Thursday, November 21, 2019

És de Braga e chamas-te Lourenço?

«És de Braga e chamas-te Lourenço?» A expressão referia alguém perante quem todas as portas se abriam, mesmo as mais inesperadas. Estava relacionada com um arcebispo do século XIV, a quem o papa Gregório XI retirou o arcebispado de Braga, que lhe foi posteriormente restituído pelo papa Urbano VI. Contudo, e esta é a beleza oculta, em Portugal, sobretudo no norte, Lourenço é o nome do sol.

Mas voltemos à cidade das portas abertas, como Braga ainda é conhecida. Sei bem a origem da expressão, contudo, perto do famoso Arco da Porta Nova, há a Rua de Janes. 

Como escrevi noutro post, o Sol, fonte de vida, está na origem de muitas das crenças do homem primitivo. Nas antigas civilizações, o homem via os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical. No panteão romano, esse conceito foi personificado pelo deus Janus. O seu nome deriva de janua, palavra latina que significa porta. Janus era representado com duas faces simetricamente opostas, pois era aquele que olhava para o passado e em simultâneo para o futuro. Na concepção do homem primitivo, que representava o tempo de um modo cíclico, Janus presidia ao Solstício de Inverno e ao seu oposto na roda do ano, o Solstício de Verão.

No simbolismo cristão, as festas dos solstícios são, em última análise, as festas de São João Batista e de São João Evangelista. São dois São João e há, aí, uma evidente relação com o deus romano Janus e suas duas faces. Tendo sido a semelhança entre as palavras Janus e Joannes o que facilitou a troca do Janus pagão pelo João cristão.

Com o tempo perdeu-se, em parte, a festa solsticial de São João Evangelista, mas o mesmo não aconteceu com a festa do nascimento de Cristo. Sabemos bem que Cristo não nasceu realmente no Natal. Contudo, que melhor alegoria do que colocar o nascimento de Cristo na festa solsticial da Porta dos Deuses, tendo diante de si a Porta dos Homens?

Tradicionalmente, tanto para o mundo oriental quanto para o ocidental, o solstício de Câncer (Caranguejo), ou da Esperança, Verão no Hemisfério Norte, é a porta cruzada pelas almas mortais e, por isso, chamada de Porta dos Homens, enquanto o solstício de Capricórnio, ou do Reconhecimento, Inverno no Hemisfério Norte, é a porta cruzada pelas almas imortais e, por isso, denominada Porta dos Deuses.

Esse simbolismo dá sentido ao nascimento de Jesus a 25 de dezembro, sob o signo de Capricórnio, durante o Solstício de Inverno, sendo colocado numa manjedoura, entre um burro e uma vaca, apontando dessa forma, simbolicamente, para a constelação de Caranguejo e para o Solstício de Verão.

Não acreditam? Então, vejamos a simbologia associada à configuração da constelação de Caranguejo: na tradição hebraica, as duas estrelas principais da constelação de Caranguejo são chamadas de Haiot Ha-Kadosh, ou seja, animais de santidade, designados pelas duas primeiras letras do alfabeto hebraico, Aleph e Beth, correspondentes ao burro e ao boi. Estas duas estrelas chamam-se em latim Asellus, diminutivo de Asinus, referindo-se portanto a burricos. Diante delas, há um pequeno conglomerado de estrelas, denominado, em latim, Praesepe, que significaria estrebaria, curral, manjedoura, ou presépio. Hmm, belo, não é? ;)

Voltemos a Braga, uma cidade que tem como patrono S. Geraldo, mas cuja festa maior é a festa do S. João,no Solstício de Verão. E, assim, tudo está deliciosamente relacionado… :)


Wednesday, October 30, 2019

Fogueiras, manjares cerimoniais e os tradicionais peditórios do Dia dos Mortos

“É desnecessário acentuar a importância do alimento como factor primordial de cultura: grande parte dos instrumentos das mais antigas idades líticas, e de um modo geral as primeiras manifestações do «homo sapiens», dizem respeito à sua procura e preparação, e pode dizer-se que foi a partir dessas actividades, prolongando a função biológica, que surgiu o homem como ser cultural”. Ernesto Veiga de Oliveira continua, dizendo-nos que “o alimento é o sustentáculo da vida; e, por isso, identificava-se com ela, e devia aparecer ao homem primitivo revestido do prestígio das forças superiores e misteriosas de que dependia o ser humano. Pode-se assim supor que nessas épocas remotas ele não se esgotasse na sua função nutritiva fundamental nem no seu significado social, e que, confundindo-se aspectos utilitários e místicos, se lhe atribuísse, para lá dessas funções, um valor e uma natureza superalimentar; e que, fundado nestes, ele fosse, em certas ocasiões, e sob determinadas espécies, objecto de sacrifícios, oferendas ou manducações especiais, efectivas ou simbólicas, com o carácter de práticas propiciatórias ou de purificação, de magia imitativa ou profiláctica, associadas a celebrações culturais em vista a promover a fertilidade e a abundância.”

