Friday, October 29, 2010
Thursday, October 21, 2010
Lua Cheia de Samhain
Deparei com uma tese de mestrado sobre rituais do dia dos mortos, em que a autora diz claramente que Samhain era “celebrado no dia 1 de Novembro ou no dia, mais próxima desta data, em que surgia a lua nova”, não apresentando sequer outra possibilidade. Creio que há alguns sites new age que difundem esta ideia, sobretudo porque a lua nova parece mais apropriada, tratando-se de um início de ciclo. Eu não concordo. E, na verdade, também é possível encontrar defensores de outras opiniões. Vejamos um exemplo retirado da internet: “the Coligny calendar seems to indicate that the Samhain festival was celebrated on the day after the full moon” – Fonte: http://druidjournal.net/2009/02/11/the-coligny-calendar/
Data: 11 de Fevereiro de 2009.
Por sua vez, na introdução ao livro de Jean Markale, A Grande Epopeia dos Celtas, publicado pela Ésquilo, Paul Fetan diz que “sendo um facto que o ano celta possuía doze meses lunares, mais um mês intercalar para alcançar o ciclo solar, e que cada mês começava com a lua cheia, as festas de Samain e de Beltaine não calhavam em datas fixas: será mais concreto dizer «na lua cheia mais próxima do 1º de Novembro ou do 1º de Maio»”.
Contudo, há que dizê-lo, tudo isto são possibilidades, não há nenhuma certeza. Também há quem defenda que os meses para os celtas começavam com a lua nova, mas mesmo nesse caso, continua a haver quem pense que os festivais ocorriam na lua cheia: “There is some actual evidence that the Celts who used the Coligny style lunar calendar actually held their holy festivals in the middle of the month (presumably on the full moon).” – Fonte: http://technovate.org/web/coligny.htm
Data: 22 de Novembro de 2001.
Em qualquer caso, na minha opinião, e vivendo eu nas terras da Galécia, faz todo o sentido seguir um padrão antigo e celebrar na lua cheia, uma vez que sabemos que já em tempos imemoriais por aqui se celebrava a lua cheia, como refere este post: http://pedraserpe.blogspot.com/2010/07/culto-lua.html
Data: 19 de Julho de 2010.
Mangetsu Full Moon by Yajuro Takashima, 1963.
Data: 11 de Fevereiro de 2009.
Por sua vez, na introdução ao livro de Jean Markale, A Grande Epopeia dos Celtas, publicado pela Ésquilo, Paul Fetan diz que “sendo um facto que o ano celta possuía doze meses lunares, mais um mês intercalar para alcançar o ciclo solar, e que cada mês começava com a lua cheia, as festas de Samain e de Beltaine não calhavam em datas fixas: será mais concreto dizer «na lua cheia mais próxima do 1º de Novembro ou do 1º de Maio»”.
Contudo, há que dizê-lo, tudo isto são possibilidades, não há nenhuma certeza. Também há quem defenda que os meses para os celtas começavam com a lua nova, mas mesmo nesse caso, continua a haver quem pense que os festivais ocorriam na lua cheia: “There is some actual evidence that the Celts who used the Coligny style lunar calendar actually held their holy festivals in the middle of the month (presumably on the full moon).” – Fonte: http://technovate.org/web/coligny.htm
Data: 22 de Novembro de 2001.
Em qualquer caso, na minha opinião, e vivendo eu nas terras da Galécia, faz todo o sentido seguir um padrão antigo e celebrar na lua cheia, uma vez que sabemos que já em tempos imemoriais por aqui se celebrava a lua cheia, como refere este post: http://pedraserpe.blogspot.com/2010/07/culto-lua.html
Data: 19 de Julho de 2010.
Mangetsu Full Moon by Yajuro Takashima, 1963.
Tuesday, October 19, 2010
Aveledas
“(…) O abade de Baçal, no artigo Toponímia, suas Memórias Histórico-Arqueológicas do Distrito de Bragança, tomo X, e na rubrica Aveleda, citando o Padre Pedro Augusto Ferreira (Portugal Antigo e Moderno) diz: «no seu entender, o nome de Aveleda deriva da sacerdotisa druídica que, por exercer suas funções nestes sítios, ou lá ter habitado, ou por outras razões, ligadas ao seu culto, lho legou. Deve notar-se que o nome Veleda se tornou depois comum às diversas sacerdotisas druídicas».
A Veleda primacial, famosa profetisa dos germanos, viveu no tempo de Vespasiano (7-79, anos de Cristo) e foi adorada como divindade depois de morta. (…)
Memória desta função feminina, de ver o oculto surgindo ligado às aveleiras, o podemos encontrar nesse nosso tesouro de ritos arcaicos, as cantigas de Amigo trovadorescas, onde ao vivo essas Aveledas nos surgem ainda como celebrantes. Na cantiga de João Zorro:
Bailemos agora, por deus, ai velidas,
So aquestas avelaneiras froridas…
Bailemos agora, por deus, ai louçanas,
So aquestas avelaneiras granadas…
Ou na cantiga de Aires Nunes, que D. Carolina Michaëlis considera como do mais antigo que subsiste na nossa poesia popular, em que «huã pastor» canta:
Ay estorninho do auelanedo,
cantades uós, e moyro eu e peno,
d’amores ey mal!...
e fazi uã guirlanda de flores;
e des y choraua muy de coração
e dizia este cantar enton:
Que coyta ey tan grande de sofrer!
