Showing posts with label tradições. Show all posts
Showing posts with label tradições. Show all posts

Thursday, July 23, 2020

Árvore Invertida

Se bem que cada árvore tenha ligações e associações muito específicas, todas representam um eixo do mundo, um intermediário entre a terra, onde mergulham as suas raízes, e o céu, que alcançam com as suas copas. Contudo, a representação da Árvore da Vida, tanto no Oriente como no Ocidente, é uma árvore invertida, cujos ramos crescem para dentro da terra e cujas raízes alcançam o céu.

No Zohar, encontramos a seguinte citação: «A Árvore da Vida estende-se de cima para baixo e o Sol ilumina-a toda.»

Ainda a propósito da árvore invertida, Mircea Eliade também cita, entre muitas outras referências, o folclore islandês e finlandês, onde se colocava no altar uma árvore invertida, sendo o mesmo ritual encontrado também em tribos australianas.

No Bhagavad-Gita também é expressado o simbolismo hindu da árvore invertida. Nos Upanixades, o universo é representado como uma árvore invertida. O Rig-Veda especifica: «é para baixo que se dirigem os seus ramos, é em cima que se encontra a raiz, que os seus raios desçam sobre nós!».

Eliade refere ainda uma tradição segundo a qual Platão teria afirmado que o homem é uma árvore invertida, cujas raízes se estendem para o céu e cujos ramos mergulham na terra.

Há muitos outros exemplos, mas creio que estes chegam para nos fazer pensar um pouco no conceito, tão comum nestes tempos modernos, de que o crescimento e a evolução espiritual são necessariamente uma ascensão, uma subida da Terra ao Céu. Será mesmo assim?...

Termino com uma bela imagem de uma árvore invertida, de Christina Burch.



Wednesday, October 30, 2019

Fogueiras, manjares cerimoniais e os tradicionais peditórios do Dia dos Mortos

“É desnecessário acentuar a importância do alimento como factor primordial de cultura: grande parte dos instrumentos das mais antigas idades líticas, e de um modo geral as primeiras manifestações do «homo sapiens», dizem respeito à sua procura e preparação, e pode dizer-se que foi a partir dessas actividades, prolongando a função biológica, que surgiu o homem como ser cultural”. Ernesto Veiga de Oliveira continua, dizendo-nos que “o alimento é o sustentáculo da vida; e, por isso, identificava-se com ela, e devia aparecer ao homem primitivo revestido do prestígio das forças superiores e misteriosas de que dependia o ser humano. Pode-se assim supor que nessas épocas remotas ele não se esgotasse na sua função nutritiva fundamental nem no seu significado social, e que, confundindo-se aspectos utilitários e místicos, se lhe atribuísse, para lá dessas funções, um valor e uma natureza superalimentar; e que, fundado nestes, ele fosse, em certas ocasiões, e sob determinadas espécies, objecto de sacrifícios, oferendas ou manducações especiais, efectivas ou simbólicas, com o carácter de práticas propiciatórias ou de purificação, de magia imitativa ou profiláctica, associadas a celebrações culturais em vista a promover a fertilidade e a abundância.”

Assim, também desta festa do Dia dos Mortos fazem parte “importantes celebrações alimentares cerimoniais, que giram à volta de dois manjares específicos fundamentais: por um lado a castanha, e por outro lado bolos próprios da ocasião, que revestem nomes diferentes conforme as regiões”.

1. Os Magustos e as fogueiras do Dia dos Mortos

“A forma principal das refeições cerimoniais de castanhas, nos «Santos», leva o nome popular de «magustos», e consiste numa merenda festiva de castanhas que se assam em fogueiras de silvas secas, no campo, e se comem, aí, com vinho, no meio de grandes brincadeiras de toda a espécie, nomeadamente a de as pessoas se enfarruscarem ou tisnarem com tições ou com as mãos”.

Os magustos fazem-se um pouco por todo o lado. “No Norte, encontramo-los em toda a região de Entre Douro e Minho: eles fazem-se no Porto, em Vilarinho (Vila do Conde), em Lousada (Penafiel), aqui junto ao rio, com música, violas, guitarras, cavaquinhos, bailarico e brincadeira”.