Assim, também desta festa do Dia dos Mortos fazem parte “importantes celebrações alimentares cerimoniais, que giram à volta de dois manjares específicos fundamentais: por um lado a castanha, e por outro lado bolos próprios da ocasião, que revestem nomes diferentes conforme as regiões”.

1. Os Magustos e as fogueiras do Dia dos Mortos

“A forma principal das refeições cerimoniais de castanhas, nos «Santos», leva o nome popular de «magustos», e consiste numa merenda festiva de castanhas que se assam em fogueiras de silvas secas, no campo, e se comem, aí, com vinho, no meio de grandes brincadeiras de toda a espécie, nomeadamente a de as pessoas se enfarruscarem ou tisnarem com tições ou com as mãos”.

Os magustos fazem-se um pouco por todo o lado. “No Norte, encontramo-los em toda a região de Entre Douro e Minho: eles fazem-se no Porto, em Vilarinho (Vila do Conde), em Lousada (Penafiel), aqui junto ao rio, com música, violas, guitarras, cavaquinhos, bailarico e brincadeira”.

“Em Portugal, e sobretudo no Norte e no Centro do País, o dia 11 de Novembro é de um modo geral festejado com «magustos» de vinho e castanhas em todas as partes onde estes ocorrem no dia de Todos os Santos, tomando assim o aspecto de um prolongamento especial dessas celebrações, a ponto de se falar em «Magustos dos Santos» e «Magustos de S. Martinho»”. O que faz sentido, se tivermos em conta que com a reforma do calendário em 1582, feita pelo papa Gregório XIII, a festividade do 1º de Novembro, passou para o dia 11, e essa pode ser a razão do nosso tradicional Magusto de S. Martinho, ainda uma reminiscência da nossa velha festa do Dia dos Mortos.

“Os «magustos» aparecem sob esta forma em todo o Minho, em casa ou nos campos, em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Douro, em Terras de Arouca, e na região e na própria cidade do Porto. Em Vilarinho (Vila do Conde), as castanhas comem-se com roscas de pão de trigo e nozes. Em Fafe, eles começam de tarde e duram até à noite: as castanhas assam-se em fogueiras que se acendem no meio da rua, e o vinho circula em cântaros; nessa noite, geralmente, joga-se o pau, etc.”

Mas, “A refeição cerimonial de castanhas nos «Santos» pode contudo revestir formas ou aspectos diversos dos «magustos»: no leste transmontano, em Quintanilha, os rapazes vão buscar lenha ao monte, num carro que eles próprios puxam, enquanto que as raparigas fazem pelo povo um peditório de vinho e castanhas, que depois cozem inteiras, em grandes caldeiras de cobre, são as chamadas «castanhas mamotas»: à noite, acende-se a grande fogueira no largo maior da aldeia, ou ao lado da fonte, no local onde reúne o «conselho», e junto a ela brinca-se, canta-se, joga-se o «busca três» como substituto da dança que nesse dia não é permitida, e comem-se as castanhas e bebe-se o vinho” e “a gente nova e os namorados enfarruscam-se”. É um momento de festa, à volta da fogueira. “Em Paradinha do Outeiro, usa-se também a fogueira dos «Santos», que se prepara de modo idêntico”. A este respeito, Ernesto Veiga de Oliveira diz-nos que “Frazer considera as fogueiras dos «Santos» costume de origem céltica, relacionado com os festejos de princípio de ano céltico, que era nesse dia, e indica inúmeros exemplos actuais de fogueiras dos «Santos», acompanhados de práticas divinatórias, algumas delas usando a avelã.(…) Note-se que, em Portugal, é na zona leste transmontana, que foi de povoamento celtizado, que se encontram com efeito as fogueiras dos «Santos».” Na verdade, se tivermos em conta as fogueiras que obrigatoriamente tem que se fazer para os magustos, estas fogueiras encontram-se por todo o Norte de Portugal.

Assim, pode-se dizer que “os «magustos» e as demais refeições de castanhas que se fazem em Portugal naqueles dias constituiriam, de acordo com a hipótese geral europeia, reminiscências de sacrifícios ou cerimónias fúnebres rituais, que tinham lugar no dia consagrado aos mortos, e que consistiam em ofertas alimentares às almas dos mortos familiares”. Sendo a castanha o fruto próprio da estação e sabendo que “teve uma grande importância na economia alimentar de outras eras; é portanto admissível que ela tenha tido uma importância ritual correspondente” tornando-se, assim, o manjar cerimonial, por excelência, da festa do Dia dos Mortos.

2. Outros manjares cerimoniais do Dia dos Mortos

Outros manjares específicos deste dia são os bolos ou pães, que variam na receita e no nome conforme os locais onde são confeccionados. Os mais famosos são feitos na região de Lamego e em Mondim da beira, trata-se de bolos antropomórficos que dão pelo nome de «Santoros» ou «Santórios». A este respeito, Leite de Vasconcelos, diz-nos o seguinte: "Tambem na Beira comem no dia do Todos os Santos (1 do Novembro) uns pães estreitos e compridos, de trigo, chamados santoros (plural santoro, ou sanctoro, de sanctorum), —vid. Ensaios Ethnogr., II, 186—, que são, quanto a mim, estilização de figuras zoomorficas ou antropomorficas, e representam provavelmente vestígios do sacrificios (aos mortos? pois no dia 2 comemora a Igreja os fieis defuntos: cf. Rev. Lusit., VI, 24G-247)."