Amar amigú e non ousar ueer
E pousarey so auelanal.
Bosque de aveleiras, aqui. Mas sempre como memória do bosque sagrado, lugar privilegiado de culto dos celtas: o nemetom. Do qual teria ficado memória no nome duma cidade da Gallaecia, segundo Ptolomeu: Nemetobriga.
Vestígios dum cenário ritual celebrado por mulheres consagradas adoradoras da Grande-Deusa, tal nos deverão surgir estas cantigas.
E lembrança perenizada destas mulheres, então na sua função de iniciadoras e mistagogas, perpassará, ainda intacta, num dos nossos romances místicos da Idade Média, de origem celta, e um dos mais lidos pelo homem português, o Conto do Amaro. Em que uma solitária, Valides, trazendo assim talvez e ainda no seu nome, toda a sua pertença a essa longa teoria de mulheres sagradas, memorizadas na toponímia galaico-portuguesa, conduz ao paraíso terrestre o santo herói da aventura: como iniciadora nos mais altos mistérios da vida e da morte. (…)
Será ainda um poeta absoluto, Gil Vicente, que nos irá dar outro testemunho de uma iniciação tradicional, incluindo o poder profético, incumbido a uma mulher: no auto da Lusitânia (…). A descrição dessa iniciação, trará em si todo o cenário terrífico próprio desse acto supremo, e com todos os sinais de sua veracidade: um arrebatamento, súbito, anulando o estado quotidiano corpóreo do iniciado, a passagem por um bosque, o aspecto infernal, desse lugar de saber supremo, assim como a denominação diabólica dessa iniciadora, como desvalorização de época religiosa pretérita. Assim o autor relata pela boca do Licenciado, sua iniciação:
Dizem que achou o diabo
Em figura de donzela,
E elle namorou-se della:
Porem ella
Era diabo encantado
Levou-o a huns arvoredos;
Vai a dama assi a furto
E alevanta os cotovelos,
E levou-o pelos cabelos,
E fez-lhe o pescoço curto.
E mete-o logo essora,
Sem lhe valerem seus gritos,
Aonde a Sebila mora,
Encantada encantadora,
Antre os malinos espritos
E ali foi ensinado
Sete anos e mais hum dia.
E da Sebila informado
Dos segredos que sabia
Do antigo tempo passado.
Em especial
O antigo Portugal,
Lusitânia que coisa era,
E seu original.
Mas voltemos mais uma vez à iniciadora de Amaro. Valides aqui, possuirá ainda as mesmas atribuições de iniciadora; e nas suas mãos, ela deterá o ramo mágico que permite a entrada no Outro Mundo (…)
Profetisa, solitária e mistagoga, iniciada na sua mais alta sapiência, mulher eleita, a quem Deus fez conhecer o paraíso, ou, como a Ninfa, Tétis, que recolhe o saber profético «no Reino fundo», por Júpiter. Valides mostra-se com todos os atributos que já conhecemos dessas mulheres detentoras da sapiência suprema e das funções as mais altas dentro da sociedade celta. (…)”
Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada, Lello & Irmão Editores, Porto, 1984, Pag. 208, 209, 210, 211 e 212.
A Veleda primacial, famosa profetisa dos germanos, viveu no tempo de Vespasiano (7-79, anos de Cristo) e foi adorada como divindade depois de morta. (…)
Memória desta função feminina, de ver o oculto surgindo ligado às aveleiras, o podemos encontrar nesse nosso tesouro de ritos arcaicos, as cantigas de Amigo trovadorescas, onde ao vivo essas Aveledas nos surgem ainda como celebrantes. Na cantiga de João Zorro:
Bailemos agora, por deus, ai velidas,
So aquestas avelaneiras froridas…
Bailemos agora, por deus, ai louçanas,
So aquestas avelaneiras granadas…
Ou na cantiga de Aires Nunes, que D. Carolina Michaëlis considera como do mais antigo que subsiste na nossa poesia popular, em que «huã pastor» canta:
Ay estorninho do auelanedo,
cantades uós, e moyro eu e peno,
d’amores ey mal!...
e fazi uã guirlanda de flores;
e des y choraua muy de coração
e dizia este cantar enton:
Que coyta ey tan grande de sofrer!
Amar amigú e non ousar ueer
E pousarey so auelanal.
Bosque de aveleiras, aqui. Mas sempre como memória do bosque sagrado, lugar privilegiado de culto dos celtas: o nemetom. Do qual teria ficado memória no nome duma cidade da Gallaecia, segundo Ptolomeu: Nemetobriga.
Vestígios dum cenário ritual celebrado por mulheres consagradas adoradoras da Grande-Deusa, tal nos deverão surgir estas cantigas.
