Wednesday, November 15, 2006

Deusa

Velhos Caminhos




Acredito que quando escolhemos ser caminhantes, isto é, quando entramos na senda da espiritualidade com um genuíno espírito de peregrinos, o caminho também nos escolhe... e talvez não sejamos apenas nós quem escolhe aqueles que nos acompanham na caminhada.Também acredito que cada um de nós percorre inevitavelmente o seu próprio e único caminho, contudo, há momentos em que necessitamos dos ensinamentos e da companhia de outros caminhantes, outros peregrinos... não é verdade?

Já que falo em caminhos, quero deixar claro que eu apenas me defino verdadeiramente como caminhante, todos os outros rótulos esotéricos passam-me ao lado. Mesmo quando digo que sou pagã, digo-o à minha maneira, estando o conceito de paganismo inserido num contexto que pode muito bem ser apenas o meu contexto... seja como for, quero voltar a dizer que estou disponível para estudar, reflectir e falar abertamente de espiritualidade, sem dogmas, mas também sem preconceitos. E sempre sem colocarmos rótulos a nós próprios ou aos outros... já sabem, se assim o entenderem, escrevam-me, em qualquer altura. :))

Wednesday, September 27, 2006

Poderá a Intuição ser explicada pela ciência?

Ouvimos dizer muitas vezes que a intuição não tem qualquer base científica. Mas, será mesmo assim?...

Comecemos pelas tais bases científicas: Einstein, com a teoria da Relatividade Geral, deu-nos uma descrição muito boa do espaço-tempo em larga escala. Pois é, mas os físicos sabem que não há provas reais que justifiquem a utilização das equações de Einstein a escalas subatómicas. Mas a escalas subatómicas, entramos no território da física quântica. E a física quântica diz que o espaço-tempo não pode ser contínuo. Pois é, a física quântica defende que o próprio espaço-tempo deve ter uma estrutura granular a uma pequeníssima escala, neste caso o tempo de Planck (se não sabes o que é, imagina um comprimento de tempo muito curto). Assim, a estrutura do espaço-tempo não é uma linha contínua, ou só aparentemente é uma linha-contínua...

Pois, mas então não nos deslocamos do passado para o futuro? Não é essa a seta do tempo? Hmm, Stephen Hawking dir-nos-ia que há pelo menos três setas diferentes do tempo: há a seta termodinâmica, que te indica o sentido do tempo em que a entropia aumenta, há a seta psicológica (ou o tempo psicológico) que te dá a sensação de que o tempo passa, e ainda há a seta cosmológica que mede o sentido do tempo em que o Universo está a expandir-se em vez de contrair-se.

Mas, voltemos um pouco atrás: dizia eu que a física quântica não defende um espaço-tempo contínuo, mas um espaço-tempo que a escalas subatómicas é de estrutura granular. Imaginemos uma imensa rede cheia de minúsculos "buracos de verme", isto é, túneis através do espaço-tempo cujas extremidades são semelhantes a buracos negros em miniatura.

Fantástico, não é? E segundo a física quântica, seriam estes buracos de verme que formariam a estrutura daquilo que nós vemos como um espaço e um tempo uniformes e contínuos.

Repara que nesta representação microscópica do espaço-tempo, a terminação de cada buraco de verme poderia estar ligada à terminação de outro buraco de verme, num outro espaço-tempo, em qualquer outro lugar do universo. Neste domínio microscópico não se aplica a teoria da relatividade geral e, assim, “algo” poderia passar da extremidade de um destes buracos de verme para a extremidade de outro buraco de verme, em tempo nenhum. Claro que como estas extremidades são muitíssimo pequenas, nenhuma matéria poderia passar por elas, só mesmo partículas subatómicas como um protão. Mas, e aqui é que chegamos à parte interessante, poderia passar informação: zeros e uns, representados por partículas subatómicas. A informação propagar-se-ia, mas ainda assim precisaríamos de a converter. Precisaríamos de ter integrado um sistema operativo que nos apresentasse essa informação de uma forma inteligível, doutra forma ignorávamo-la como ruído.

