas de volta ao meu mundo, ao meu coração... e que a minha fé estava a ser restaurada.
Que assim seja, Senhora!

Wednesday, October 01, 2008

Que o caminho se abra à tua frente...


Caminho com a roda do ano, para o fim de um ciclo. E o início de outro ciclo. Todos os meus sentidos estão despertos, o meu mundo amadurece em cores e aromas intensos, é Outubro.

Em Outubro o caminho abre-se à minha frente na terra arada, negra e fecunda. E do Norte e da Terra, caminho para o Este e para o Ar, levada pela intensidade do cheiro a terra molhada, que me faz pensar em mim própria como uma semente, que me faz querer voltar ao ventre da Terra Mãe e encolher com a estação, ficar de novo pequenina, libertar-me do supérfluo, deixar para trás as minhas máscaras, que inadvertidamente criei ao longo do ano, para renascer com a minha própria face em Yule.

Mas é ainda cedo, Outubro é tempo de colheita, as últimas colheitas do ano. E nada se compara à intensidade das cores, dos sabores e dos aromas de Outono. O cheiro das castanhas assadas que suavemente começa a aparecer nas ruas da minha cidade. Os dias a meio da semana, que se transformam em fantásticos fins de tarde solarengos, em clareiras em maravilhosos tons outonais, que sobrestimulam os sentidos. Os fins de semana a apanhar bolota e outros frutos silvestres. Os últimos piqueniques. E a minha cozinha transformada no meu laboratório alquímico, com os aromas das tartes de maçã e de abóbora a cozer no forno, com a cor intensa das taças de marmelada a apanhar sol junto à janela.

É Outubro, o tempo místico das primeiras fogueiras, do fumo branco que faz pensar em brumas misteriosas e mágicas, que me transporta para outros mundos. Volto-me, então, para o Fogo e para o Sul, agradecendo o suave calor do sol, sentindo fortemente a luz dos meus dias.

Nunca, em nenhuma outra altura do ano, sinto assim tanto a necessidade de apreciar o sol quando o dia é claro e luminoso, e a chuva quando chove. A maravilhosa chuva de Outono, que alimenta a terra ressequida nos meses de estio, que me vivifica. Estou, agora, no mundo da Água, no Oeste. Caminho descalça na minha praia vazia, na areia húmida, e o mundo à minha volta é um mundo que, a cada instante, se revela. É Outubro.

Sunday, September 07, 2008

Pedra Coração




Encontrar uma pedra com o formato de um coração, sem que tenha sido trabalhada por mão humana, é um sinal de que estamos no nosso verdadeiro caminho, no caminho de volta a casa.

Devemos deixar algumas destas pedras em encruzilhadas, para que outros caminhantes as encontrem. :)

Tuesday, July 15, 2008

Viagem pelos Quatro Elementos

No mês passado dei comigo, de um modo absolutamente inesperado, numa viagem intensa e perturbadora pelos quatro elementos... que começou pela água, numa praia desconhecida. A partir daí dirigi-me sempre para oeste, num percurso nada habitual, fascinante e estranho, onde a própria viagem a começar no elemento água era em si mesma muito pouco familiar... mas quem sou eu para decidir, para querer decidir? :)

Lembro-me agora, que havia ainda a considerar a consulta do oráculo do I Ching, que me dizia que a resposta se encontrava a Oeste...






















O ponto seguinte, onde a minha viagem pelos elementos me levou, foi a pedra da serpente alada, no elemento Terra. Quando acariciei a cabeça e uma das asas da serpente, senti a alteração do espaço/tempo de um modo brutal, quase de imediato tive medo e afastei-me... contudo, as imagens mentais e os sentimentos resultantes desse escasso momento estão ainda entranhadas em mim. Uns dias depois, peguei por acaso num livro do Juan Atienza que me falava da simbologia da ave e da serpente. Fiquei perplexa. Não consigo habituar-me a este tipo de estranheza...

















A etapa seguinte foi o Santuário da Senhora da Barca, onde as pedras são magníficas mas, o que mais me impressionou (novamente de um modo completamente inesperado) foi a intensidade do vento, um autêntico vendaval... não me lembro de alguma ver ter sentido uma ventania assim tão forte. Tinha chegado, sem dúvida, ao elemento Ar.

















O último elemento foi o Fogo, num lugar onde esperava a água... mas chegamos quase ao pôr do sol e o brilho do sol marcou o horizonte... Em Finisterra senti uma saudade intensa, deveras intensa.

Thursday, August 31, 2006

Reino Maravilhoso

Do alto do Penedo Durão, contemplando o poema geológico como lhe chamou Miguel Torga, sentimo-nos contemporâneos do instante da criação, a magia antiga à solta naqueles penedos entranha-se em nós e dá-nos por um instante a eternidade. Trás-os-Montes é um reino maravilhoso que alimenta a alma. Entramos neste mundo mágico e a realidade transforma-se, voltamos ao acto primeiro, ao mundo mítico dos heróis e dos deuses in illo tempore. O tempo lá fora linear torna-se aqui cíclico.