E lembrança perenizada destas mulheres, então na sua função de iniciadoras e mistagogas, perpassará, ainda intacta, num dos nossos romances místicos da Idade Média, de origem celta, e um dos mais lidos pelo homem português, o Conto do Amaro. Em que uma solitária, Valides, trazendo assim talvez e ainda no seu nome, toda a sua pertença a essa longa teoria de mulheres sagradas, memorizadas na toponímia galaico-portuguesa, conduz ao paraíso terrestre o santo herói da aventura: como iniciadora nos mais altos mistérios da vida e da morte. (…)
Será ainda um poeta absoluto, Gil Vicente, que nos irá dar outro testemunho de uma iniciação tradicional, incluindo o poder profético, incumbido a uma mulher: no auto da Lusitânia (…). A descrição dessa iniciação, trará em si todo o cenário terrífico próprio desse acto supremo, e com todos os sinais de sua veracidade: um arrebatamento, súbito, anulando o estado quotidiano corpóreo do iniciado, a passagem por um bosque, o aspecto infernal, desse lugar de saber supremo, assim como a denominação diabólica dessa iniciadora, como desvalorização de época religiosa pretérita. Assim o autor relata pela boca do Licenciado, sua iniciação:
Dizem que achou o diabo
Em figura de donzela,
E elle namorou-se della:
Porem ella
Era diabo encantado
Levou-o a huns arvoredos;
Vai a dama assi a furto
E alevanta os cotovelos,
E levou-o pelos cabelos,
E fez-lhe o pescoço curto.
E mete-o logo essora,
Sem lhe valerem seus gritos,
Aonde a Sebila mora,
Encantada encantadora,
Antre os malinos espritos
E ali foi ensinado
Sete anos e mais hum dia.
E da Sebila informado
Dos segredos que sabia
Do antigo tempo passado.
Em especial
O antigo Portugal,
Lusitânia que coisa era,
E seu original.
Mas voltemos mais uma vez à iniciadora de Amaro. Valides aqui, possuirá ainda as mesmas atribuições de iniciadora; e nas suas mãos, ela deterá o ramo mágico que permite a entrada no Outro Mundo (…)
Profetisa, solitária e mistagoga, iniciada na sua mais alta sapiência, mulher eleita, a quem Deus fez conhecer o paraíso, ou, como a Ninfa, Tétis, que recolhe o saber profético «no Reino fundo», por Júpiter. Valides mostra-se com todos os atributos que já conhecemos dessas mulheres detentoras da sapiência suprema e das funções as mais altas dentro da sociedade celta. (…)”
Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada, Lello & Irmão Editores, Porto, 1984, Pag. 208, 209, 210, 211 e 212.
Sunday, August 01, 2010
Thursday, July 29, 2010
Espírito do Carvalho de Calvos
É quase Lughnasadh outra vez. No ano passado, foi para mim um momento de profundo desespero, de um sofrimento quase impossível de suportar. Mas, ao mesmo tempo, foi um intenso momento de mudança. Ainda que na altura eu não soubesse, o sofrimento terminou nesse momento. O meu longo, muito longo lamento foi ouvido e as minhas preces foram atendidas.
O Lughnsadh de 2009 criou entre mim e o Carvalho de Calvos uma ligação indelével. É certo que já antes gostava desta majestosa árvore, mas ainda não fazia parte de mim. Nem do meu filho. Algumas semanas depois, levei lá o meu menino, que logo agarrou, com as suas mãos pequeninas que mal agarravam coisa alguma, uma pequena saliência do tronco deste Velho.
Este ano, pensei em levar lá alguns amigos, celebrar e falar-lhe do Espírito do Velho Carvalho, contudo, sei bem que isso é ainda e só a minha crença, a minha religião. E aquilo que faz sentido para mim, não faz para os outros. Nem tinha que fazer.
Na verdade, não sei como vai ser, o que farei ou onde estarei no próximo Lughnasadh, mas, esteja eu onde estiver, neste e nos anos vindouros, no Lughnasadh o meu coração estará sempre com o Carvalho de Calvos.
Excerto de um texto publicado num fórum no ano passado:
Na véspera do Lughnasadh, o meu marido deixou-me no hospital e foi procurar um lugar para estacionar o carro. Até ali aquilo nunca tinha acontecido, entrávamos sempre juntos. Nesse dia cheguei sozinha, mas a verdade é que nem me deixaram entrar na sala da neonatologia, uma enfermeira veio ter comigo e disse-me que o meu filho tinha tido novamente uma recaída, estava com outra infecção generalizada. Entrei e vi o meu filho com o soro nas veias da cabeça - já tinha sido tantas vezes picado que não havia mais veias que se pudessem usar. Não consegui aguentar mais! Poucos minutos depois estava já a sair do hospital, cruzei-me com o meu marido que estava a entrar... sabia bem que fugia, mas não sabia como não fugir.
Andei a vaguear pelas ruas, completamente perdida e acabei por entrar na Sé. Sentei-me num canto e chorei. O meu choro rapidamente se tornou incontrolável. Entretanto, alguém me tocou no ombro, uma, duas vezes... ainda a soluçar olhei para cima, vi uma mulher que me perguntou se eu sabia a que horas era a próxima missa. Eu fiquei tão estupefacta que ela repetiu a pergunta. Ainda a chorar, disse que não e ela afastou-se. Sem sequer me agradecer ou pedir desculpa pelo incómodo... fiquei arrepiada e apressei-me a sair dali. Continuei sempre a chorar, enquanto andava pelas ruas, sem destino.
