Wednesday, September 19, 2018

O Lugar do Início


O livro O Lugar do Início, de Ursula K. Le Guin (uma escritora de quem sempre gostei muito), começa com uma citação de Jorge Luis Borges: Que rio é este pelo qual corre o Ganges?... 

Acerca disso deixei este pequeno comentário a um amigo: 

Não há como fugir a isso, pois não? O lugar do início da nossa tribo encontra-nos sempre. Por mais elaborados que sejam os nomes ou as litanias, acaba sempre tudo por regressar à verdade simples e imediata da paisagem. Para mim, quero eu dizer. :)

A paisagem que moldou a tribo, de alguma maneira, é imutável. Os montes tornam-se vales, os rios correm em diferentes leitos, as velhas árvores desaparecem e outras, de diferentes espécies, passam a ser dominantes. Tudo muda e, ainda assim, a paisagem que foi corpo da tribo, ainda é. Não há nada naquela paisagem que possa ser diferente, mesmo que os nossos olhos nos digam o contrário. 

Que sentido é verdadeiro? O que é real? Se fecharmos os olhos, o cheiro e o som tornam-se outros. Se continuarmos de olhos fechados, a cada passo que damos entramos mais e mais no corpo da tribo. E é assim até começarmos a sentir aquela velha sensação, também ela invariável. Nesse momento, podemos abrir os olhos: a floresta encontrou-nos.


Outro pensamento acerca da paisagem

Eu sou incapaz de basear a minha relação com os meus deuses em documentos. Sofro da paixão historiográfica, que invadiu o mundo moderno, face a muita coisa, mas não em relação aos deuses.

A minha relação com os meus deuses só faz sentido se se basear no meu modo de sentir e no meu modo de pensar. O documento não transmite o meu modo de pensar e de sentir, é limitativo. E, no enquadramento das minhas divindades pagãs, está sempre imbuído do modo de pensar, de sentir e de ver o mundo de uma cultura distinta daquela, de tradição oral, de onde partiu esse documento. Uma cultura que já pouco valoriza a alma da tribo, os mitos, mas que desvaloriza ainda mais o corpo da tribo: a paisagem. Para mim, a paisagem é fundamental.

No mês passado, eu estava, por mero acaso, no lugar onde antigamente havia um templo pagão, na aldeia onde nasci, quando, novamente mais ou menos por acaso, me volto e vejo a lua cheia a nascer. Foi só isso, mas desencadeou algo incrivelmente intenso dentro de mim. Por escassos segundos, liguei-me aos ancestrais da minha tribo, que pisaram aquele chão e que viram um nascer de lua cheia, em circunstâncias similares. E liguei-me aos descendentes da minha tribo que, num qualquer momento futuro, hão-de sentir, naquele lugar, o nascer da lua cheia.

O que eu quero dizer é que, na tradição oral, mesmo numa tradição oral inserida num contexto cristão, o corpo da tribo continua a ser valorizado, mas esse corpo da tribo tem cada vez menos relevo no documento, pela sua própria natureza muito mais selectivo, muito mais censurado.

Se esquecermos o corpo da tribo, esquecemos demasiado.

Para mim, Lugh é por excelência uma divindade ligada à paisagem, ao corpo da tribo, ao lugar. Assim, quando eu senti tão intensamente aquele momento em abril, agradeci também a Lugh por me permitir sentir a memória daquele lugar.

A memória do lugar é, na minha opinião, algo que urge trazer de volta.

Maio de 2017.

Autumn Memories by Frederick Mccubbin, 1899.


Monday, September 17, 2018

Tentando voltar ao caminho

Sinto que devo voltar a escrever acerca do corpo da tribo. Mas eu já não tenho as palavras. Também eu sou, cada vez mais, intrinsecamente turista. E quando somos turistas não encontramos a memória da paisagem, que também não nos diz a cada passo quem nós somos.

De resto, quando eu percorro a paisagem, que é o corpo da minha tribo, eu não tenho conceitos, só experiências. Mas quererei falar delas, em público? Não estarei já farta dos meus patéticos espectáculos de vaudeville?...

Hmm, talvez eu não tenha nada contra o vaudeville e o que me aborreça seja o pressuposto da narrativa explicada. Bem, se não explicada, pelo menos algo com sentido, o que acarreta ainda o cansativo desdobramento entre actor e expectador.

Eu estou a mudar de pele, a entrar cada vez mais no meu novo eu: nocturno, onírico e abstracto. Já nem sequer quero ser compreendida. Por que razão me preocupo ainda com tudo isso?