BOLETIM DE ETNOGRAFIA, nº1, 1920, pag.31
PUBLICAÇÃO DO MUSEU ETNOLÓGICO PORTUGUES
DIRIGIDA POR J. LEITE DE VASCONCELLOS

No livro ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA, Lisboa, 1780, encontramos a seguinte referência a manjares cerimoniais do Dia dos Mortos:
Cada porco tem o seu S. Martinho.

“Em muitas regiões rurais do País, nomeadamente no Noroeste, a festa anda associada à matança do porco. E é influenciada, sob certos aspectos, pela euforia e pelo sentido de plenitude que decorre desse acontecimento que possui a natureza de uma verdadeira festa doméstica, muitas vezes mesmo a mais importante do calendário privado. No Minho, o dia situa-se na época das primeiras matanças, como o de S. Tomé na das segundas, que já têm em vista o Natal; em Gandra (Esposende), ele é dia de feira festiva de porcos. Na Mourisca (Palmela), onde há muita gente do Norte a trabalhar nas salinas que por ali abundam, faz-se igualmente a matança no dia de S. Martinho, e convida-se a família e amigos para uma grande jantarada, etc”.

“Contudo, o significado mais fundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho. No Minho diz-se correntemente:

«No dia se S. Martinho
Mata o teu porco
E prova o teu vinho.»

Com efeito, é tradicionalmente no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas; de acordo com a nossa velha legislação, era mesmo proibido, em muitas partes, vender o vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa”.

Servindo-nos novamente do livro ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA, Lisboa, 1780, encontramos ainda outra referência a manjares cerimoniais do Dia dos Mortos:
Isto quer Martinho, sopas de vinho.

Não deixa de ser interessante ver que as tradicionais sopas de vinho, comuns por todo o Norte de Portugal, sobretudo com a designação de sopas de cavalo cansado, deveriam também ser servidas nesta data.

No Nordeste Transmontano é também comum cozinhar carne de cabra. Veiga de Oliveira refere que numa localidade do distrito de Bragança, em S. Julião, “no dia 1 de Novembro, os mancebos comem em comum dois chibos, dos quais um foi fornecido pelos rapazes, e o outro pelas raparigas”. Também na aldeia de Cidões, no concelho de Vinhais, na noite de 31 de Outubro, celebra-se a Festa da Cabra e do Canhoto, com uma fogueira no meio da aldeia, onde se cozinha carne de cabra para acompanhar o pão e o vinho, comida cerimonial oferecida a todos os forasteiros que por ali passem.

“Um último manjar cerimonial dos «Fiéis» entre nós são as papas de abóbora-menina, que se encontram em Oliveirinha (Aveiro). O costume é certamente excepcional; contudo, vimos que em Coimbra a abóbora aparece também associada ao culto dos mortos, personalizando a ideia que ali preside ao peditório dos «bolinhos, bolinhós», numa sugestiva figuração que a forma do fruto certamente inspira. Deste modo, a significação do costume de Oliveirinha, como manjar fúnebre, parece confirmar-se, e o facto adquire toda a sua importância se se pensar que a abóbora-menina, naquela região e de uma maneira geral no Norte do País, é normalmente um manjar próprio do Natal, soba a forma de bolinhos de bolina [ou de gerimum] – o que relaciona alimentarmente esta última festividade com o culto dos mortos.”.

3. Peditórios cerimoniais do Dia dos Mortos

“Os «Santos» e «os Fiéis» são uma época de peditórios, como meio normal, e de natureza cerimonial, de obtenção dos seus manjares específicos”.

Subjacente a estes peditórios está a crença de que “uma vez por ano, no dia consagrado aos mortos, as almas dos defuntos vêm à terra visitar os lugares que em vida habitaram, isoladas ou em procissões: e , correspondentemente, nos dias dos «Santos» e dos «Fiéis», fazem-se bolos destinados às almas, peditórios e esmolas desses bolos, mesas postas para os defuntos, e oferendas alimentares, a par com luminárias sobre as campas. É lícito supor-se que esses manjares eram originalmente destinados aos mortos.” Neste contexto, Veiga de Oliveira refere ainda que “as Constituições do Bispado do Porto mencionam expressamente as manducações sobre as sepulturas, ao decretar a proibição geral dos festins fúnebres nos templos”.

Pode-se dizer, então, que “de um modo geral as crianças e os pedintes, que no dia de «Finados» andam de porta em porta a pedir, parecem representar as almas dos mortos que nessa mesma ocasião também erram pelo mundo, e por isso dar-lhes pão equivale a dá-lo às próprias almas”.