Mais tarde, fui até ao Carvalho de Calvos. Onde mais poderia ir? Cheguei e o parque estava completamente vazio. Descalcei-me e entrei de imediato na fenda do carvalho, sentei-me e encostei-me lá dentro, bem no fundo, completamente dentro do velho carvalho. Dois ou três minutos depois, apareceu uma mulher velha que me perguntou o que eu fazia ali, disse-lhe que precisava estar ali um bocadinho. E ela disse-me que eu não podia ficar dentro do carvalho, mas foi-se embora e eu pensei que me estava a conceder aqueles minutos... logo de seguida, apareceram outras duas mulheres, uma delas era uma adolescente, a outra mais velha, foi essa que falou e exigiu que eu saísse de dentro do carvalho. Horrorizada, reconheci a Deusa na sua face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Comecei novamente a chorar, pedi-lhe que me deixasse estar lá só um bocadinho, disse que já não aguentava mais... mas a mulher foi irredutível e continuou a exigir a minha saída. Saí, porque a Deusa assim o queria. A mulher ainda me perguntou se eu queria ir até ao café conversar... claro que não quis. Foram para o tal café lá no parque e eu afastei-me do carvalho... Nem sei dizer o que senti. Era como se tivesse deixado de haver chão debaixo de mim e eu estivesse permanentemente em queda livre.
Sentei-me no chão, fechei os olhos e recusei-me a pensar fosse o que fosse. Só queira ficar assim um bocadinho, antes de me ir embora... Mas fui ficando, apareceram algumas pessoas, que rapidamente se foram embora. E, por maior que fosse o meu desespero, a verdade é que eu já não tinha qualquer contacto com a natureza há muito tempo, tanto tempo que aquele bocado no parque, apesar de todas as circunstâncias, era algo que parecia entrar dentro de mim, ligando-me à Terra e não me deixando sair dali. Ainda hesitante, voltei para junto do carvalho... e fiquei lá imenso tempo, deitada no chão e de olhos fechados, esforçando-me por não pensar em nada. Até que ouvi novamente a voz da mulher velha, que me disse que estavam a fechar o bar e que se iam embora. Entendi o que estava implícito: se eu ainda quisesse voltar para dentro do carvalho, já o podia fazer. Fiquei admiradíssima. Agradeci e ela foi-se embora, não sem antes me desejar que tudo me corresse bem.
Algum tempo depois, entrei de novo no carvalho. Fiz o meu ritual. Um longo, longo ritual. O meu primeiro ritual desde que o meu filho tinha nascido. Ninguém me perturbou. Quando decidi que era altura de sair do carvalho, senti imensos pingos, não sei bem de quê, a caírem em cima de mim ... aceitei-os como um bom presságio. Nesse momento, acreditei que tudo iria correr bem.
No dia seguinte, no hospital, disseram-nos que afinal já estava tudo bem com o meu filho. Ainda continuou mais algum tempo na neonatologia, mas sempre sem perigo, era ainda muito pequeno e só podia ser alimentado pela sonda. Até que chegou o tempo em que teve finalmente alta, veio para casa e tudo corre bem, com a graça dos Deuses. E eu continuo profundamente agradecida ao Espírito do Carvalho de Calvos.
O Lughnsadh de 2009 criou entre mim e o Carvalho de Calvos uma ligação indelével. É certo que já antes gostava desta majestosa árvore, mas ainda não fazia parte de mim. Nem do meu filho. Algumas semanas depois, levei lá o meu menino, que logo agarrou, com as suas mãos pequeninas que mal agarravam coisa alguma, uma pequena saliência do tronco deste Velho.
Este ano, pensei em levar lá alguns amigos, celebrar e falar-lhe do Espírito do Velho Carvalho, contudo, sei bem que isso é ainda e só a minha crença, a minha religião. E aquilo que faz sentido para mim, não faz para os outros. Nem tinha que fazer.
Na verdade, não sei como vai ser, o que farei ou onde estarei no próximo Lughnasadh, mas, esteja eu onde estiver, neste e nos anos vindouros, no Lughnasadh o meu coração estará sempre com o Carvalho de Calvos.
Excerto de um texto publicado num fórum no ano passado:
Na véspera do Lughnasadh, o meu marido deixou-me no hospital e foi procurar um lugar para estacionar o carro. Até ali aquilo nunca tinha acontecido, entrávamos sempre juntos. Nesse dia cheguei sozinha, mas a verdade é que nem me deixaram entrar na sala da neonatologia, uma enfermeira veio ter comigo e disse-me que o meu filho tinha tido novamente uma recaída, estava com outra infecção generalizada. Entrei e vi o meu filho com o soro nas veias da cabeça - já tinha sido tantas vezes picado que não havia mais veias que se pudessem usar. Não consegui aguentar mais! Poucos minutos depois estava já a sair do hospital, cruzei-me com o meu marido que estava a entrar... sabia bem que fugia, mas não sabia como não fugir.