“Em Portugal, e sobretudo no Norte e no Centro do País, o dia 11 de Novembro é de um modo geral festejado com «magustos» de vinho e castanhas em todas as partes onde estes ocorrem no dia de Todos os Santos, tomando assim o aspecto de um prolongamento especial dessas celebrações, a ponto de se falar em «Magustos dos Santos» e «Magustos de S. Martinho»”. O que faz sentido, se tivermos em conta que com a reforma do calendário em 1582, feita pelo papa Gregório XIII, a festividade do 1º de Novembro, passou para o dia 11, e essa pode ser a razão do nosso tradicional Magusto de S. Martinho, ainda uma reminiscência da nossa velha festa do Dia dos Mortos.

“Os «magustos» aparecem sob esta forma em todo o Minho, em casa ou nos campos, em Trás-os-Montes, nas Beiras e no Douro, em Terras de Arouca, e na região e na própria cidade do Porto. Em Vilarinho (Vila do Conde), as castanhas comem-se com roscas de pão de trigo e nozes. Em Fafe, eles começam de tarde e duram até à noite: as castanhas assam-se em fogueiras que se acendem no meio da rua, e o vinho circula em cântaros; nessa noite, geralmente, joga-se o pau, etc.”

Mas, “A refeição cerimonial de castanhas nos «Santos» pode contudo revestir formas ou aspectos diversos dos «magustos»: no leste transmontano, em Quintanilha, os rapazes vão buscar lenha ao monte, num carro que eles próprios puxam, enquanto que as raparigas fazem pelo povo um peditório de vinho e castanhas, que depois cozem inteiras, em grandes caldeiras de cobre, são as chamadas «castanhas mamotas»: à noite, acende-se a grande fogueira no largo maior da aldeia, ou ao lado da fonte, no local onde reúne o «conselho», e junto a ela brinca-se, canta-se, joga-se o «busca três» como substituto da dança que nesse dia não é permitida, e comem-se as castanhas e bebe-se o vinho” e “a gente nova e os namorados enfarruscam-se”. É um momento de festa, à volta da fogueira. “Em Paradinha do Outeiro, usa-se também a fogueira dos «Santos», que se prepara de modo idêntico”. A este respeito, Ernesto Veiga de Oliveira diz-nos que “Frazer considera as fogueiras dos «Santos» costume de origem céltica, relacionado com os festejos de princípio de ano céltico, que era nesse dia, e indica inúmeros exemplos actuais de fogueiras dos «Santos», acompanhados de práticas divinatórias, algumas delas usando a avelã.(…) Note-se que, em Portugal, é na zona leste transmontana, que foi de povoamento celtizado, que se encontram com efeito as fogueiras dos «Santos».” Na verdade, se tivermos em conta as fogueiras que obrigatoriamente tem que se fazer para os magustos, estas fogueiras encontram-se por todo o Norte de Portugal.

Assim, pode-se dizer que “os «magustos» e as demais refeições de castanhas que se fazem em Portugal naqueles dias constituiriam, de acordo com a hipótese geral europeia, reminiscências de sacrifícios ou cerimónias fúnebres rituais, que tinham lugar no dia consagrado aos mortos, e que consistiam em ofertas alimentares às almas dos mortos familiares”. Sendo a castanha o fruto próprio da estação e sabendo que “teve uma grande importância na economia alimentar de outras eras; é portanto admissível que ela tenha tido uma importância ritual correspondente” tornando-se, assim, o manjar cerimonial, por excelência, da festa do Dia dos Mortos.

2. Outros manjares cerimoniais do Dia dos Mortos

Outros manjares específicos deste dia são os bolos ou pães, que variam na receita e no nome conforme os locais onde são confeccionados. Os mais famosos são feitos na região de Lamego e em Mondim da beira, trata-se de bolos antropomórficos que dão pelo nome de «Santoros» ou «Santórios». A este respeito, Leite de Vasconcelos, diz-nos o seguinte: "Tambem na Beira comem no dia do Todos os Santos (1 do Novembro) uns pães estreitos e compridos, de trigo, chamados santoros (plural santoro, ou sanctoro, de sanctorum), —vid. Ensaios Ethnogr., II, 186—, que são, quanto a mim, estilização de figuras zoomorficas ou antropomorficas, e representam provavelmente vestígios do sacrificios (aos mortos? pois no dia 2 comemora a Igreja os fieis defuntos: cf. Rev. Lusit., VI, 24G-247)."

