Tuesday, January 26, 2010

Invoco e louvo o Espírito dos Antepassados

O que podem ser os mouros da tradição popular

“As tradições populares, a que anda ligado o nome de mouros, são alguns séculos mais velhas que a aparição dos mouros (árabes) na Península; ou, para tirarmos a esta afirmativa o seu ar paradoxal, o nome de mouros intrometeu-se sub-repticiamente num corpo de tradições, que estavam formadas, muito antes da invasão árabe na Espanha.” (…) “Assim os monumentos atribuídos aos mouros não só estavam em ruínas muito antes da aparição dos mouros no nosso país, mas as tradições, que neles se localizaram, ou nunca se formariam, ou datam necessariamente do dia em que o paganismo, deixando de ser uma realidade, começou a entrar na sua elaboração lendária.” (…) “Como o nome de mouro veio ingerir-se e dominar nas legendas do velho mundo pagão, é o que o mesmo nome de pagão nos parece explicar. Pagão era, como se sabe, a denominação favorita, dada pelos cristãos aos religionários que eles vieram destronar. Ora que este nome não somente estava em uso ao tempo da invasão do árabes, mas que foi, conjuntamente com o de mouros, transferido para os árabes, vê-se tanto pelas antigas crónicas (Chronicon Conimbricense, etc.); como pelos instrumentos públicos (Viterbo, Eluc., V. Terra de pagons). Os nomes de mouro e pagão tornaram-se sinónimos, e, como quase sempre sucede no conflito de dois sinónimos, prevaleceu o vocábulo que tinha por si uma realidade objectiva: o nome abstracto de pagão desaparece, o étnico de mouro fica, substituindo aquele em todas as suas aplicações, sem embargo dos mais grosseiros Anacronismos.” (…) “Pois que contra esta identificação não reagiu a qualidade de estrangeiro, saliente no árabe, claro é que a reminiscência do laço étnico, que prendia os construtores dos antigos monumentos do nosso país aos seus subsequentes habitantes, estava completamente obliterada. Este fenómeno, a muitos respeitos deplorável, é um produto legitimo da revolução cristã. A vitória do Cristianismo tinha como resultado infalível abrir um abismo profundo entre a geração, que o abraçou definitivamente, e as gerações passadas, que o haviam combatido: dum lado a cidade de Deus, doutro a cidade dos demónios. A negação de todo o parentesco moral entre o cristão e o pagão continha em si a tendência para a negação de todo o parentesco material, e esta tendência apenas podia ser contrariada pela autenticidade das tradições genealógicas. Mas este elemento de resistência, que só conseguiria tirar forças da perpetuidade do velho culto dos mortos, dissolve-se depressa em virtude do facto contrário: as gerações cristãs não só não tinham que ir fazer aos túmulos dos seus passados, mas deviam esforçar-se por esquecer quanto antes aquela desonrosa ascendência. Concebe-se pois uma época, em que os pagãos, esses fautores duma civilização destruída e amaldiçoada, que se sumiram no nada sem deixar representantes, nem, ao que parecia, descendentes, comecem a desenhar-se no vago do passado, como um povo, a todas as luzes estranho aos povos cristãos, e principalmente notável pela guerra ímpia, feita ao Cristo e à sua Igreja — característica que é a afinidade electiva e única que os aproxima dos mouros e determina a sua identificação com eles. Contra a indiferença, com que a tradição popular deixa cair no olvido as suas origens étnicas, parece protestar o vivo interesse, que ela consagra às histórias dos «mouros encantados», e o zelo com que no-las tem transmitido de geração em geração.” (…) “Lembremos que o Cristianismo acreditava tão deveras na realidade dos deuses pagãos e no seu poder taumatúrgico, como os próprios pagãos. O que os propagandistas da religião nova não concediam era a sua natureza divina. Tinham-nos por demónios. Mas, deuses, ou demónios, eram imortais, de sorte que a crença popular nestas entidades sobre-humanas e nos seus milagres não tinha sido ofendida no essencial, antes fora robustecida com uma consagração solene e insuspeita. E o que se vê também é que esta crença manteve uma independência tal qual contra o ensino da Igreja. Esta não pôde naturalizar os velhos deuses no pandemónio católico, pois que os vemos hoje ainda, bem que sombras duma sombra, nos mesmos lugares das suas antigas glórias (Fontes, etc.), sem feição alguma que os assemelhe ao diabo.” (…) “Resulta do que fica dito, que neste mundo de mouros encantados se amontoam muitíssimas reminiscências do antigo mundo pagão, e só do mundo pagão, numa confusão aparente, que a crítica está no caso de deslindar. O que há aí de realmente histórico é a memória dum povo, hostil ao Cristianismo, que deixou inumeráveis vestígios da sua existência nos mil monumentos em ruínas dispersos pelo país — os Pagãos.”

