Thursday, July 26, 2018

Eu vejo a lua

Um post de um amigo fez-me pensar em Rumi, assim, aqui fica o pensamentos dele que eu mais aprecio:

Vejo a lua
- ela não precisa estar cheia.
Eu vejo a lua
- ela não precisa ter nascido.


p.s. Já agora, deixo o link para o lugar dos meus sonhos e devaneios: Clareirazinha.

Monday, July 09, 2018

Destino

Começo com um excerto do rubaiyat de Omar Khayyam:

Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

Durante muito tempo, pensei que o meu destino era manter o meu coração puro e que estava irremediavelmente condenada ao fracasso.

Algo mudou, esta manhã.

Ontem, quando me deitei estava tristíssima, mas de manhã, ao acordar, já estava bem. Não sei exactamente por que razão me sentia feliz, talvez fosse apenas por ser um novo dia. Foi nesse instante que me ocorreu que, se era quase impossível manter sempre um coração puro, ele poderia, ainda assim, regressar integro e inteiro, todas as manhãs. Dentro de nós, um coração tão novo como o dia.

Na verdade, manter um coração puro talvez nem seja um destino, em si mesmo, mas é certamente a primeira etapa do caminho, qualquer que seja o nosso destino.

Wednesday, July 04, 2018

Percepção

Antes de começar a escrever, gostaria de alertar para o facto de as minhas verdades serem, em grande parte, verdades à La Palice. Mas são o que são…


A nossa visão do mundo, e consequente representação do mundo, com o foco no sujeito, em quem vê, é um conceito moderno.

O entendimento cartesiano da fenomenologia relaciona a transcendência do mundo, do que é visível, com a imanência da consciência de quem vê.

Nesta representação do mundo, não é o mundo em si mesmo que detém o foco central, mas sim o sujeito que vê.

Assim, na minha humilde opinião, não nos é possível ver o mundo dos deuses, a menos que nos libertemos do sujeito que vê, ou seja, a menos que nos libertemos da nossa consciência, que colocamos na nossa visão de cada parte do mundo.

Eu penso que não é possível, de todo, ver o mundo, tal como ele realmente é, a menos que o papel central deixe de ser de quem vê e passe a ser do mundo, em si mesmo.

Vasarely, no Manifeste Jaune, propôs que, ao olhar uma pintura, o sujeito suspende-se a sua consciência, que o olhar eliminasse a bagagem da significação, de toda a significação. Então, se quem vê se visse privado da sua consciência de ver, poderia ser visto pela pintura?

Eu considero esta abordagem absolutamente fascinante.

Contudo, por muito longe que nos levasse a reflexão do domínio da percepção, quer em termos artísticos, quer filosóficos, esse não é propriamente o objectivo deste texto.

Mas mantém-se a questão: os dois olhares distintos – o do sujeito que vê e que, no acto de ver, vê apenas e só através da sua consciência; e o do mundo, que nos olha de volta – podem coexistir num ponto, do espaço/tempo?

Eu considero que não.

Nesse caso, encontrar o mundo dos deuses é, apenas e só, ser visto por… e não ser o sujeito quem vê.

Assim, para encontrar o mundo dos deuses, eu teria que abdicar voluntariamente da minha consciência, abdicar da minha representação do mundo, abdicar da familiaridade de ver, deixando em suma de ser eu quem vê, para ser visto.

Como é que se altera esta percepção? Todos nós sabemos que há vários métodos, que não será preciso enumerar aqui. Há ainda os métodos inerentes a cada um de nós, pessoais e privados.

Contudo, novamente na minha humilde opinião, o primeiro passo para encontrar o mundo dos deuses é, precisamente, não o querer ver.

Se o sujeito, quem vê, nunca se liberta das suas representações, se tudo o que vê está imbuído da sua própria consciência, então, não entendo como poderá ver o mundo dos deuses. Mas, ainda assim, poderá sempre olhar precisamente para não ver, permitindo-se ser visto.

Dancing Fairies, 1866, by August Malmstrom,


Thursday, May 31, 2018

O corpo da tribo


De vez em quando, sinto a necessidade de fazer alguma coisa com aqueles terrenos em Trás-os-Montes, perto do Parque de Montesinho. Contudo, a tarefa é demasiado árdua para mim e acabo por não fazer nada. De resto, a verdade é que eu nem sequer sei o que se poderia fazer por lá… talvez limpar alguns caminhos, permitindo o acesso a vestígios arqueológicos muito interessantes, eventualmente sinalizá-los. Talvez criar uma ou outra estrutura.

Hmm, creio que é uma necessidade um pouco mais abrangente…

Já vos disse que é uma terra de lendas muito antigas? Mais do que preservar aquelas lendas em quaisquer folhas de papel, eu gostava de as devolver à paisagem, que sempre foi o corpo da tribo… para tal, seria preciso não só divulgar as lendas, mas também mostrar os lugares onde essas lendas aconteciam. Roteiros. Livros, certamente. Mas livros onde a paisagem é o elemento principal.