No Centro do País é comum o peditório do «Pão por Deus», habitualmente feito por crianças. “Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós»”. “No Norte, em Santo Tirso, andam também neste dia grupos de pessoas, que nem sempre são indigentes, a pedir pelas portas, acompanhadas de crianças, muitas vezes emprestadas; trazem sacos nas mãos, e aí metem a caneca do cereal com que tradicionalmente os presenteiam”. Estes peditórios visam sempre a obtenção de manjares cerimoniais, como são ainda “os casos dos peditórios de castanhas e vinho em Trás-os-Montes”.

4. Abóboras iluminadas, algazarra e procissões

Por estranho que pareça, Veiga de Oliveira refere dois casos do uso tradicional das abóboras iluminadas, um em Coimbra e o outro em Guimarães:
“Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro”;
“Além do caso de Coimbra, conhecemos entre nós outro exemplo da utilização da abóbora ou cabaço como figuração humana, nas máscaras das esfolhadas de Santo Tirso de Prazins (Guimarães), que depois estes passeiam, alçadas num pau e com uma vela dentro, e deixam espetadas em qualquer sítio mais ermo, para meterem medo a quem passa”.
Também entre nós são comuns as procissões que “parodiam os cortejos religiosos, e em versão báquica”. Naturalmente, estas procissões decorrem no dia de S. Martinho. Mas, mantendo-nos na hipótese de se tratar da mesma festividade, aqui ficam referenciadas: “O costume destas «Procissões» é geral no Norte. No Minho, em Fafe, elas vão em rusgas pelas ruas, com música de harmónios, cavaquinhos, pandeiretas e ferrinhos. Em terras de Barroso, no concelho de Montalegre, os homens, nesse dia, levam para o monte castanhas e vinho, e fazem brincadeiras ruidosas; aquele que apanha a maior borracheira é nomeado «Juiz de S. Martinho», e todos o ovacionam, berrando:

«Viva S. Martinho
 A cabaça e o vinho!» ”

E a noite de S. Martinho é no Norte, por tradição, uma noite “com chocalhos e campainhas, e também de travessuras e partidas que se fazem em várias partes, sublinhando as facécias e manifestações típicas da bebedice, e que sem dúvida se relacionam com esse ritual de licenciosidade geral. E é seguramente num espírito semelhante que se organizam as voltas nocturnas com o estrondo de instrumentos ruidosos, conduzidos nesta noite pala juventude ao longo das ruas e por vezes mesmo diante das casas de certos vizinhos pacíficos, por simples espírito de liberdade irreverente”.

E pronto, é esta a festa, são estas as tradições. :)

Nota: todas as citações que não estão referenciadas foram retiradas do livro: Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

21 de outubro de 2010 (retirado de outro dos meus blogs, um onde não continuei a escrever)

Foto retirada da net.


Culto dos mortos: ceia ritual em honra dos antepassados

Nesta noite ninguém cuide
Encontrar-se à mesa a sós,
Porque os nossos queridos mortos
Vêm juntar-se a nós.

Esta é uma velha quadra popular referida por Ernesto Veiga de Oliveira, no seu livro Festividades Cíclicas em Portugal, do qual me vou socorrer ao longo deste post. A quadra é relativa à noite da consoada, mas segundo este autor: “são muito numerosos e significativos os costumes e práticas próprias do Natal, que aparecem associadas à evocação dos defuntos, designadamente sob a forma de crença na sua comparência, nessa noite, na casa onde viveram”. A este respeito o autor remete-nos ainda para Consiglieri Pedroso, Leite de Vasconcelos e Alberto Viera Braga.

Temos que entender que a prática cristã de acender velas e colocar flores nas campas dos defuntos, ao mesmo tempo que se lhes rezam uns responsos, é muito diferente da velha ideia pagã de celebrar os mortos com manjares cerimoniais, confraternizando à volta da mesma mesa, partilhando uma refeição.

A dado momento a ceia de Samhain deixou de existir, passou a ser proibida, que mais restava àqueles que queriam celebrar à maneira antiga senão transferir esses costumes para outra data, para a única celebração do ano que ainda começava, à velha maneira pagã, após o pôr-do-sol, com uma ceia de confraternização. De resto, é ainda o mesmo tempo, continuamos no inverno, na metade do ano das trevas, no tempo da morte e do renascimento.

Vejamos, então, dois aspectos importantes da ceia de convívio com os que partiram:

Em primeiro lugar, o prato a mais na mesa, em memória daqueles que partiram. Veiga de Oliveira diz-nos que também “no Alto Minho, para a ceia da consoada, punha-se um talher a mais na mesa, que se destinava à pessoa de família falecida em data mais recente.”

Em segundo lugar, o aspecto de não retirar a comida da mesa, também um velho costume das terras do norte. “Em várias localidades, como Guimarães, terras de Barroso, Rio tinto, nos arredores do Porto, etc., a mesa da ceia da consoada, na véspera do Natal, não se levanta, para que os «alminhas», que nesta data comparecem, por vezes a altas horas, encontrem de comer.”