Celebro, entre o Natal e o Ano Novo, as magníficas festas saturninas e solstíciais, que aqui ganham o cariz iniciático das festas dos rapazes. E que nos falam do período de transição, quando o tempo novo, o novo ciclo, é ainda caótico. Mas também nos ensinam a reverenciar este caos primordial, sobretudo pela qualidade e intensidade criativa desta energia primitiva. Entendemos assim por que tudo é permitido aos mascarados que exteriorizam a dança da perpétua renovação. Depois, com as urzes e as giestas cresço devagarinho, saboreando a geada e o luar de Janeiro. Evoco a lua do leite com cordeirinhos recém-nascidos e com eles corro pelos prados de ervinhas novas, bebo nos ribeiros de água cristalina, que ri e corre pelas terras das mouras encantadas, em busca do Douro e do Tâmega, do Tua e do Sabor, e de tantos outros rios de águas sagradas, nas margens dos quais os nossos antepassados edificaram cidadelas como a de Benquerença. E com este sentimento de querer bem e com a generosidade quase arquetípica entro na alma do lugar, na alma do povo. Visito terras antigas: Foz Côa, Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, com as suas encostas cobertas pelas amêndoeiras em flor, numa paisagem indescritivelmente bela. E eis-me já no Equinócio da Primavera, quando o ar se enche de aromas suaves, frescos e florais. E da intensidade do cheiro do folar acabado de cozer que, pela Páscoa, se torna tradição em velhos fornos onde o carvalho e o zimbro, a oliveira e a videira ardem, para que da energia da terra se liberte o poder do fogo, numa alquimia que dá ao pão um sabor ancestral. O tempo continua, na sua passagem vagarosa, recordando-me na véspera de Maio as fogueiras de outrora. Mas, se estas fogueiras se perderam, o mesmo não aconteceu com a tradição das Maias. É reconfortante ver as flores amarelas das giestas penduradas na porta, maravilho-me com as pessoas simples e sábias que nos dizem que também elas participam na cíclica regeneração do cosmos. Delicio-me nos belos recantos do parque de Montesinho, o maior de Portugal, e sinto que de verdade pertenço ali, àquele mundo intemporal e mágico. Vagueio por castros e castelos, sento-me na Domus de Bragança e facilmente visualizo a reunião dos homens bons. Caminho na ponte de Trajano em Chaves e sou de imediato contemporânea dos soldados romanos que também ali atravessam o rio de águas escuras. E com os romanos peregrino ao santuário único de Panóias, em Vila Real. Com o tempo como aliado, permitindo-me viagens por diferentes eras, entro nos jardins do palácio de Mateus e delicio-me com a obra-prima de Nicolau Nasoni. Brinco novamente com o tempo e sento-me nas ruínas de Penas Róias, em Mogadouro. Ah!, que posso eu dizer aos fascinantes Templários? Senhores do Templo, caminhais aqui por velhos caminhos, que outrora foram de Endovélico. E com isso parto para outra paragens, contemplo a Porca de Murça ou o Berrão de Torre D. Chama, entre tantos outros símbolos que se encontram na demanda de Endovélico. Urge reencontar a mitologia lusitana, Atégina espera-nos. Mas, na verdade, a Deusa não foi esquecida, encontramo-la em capelinhas no topo das serranias, relembrando-nos que estamos numa cordilheira sagrada. A serra do Marão é conhecida como montana sagrada desde a antiguidade. Aqui, a terra está sulcada de linhas ley, as forças telúricas marcam a paisagem e as gentes, alterando a percepção e sobre-estimulando os sentidos. Mas não tenho também os sentidos em festas quando, das arribas do douro olho os vales profundos? Miranda, cidade baluarte, expoente máximo da gastronomia transmontana. Bem, a roda do ano chama-me de volta, relembra-me que estou no Solstício de Verão. E, continuando a minha viagem, passo então este dia que antecede a noite mais curta do ano na praia fluvial do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, mais logo contemplarei o pôr do sol na serra de Bornes, e depois rumarei à aldeia do Romeu e ao Maria Rita, restaurante que me traz de imediato à memória o meu pai. De novo ganham vida as tuas histórias encantadas nas tardes de estio e nas noites de inverno. Meu senhor transmontano, quem mais se lembraria de me contar a Canção de Rolando? É agora noite, estou nos belos jardins de Mirandela, junto ao rio Tua. E, tal como me ensinaste, recrio o mundo. Ainda me sinto maravilhada com a tua capacidade de transmutar um instantezinho de trazer por casa num momento inesquecível. Com a tua alma de poeta deste ao meu mundo cores maravilhosas. São os teus ensinamentos que me levam a sentir-me feliz neste dia de solstício, marcado pela dor da partida da minha amada Aurora que, contudo, regressa para mim em cada alvorecer. Os dias passam e a véspera de Agosto traz a festa do pão. Partilho o pão em Montalegre, terra que sabiamente me devolve a um tempo fora do tempo e a um espaço fora do espaço. Regresso ao meu Cabeço de Mouros, olho a Torca do outro lado do rio, terra de lendas enigmáticas, de encantos e de mistérios. É o meu mundo. Apanho salva e anis, com um cheiro forte que penetra na pele. E a intensidade do aroma leva-me para outras paragens. Na verdade, não há palavras para descrever o cheiro do mosto no Alto Douro Vinhateiro. Olho o rio, enquanto saboreio o vinho mais conhecido de Portugal que, na verdade, não é do Porto mas de Trás-os-Montes e Alto Douro. É Equinócio de Outono na bela cidade da Régua. Os dias sucedem-se na sua fase decrescente da roda do ano, o mundo tem agora cores em maravilhosos tons de terra, cores de outubro, cheira a terra lavrada e ao fumo das primeiras fogueiras. É chegada a festa das maçãs. E o ciclo termina.