Excertos do texto de Martins Sarmento, O que podem ser os mouros da tradição popular, 1881.
Texto integral aqui.

Fica também um texto de André Pena, sobre os mouros galegos.

E para terminar, deixo o link para um bela compilação de lendas de mouros na região de Trás-os-Montes.

Wednesday, December 30, 2009

Peregrinos

«Vamos dedicar um pensamento a todos aqueles que, século após século, tomavam o bordão do peregrino, fossem pagãos ou cristãos, e partiam por estradas, que mal chegavam a ser trilhos, através de rios, que quase se não podiam vadear, pelo meio de florestas, onde o lobo caçava em alcateias, através de pauis de lama movediça, onde se enluravam serpentes-de-água venenosas: sujeitos à chuva, aos temporais ventosos, ao granizo saraivante, atingidos pelo sol ou gelados pelo frio, tendo à noite, como único abrigo, a fralda do hábito puxada por cima da cabeça; tudo isto depois de deixarem lar e família sem saber se os voltavam a ver, para chegar - pelo menos uma vez na vida - a um lugar onde habitava a divindade.»

Louis Charpentier, Les Mystéres de la Cathédrale de Chartres

Ao visitarmos os lugares sagrados recebemos a energia do lugar, mas também nós deixamos lá a nossa energia.
Interrogo-me se, nos tempos modernos de conforto e facilidade de acesso aos antigos lugares sagrados, não nos fará falta a longa, difícil e árdua peregrinação?

Senhora da Barca

Monday, December 21, 2009

Feliz Solstício!

Desejo a todos um Abençoado Solstício, que a Luz esteja sempre presente nas vossas vidas.

E que haja alegria!...





Tuesday, December 15, 2009

KYMATICA

Kymatica, é o novo filme de Ben Stewart, músico e filósofo, criador do controverso Esoteric Agenda. Se é verdade que Ben Stewart insiste na teoria da conspiração e está muito voltado para os Estados Unidos, e nem tudo o que diz parece ser credível, também é verdade que nos incita a assumirmos as nossas repsonsabilidades e que nos apresenta uma visão diferente de vários temas espirituais.

Kymatica é um documentário de 2009 muito interessante e inovador, ainda que bastante controverso e, por vezes, pouco documentado. Mas, que nos apresenta ideias que merecem refexão. E que nos dá uma visão abrangente da espiritualidade, centrando-se na humanidade como um todo, focando a ideia da evolução e salvação de toda a humanidade e não tanto de cada indivíduo isolado.

Cymatics, do grego “κύμα” (kyma), que significa onda, e “τα κυματικά” (ta kymatica), que significa assuntos relativos às ondas, é o estudo dos fenómenos de onda.

Kymatica no youtube, traduzido.

Quanto a mim, confesso que me identifico com muito do que foi apresentado neste documentário, mas também há pensamentos do Ben Stewart que eu não partilho, de modo nenhum. E, se hoje fico por aqui, em futuros posts apresentarei a minha reflexão sobre alguns dos temas de Kymatica.

Monday, December 14, 2009

E se a vida fosse apenas uma viagem?

"Bill Hicks costumava terminar os seus espectáculos assim: a vida é como uma viagem num parque de diversões. E quando optas por viajar, julgas ser real, pois é o quanto poderosas as nossas mentes são. Na viagem, sobes e desces, andas às voltas, tens emoções fortes e é muito brilhante e colorida. Há muito barulho e é divertido por um bocado.

Alguns viajam há muito tempo e começam a questionar: será isto real? Ou é só uma viagem?