De notar ainda “o costume de se estender palha no chão, em redor da lareira, na noite de consoada, que se observa em vários pontos do Norte do País – em terras da Maia, na Póvoa de Varzim, em Vilarinho, no concelho de Vila do Conde, etc. – pode talvez ser interpretado como uma prática relacionada com o culto dos mortos, e como uma manifestação da crença na sua comparência na casa onde viveram, nessa data”. Naturalmente, as pessoas já não sabem o que esteve na origem deste costume e inventam razões. Mas, Veiga de Oliveira diz-nos ainda que também na Dinamarca este costume é observado e “que tem lugar a fim de que os mortos, que nessa noite comparecem, se possam deitar nas suas camas, daquela forma desocupadas: e parece-nos legítimo interpretar o costume português neste sentido, já porque a sua forma material é idêntica nos dois casos, já porque, como vimos, a associação das celebrações do Natal com a ideia da comparência dos mortos nessa noite se documenta entre nós pelos demais exemplos, tão significativos, que apontamos”.

Ainda segundo este autor, “A crença na visita das almas na noite de Natal existe também na Galiza, onde parece ter um carácter geral: e, a este respeito, Jesus Taboada, em 1958, escreveu: «É costume em muitas partes (daquela província) deixar-se na noite de Natal o fogo aceso e um lugar e guardanapo à mesa, para que o Menino Jesus desça a cear. E em San Millán (Cualadro) deixam para as almas a oferta de leite ou cera, parecendo assim que se honraram primeiro os mortos com estes banquetes familiares, e por influência cristã se estendeu o costume ao Menino Jesus em lugar dos antepassados, para se santificar a festa pagã.»”.

De tudo isto podemos concluir que, em Samhain ou no Solstício de Inverno, o tradicional banquete de confraternização com os antepassados existia nestas terras da Galécia. E, na minha opinião, é uma bela tradição.

Passemos agora, então, para os manjares cerimoniais, o que nos leva a novo post. :)

Nota: todas as citações foram retiradas do livro:
Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

21 de outubro de 2010 (retirado de outro dos meus blogs, um onde não continuei a escrever)

Sunset in the Forest, 1904 by Ivan Trush.



Saturday, April 13, 2019

Voltando ao Primeiro de Maio

Voltando ao Primeiro de Maio (cópia de uma resposta que deixei num grupo do facebook)...
 
Há uma carta de 1385 que refere a tradição, também em Portugal, de celebrar a noite de Valpurgis. Sabemos, assim, que esta tradição se celebrava ainda no reinado de D. João I, mas já era vista como um costume diabólico e um crime de idolatria (in Festividades Cíclicas em Portugal, Ernesto Veiga de Oliveira, pág. 111).

Para Veiga de Oliveira, o que sobrou das grandes festas pagãs traduziu-se sobretudo em manjares cerimoniais. Os manjares cerimoniais associados à Véspera do Primeiro de Maio são dois: o caldo de castanhas (feito com castanhas piladas, que são castanhas desidratadas à moda antiga), no nordeste transmontano, e os queijinhos de figos e amêndoas, no Algarve. Estes manjares cerimoniais deveriam ser comidos ritualmente, antes do nascer do sol do primeiro dia de maio.

Eu ainda faço o caldo de castanhas e ainda o como ritualmente, antes daquele dia nascer, para me ligar aos meus antepassados que faziam esse mesmo ritual, mas também e principalmente para afastar o inverno que existe dentro de mim, devorando-o, digerindo-o e libertando-me dele, para deixar entrar o verão. É um processo poderoso! :)

As castanhas, em associação com a carne de porco, são o manjar cerimonial obrigatório da festa complementar: do Magusto (ou, se preferirmos outro nome, de Samhain). Reaparecem aqui, ligando as duas festividades. Com outra particularidade, a sopa tradicional de castanhas leva feijão branco, o que reporta a outra receita, um caldo que se comia no início da primavera, num dia em que estranhamente estavam proibidas as verduras. Mas isso é outra história. ;)

Outro ritual do Primeiro de Maio, que ainda se pratica nos nossos dias, sobretudo no norte de Portugal, é o ritual das Maias. As Maias são flores de giesta que se penduram nas portas, supostamente para afastar uma qualquer entidade maléfica. Eu não entendo dessa forma. Eu penduro as flores amarelas das giestas na porta de entrada da minha casa, para mostrar ao mundo que também eu participo do renascimento cósmico. Faço-o no momento em que começa a festa, quando o sol se põe, no dia 30 de abril. Dessa forma, quando nasce o sol do Primeiro de Maio, as flores das giestas marcam a minha porta, só assim o ritual se cumpre.

A Primavera é uma ressurreição da vida universal e, por conseguinte, da vida humana. Por este acto cósmico todas as forças da criação reencontram o seu vigor inicial. A vida é integralmente reconstituída, tudo começa de novo. A ideia de regeneração do ser humano por uma participação activa deste na ressurreição do mundo vegetal e, portanto, na regeneração do cosmos, está implícita no ritual das Maias.