Andei a vaguear pelas ruas, completamente perdida e acabei por entrar na Sé. Sentei-me num canto e chorei. O meu choro rapidamente se tornou incontrolável. Entretanto, alguém me tocou no ombro, uma, duas vezes... ainda a soluçar olhei para cima, vi uma mulher que me perguntou se eu sabia a que horas era a próxima missa. Eu fiquei tão estupefacta que ela repetiu a pergunta. Ainda a chorar, disse que não e ela afastou-se. Sem sequer me agradecer ou pedir desculpa pelo incómodo... fiquei arrepiada e apressei-me a sair dali. Continuei sempre a chorar, enquanto andava pelas ruas, sem destino.
Mais tarde, fui até ao Carvalho de Calvos. Onde mais poderia ir? Cheguei e o parque estava completamente vazio. Descalcei-me e entrei de imediato na fenda do carvalho, sentei-me e encostei-me lá dentro, bem no fundo, completamente dentro do velho carvalho. Dois ou três minutos depois, apareceu uma mulher velha que me perguntou o que eu fazia ali, disse-lhe que precisava estar ali um bocadinho. E ela disse-me que eu não podia ficar dentro do carvalho, mas foi-se embora e eu pensei que me estava a conceder aqueles minutos... logo de seguida, apareceram outras duas mulheres, uma delas era uma adolescente, a outra mais velha, foi essa que falou e exigiu que eu saísse de dentro do carvalho. Horrorizada, reconheci a Deusa na sua face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Comecei novamente a chorar, pedi-lhe que me deixasse estar lá só um bocadinho, disse que já não aguentava mais... mas a mulher foi irredutível e continuou a exigir a minha saída. Saí, porque a Deusa assim o queria. A mulher ainda me perguntou se eu queria ir até ao café conversar... claro que não quis. Foram para o tal café lá no parque e eu afastei-me do carvalho... Nem sei dizer o que senti. Era como se tivesse deixado de haver chão debaixo de mim e eu estivesse permanentemente em queda livre.
Sentei-me no chão, fechei os olhos e recusei-me a pensar fosse o que fosse. Só queira ficar assim um bocadinho, antes de me ir embora... Mas fui ficando, apareceram algumas pessoas, que rapidamente se foram embora. E, por maior que fosse o meu desespero, a verdade é que eu já não tinha qualquer contacto com a natureza há muito tempo, tanto tempo que aquele bocado no parque, apesar de todas as circunstâncias, era algo que parecia entrar dentro de mim, ligando-me à Terra e não me deixando sair dali. Ainda hesitante, voltei para junto do carvalho... e fiquei lá imenso tempo, deitada no chão e de olhos fechados, esforçando-me por não pensar em nada. Até que ouvi novamente a voz da mulher velha, que me disse que estavam a fechar o bar e que se iam embora. Entendi o que estava implícito: se eu ainda quisesse voltar para dentro do carvalho, já o podia fazer. Fiquei admiradíssima. Agradeci e ela foi-se embora, não sem antes me desejar que tudo me corresse bem.
Algum tempo depois, entrei de novo no carvalho. Fiz o meu ritual. Um longo, longo ritual. O meu primeiro ritual desde que o meu filho tinha nascido. Ninguém me perturbou. Quando decidi que era altura de sair do carvalho, senti imensos pingos, não sei bem de quê, a caírem em cima de mim ... aceitei-os como um bom presságio. Nesse momento, acreditei que tudo iria correr bem.
No dia seguinte, no hospital, disseram-nos que afinal já estava tudo bem com o meu filho. Ainda continuou mais algum tempo na neonatologia, mas sempre sem perigo, era ainda muito pequeno e só podia ser alimentado pela sonda. Até que chegou o tempo em que teve finalmente alta, veio para casa e tudo corre bem, com a graça dos Deuses. E eu continuo profundamente agradecida ao Espírito do Carvalho de Calvos.
Wednesday, May 26, 2010
Linha Ley
A terminologia linha ley foi criada pelo inglês Watkins, no início do século XX, para designar «antigos caminhos em linha recta». Watkins considerava que «os antigos caminhos rectilíneos eram tão velhos para os romanos como as estradas destes são para nós». Watkins escolheu o nome «ley» para estes antigos caminhos porque, sob a forma de sufixo, este topónimo aparecia frequentemente nos locais por onde estes velhos caminhos passavam. Mas, mesmo Watkins considerava que estes velhos caminhos deveriam ter tido também algum significado religioso, dado que os poços sagrados, os círculos de pedras e os bosques sagrados conhecidos surgiam nas imediações ou no próprio traçado destes caminhos.
Assim, na teoria de Watkins, uma linha ley é um alinhamento, um caminho construído de pontos avistáveis entre si. A teoria de Watkins foi rejeitada pela arqueologia, sobretudo proque estes alinhamentos incluíam elementos de períodos arqueológicos diferentes.
Actualmente, temos ainda um grupo que se mantém rigidamente fiel à interpretação de Watkins das linhas leys, definindo-as como caminhos, alinhamentos de locais. Contudo, existe outro grupo que interpreta os alinhamentos do tipo identificado por Watkins como provas da existência daquilo a que chamam as «leys de energia». Aqui as linhas ley são consideradas para lá da teoria inicial do seu criador, sendo vistas não como caminhos, mas como linhas de energia telúrica. É esta a escola que eu defendo.
