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Friday, September 05, 2008

Álbum de Família

No meu álbum de família, da minha família pagã, há fotografias de pessoas que eu ainda não conheço acordada. Mas que aparecem nos meus sonhos com alguma frequência (note-se que eu não estou a falar de algo como sonhar acordada, estou a falar de sonhos reais, enquanto durmo). Sinto falta dessas pessoas e procuro-as. Será apenas uma questão de tempo até que as encontre. Não vejo como poderia ser de outra forma. E não tenho qualquer interesse noutro tipo de explicações.

É a verdade. :)

As coisas mais importantes da minha vida, começaram com sonhos e intuições.

Deixem-me contar como encontrei o meu amor. Numa tarde, há mais de 8 anos, falei com os deuses e disse-lhes que tinha chegado o momento do meu guardador de sonhos aparecer na minha vida. Nesse mesmo dia, ao início da noite, alguém na net com o nick de dreamkeeper dirigiu-se a mim. Só fiquei admirada porque esperava que demorasse um pouco mais a aparecer... mas nem sequer me passou pela cabeça chamar-lhe coincidência, sabia bem que o nome correcto era destino. E foi, é destino.

Eu amo o meu guardador de sonhos de um modo que eu nunca imaginei sequer que fosse possível amar alguém. Dizer que ele faz parte da minha vida a cada instante é quase ridículo, pois ele é a minha vida. Ainda me acontece acordar de noite e ficar quietinha, profundamente feliz, só a vê-lo dormir. Tive uma ou outra paixão antes de o conhecer que, agora, olhando para trás, já nem me parecem lá muito reais, são insignificantes comparadas com o que sinto há anos pelo meu senhor menino. Não há dia nenhum em que eu não agradeça aos deuses o amor belo e profundo que existe na minha vida. Agradeço por amar e também por ser amada.

Mas voltemos ao álbum de família. Da minha família pagã. Diferente da família onde nasci, diferente dos meus amigos. Sei bem que existe. Mas a minha família pagã tarda em aparecer. Há na minha vida uma espécie de "destino" ainda por cumprir... que passa por um caminho que na verdade não se escolhe... sim, cada vez mais sinto que, pelo contrário, é o Caminho que nos escolhe...

Creio que chegou o momento do Caminho trazer para a minha vida aqueles que devem caminhar comigo. :)

Friday, December 09, 2005

... sobre o amor

Comecemos pela definição de amor. Deepak Chopra elucida-nos: "Amor significa aquilo que dissolve todas as impurezas, deixando apenas o verdadeiro e o real". E é isso que o amor é: uma força purificadora, que nos devolve a nós próprios.

Na verdade, quando somos peregrinos na senda do amor, sangramos de bom grado com as feridas do amor... sim, porque o amor depende apenas de nós, da nossa entrega, da nossa doação ao próprio amor. O amor existe em nós e é em nós que se manifesta. Se aceitarmos incondicionalmente o amor, isto é, se aceitarmos o amor cada vez que este nasce em nós, mesmo quando sabemos que não o poderemos realizar do modo como gostariamos, seja lá por que razão for, nessa altura crescemos no amor e, desse modo, o amor purifica-nos e leva-nos ao encontro da nossa verdadeira essência: amor.

Porque haveríamos de ter medo de sofrer? Sofrer não é nada.Todos nós sofremos por amor, mais tarde ou mais cedo. Só não podemos fechar-nos ao amor, com medo do sofrimento. Se o fizermos, perdemo-nos. E o que é pior: não temos quaisquer garantias de não voltarmos a sofrer, poderemos não sofrer por amor, mas sofreremos outras dores, talvez ainda mais amargas, porque reflectem o vazio da nossa vida...

Que sentido faz o amor se olharmos para as diferenças entre nós e aqueles que amamos? Que sentido faz o amor se acharmos que deveríamos ser amados, ou até como deveríamos ser amados?... O amor é um milagre, um milagre que se repete a cada instante e que devemos agradecer a cada instante. Nós ou outro não amamos por querer amar ou dever amar, amamos porque, volto a repetir, um milagre acontece na nossa vida. Não somos nós que escolhemos o amor. É o amor que nos escolhe. E, para aqueles que seguem o caminho do amor, o amor faz aquilo que o rei sugeriu que a Alice fizesse: "começa pelo princípio e vai até ao fim". O amor purifica-nos. E, se deixarmos, purifica-nos completamente. Apenas temos que nos abrir ao amor, a começar pelo amor por nós próprios. Livrarmo-nos do medo e do egoísmo, permitindo-nos amar verdadeiramente, independemente do que o outro sente por nós. Quando damos amor, também recebemos. Sim, pode acontecer que esse amor se concretize numa direcção diferente daquela para onde pensávamos canalizar o nosso próprio amor... Mas isso já são novamente os caminhos do amor, que nos transcendem. Seja como for, é possível recebermos aquilo que precisamos, simplesmente dando.