As Maias são uma reminiscência da maior festa sagrada da religião celta, que por sua vez foi buscar esta data sagrada a uma tradição ainda mais antiga e imemorial. Assim, podemos dizer que, desde épocas recuadas e por toda a história religiosa do mundo antigo, o Primeiro de Maio foi e continua a ser a data sagrada por excelência. Antigamente, era no início de Maio que se reuniam nas florestas e nas montanhas imensas multidões que, pelo recolhimento religioso e depois pela santa e boa alegria, celebravam a Terra Mãe e a regeneração do cosmos. Participando na regeneração do cosmos, também o homem era regenerado.

Em 1946 estabeleceu-se, no dia 1 de Maio, a festa do trabalho em todas as nações. É o dia do trabalhador. Charroux afirma que isso aconteceu porque vários círculos iniciáticos tomaram, e ainda tomam, medidas para que o primeiro de Maio se venha a tornar na festa de todos os povos da terra. Ele diz que é preciso que a data da maior festa sagrada do nosso hemisfério se imponha novamente, começando assim o início da justa reposição das coisas.

Friday, October 26, 2018

A angustia perante a morte

No passado sábado, vi o filme Victoria, de Sebastian Schipper, 2015.

Há um momento em que dois assaltantes, a fugir da polícia, entram num prédio, encontram um homem nas escadas, apontam-lhe uma arma e obrigam-no a deixá-los entrar em casa dele. O que ele faz. Lá em casa, estavam a mulher e um bebé de meses, que os assaltantes acabam por levar como refém.

Antes de partirem, um deles ainda pergunta ao homem, que continua apavorado:

- Porque é que nos deixaste entrar, se tinhas cá dentro o teu bebé?...

Bem, eu estou absolutamente convencida que a reacção do homem, no filme, está de acordo com o modo como a maioria das pessoas reagiria.

O que é que nos tornou cobardes? Este modo vida, em que vivemos isolados nos nossos cubículos, certamente contribui muito para a cobardia do mundo moderno.

Outro elemento fundamental, para nos entendermos, é a nossa visão do tempo. O conceito do tempo linear, da seta do tempo, é moderno. Surge em oposição ao tempo cíclico, de antigamente. Com a mudança da percepção do tempo, deparamos com um terror impossível de vencer: a absoluta angústia perante a Morte, o Nada.

Antigamente, o próprio tempo cíclico levava a que conhecêssemos a morte intimamente, obrigando-nos a morrer inúmeras vezes, para renascer como outra coisa.

Morrendo e ressuscitando continuamente, o homem tendia com todo o seu ser para a conquista da morte. E a imortalidade renovava-se a cada dia.

Voltando ao filme, o homem deixou-os entrar, por causa de um medo terrível da sua própria morte. Mas, na verdade, ele morreu no instante em que os deixou entrar na sua casa. Morreu tal como era e tornou-se outro. Inevitavelmente.

E pronto, acho que vou terminar com uma música de uma banda fantástica: Danheim. :) A musica é Ulfhednar.

Até outro dia.

Thursday, September 27, 2018

O caminho do bem

Eu continuo à procura da minha tribo, daquelas pessoas que caminharão comigo na paisagem dos nossos antepassados. Não tenho dúvidas que, um destes dias, elas irão aparecer na minha vida. :)

Bem, a verdadeira amizade é algo extraordinário, algo que desenvolve a nossa compaixão e que, sem dúvida, nos torna melhores pessoas.

Platão, nos seu Diálogos, diz o seguinte: «diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons» (Diotima para Sócrates).

Na verdade, a paixão é sempre motivada pelo belo. Pelo belo e não pelo bom, ou pelo bem. A motivação da paixão é simplesmente a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.

A amizade profunda e verdadeira, por sua vez, sendo ainda amor, é um amor diferente do amor paixão. Um amor que só pode estar submetido ao princípio supremo: o bem. A amizade é, então, o caminho da bondade, da partilha e da alegria pela felicidade do outro.

Termino dizendo que me podes escrever, sabes? Email: triskelzinho@gmail.com

Eu tenho um casamento sólido e feliz, mas quase não tenho amigos. Tenho poucos amigos no mundo real, quero eu dizer. E são sobretudo esses que eu procuro: pessoas que vivam relativamente perto de mim, ou em Trás-os-Montes, onde eu vou muitas vezes.

Bem, tenho consciência que é tudo muito superficial, nestes tempos modernos, incluindo a amizade. Mas, para mim, uma amizade superficial não é uma verdadeira amizade. Então, quem sabe se não nos espera uma grande e bela amizade? :)

De resto, eu concordo com a ideia de que estranhos se podem tornar os melhores amigos, com tanta facilidade como os melhores amigos se podem tornar estranhos.




Friday, September 21, 2018

A propósito de Nabia

Transcrevo um pequeno comentário que fiz, a propósito de Nabia, referida como deusa dos rios, dos montes e dos castros.