Resta ainda dizer que a procura de linhas ley faz-se no terreno, ligando lugares antigos, sendo que os diversos sítios terão sempre que ser avistáveis entre si, estando cada um colocado exactamente na linha de horizonte do anterior. Em certos lugares haverá a intersecção de várias linhas ley, esses são os lugares especiais, os lugares mágicos.
Fairies bewitching a traveller in a moonlit forest by Johann Georg Mohr (1864-1943).
Assim, na teoria de Watkins, uma linha ley é um alinhamento, um caminho construído de pontos avistáveis entre si. A teoria de Watkins foi rejeitada pela arqueologia, sobretudo proque estes alinhamentos incluíam elementos de períodos arqueológicos diferentes.
Actualmente, temos ainda um grupo que se mantém rigidamente fiel à interpretação de Watkins das linhas leys, definindo-as como caminhos, alinhamentos de locais. Contudo, existe outro grupo que interpreta os alinhamentos do tipo identificado por Watkins como provas da existência daquilo a que chamam as «leys de energia». Aqui as linhas ley são consideradas para lá da teoria inicial do seu criador, sendo vistas não como caminhos, mas como linhas de energia telúrica. É esta a escola que eu defendo.
Resta ainda dizer que a procura de linhas ley faz-se no terreno, ligando lugares antigos, sendo que os diversos sítios terão sempre que ser avistáveis entre si, estando cada um colocado exactamente na linha de horizonte do anterior. Em certos lugares haverá a intersecção de várias linhas ley, esses são os lugares especiais, os lugares mágicos.
Fairies bewitching a traveller in a moonlit forest by Johann Georg Mohr (1864-1943).
O regresso aos rituais
Creio que chegou o tempo de vivenciarmos o ritual. Mais uma vez vou citar Tom Graves, que nos diz que uma das formas de controlarmos a matriz de energia é o ritual. Nós e a Terra-Mãe precisamos de ser curados e também eu não vejo outra solução que não seja o regresso ao ciclo eterno dos rituais mantidos pelas comunidades pagãs. Esses rituais possuem um efeito real na matriz. Mas a nossa cultura civilizada tem-se vindo a certificar de que os velhos rituais que ainda sobrevivem percam gradualmente o significado.
Possivelmente, a única atenção ritualística que a terra recebe actualmente é a libação semanal da água suja e cheia de sabão, fruto do ritual urbano do "dia das limpezas" ou do ritual suburbano da "lavagem do carro". E, quer gostemos ou não, é o que fazemos, é o que ensinamos aos nossos filhos.
Se conseguirmos ver os rituais como aquilo que eles realmente são (não como superstições ou jogos, mas sim como ferramentas ou construções com efeitos reais) poderemos então compreender a sua importância e o seu valor como parte de uma reintrodução da consciência pagã na nossa cultura civilizada padecente.
Por favor, não me digam que não acreditam na magia e no sobrenatural. Eu não quero saber. Eu não apelo à vossa fé. Apelo à acção. Eu quero que os velhos rituais se voltem a fazer, que os façam, quer acreditem neles ou não, mas que os façam... e que deixem a energia fluir.
E, de resto, o que é a magia, o que é o sobrenatural? Aquilo que negamos porque não o conseguimos explicar? Chamamos a essas coisas o «sobrenatural» e dizemos que elas não podem acontecer ou existir, dado que estão situadas para além dos limites da nossa visão limitada da Natureza que a ciência e a religião exigem. Mas, essas coisas são aspectos da realidade da Natureza, mas não são exteriores ao que é natural. Aquilo que não é natural é a nossa ciência, a nossa religião e a nossa economia. Porque todas elas são conduzidas numa total e deliberada ignorância face à Natureza, na crença ou esperança de que um dia seja ela a mudar de modo a satisfazer comodamente as nossas necessidades. Dá-nos uma agradável ilusão de controlo, mas que não é natural e que constitui uma verdadeira loucura, em todos os sentidos da palavra.
Precisamos voltar a reconhecer a velha matriz de energia que percorre os lugares antigos, que passa pelos menires e pelas antas. Precisamos recuperar o velho saber ligado à magia. É a magia (em todos os sentidos) que a nossa civilização perdeu, soterrada por coisas pouco fidedignas como a ciência ignorante e a religião arrogante. E é de magia (mais uma vez, em todos os sentidos) que a nossa civilização necessita se quiser recuperar a sua sanidade, a sua alegria e a sua razão de viver.
Se quisermos que a nossa cultura recupere os seus magos (os seus «sábios»), teremos que recuperar a nossa consciência da Natureza, a nossa consciência de mágicos. Como os mágicos e como mágicos, necessitamos de aprender a conhecer-nos. Precisamos de aprender a sentir as necessidades da terra, de modo a que possamos aprender não só a dominá-la mas também, simultaneamente, a enchê-la. Para isso são necessárias alterações radicais à nossa cosmovisão. Necessária e literalmente alterações radicais, dado que precisaremos de recuperar uma consciência das nossas raízes (quer em termos do nosso passado, quer da Natureza), de modo a torná-las realidade.
Possivelmente, a única atenção ritualística que a terra recebe actualmente é a libação semanal da água suja e cheia de sabão, fruto do ritual urbano do "dia das limpezas" ou do ritual suburbano da "lavagem do carro". E, quer gostemos ou não, é o que fazemos, é o que ensinamos aos nossos filhos.
