Thursday, January 22, 2009

O lado feminino da divindade

No mundo da espada e da guerra, esquecem-se os cultos aos falos de pedra e à fertilidade, que vinham de outro tempo, do tempo da Deusa. Mas nem tudo se perdeu completamente, o Concílio de Éfeso, no ano 431 d.C., proclamou que Maria era a Mãe de Deus. Bem, convém não nos esquecermos que Éfeso tinha, à época, um dos maiores templos, no Império Romano, dedicado à deusa Ártemis. Há necessariamente uma sabedoria feminina por trás desse acontecimento. E a verdade é que as imagens da Virgem com o Menino tornaram-se o que de mais comum há na iconografia cristã. E que maravilha que é a celebração das Madonas Negras nas catedrais francesas, que naturalmente se chamam Notre Dame. E não se pense sequer que os cristãos não sabiam da analogia de Isis a amamentar o seu filho Hórus, porque, segundo Campbell, estavam de tal modo conscientes disso que afirmaram: "aquelas formas, meras formas mitológicas no passado, agora são verdadeiras e encarnam o nosso Salvador".

A Mãe com o seu Filho. O mistério da vida. O mistério sexual. Campbell diz-nos que nas religiões da Deusa, "o mistério sexual é um mistério sagrado. É o mistério da geração da vida. O acto de gerar uma criança é um acto cósmico e deve ser entendido como sagrado. Por isso, o símbolo que mais claramente representa o mistério do despejar da energia da vida, no campo do tempo, é do lingam e da yoni, os poderes masculino e feminino, em conjunção criativa."

Claro que o cristinianismo, incapaz de lidar com a sexualidade, apresenta-nos uma Mãe virgem. O que nem sequer é uma ideia original, em si mesma, apenas mal interpretada. A ideia do nascimento virginal é comum na mitologia, referindo-se contudo a um segundo nascimento, um nascimento espiritual. Bom, mas também o mito da morte e ressurreição é comum e nem por isso os cristãos deixaram de o tornar seu, incorporando-o como se fosse único.

Vejamos ainda o próprio papel de Jesus. Em termos mitológicos, "a divindade que desce ao campo do tempo era originalmente uma deusa", como nos diz Campbell, que afirma ainda que "Jesus assumiu o que é, na verdade, o papel de uma deusa, nisso de descer até nós encarnando a compaixão". A Grande Compaixão, que abarca todos os seres, porque todos são filhos da Deusa.

Continuando com Campbell: as tradições "que se oferecem como revelações da Grande Deusa, mãe do universo e de nós todos, ensinam compaixão por todos os seres vivos." Sem esquecer "a santidade da terra, em si, porque ela é o corpo da Deusa. Ao criar, Jeová cria o homem a partir da terra, do barro, e sopra vida no corpo já formado. Ele próprio não está ali, presente, nessa forma. Mas a Deusa está ali dentro, assim como continua aqui fora.
O corpo de cada um é feito do corpo dela. Nessas mitologias dá se o reconhecimento dessa espécie de identidade universal."

Identidade essa que muitas vezes nos falta nas sociedades patriarcais, industrializadas, onde os rios e montanhas são esventrados e profanados, onde proliferam prédios e mais prédios de cimento no corpo sagrado da Mãe Terra. Deviam ter-nos ensinado a amar a Mãe, a respeitar a natureza. Mas o facto de não nos terem ensinado isso, não nos desculpabiliza a nós, indivíduos. Cada um de nós tem que fazer o que puder para que a natureza seja preservada, para que o corpo da Terra Mãe não mais seja profanado.

Eu, por mim, quero também voltar aos cumes de outrora e celebrar, como se celebrava noutros tempos. Campbell diz-nos que "muitos dos reis hebreus são condenados, no Velho Testamento, por terem cometido o pecado da idolatria, no topo das montanhas. Essas montanhas eram símbolos da Deusa. E, entre os hebreus, havia uma forte discriminação contra a Deusa." Também por cá tiveram dificuldades com os santuários no topo dos montes, não conseguindo retirar-nos esse culto, cristianizaram-no.

Que volte para nós o lado feminino da divindade!

Ainda para Campbell, "o feminino representa a maya. O feminino representa o que, em termos kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. Ela é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina. Nem é, nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa." Actualmente usamos a expressão "campo morfogenético, o campo que produz formas. Eis o que a Deusa é, o campo que produz formas." E "voltar à natureza certamente trará à tona, outra vez, o princípio da mãe". Que assim seja!

Alimento sagrado

CAMPBELL: Nenhum de nós estaria aqui se não estivéssemos comendo continuamente. O que você come é sempre algo que, um momento antes, estava vivo. Este é o mistério sacramental do alimento e da comida, que raramente nos vem à mente, quando nos sentamos para comer. Se dizemos graças, antes das refeições, agradecemos a essa figura provinda da Bíblia, pelo nosso alimento. Mas, nas mitologias primitivas, quando se preparavam para comer, as pessoas agradeciam ao animal, que estavam prestes a consumir, por ter se doado, em sacrifício voluntário.
Há um dito magnífico, num dos Upanixades: "Oh maravilhoso, oh maravilhoso, oh maravilhoso, eu sou alimento, eu sou alimento, eu sou alimento! Eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento!"
Já não pensamos assim, hoje, a respeito de nós mesmos. Mas agarrando-se a você mesmo, e não se permitindo ser alimento, você pratica o acto negativo primordial, enquanto negação da vida. Você interrompe o fluxo! E a liberação do fluxo é a grande experiência do mistério, inerente ao acto de agradecer a um animal, que está prestes a ser comido, por ter se doado.
Você também será doado, quando chegar o momento.

O Poder do Mito, Joseph Campbell