E outros lembram-se, viram-se para nós e dizem:

- Ei, não te preocupes, não tenhas medo, nunca. Isto é só uma voltinha.

E matamos essas pessoas.

- Calem-no! Investi imenso nesta viagem, calem-no! Olhem para a minha conta bancária e para a minha família... isto tem que ser real.

E é só uma voltinha. Mas matamos sempre aquelas boas pessoas que nos dizem: já reparaste?

Mas não importa, porque é só uma viagem. E podemos mudá-la sempre que quisermos.

É apenas uma escolha. Sem esforço, sem trabalho, sem profissão, sem poupanças. Só uma escolha, agora mesmo. Uma escolha entre o medo e o amor."


Retirado do filme Zeitgeist, disponível no google. Versão portuguesa aqui.

Friday, December 11, 2009

Espaço-tempo mágico

Seguindo a ideia de Mircea Eliade, eu costumo usar a definição de espaço-tempo mágico como o universo do aqui e agora. Nesta formulação, todos os instantes e todos os lugares são solidários, isto é, existem em simultâneo. Neste universo tudo é possível, e nós somos verdadeiros criadores.

Mas vamos lá tentar explicar isto um pouco melhor. :)

Em primeiro lugar, convém que estejamos familiarizados com a noção de espaço curvo. E nem sempre estamos. Pensamos muitas vezes em termos de geometria plana, como se fosse tudo o que existe, mas não é assim. A geometria plana é a que nos foi ensinada pelo matemático grego Euclides, há mais de 2000 anos. Sem dúvida muito útil. Mas não é uma formulação única. Einstein descobriu que as leis da geometria plana, ou euclidiana, são válidas apenas em regiões restritas do espaço, não se aplicando ao universo em larga escala.

Devemos ter em atenção que quando dizemos, por exemplo, que a soma dos 3 ângulos de um triângulo é 180º, que isso é verdadeiro, mas só é verdadeiro na geometria plana, isto é, só é verdadeiro nas superfícies da geometria plana. Numa superfície da geometria curva, estes cálculos não são correctos. E se na relatividade especial, as propriedades métricas implicam que o espaço-tempo é geometricamente plano, na relatividade geral, apresentam-nos um espaço-tempo curvo. E lá porque não somos capazes de imaginar um espaço curvo tridimensional, isso não quer dizer que não exista ou que não possa existir. É um bocado como a ideia que temos da terra: quando andamos na rua da nossa cidade, o mundo parece-nos plano, mas quando o vemos do espaço, vemo-lo curvo.

A relatividade geral apresenta igualmente uma nova conceptualização do tempo, o tempo e o espaço tridimensional passam a ser visualizados matematicamente como uma estrutura única, de quatro dimensões, chamada espaço-tempo. Um acontecimento seria assim um ponto no espaço-tempo. Mas pontos no espaço-tempo também são chamados eventos. Cada evento ou acontecimento é, então, definido por quatro coordenadas, referindo uma delas a velocidade com que um observador se move no tempo.

Consideremos, agora, que aumentamos a velocidade com que um observador se move no tempo, até atingirmos a velocidade da luz. Que aconteceria? Depararíamos com a fronteira que a ciência chama de horizonte de evento, ou horizonte de acontecimento. Todo o nosso universo observável aparece, assim, limitado pela fronteira do horizonte de acontecimento. Não se trata de uma fronteira física, é o ponto de mudança, a partir do qual as concepções de espaço e de tempo, tal como as consideramos no nosso dia-a-dia, pura e simplesmente deixam de funcionar.

Num espaço curvo, atravessando a fronteira que é o horizonte de acontecimento, poderíamos entrar no mundo do aqui e agora, onde todos os espaços e todos os instantes são solidários, ou seja, são o mesmo espaço e o mesmo instante. Tudo é aqui e agora.

Em termos físicos, nem o nosso corpo nem a nossa mente poderiam sobreviver à passagem do horizonte de acontecimento, mas e o nosso espírito, a nossa alma? Poderemos considerar a hipótese do nosso espírito abandonar o nosso corpo e a nossa mente e, sozinho, ultrapassar a velocidade da luz e atravessar o horizonte de acontecimento, entrando assim no espaço-tempo mágico?

Le villi, 1906 by Bartolomeo Giuliano.