Talvez por, no fundo, ainda persistir a convicção de que o único espaço onde eu faço falta é no corpo da minha tribo, onde talvez eu ainda seja capaz de abrir novos caminhos. E eu simplesmente não sou capaz de me afastar, quando faço falta.

Assim, em qualquer momento, haverá um verdadeiro regresso e eu estarei de novo no caminho, voltarei a peregrinar.

Nas minhas peregrinações, eu nunca procurei a reconstrução, que nunca deixaria de ser algo novo, por maior que fosse a sua beleza. Eu sempre quis encontrar o que ainda era original, mesmo que estivesse esquecido e cheio de entulho.


A paisagem (o corpo da minha tribo)

Publiquei este post em setembro de 2010, no meu blog Clareirazinha. Hoje trago-o de volta, porque sim. ;)

Para mim a Galécia é, antes de mais, a terra: os carvalhos e as pedras que, mais do que me dizerem quem são, dizem-me quem eu sou. E quem eu sou é um eco que eu não encontro noutros lugares, por maior que seja a sua beleza ou antiguidade, o que é quase impossível de explicar a um cidadão do mundo, como o meu marido e como a maior parte dos meus amigos. Mas, mesmo não sendo entendido pelos outros, contínua a ser esse o meu sentir. E a Galécia é a terra que me diz quem eu sou.

Há lugares, por esse vasto e maravilhoso mundo, que me deslumbraram e que ficaram para sempre guardados nas minhas memórias. Há outros que me transformaram, que me deram esse sentir ainda mais raro: a chegada – o sentimento simples e, ao mesmo tempo, arrebatador de chegar, a sensação de que aquele lugar é uma meta na minha viagem. - Contudo, volto a repetir: a Galécia é a terra que me diz quem eu sou, a cada instante e a cada passo...

A paisagem agreste e montanhosa do nordeste transmontano moldou-me, desde os meus primeiros anos. Na minha infância, o rio chamava-se Tuela. E Montesinho é ainda a terra onde não há memórias das primeiras vezes, ao contrário do Gerês, que comecei visitar apenas na idade adulta, mas pelo qual senti de imediato um amor igualmente intenso. E, de verdade, poucos lugares são, para mim, comparáveis à velha Mata de Albergaria, que em cada encontro me redefine.

A primeira vez que percorri as pedras gastas da velha Citânia de Briteiros, por um estranho acaso no dia do Lughnasadh, é bem mais do que uma memória, é um instante eterno que ainda ecoa dentro de mim, recriando um momento em que me senti estranhamente inteira, como se só nesse instante tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sequer sabia que estava em falta.

E o que é que, nas minhas memórias, se pode comprar à chegada, quase ao pôr-do-sol, a Finisterra? O terminus de uma viagem de vários dias que percorreu toda a Costa da Morte, numa travessia de saudade, profundamente marcada pelo Espírito do Lugar.

Outro anoitecer. O final de um dia no Penedo Durão, ou a primeira vez em que parti do Porto e acompanhei no comboio as curvas do rio, saboreando o Alto Douro vinhateiro. Outras memórias, os mesmo lugares. Instantes que dentro de mim permaneceram eternos: encostas de caminhos íngremes e pedregosos, imensidão de amendoeiras em flor e a maravilha das gravuras rupestres de Foz Côa.

E para sempre a memória da subida à velha ruína de Penas Róias, também ao pôr-do-sol de um longo dia de verão, depois de um dia perfeito nas escarpas do Douro. Poucos lugares detém um significado tão absoluto, para mim. Penas Róias foi durante toda a minha infância um lugar mágico, antigo e distante. Era o cenário de muitas batalhas que alimentavam as minhas noites de inverno. Histórias contadas à lareira que partiam da Canção de Rolando e iam sendo reinventadas, numa miscelânea que, para a criança que eu era, fazia todo o sentido. A minha espada, que tantas vezes imaginei na infância e que só encontrei muito mais tarde. A minha espada maravilhosa com a cabeça de um leão no punho. A minha espada que não faz de mim uma guerreira, mas que eu tenho precisamente porque sou uma guerreira.

Uma longínqua ida a uma romaria que permanece como um dia luminoso e eterno. Um monte sagrado onde nunca mais voltei, uma das muitas montanhas da minha terra. Um santuário que mal recordo, mas guardo com carinho a memória da longa caminhada que começou ainda de noite, ao luar. Um dia intenso, pleno de alegria e de deslumbramento.