Rodriguez Colmenero (in Deuses da Planície: Nabia e Assimilados), bem como J.  Pokorny, M. L. Albertos, entre outros, insistem que o teónimo Nabia, tal como o homófono topónimo Nava, não tem conotações hídricas, derivando originalmente do vocábulo indo-europeu *naus, que se aplicaria a formas de relevo não montanhosas. Tratando-se de planuras, ou terras baixas, estenderiam a sua denominação à dos cursos fluviais que atravessavam o seu território. 

Parece-me um pouco confuso que também estivesse ligada aos montes. E quanto aos castros, ainda tenho mais dúvidas. Segundo vários historiadores, sobretudo J. M. Blázquez (in Divindades Indigenas e Interpretatio Romana), o mais comum nos castros do noroeste peninsular era os deuses não só carecerem de nomes, como nada ser definido quanto à sua aparência, qualidades, género e número. Também F. Marco (in Interpretatio Romana y Asimilación Indígena, bem como in Religio Deorum) refere que aquilo a que eram atribuídos nomes era aos lugares que eram consagrados à divindade, como bosques, arvoredos, fontes, etc. F. Villar (in Un Elemento de la Religiosidad Indoeuropea) também expressa uma opinião similar.

«Os deuses, tal como os cães, respondem apenas quando são chamados pelos seus nomes.» A frase é de Cícero no tratado De Natura Deorum. Nas religiões gregas e romanas, sem dúvida que o conhecimento do nome era um pré-requisito essencial em qualquer forma de comunicação com qualquer entidade divina. F. Marco Simon (in Diis Deabvsqve A Indefinição Primordial do Divino) refere que tal não acontecia na região norte da Península Ibérica.

Ainda in A Indefinição Primordial do Divino, F. Marco Simon cita uma passagem de Jâmblico, dizendo que em cada povo há características linguísticas impossíveis de se expressarem na língua de outro povo e que, mesmo quando tal fosse possível, um nome traduzido (ou romanizado) carecia de poder.

Mais tarde, continuei com outro comentário, que também transcrevo.

Eu estou consciente da associação de Nabia com o culto da água. Sei que Leite de Vasconcelos propôs até a interpretação do nome na Fonte do Ídolo, como «a divindade da fonte pela qual se jura». Mas podia estar enganado. De qualquer forma, a Fonte do Ídolo é um templo na parte baixa da cidade, actualmente é preciso descer alguns metros até ao recinto do antigo templo. Este templo foi erigido na época romana, pela família de Celicus Fronto, sendo que este era um estrangeiro, alguém que provinha de fora da Galécia e cujo conhecimento das divindades locais era limitado. Associado ao templo, havia um recinto de lazer, um tanque alimentado por uma pequena nascente. Se não houvesse nenhuma nascente, a construção do espaço que lazer (que existiu!) seria impossível. De modo que a nascente pode estar lá, por diversas razões. Não deixa de ser estranho que, num espaço onde há imensas fontes sagradas, esta não o seja na tradição popular.

Também não conheço nenhum ritual relacionado com o culto da água, nos rios Neiva ou Nabão, mas esses rituais existem, em relação a outros rios. Leite de Vasconcelos refere alguns rios do noroeste Peninsular que “requeriam” sacrifícios, refere outros aos quais a tradição popular associava seres míticos ligados à água e refere ainda outros rios, em que se praticavam ainda velhos cultos pagãos. Por acaso, falhou o ritual mais importante deles todos, nunca o encontrou e não o referiu. Muitos o referiram, mas apenas aqui e ali, dispersamente. E eu estou profundamente grata ao meu marido, que dedicou a sua tese de mestrado precisamente a um ritual muito antigo do culto da água, com várias referências, mas muito dispersas e que, apesar de tudo, chegou aos nossos dias, não só em termos de referências como também da continuidade do culto. Em diversos locais, em vários rios, tanto no Minho como em Trás-os-Montes, o mesmo ritual, de um intenso e emotivo culto da água, não só chegou aos nossos dias, como ainda se pratica. Contudo, este é o tempo do fim de um ritual pagão e profundo, ao qual é impossível ficarmos indiferentes.

Tudo isto para dizer que eu sei muito bem que o culto da água é o elemento mais marcante e mais vincado do paganismo do norte de Portugal. Mas, na minha modesta opinião, talvez seja preciso deixar de o associar apenas com Nabia, se é que tem alguma associação com esta divindade, e encontrá-lo de verdade.

p. s. Já agora, se alguém quiser ler a tese que referi, é a tese de Mestrado em Património e Turismo Cultural, de Alexandre da Silva Marques, publicada no site da Universidade do Minho.
A tese começou com a Ponte da Misarela e acabou mantendo o nome, mas refere várias pontes, de diferentes rios, onde se praticava o belíssimo ritual do Baptismo no Ventre. Link:
Lugares de memória : a Ponte da Misarela

Wednesday, September 19, 2018

O Lugar do Início


O livro O Lugar do Início, de Ursula K. Le Guin (uma escritora de quem sempre gostei muito), começa com uma citação de Jorge Luis Borges: Que rio é este pelo qual corre o Ganges?... 