BOLETIM DE ETNOGRAFIA, nº1, 1920, pag.31
PUBLICAÇÃO DO MUSEU ETNOLÓGICO PORTUGUES
DIRIGIDA POR J. LEITE DE VASCONCELLOS

No livro ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA, Lisboa, 1780, encontramos a seguinte referência a manjares cerimoniais do Dia dos Mortos:
Cada porco tem o seu S. Martinho.

“Em muitas regiões rurais do País, nomeadamente no Noroeste, a festa anda associada à matança do porco. E é influenciada, sob certos aspectos, pela euforia e pelo sentido de plenitude que decorre desse acontecimento que possui a natureza de uma verdadeira festa doméstica, muitas vezes mesmo a mais importante do calendário privado. No Minho, o dia situa-se na época das primeiras matanças, como o de S. Tomé na das segundas, que já têm em vista o Natal; em Gandra (Esposende), ele é dia de feira festiva de porcos. Na Mourisca (Palmela), onde há muita gente do Norte a trabalhar nas salinas que por ali abundam, faz-se igualmente a matança no dia de S. Martinho, e convida-se a família e amigos para uma grande jantarada, etc”.

“Contudo, o significado mais fundo e original do S. Martinho deve procurar-se nas suas relações com o vinho. No Minho diz-se correntemente:

«No dia se S. Martinho
Mata o teu porco
E prova o teu vinho.»

Com efeito, é tradicionalmente no dia de S. Martinho que se inaugura o vinho novo, que este se prova e se atestam as pipas; de acordo com a nossa velha legislação, era mesmo proibido, em muitas partes, vender o vinho novo antes do S. Martinho, sob pena de multa”.

Servindo-nos novamente do livro ADAGIOS, PROVERBIOS, RIFÃOS E ANEXINS DA LINGUA PORTUGUEZA, Lisboa, 1780, encontramos ainda outra referência a manjares cerimoniais do Dia dos Mortos:
Isto quer Martinho, sopas de vinho.

Não deixa de ser interessante ver que as tradicionais sopas de vinho, comuns por todo o Norte de Portugal, sobretudo com a designação de sopas de cavalo cansado, deveriam também ser servidas nesta data.

No Nordeste Transmontano é também comum cozinhar carne de cabra. Veiga de Oliveira refere que numa localidade do distrito de Bragança, em S. Julião, “no dia 1 de Novembro, os mancebos comem em comum dois chibos, dos quais um foi fornecido pelos rapazes, e o outro pelas raparigas”. Também na aldeia de Cidões, no concelho de Vinhais, na noite de 31 de Outubro, celebra-se a Festa da Cabra e do Canhoto, com uma fogueira no meio da aldeia, onde se cozinha carne de cabra para acompanhar o pão e o vinho, comida cerimonial oferecida a todos os forasteiros que por ali passem.

“Um último manjar cerimonial dos «Fiéis» entre nós são as papas de abóbora-menina, que se encontram em Oliveirinha (Aveiro). O costume é certamente excepcional; contudo, vimos que em Coimbra a abóbora aparece também associada ao culto dos mortos, personalizando a ideia que ali preside ao peditório dos «bolinhos, bolinhós», numa sugestiva figuração que a forma do fruto certamente inspira. Deste modo, a significação do costume de Oliveirinha, como manjar fúnebre, parece confirmar-se, e o facto adquire toda a sua importância se se pensar que a abóbora-menina, naquela região e de uma maneira geral no Norte do País, é normalmente um manjar próprio do Natal, soba a forma de bolinhos de bolina [ou de gerimum] – o que relaciona alimentarmente esta última festividade com o culto dos mortos.”.

3. Peditórios cerimoniais do Dia dos Mortos

“Os «Santos» e «os Fiéis» são uma época de peditórios, como meio normal, e de natureza cerimonial, de obtenção dos seus manjares específicos”.