Assim, de diferentes regiões do espaço-tempo (nós próprios num espaço-tempo diferente???...) poderia chegar-nos informação pelos túneis do tempo e quando a descodificássemos, interpretávamo-la como intuição, ou seja, informação não dedutiva (não foi produzida por um raciocínio dedutivo), mas ainda informação... vinda de uma fonte desconhecida mas fiável.

Lindo, não é? :)

p.s. Publiquei este texto há algum tempo nos fóruns do Sapo. Hoje encontrei-o por acaso e decidi repensá-lo. Que acham?... :)

Thursday, August 31, 2006

Reino Maravilhoso

Do alto do Penedo Durão, contemplando o poema geológico como lhe chamou Miguel Torga, sentimo-nos contemporâneos do instante da criação, a magia antiga à solta naqueles penedos entranha-se em nós e dá-nos por um instante a eternidade. Trás-os-Montes é um reino maravilhoso que alimenta a alma. Entramos neste mundo mágico e a realidade transforma-se, voltamos ao acto primeiro, ao mundo mítico dos heróis e dos deuses in illo tempore. O tempo lá fora linear torna-se aqui cíclico.

Celebro, entre o Natal e o Ano Novo, as magníficas festas saturninas e solstíciais, que aqui ganham o cariz iniciático das festas dos rapazes. E que nos falam do período de transição, quando o tempo novo, o novo ciclo, é ainda caótico. Mas também nos ensinam a reverenciar este caos primordial, sobretudo pela qualidade e intensidade criativa desta energia primitiva. Entendemos assim por que tudo é permitido aos mascarados que exteriorizam a dança da perpétua renovação. Depois, com as urzes e as giestas cresço devagarinho, saboreando a geada e o luar de Janeiro. Evoco a lua do leite com cordeirinhos recém-nascidos e com eles corro pelos prados de ervinhas novas, bebo nos ribeiros de água cristalina, que ri e corre pelas terras das mouras encantadas, em busca do Douro e do Tâmega, do Tua e do Sabor, e de tantos outros rios de águas sagradas, nas margens dos quais os nossos antepassados edificaram cidadelas como a de Benquerença. E com este sentimento de querer bem e com a generosidade quase arquetípica entro na alma do lugar, na alma do povo. Visito terras antigas: Foz Côa, Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta, com as suas encostas cobertas pelas amêndoeiras em flor, numa paisagem indescritivelmente bela. E eis-me já no Equinócio da Primavera, quando o ar se enche de aromas suaves, frescos e florais. E da intensidade do cheiro do folar acabado de cozer que, pela Páscoa, se torna tradição em velhos fornos onde o carvalho e o zimbro, a oliveira e a videira ardem, para que da energia da terra se liberte o poder do fogo, numa alquimia que dá ao pão um sabor ancestral. O tempo continua, na sua passagem vagarosa, recordando-me na véspera de Maio as fogueiras de outrora. Mas, se estas fogueiras se perderam, o mesmo não aconteceu com a tradição das Maias. É reconfortante ver as flores amarelas das giestas penduradas na porta, maravilho-me com as pessoas simples e sábias que nos dizem que também elas participam na cíclica regeneração do cosmos. Delicio-me nos belos recantos do parque de Montesinho, o maior de Portugal, e sinto que de verdade pertenço ali, àquele mundo intemporal e mágico. Vagueio por castros e castelos, sento-me na Domus de Bragança e facilmente visualizo a reunião dos homens bons. Caminho na ponte de Trajano em Chaves e sou de imediato contemporânea dos soldados romanos que também ali atravessam o rio de águas escuras. E com os romanos peregrino ao santuário único de Panóias, em Vila Real. Com o tempo como aliado, permitindo-me viagens por diferentes eras, entro nos jardins do palácio de Mateus e delicio-me com a obra-prima de Nicolau Nasoni. Brinco novamente com o tempo e sento-me nas ruínas de Penas Róias, em Mogadouro. Ah!, que posso eu dizer aos fascinantes Templários? Senhores do Templo, caminhais aqui por velhos caminhos, que outrora foram de Endovélico. E com isso