Se conseguirmos ver os rituais como aquilo que eles realmente são (não como superstições ou jogos, mas sim como ferramentas ou construções com efeitos reais) poderemos então compreender a sua importância e o seu valor como parte de uma reintrodução da consciência pagã na nossa cultura civilizada padecente.
Por favor, não me digam que não acreditam na magia e no sobrenatural. Eu não quero saber. Eu não apelo à vossa fé. Apelo à acção. Eu quero que os velhos rituais se voltem a fazer, que os façam, quer acreditem neles ou não, mas que os façam... e que deixem a energia fluir.
E, de resto, o que é a magia, o que é o sobrenatural? Aquilo que negamos porque não o conseguimos explicar? Chamamos a essas coisas o «sobrenatural» e dizemos que elas não podem acontecer ou existir, dado que estão situadas para além dos limites da nossa visão limitada da Natureza que a ciência e a religião exigem. Mas, essas coisas são aspectos da realidade da Natureza, mas não são exteriores ao que é natural. Aquilo que não é natural é a nossa ciência, a nossa religião e a nossa economia. Porque todas elas são conduzidas numa total e deliberada ignorância face à Natureza, na crença ou esperança de que um dia seja ela a mudar de modo a satisfazer comodamente as nossas necessidades. Dá-nos uma agradável ilusão de controlo, mas que não é natural e que constitui uma verdadeira loucura, em todos os sentidos da palavra.
Precisamos voltar a reconhecer a velha matriz de energia que percorre os lugares antigos, que passa pelos menires e pelas antas. Precisamos recuperar o velho saber ligado à magia. É a magia (em todos os sentidos) que a nossa civilização perdeu, soterrada por coisas pouco fidedignas como a ciência ignorante e a religião arrogante. E é de magia (mais uma vez, em todos os sentidos) que a nossa civilização necessita se quiser recuperar a sua sanidade, a sua alegria e a sua razão de viver.
Se quisermos que a nossa cultura recupere os seus magos (os seus «sábios»), teremos que recuperar a nossa consciência da Natureza, a nossa consciência de mágicos. Como os mágicos e como mágicos, necessitamos de aprender a conhecer-nos. Precisamos de aprender a sentir as necessidades da terra, de modo a que possamos aprender não só a dominá-la mas também, simultaneamente, a enchê-la. Para isso são necessárias alterações radicais à nossa cosmovisão. Necessária e literalmente alterações radicais, dado que precisaremos de recuperar uma consciência das nossas raízes (quer em termos do nosso passado, quer da Natureza), de modo a torná-las realidade.
Excertos do livro Agulhas de Pedra de Tom Graves.
Thursday, May 13, 2010
Todos os Deuses e todas as Deusas
O sentimento pagão da divindade viva consistia sobretudo em sentir a divindade em tudo. Daí a solenidade da invocação de Demóstenes quando invocava todos os deuses e todas as deusas. Há que ter em atenção, como insiste Unamuno, que o termo deus é um adjectivo, uma qualidade predicada de cada um dos deuses, assim, o deus não é mais do que o divino. E eu não vejo que necessidade há de substantivar o termo deus, de lhe criar uma persona, de o transformar efectivamente numa personagem. A natureza divina é sempre incognoscível. Se a personalizarmos, afastamo-nos ainda mais da sua verdadeira essência. Os rótulos limitam-nos.
O Deus e a Deusa que invoco, assim, sem outras designações, são a própria consciência da Terra, na sua manifestação passada, presente e futura.
Todos os deuses e todas as deusas são a consciência total e infinita que abarca e sustenta todas as consciências, infra-humanas, humanas e sobre-humanas.
O Deus e a Deusa que invoco, assim, sem outras designações, são a própria consciência da Terra, na sua manifestação passada, presente e futura.
Todos os deuses e todas as deusas são a consciência total e infinita que abarca e sustenta todas as consciências, infra-humanas, humanas e sobre-humanas.
Memórias do Lugar
Tom Graves, no seu magnífico livro Agulhas de Pedra, dedica alguns capítulos a estas memórias do lugar.
Graves refere que um holograma óptico é uma imagem tridimensional produzida a partir de uma chapa fotográfica especial através de um processo que depende de feixes de luz que confluem um para o outro e para a referida chapa, partindo de direcções precisas. Este processo depende também dos feixes serem formados inicialmente por ondas de luz precisamente alinhadas umas com as outras. Da mesma maneira, a memória do lugar é também uma projecção feita por uma pessoa num determindo tempo e num determinado lugar, que fica arquivada numa espécie de chapa da Terra e que é projectada quando se verificarem certas condições, podendo ser vista por uma ou várias pessoas.
Existe um enorme número de tipos diferentes de memórias do local, desde as emoções presas, aos sons, cheiros, visões e até mesmo sequências de acontecimentos, como se fosse um filme. Mas o tipo mais comun é o sentimento ou atmosfera de alguma casa ou local.
As memórias do lugar são inofensivas e impessoais. Para nós é como assistir a um filme. O único dano que nos podem causar é o que provém do terror face ao desconhecido.