Tuela: o nome do rio, com mais de 20 castros, num percurso de cerca de 25 km. Grutas praticamente inexploradas, povoadas de lendas de mouras encantadas. Imensas florestas, velhas rochas graníticas cheias de covinhas.

Há um mundo antigo e mágico por lá, que ainda chama por alguns de nós… E eu temo que qualquer dia desapareça para sempre, na bruma. Mas, se nos juntarmos e nos apressarmos, talvez ainda possamos fazer com que esse chamamento permaneça para as próximas gerações.

Bem, se quiserem participar nesta aventura, contactem-me por favor.  :)

Thursday, October 19, 2017

Relação com a divindade

Nestes dois dias, com todas essas imagens de terra queimada na minha mente, não consegui deixar de pensar como tantas vezes, ao longo da minha vida, consciente ou inconscientemente, eu levei a minha relação com os meus deuses para terrenos onde pouco podia crescer.

A minha relação com a divindade foi sempre demasiada para a minha coragem. 

Sinto as palavras de Rilke como se estivessem vivas, dentro de mim. Sinto e sei que qualquer relação com a divindade é uma coisa viva, apenas intuída, nunca verdadeiramente compreendida, e que está muito para lá da nossa existência. 

Hmm… será que já não me vai faltar a coragem?... 


Tuesday, April 30, 2013

Um pequeno bosque

Boa tarde.

Permitam-me que lhes fale um bocadinho do meu bosque. Fica a cerca de 200km da minha casa e, por isso, não vou lá muitas vezes. Mas, dedico todos os dias alguns minutos àquele lugar. Mesmo assim, não consigo protegê-lo. O ano passado cortaram um jovem abrunheiro e deixaram-no lá, caído no chão. Não sei por que o fizeram. Disseram-me que talvez tenha sido «apenas» para experimentar o gume de uma foice. O que causa ainda mais tristeza... Bem, creio que nunca fariam isso a uma oliveira ou qualquer outra fruteira. O corte dos sobreiros e das azinheiras é proibido por lei, mas nem isso é respeitado. E, na mente dos meus conterrâneos, que importância pode ter um abrunheiro, um espinheiro-alvar ou um sabugueiro? Cortam-nos se lhe apetecer, mesmo que estejam em terras que não lhes pertencem.

Os teixos praticamente desapareceram, em parte devido aos pastores, que os cortavam sempre que os viam. O veneno do teixo condenou-o...e, pelo menos no meu mundo, das teixeiras já só há memórias. Tenho alguns pés a crescer em vasos, mas ainda não me atrevi a colocá-los no meu bosque.

Depois, bem depois há ainda os caçadores, sobretudo os caçadores furtivos. Há javalis que frequentemente percorrem o meu bosque e todos os dias peço aos deuses que olhem por aqueles belos animais, para que os seus trilhos sejam seguros. Contudo, a ameaça dos caçadores furtivos mantém-se bem real. Sei que muitos deles apanham os javalis com armadilhas. Cortam uma árvore, um freixo ou um carvalho e prendem-no à armadilha. Quando o animal é apanhado, não morre logo, corre em desespero amarrado a uma árvore, causado imensa devastação e sofrendo uma morte lenta e dolorosa. Nem é só a questão de matarem um animal, o que é pior é que o matam de um modo vergonhoso. E eu arrepio-me só de pensar nisso.

E temo também por um belo freixo que já faz parte de mim e que, infelizmente, está numa posição que o candidata a ser uma dessas árvores abatidas e presas às armadilhas.

Oh! Como eu gostava que o mundo fosse diferente...

Bem, na semana passada, descobri que as minhas aveleiras tinham desaparecido. Sei bem que o responsável foi o meu vizinho que, provavelmente, pensou que me estava a fazer um favor. Eram pequenos pés, plantados no último outono. Jovens rebentos imersos num mar de erva alta, que havia de ser tirada, com cuidado. Mas, antes que eu tivesse oportunidade de tirar a erva, o meu vizinho limpou essa parte do terreno com uma roçadora e lá se foram as aveleiras. Confesso que nunca pensei que as aveleiras corressem perigo...

Na verdade, no último Lughnasadh, que foi quando comecei a dedicar-me a este bosque/jardim, tinha uma visão de tudo isto bem mais romântica... Era um terreno que eu conhecia, mas onde já não ia há muito tempo. Quando lá voltei, deparei logo na entrada com um maravilhoso urzal, que me deixou num estado de espírito fantástico. Sentei-me num rochedo a observar uma águia. De repente, tive consciência da coincidência e senti-me transportada para a canção de Amergin, foi um momento de revelação. Fiquei com a convicção de que seria um caminho muito fácil de percorrer, mas isso não é verdade. É um caminho árduo, que me causa tristeza, mas também imensa alegria. Vou tendo fracassos - as minhas bétulas não nasceram -, mas também há sucessos - deparei com uma macieira silvestre, que eu nem sabia que lá estava, com uma floração magnífica, que me deixou com o coração em festa.