parto para outra paragens, contemplo a Porca de Murça ou o Berrão de Torre D. Chama, entre tantos outros símbolos que se encontram na demanda de Endovélico. Urge reencontar a mitologia lusitana, Atégina espera-nos. Mas, na verdade, a Deusa não foi esquecida, encontramo-la em capelinhas no topo das serranias, relembrando-nos que estamos numa cordilheira sagrada. A serra do Marão é conhecida como montana sagrada desde a antiguidade. Aqui, a terra está sulcada de linhas ley, as forças telúricas marcam a paisagem e as gentes, alterando a percepção e sobre-estimulando os sentidos. Mas não tenho também os sentidos em festas quando, das arribas do douro olho os vales profundos? Miranda, cidade baluarte, expoente máximo da gastronomia transmontana. Bem, a roda do ano chama-me de volta, relembra-me que estou no Solstício de Verão. E, continuando a minha viagem, passo então este dia que antecede a noite mais curta do ano na praia fluvial do Azibo, em Macedo de Cavaleiros, mais logo contemplarei o pôr do sol na serra de Bornes, e depois rumarei à aldeia do Romeu e ao Maria Rita, restaurante que me traz de imediato à memória o meu pai. De novo ganham vida as tuas histórias encantadas nas tardes de estio e nas noites de inverno. Meu senhor transmontano, quem mais se lembraria de me contar a Canção de Rolando? É agora noite, estou nos belos jardins de Mirandela, junto ao rio Tua. E, tal como me ensinaste, recrio o mundo. Ainda me sinto maravilhada com a tua capacidade de transmutar um instantezinho de trazer por casa num momento inesquecível. Com a tua alma de poeta deste ao meu mundo cores maravilhosas. São os teus ensinamentos que me levam a sentir-me feliz neste dia de solstício, marcado pela dor da partida da minha amada Aurora que, contudo, regressa para mim em cada alvorecer. Os dias passam e a véspera de Agosto traz a festa do pão. Partilho o pão em Montalegre, terra que sabiamente me devolve a um tempo fora do tempo e a um espaço fora do espaço. Regresso ao meu Cabeço de Mouros, olho a Torca do outro lado do rio, terra de lendas enigmáticas, de encantos e de mistérios. É o meu mundo. Apanho salva e anis, com um cheiro forte que penetra na pele. E a intensidade do aroma leva-me para outras paragens. Na verdade, não há palavras para descrever o cheiro do mosto no Alto Douro Vinhateiro. Olho o rio, enquanto saboreio o vinho mais conhecido de Portugal que, na verdade, não é do Porto mas de Trás-os-Montes e Alto Douro. É Equinócio de Outono na bela cidade da Régua. Os dias sucedem-se na sua fase decrescente da roda do ano, o mundo tem agora cores em maravilhosos tons de terra, cores de outubro, cheira a terra lavrada e ao fumo das primeiras fogueiras. É chegada a festa das maçãs. E o ciclo termina.

Monday, March 20, 2006

Equinócio da Primavera às 18:26h


yin e yang equilibram-se no mundo que volta ao instante primeiro, fértil e mágico...

Meu amigo, renasce também tu inteiro com a primavera da vida!

Wednesday, March 15, 2006

Tabula Smaragdina

"O Significado e a síntese da obra alquímica surge condensado nas palavras da Tábua Esmeraldina (Tabula Smaragdina). Este texto é uma suposta revelação de Hermes Trismegisto, assim sendo considerado pelos alquimistas medievais. A mais antiga referência a ele foi encontrada num escrito de Dyâbir Ibn Hayyân, datado do século VIII, sabendo-se que São Alberto Magno já tinha conhecimento da sua versão latina. A avaliar pelo estilo, a Tábua Esmeraldina é de origem pré-islâmica e, dado estar em perfeita harmonia com o espírito da tradição hermética, segundo a opinião unânime dos próprios alquimistas, não há razão para duvidar da sua vinculação à origem da hermética, isto muito embora não deixe de ser pertinente pôr-se a questão de saber se o nome de Hermes Trismegisto deve ser atribuído a um homem ou a uma função sacerdotal hermética praticada sob a invocação de Hermes-Thot.