Contudo, ainda que sejam estas memórias do lugar o que esteja na origem da grande maioria dos ditos fenómenos de assombramento, nem tudo o que captamos num lugar tem a ver com a interacção humana. A juntar à interacção humana, consciente e deliberada ou inconsciente, há ainda a considerar a interacção não-humana com o local.
Tom Graves refere ainda que, num estudo sobre as energias da terra, é necessario abordar de imediato a ideia errada de que, nos lugares sagrados, tudo é luz e doçura. É mais seguro e mais exacto classificarmos os lugares sagrados simplesmente como pontos de força. Trata-se de pontos de distribuição de várias energias. Locais que recolhem essas energias directamente da Terra e as canalizam ao longo de diversas linhas ley. Desse modo, cada vez que um desses pontos deixa de funcionar, todo o sistema fica entupido, a energia fica estagnada e o efeito que produz não é aquele que se associa a um lugar sagrado.
Assim, é necessário voltar a colocar a funcionar os velhos sistemas energéticos da nossa terra. Tudo está interligado, se os velhos sistemas energéticos voltarem a funcionar, se os velhos rituais se voltarem a realizar, a velha identidade da tribo voltará, as pessoas voltarão a encontrar na comunidade um sentimento de pertença.
Graves refere que um holograma óptico é uma imagem tridimensional produzida a partir de uma chapa fotográfica especial através de um processo que depende de feixes de luz que confluem um para o outro e para a referida chapa, partindo de direcções precisas. Este processo depende também dos feixes serem formados inicialmente por ondas de luz precisamente alinhadas umas com as outras. Da mesma maneira, a memória do lugar é também uma projecção feita por uma pessoa num determindo tempo e num determinado lugar, que fica arquivada numa espécie de chapa da Terra e que é projectada quando se verificarem certas condições, podendo ser vista por uma ou várias pessoas.
Existe um enorme número de tipos diferentes de memórias do local, desde as emoções presas, aos sons, cheiros, visões e até mesmo sequências de acontecimentos, como se fosse um filme. Mas o tipo mais comun é o sentimento ou atmosfera de alguma casa ou local.
As memórias do lugar são inofensivas e impessoais. Para nós é como assistir a um filme. O único dano que nos podem causar é o que provém do terror face ao desconhecido.
Contudo, ainda que sejam estas memórias do lugar o que esteja na origem da grande maioria dos ditos fenómenos de assombramento, nem tudo o que captamos num lugar tem a ver com a interacção humana. A juntar à interacção humana, consciente e deliberada ou inconsciente, há ainda a considerar a interacção não-humana com o local.
Tom Graves refere ainda que, num estudo sobre as energias da terra, é necessario abordar de imediato a ideia errada de que, nos lugares sagrados, tudo é luz e doçura. É mais seguro e mais exacto classificarmos os lugares sagrados simplesmente como pontos de força. Trata-se de pontos de distribuição de várias energias. Locais que recolhem essas energias directamente da Terra e as canalizam ao longo de diversas linhas ley. Desse modo, cada vez que um desses pontos deixa de funcionar, todo o sistema fica entupido, a energia fica estagnada e o efeito que produz não é aquele que se associa a um lugar sagrado.
Assim, é necessário voltar a colocar a funcionar os velhos sistemas energéticos da nossa terra. Tudo está interligado, se os velhos sistemas energéticos voltarem a funcionar, se os velhos rituais se voltarem a realizar, a velha identidade da tribo voltará, as pessoas voltarão a encontrar na comunidade um sentimento de pertença.
Caldeirão na Encruzilhada
Em tempos escrevi num fórum, a propósito de uma velha festa transmontana, o seguinte:
Na pequena aldeia de Cidões, concelho de Vinhais, ainda se mantém uma velhinha tradição. Na noite das bruxas, a 31 de Outubro, celebra-se como sempre se celebrou esta noite mágica, numa noite de folia e transgressão, de generosidade e alegria.
Enormes panelas de três pernas, que aqui se chamam potes, cozinham velhas e boas cabras. E do velho caldeirão há-de sair um repasto que chegue para todos... suculenta carne de cabra, pão cozido em antigos e comunitários fornos de lenha, castanhas assadas, maçãs, figos e nozes.
Aqui a tradição é o que sempre foi, não há bruxas de vassouras e chapéus cónicos nem há abóboras iluminadas. Há o que sempre houve: a velha tradição de dar de comer a quem aparecer, o interminável vinho e aguardente que aquece a noite escura e fria, as histórias de arrepriar de outros tempos, as tropelias dos rapazes que evocam as energias renovadoras e propiciatórias do caos que caracteriza o fim e princípio de ciclo... e há a fogueira intemporal e eterna, para que também nós sejamos faróis na noite escura.
Ao reler o livro de Teófilo Braga, O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, 1885, deparo com a referência à feiticeira que adivinha pelo caldeirão (o alguidar), nas encruzilhadas. Teófilo Braga diz-nos que era nas encruzilhadas, ou no encontro dos caminhos, que colocavam o caldeirão mágico. Cita Garret que, no Arco de Sant'Anna refere feitiços que fervem n'um caldeirão de trez pés. No mesmo livro está ainda a seguinte citação, de Gil Vicente, Auto das Fadas:
Este caminho vae para lá
Est'outro atravessa cá;
Vós no meio, alguidar,
Que aqui cruz não hade estar.
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