Contudo, não me sinto mais perto das respostas. Na verdade, nem sei ainda quais as questões que devo colocar. Mas, isso é a meta. E, de alguma forma, a meta deixou de importar. Podia dizer que é o calcorrear do caminho que é importante, mas eu nem sei bem se isto é um caminho, no sentido espiritual, quero eu dizer. É quanto muito um sonho. Um sonho que eu gosto de sonhar, só me custa saber que não sou capaz de proteger aquele pequeno bosque.


Thursday, September 22, 2011

A história do homem que caiu das nuvens

Esta história foi-me contada pela minha avó materna, que dizia ter acontecido quando o avô dela era ainda um jovem. E foi ele quem lha contou. A história aconteceu numa tarde de verão, em que o avô da minha avó, os pais dele e alguns vizinhos andavam a apanhar feno nos lameiros do rio, tendo surgido de repente uma violenta tempestade, que fez os bois juntarem-se no meio do lameiro e levou as pessoas a refugiarem-se na azenha. Quando a trovoada acabou, saíram da azenha e viram no meio do rio, com água até à cintura, um homem despido e queimado do sol. Ficaram cheios de medo, pois sabiam bem que era um dos homens que andava nas nuvens a fazer as trovoadas e que tinha caído. Mas, como o avô da minha avó contava, ainda tiveram mais medo do que lhes podia acontecer se não o ajudassem, de modo que dois ou três homens foram ao meio do rio e trouxeram-no para a margem. O homem não falava e eles colocaram-no no carro de bois e levaram-no para a aldeia. Já na aldeia, vestiram-no, ajudaram-no a sentar-se a uma mesa e puseram à frente dele um pão de centeio e uma faca, para que comesse. Ele começou então a partir bocadinhos de pão e a fazer figuras estranhas na mesa, o que aterrorizou toda a aldeia. Como já tinha anoitecido, deixaram-no ficar até de manhã. Logo que amanheceu, montaram-no num cavalo e levaram-no para a aldeia seguinte, onde o deixaram. O homem continuava ainda sem falar. Quem o levou até à outra aldeia foi o avô da minha avó, que contava que daí o levaram também para a aldeia seguinte e assim sucessivamente, até deixarem de ouvir falar do homem que caiu das nuvens.

Foi assim que eu ouvi contar esta lenda. Sem outro nome que não fosse o homem que caiu das nuvens. Muito mais tarde encontrei, em lendas relacionadas com esta, a terminologia Secular das Nuvens, assim como a referência à Caçada Selvagem, no livro do Consiglieri Pedroso - Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988. - Note-se que esta lenda está também intimamente relacionada com o Nubeiro do folclore galego. Por tudo isto, parece-me algo importante e muito gostaria de ver algum estudo académico acerca desta bela lenda. Nesse sentido, transmiti-a por email, no dia 15 de Junho de 2011, ao Doutor Alexandre Parafita. Hoje, decidi deixar aqui a referência, na esperança de que alguém se interesse por estas lendas e prossiga os estudos do senhor Consiglieri Pedroso.

Já agora, deixo aqui o cenário da lenda (ainda que o caminho tenha sido feito ao contrário, da aldeia em direção ao rio): Rio Tuela

Tuesday, July 12, 2011

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna é um texto escrito por um habitante da Gallaecia romana, do século XI, que conta como encontrou a Ilha do Solstício, para lá da Torre de Hércules, na Corunha, e onde viveu sete anos. Trata-se de um relato na primeira pessoa, muito interessante, de alguém que encontrou a mítica Ilha do Verão, dos celtas.
Se tivermos este texto em mente, Santiago de Compostela, ou mesmo Finisterra, não poderão representar o término da peregrinação, que necessariamente continuará, talvez pela bela Costa da Morte, até à Torre de Hércules, na Corunha. Ou, quem sabe, até a uma ilha que não existe. :)

Wednesday, July 06, 2011

Se os meus carvalhos tivessem rostos, como seriam?

Na verdade, esse exercício de imaginação não precisa de ser feito. Os meus carvalhos têm rostos... ;)

De certa forma, fazem lembrar rostos com barbas. Mas, serão sempre masculinos? Na verdade, nada disso importa, pois não? É um bosque de carvalhos no verão, cheio de vida, dum verde luxuriante. É um mundo que nos liberta, sim, de tudo o que nos foi aprisionando. Que outra coisa podemos fazer, senão regressarmos à floresta?... :)))