A primeira vez que me senti enamorada e o modo como, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós mesmos, a uma estranha sensação de agigantamento.

Há muitas outras memórias, que se parecem com um sonho recorrente e que me levam sempre de volta a esta terra. Esta terra que me faz esquecer as minhas viagens por outros lugares. Esta terra que me viu nascer, esta terra onde hei-de morrer. Esta terra que é minha, porque está no meu coração. Galécia... a terra que me diz quem eu sou.

Friday, August 31, 2018

Conceitos

Wittgenstein dizia que era preciso ter consciência da desordem dos nossos conceitos e entender que isso era um problema, mas que esse problema poderia ser solucionado se os colocássemos em ordem.

Contudo, como não é habitual repensarmos as nossas ideias, não temos consciência da sua completa desordem e da crescente superficialidade de muitas delas.

Muitos dos nossos conceitos não passam de rótulos. E os rótulos, dando-nos a ilusão do conhecimento, afastam-nos cada vez mais da essência e da verdadeira sabedoria.

A título de exemplo, imaginemos que alguém me pedia um texto que tivesse religião, política, sexo e mistério. Parece complicado, não? Só é complicado na proporção da profundidade que eu quiser dar a cada um desses conceitos. Pode ser absolutamente superficial e simples:

– Meu Deus! – disse a filha de Donald Trump, – estou grávida e não sei quem é o pai.

Anedótico, bem sei. E não serão anedóticas muitas das nossas formulações – essenciais para o nosso crescimento, a nossa maturidade e a nossa compreensão do mundo e de nós próprios – sobre as quais nunca reflectimos?

Termino com uma fotografia da escultura de Rodin, O Pensador – Musée Rodin, Paris.
(Não sei quem é o autor desta fotografia, origem: net)



Thursday, August 30, 2018

Inteligência, imaginação e vontade

Quem me dera ser uma feiticeirinha de abril, como a bela jovem dos contos de Bradbury que, na quietude do seu pequeno quarto, era capaz de sonhar todos os sonhos do mundo.

Como é que se sonham todos os sonhos do mundo?...

Ocorre-me a frase do Pessoa, que diz «sou nada, serei sempre nada» e acrescenta: «à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».

Talvez para sonharmos todos os sonhos do mundo, seja preciso que aceitemos a nossa insignificância, que aceitemos que na vastidão imensa do universo somos e seremos sempre nada.

Sabermos e, mais do que isso, sentirmos que somos nada, liberta-nos. Como nos libertam o silêncio e a escuridão, quando deixamos de os estranhar e temer.

Santo Agostinho dizia que nós, na essência, somos uma tríade composta por vontade, memória e inteligência.

Se tu choras, eu nunca poderei conhecer o teu choro, mas posso intui-lo. Começo pela vontade, que me leva a querer conhecer o teu choro, segue-se a memória que, através das minhas experiências, me apresenta uma realidade similar à tua. Por fim, a inteligência compõe o quadro e cria o padrão da minha empatia.

Contudo, não será insignificante uma empatia que se baseia em experiências pessoais? E que valor poderão ter as minhas memórias? Tudo nelas é subjectivo, verdadeiro à luz das minhas sucessivas interpretações.

Substitua-se, então, a memória por imaginação. O que é que muda? A minha empatia deixa de estar limitada por um padrão criado pelas minhas experiências e passa a ser definida por uma infinidade de padrões, trazidos pela minha imaginação.

« (...)
As coisas que me cercam silenciosas
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...»

Depois deste excerto d'O Poeta, de Teixeira de Pascoaes, termino com uma questão: tudo o que a nossa imaginação nos dá, não são apenas sonhos? Talvez, mas como dizia Fellini: o que há de mais honesto do que um sonho? ;)


(A imagem é do artista extraordinário Frank Kelly Freas.)

Saturday, July 28, 2018

Pedra coração

Um artigo de 1905, publicado n' O Archeologo Português, fala-nos de um templo já desaparecido, em Trás-os-Montes, e que o autor comparou ao santuário de Panóias. Este templo localizava-se perto das margens do Tuela, na minha aldeia...