Baseando-nos para tanto no texto latino, transcrevemos de seguida a Tábua Esmeraldina:

1. «Na verdade, decerto e sem dúvida: Quando se pretende obrar os milagres de uma coisa, o de baixo é igual ao de cima e o de cima é igual ao de baixo.»
2. «Assim como todas as coisas procedem do Uno e da meditação do Único, também todas as coisas nascem deste Uno mediante conjugação.»
3. «O seu pai é o Sol, sua mãe é a Lua, o vento carregou-o no seu ventre e a Terra é a sua ama de peito.»
4. «Ele é o pai das maravilhas do mundo inteiro.»
5. «A sua força é perfeita quando se converte em terra.»
6. «Suavemente e com todo o cuidado, separa a terra do fogo e o fino do grosso.»
7. «A fim de receber a força do de cima e a força do de baixo, sobe da Terra ao Céu e daí volta a descer à Terra. Assim possuirás a luz de todo o mundo, assim as trevas se afastarão de ti.»
8. «Esta é a força de todas as forças, pois vence tudo o que é fino e penetra em tudo o que é sólido.»
9. «Por conseguinte, o mundo pequeno acha-se feito à imagem e semelhança do mundo grande.»
10. «Por isso, e deste modo, virão a obrar-se prodigiosas aplicações.»
11. «E por isso me chamam Hermes Trismegisto, pois eu possuo as três partes da sabedoria do mundo inteiro.»
12. «Terminado está assim aquilo que disse sobre a obra do Sol.»

Titus Burckhardt, Alquimia: Significado e Imagem do Mundo

Tuesday, February 21, 2006

Fé

"... A fé cria, de certo modo, o seu objecto. E a fé em Deus consiste em criar Deus e, como é Deus quem nos dá a fé n'Ele, é Deus que se está a criar a si mesmo, continuamente, em nós próprios."

Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida.

A Demoniac by Joseph Middeleer, 1893.