Acerca disso deixei este pequeno comentário a um amigo: 

Não há como fugir a isso, pois não? O lugar do início da nossa tribo encontra-nos sempre. Por mais elaborados que sejam os nomes ou as litanias, acaba sempre tudo por regressar à verdade simples e imediata da paisagem. Para mim, quero eu dizer. :)

A paisagem que moldou a tribo, de alguma maneira, é imutável. Os montes tornam-se vales, os rios correm em diferentes leitos, as velhas árvores desaparecem e outras, de diferentes espécies, passam a ser dominantes. Tudo muda e, ainda assim, a paisagem que foi corpo da tribo, ainda é. Não há nada naquela paisagem que possa ser diferente, mesmo que os nossos olhos nos digam o contrário. 

Que sentido é verdadeiro? O que é real? Se fecharmos os olhos, o cheiro e o som tornam-se outros. Se continuarmos de olhos fechados, a cada passo que damos entramos mais e mais no corpo da tribo. E é assim até começarmos a sentir aquela velha sensação, também ela invariável. Nesse momento, podemos abrir os olhos: a floresta encontrou-nos.


Outro pensamento acerca da paisagem

Eu sou incapaz de basear a minha relação com os meus deuses em documentos. Sofro da paixão historiográfica, que invadiu o mundo moderno, face a muita coisa, mas não em relação aos deuses.

A minha relação com os meus deuses só faz sentido se se basear no meu modo de sentir e no meu modo de pensar. O documento não transmite o meu modo de pensar e de sentir, é limitativo. E, no enquadramento das minhas divindades pagãs, está sempre imbuído do modo de pensar, de sentir e de ver o mundo de uma cultura distinta daquela, de tradição oral, de onde partiu esse documento. Uma cultura que já pouco valoriza a alma da tribo, os mitos, mas que desvaloriza ainda mais o corpo da tribo: a paisagem. Para mim, a paisagem é fundamental.

No mês passado, eu estava, por mero acaso, no lugar onde antigamente havia um templo pagão, na aldeia onde nasci, quando, novamente mais ou menos por acaso, me volto e vejo a lua cheia a nascer. Foi só isso, mas desencadeou algo incrivelmente intenso dentro de mim. Por escassos segundos, liguei-me aos ancestrais da minha tribo, que pisaram aquele chão e que viram um nascer de lua cheia, em circunstâncias similares. E liguei-me aos descendentes da minha tribo que, num qualquer momento futuro, hão-de sentir, naquele lugar, o nascer da lua cheia.

O que eu quero dizer é que, na tradição oral, mesmo numa tradição oral inserida num contexto cristão, o corpo da tribo continua a ser valorizado, mas esse corpo da tribo tem cada vez menos relevo no documento, pela sua própria natureza muito mais selectivo, muito mais censurado.

Se esquecermos o corpo da tribo, esquecemos demasiado.

Para mim, Lugh é por excelência uma divindade ligada à paisagem, ao corpo da tribo, ao lugar. Assim, quando eu senti tão intensamente aquele momento em abril, agradeci também a Lugh por me permitir sentir a memória daquele lugar.

A memória do lugar é, na minha opinião, algo que urge trazer de volta.

Maio de 2017.

Autumn Memories by Frederick Mccubbin, 1899.


Monday, September 17, 2018

Tentando voltar ao caminho

Sinto que devo voltar a escrever acerca do corpo da tribo. Mas eu já não tenho as palavras. Também eu sou, cada vez mais, intrinsecamente turista. E quando somos turistas não encontramos a memória da paisagem, que também não nos diz a cada passo quem nós somos.

De resto, quando eu percorro a paisagem, que é o corpo da minha tribo, eu não tenho conceitos, só experiências. Mas quererei falar delas, em público? Não estarei já farta dos meus patéticos espectáculos de vaudeville?...

Hmm, talvez eu não tenha nada contra o vaudeville e o que me aborreça seja o pressuposto da narrativa explicada. Bem, se não explicada, pelo menos algo com sentido, o que acarreta ainda o cansativo desdobramento entre actor e expectador.

Eu estou a mudar de pele, a entrar cada vez mais no meu novo eu: nocturno, onírico e abstracto. Já nem sequer quero ser compreendida. Por que razão me preocupo ainda com tudo isso?

Talvez por, no fundo, ainda persistir a convicção de que o único espaço onde eu faço falta é no corpo da minha tribo, onde talvez eu ainda seja capaz de abrir novos caminhos. E eu simplesmente não sou capaz de me afastar, quando faço falta.

Assim, em qualquer momento, haverá um verdadeiro regresso e eu estarei de novo no caminho, voltarei a peregrinar.

Nas minhas peregrinações, eu nunca procurei a reconstrução, que nunca deixaria de ser algo novo, por maior que fosse a sua beleza. Eu sempre quis encontrar o que ainda era original, mesmo que estivesse esquecido e cheio de entulho.