...

O amor como caminho só pode estar submetido ao princípio supremo: o Bem. O amor é, assim, o caminho do Bem, da bondade, da felicidade.

Platão, nos seu diálogos, dizia o seguinte: Diotima para Sócrates: "diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons, já que os homens até consentem que lhes cortem pés e mãos, sempre que essas partes de si mesmos lhe pareçam malignas." É preciso que mesmo Eros seja ainda um amor bom, positivo, um amor que nos torna melhores, doutra forma Eros não evoluirá. Mas temos que estar de sobreaviso, porque a paixão é SEMPRE motivada pelo Belo. Pelo Belo e não pelo Bom, ou pelo Bem. Mas a paixão ainda não é a felicidade, ou o caminho de volta à nossa verdadeira casa. A motivação da paixão é outra: a imortalidade. Exactamente, a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.

Não quero dizer com isto que a paixão seja negativa, muito pelo contrário. É muitas vezes o umbral, não apenas o ponto de partida, mas para muitos de nós o único ponto de partida possível... quando eu conheci o Alexandre, apaixonei-me perdidamente, como outras vezes me tinha apaixonado, mas desta vez entreguei-me completamente ao que sentia e fui também amada. Com o tempo, o amor carnal evoluiu para o amor ternura. E este novo amor ternura por vezes manifesta-se de tal forma que eu não posso deixar de amar também toda a humanidade... nessas alturas, citando o Gibran, sinto verdadeiramente que "eu estou no coração de Deus".

Eu creio que é como nos dizem Gitton e Antier, no livro da sabedoria e das virtudes reencontradas: "... à medida que se avança na sabedoria e na virtude, desligamo-nos dos desejos egoístas e elevamo-nos nos graus do amor. Primeiro, só se ama a si mesmo, depois o outro e depois os outros."

Contudo, creio que tudo isto pressupõe conhecimento. Temos que estar conscientes de quem somos, das nossas motivações, daquilo que queremos alcançar. Sabendo isto, poderemos servir-nos da nossa força e mantermo-nos perseverantes no caminho do amor. Se só nos amarmos a nós mesmos, não evoluimos, não conhecemos outros graus de amor. Moralidades à parte, é ainda um estado limitativo.

Sim, sei bem que cada um de nós segue o seu próprio caminho. Eu acredito, como sempre acreditei que o meu caminho de volta a casa é o caminho de Ágape. Eu acredito que quando vivencio o verdadeiro amor, enriqueço-me de um modo fabuloso. Mas vivenciar o amor é acima de tudo transmiti-lo. Que importa que eu sinta o amor, se eu não tenho empatia suficiente para intuir a real necessidade do amor em alguém e num momento, esse sim transcendente, transmitir o amor? O que eu quero dizer é que sentir o amor é um acto natural, os bebés sentem-no, todos. Mas, transmitir o amor já é um acto transcendente. Começa logo por ser um acto que não ocorre espontaneamente, mas sim devido a uma necessidade alheia. Ao intuirmos essa necessidade, ao nos assumirmos como seres perfeitos face a essa mesma necessidade e ao libertarmos o outro da sua limitação, dando-lhe por momentos a verdade da sua perfeição, naturalmente transcendemo-nos. E já não somos simplesmente Um com o universo, somos Um numa tríade: nós, o outro e o espírito unificador do Amor.

Mas, voltemos a Gitton e Antier: Ágape "é o ideal. «O ideal da santidade», sublinha Kant. Ele guia-nos e ilumina-nos. É uma virtude pois é uma excelência. E, milagre, «o amor que realiza a moral liberta-nos dela». «Ama e faz o que quiseres», dizia Santo Agostinho. O amor é pois o começo de tudo."

Mas, como eu dizia, por vezes Eros é o ponto de partida... se assim for, temos que ter cuidado e estar atentos. E pronto, nada mais tenho a dizer. Quero apenas terminar com o poema de Gibran:

"Quando o amor vos chamar, segui-o,
embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
e quando ele vos falar, acreditai nele,
embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
assim também desce até vossas raízes
e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento,
vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor,
para entrar num mundo sem estações,
onde rireis, mas não todos os vossos risos,
e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
"Deus está no meu coração",
mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus".
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
pois o amor, se vos achar dignos,
determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
sejam estes os vossos desejos:
de vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
que canta sua melodia para a noite;
de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
e de sangrardes de boa vontade e com alegria;
de acordardes na aurora com o coração alado
e agradecerdes por um novo dia de amor;
de descansardes ao meio-dia
e meditardes sobre o êxtase do amor;
de voltardes para casa à noite com gratidão;
e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
e nos lábios uma canção de bem-aventurança."

:)