Friday, February 17, 2006

Miguel de Unamuno, Do Sentimento Trágico da Vida

"Aumentando o amor, esta ânsia ardorosa de ir mais longe e mais fundo vai-se estendendo a tudo o que se vê, a tudo o que se vai compadecendo de tudo. À medida que vais penetrando em ti mesmo, e mais fundo desces em ti mesmo, vais descobrindo a tua própria futilidade, que não és tudo o que não és, que não és o que gostarias de ser, que, em suma, não és mais do que uma ninharia. E ao tocares no teu próprio nada, ao não sentires o teu fundo permanente, ao não atingires nem a tua própria infinitude nem, mesmo, a tua eternidade, tendo lástima de todo o coração a ti próprio, inflamas-te em doloroso amor por ti mesmo, matando o que se chama amor-próprio, e não é mais do que uma espécie de deleite sensual de ti mesmo, algo assim como a carne da tua alma a gozar-se a si mesma.
O amor espiritual a si mesmo, a compaixão que uma pessoa adquire para consigo própria, poderá, porventura, chamar-se de egotismo; mas é o que de mais oposto existe ao vulgar egoísmo. Porque deste amor ou compaixão de ti próprio, deste intenso desespero, porque, do mesmo modo que não eras antes de nasceres, também depois de morreres não serás, passas a ter compaixão, isto é, a amar todos os teus semelhantes e irmãos, em aparência miseráveis sombras que desfilam do seu nada ao seu nada, chispas de consciência que brilham um momento nas infinitas e eternas trevas. E dos demais homens, teus semelhantes, passando pelos que são mais semelhantes a ti, pelos que contigo convivem, vais-te compadecer de todos os que vivem, e até daquilo que, porventura, não vive, mas existe. Aquela longínqua estrela que brilha durante a noite, lá no alto, há-de apagar-se algum dia, e tornar-se-á pó, e deixará de brilhar e de existir. E, como ela, todo o céu estrelado. Pobre céu!
E se é doloroso ter de deixar de ser algum dia, mais doloroso seria, talvez, continuar a ser sempre o mesmo, e só o mesmo, sem poder ser outro ao mesmo tempo, sem poder ser ao mesmo tempo tudo o resto, sem poder ser tudo.
Se olhares para o universo do modo mais próximo e profundo que puderes olhar, que é em ti próprio; se sentires, e não só comtemplares, todas as coisas na tua consciência, onde todas elas deixaram a sua dolorosa marca, atingirás as profundezas do tédio da existência, o poço da vaidade das vaidades. E é assim como chegarás, a compadecer-te de tudo, ao amor universal.
Para amares tudo, para teres compaixão de tudo, do humano e extra-hunamo, do que vive e não vive, é necessário que sintas tudo dentro de ti mesmo, que personalizes tudo. Porque o amor personaliza tudo quanto ama, tudo aquilo de que se compadece. Só nos compadecemos, isto é, só amamos, o que se nos assemelha, e assim aumenta a nossa compaixão, e com ela o nosso amor pelas coisas, à medida que descobrimos as semelhanças que têm connosco. Ou, melhor, é o nosso próprio amor, que por si só tende a crescer, o que nos revela essas semelhanças. Se consigo compadecer-me e amar a pobre estrela que um dia desaparecerá do céu, é porque o amor, a compaixão, me faz sentir nela uma consciência, mais ou menos obscura, que a leva a sofrer por não ser mais do que uma estrela e por ter de deixar de o ser, um dia. Pois toda a consciência o é de morte e de dor.
Consciência, conscientia, é conhecimento partilhado, é consentimento, e con-sentir é con-padecer.
O amor personaliza tudo o que ama. Só é possível apaixonarmo-nos por uma ideia personalizando-a. E quando o amor é tão grande e tão vivo e tão forte e transbordante que tudo ama, então, ele tudo personaliza, e descobre que o Todo total, o Universo, também é Pessoa. Tem uma Consciência, Consciência que, por sua vez, sofre, se compadece e ama, isto é, é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personalizando tudo o que ama, é o que chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus e sente que Ele se compadece dela, ama-o e sente-se amada por Ele, dando abrigo à sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, ao eternizar-se e tornar-se infinita, a própria felicidade.
Deus é, pois, a personalização do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo. Consciência presa da matéria e esforçando-se por se libertar dela. Personalizamos o Todo para nos salvarmos do Nada, e o único mistério verdadeiramente misterioso é o mistério da dor.
A dor é o caminho da consciência, e é por ela que os seres vivos atingem a consciência de si. Porque ter consciência de si mesmo, ter personalidade, é saber-se e sentir-se distinto dos outros seres, e só se consegue sentir essa distinção com o choque, com a dor maior ou menor, com a sensação do próprio limite. A consciência de si mesmo não é mais do que a consciência da própria limitação. Sinto-me eu mesmo ao sentir que não sou os outros; saber e sentir até onde sou é saber onde deixo de ser, e a partir de onde não sou.
E como saber que se existe não sofrendo nem muito nem pouco? Como voltar sobre si, lograr consciência reflexa, senão através da dor? Quando se tem prazer, esquecemo-nos de nós próprios, de que existimos, entramos noutra coisa, alienamo-nos. E só nos ensimesmamos, voltamos a nós próprios, a sermos nós, na dor."

p.s. Já agora, deixo o link para o lugar dos meus sonhos e devaneios: Clareirazinha. :)

Wednesday, February 15, 2006

Um pensamento de Aldous Huxley

"Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que nunca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta."

The Summer Moon – Bait Gatherers by Charles Lees (1800-1880).