Deixo a única foto que conheço do templo, tirada em 1905, na vertente sul. Esta foto pouco ou nada mostra do templo desaparecido, contudo, para mim é profundamente significativa, porque mostra a face de uma pedra com o formato de um coração. Vi esta foto pela primeira vez em 2010 e impressionou-me imenso, por se tratar de uma pedra coração. Não fazia ideia. Contudo, toda a minha vida procurei pedras com o formato de um coração, pedras naturais, sem intervenção humana.. Sempre acreditei que essas pedras me mostravam o caminho de regresso a casa. E num dos momentos mais difíceis da minha vida, vi pedras coração por todo o lado, só que eu já não queria saber de nada daquilo. Então, num instante em que estava à sombra debaixo de um sobreiro, caiu em cima de mim um pequeno pedaço de cortiça, também com o formato de um coração. E eu voltei a acreditar nas minhas pedras.

Thursday, July 26, 2018

Eu vejo a lua

Um post de um amigo fez-me pensar em Rumi, assim, aqui fica o pensamentos dele que eu mais aprecio:

Vejo a lua
- ela não precisa estar cheia.
Eu vejo a lua
- ela não precisa ter nascido.


p.s. Já agora, deixo o link para o lugar dos meus sonhos e devaneios: Clareirazinha.

Monday, July 09, 2018

Destino

Começo com um excerto do rubaiyat de Omar Khayyam:

Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

Durante muito tempo, pensei que o meu destino era manter o meu coração puro e que estava irremediavelmente condenada ao fracasso.

Algo mudou, esta manhã.

Ontem, quando me deitei estava tristíssima, mas de manhã, ao acordar, já estava bem. Não sei exactamente por que razão me sentia feliz, talvez fosse apenas por ser um novo dia. Foi nesse instante que me ocorreu que, se era quase impossível manter sempre um coração puro, ele poderia, ainda assim, regressar integro e inteiro, todas as manhãs. Dentro de nós, um coração tão novo como o dia.

Na verdade, manter um coração puro talvez nem seja um destino, em si mesmo, mas é certamente a primeira etapa do caminho, qualquer que seja o nosso destino.

Wednesday, July 04, 2018

Percepção

Antes de começar a escrever, gostaria de alertar para o facto de as minhas verdades serem, em grande parte, verdades à La Palice. Mas são o que são…


A nossa visão do mundo, e consequente representação do mundo, com o foco no sujeito, em quem vê, é um conceito moderno.

O entendimento cartesiano da fenomenologia relaciona a transcendência do mundo, do que é visível, com a imanência da consciência de quem vê.

Nesta representação do mundo, não é o mundo em si mesmo que detém o foco central, mas sim o sujeito que vê.

Assim, na minha humilde opinião, não nos é possível ver o mundo dos deuses, a menos que nos libertemos do sujeito que vê, ou seja, a menos que nos libertemos da nossa consciência, que colocamos na nossa visão de cada parte do mundo.

Eu penso que não é possível, de todo, ver o mundo, tal como ele realmente é, a menos que o papel central deixe de ser de quem vê e passe a ser do mundo, em si mesmo.

Vasarely, no Manifeste Jaune, propôs que, ao olhar uma pintura, o sujeito suspende-se a sua consciência, que o olhar eliminasse a bagagem da significação, de toda a significação. Então, se quem vê se visse privado da sua consciência de ver, poderia ser visto pela pintura?

Eu considero esta abordagem absolutamente fascinante.

Contudo, por muito longe que nos levasse a reflexão do domínio da percepção, quer em termos artísticos, quer filosóficos, esse não é propriamente o objectivo deste texto.

Mas mantém-se a questão: os dois olhares distintos – o do sujeito que vê e que, no acto de ver, vê apenas e só através da sua consciência; e o do mundo, que nos olha de volta – podem coexistir num ponto, do espaço/tempo?

Eu considero que não.

Nesse caso, encontrar o mundo dos deuses é, apenas e só, ser visto por… e não ser o sujeito quem vê.

Assim, para encontrar o mundo dos deuses, eu teria que abdicar voluntariamente da minha consciência, abdicar da minha representação do mundo, abdicar da familiaridade de ver, deixando em suma de ser eu quem vê, para ser visto.

Como é que se altera esta percepção? Todos nós sabemos que há vários métodos, que não será preciso enumerar aqui. Há ainda os métodos inerentes a cada um de nós, pessoais e privados.

Contudo, novamente na minha humilde opinião, o primeiro passo para encontrar o mundo dos deuses é, precisamente, não o querer ver.

Se o sujeito, quem vê, nunca se liberta das suas representações, se tudo o que vê está imbuído da sua própria consciência, então, não entendo como poderá ver o mundo dos deuses. Mas, ainda assim, poderá sempre olhar precisamente para não ver, permitindo-se ser visto.

Dancing Fairies, 1866, by August Malmstrom,