Subjacente a estes peditórios está a crença de que “uma vez por ano, no dia consagrado aos mortos, as almas dos defuntos vêm à terra visitar os lugares que em vida habitaram, isoladas ou em procissões: e , correspondentemente, nos dias dos «Santos» e dos «Fiéis», fazem-se bolos destinados às almas, peditórios e esmolas desses bolos, mesas postas para os defuntos, e oferendas alimentares, a par com luminárias sobre as campas. É lícito supor-se que esses manjares eram originalmente destinados aos mortos.” Neste contexto, Veiga de Oliveira refere ainda que “as Constituições do Bispado do Porto mencionam expressamente as manducações sobre as sepulturas, ao decretar a proibição geral dos festins fúnebres nos templos”.

Pode-se dizer, então, que “de um modo geral as crianças e os pedintes, que no dia de «Finados» andam de porta em porta a pedir, parecem representar as almas dos mortos que nessa mesma ocasião também erram pelo mundo, e por isso dar-lhes pão equivale a dá-lo às próprias almas”.

No Centro do País é comum o peditório do «Pão por Deus», habitualmente feito por crianças. “Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós»”. “No Norte, em Santo Tirso, andam também neste dia grupos de pessoas, que nem sempre são indigentes, a pedir pelas portas, acompanhadas de crianças, muitas vezes emprestadas; trazem sacos nas mãos, e aí metem a caneca do cereal com que tradicionalmente os presenteiam”. Estes peditórios visam sempre a obtenção de manjares cerimoniais, como são ainda “os casos dos peditórios de castanhas e vinho em Trás-os-Montes”.

4. Abóboras iluminadas, algazarra e procissões

Por estranho que pareça, Veiga de Oliveira refere dois casos do uso tradicional das abóboras iluminadas, um em Coimbra e o outro em Guimarães:
“Em Coimbra o peditório menciona «Bolinhos, bolinhós», e o grupo traz uma abóbora esvaziada com dois buracos a figurarem os olhos de um personagem e uma vela acesa dentro”;
“Além do caso de Coimbra, conhecemos entre nós outro exemplo da utilização da abóbora ou cabaço como figuração humana, nas máscaras das esfolhadas de Santo Tirso de Prazins (Guimarães), que depois estes passeiam, alçadas num pau e com uma vela dentro, e deixam espetadas em qualquer sítio mais ermo, para meterem medo a quem passa”.
Também entre nós são comuns as procissões que “parodiam os cortejos religiosos, e em versão báquica”. Naturalmente, estas procissões decorrem no dia de S. Martinho. Mas, mantendo-nos na hipótese de se tratar da mesma festividade, aqui ficam referenciadas: “O costume destas «Procissões» é geral no Norte. No Minho, em Fafe, elas vão em rusgas pelas ruas, com música de harmónios, cavaquinhos, pandeiretas e ferrinhos. Em terras de Barroso, no concelho de Montalegre, os homens, nesse dia, levam para o monte castanhas e vinho, e fazem brincadeiras ruidosas; aquele que apanha a maior borracheira é nomeado «Juiz de S. Martinho», e todos o ovacionam, berrando:

«Viva S. Martinho
 A cabaça e o vinho!» ”

E a noite de S. Martinho é no Norte, por tradição, uma noite “com chocalhos e campainhas, e também de travessuras e partidas que se fazem em várias partes, sublinhando as facécias e manifestações típicas da bebedice, e que sem dúvida se relacionam com esse ritual de licenciosidade geral. E é seguramente num espírito semelhante que se organizam as voltas nocturnas com o estrondo de instrumentos ruidosos, conduzidos nesta noite pala juventude ao longo das ruas e por vezes mesmo diante das casas de certos vizinhos pacíficos, por simples espírito de liberdade irreverente”.

E pronto, é esta a festa, são estas as tradições. :)

Nota: todas as citações que não estão referenciadas foram retiradas do livro: Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

21 de outubro de 2010 (retirado de outro dos meus blogs, um onde não continuei a escrever)

Foto retirada da net.


Culto dos mortos: ceia ritual em honra dos antepassados

Nesta noite ninguém cuide
Encontrar-se à mesa a sós,
Porque os nossos queridos mortos
Vêm juntar-se a nós.

Esta é uma velha quadra popular referida por Ernesto Veiga de Oliveira, no seu livro Festividades Cíclicas em Portugal, do qual me vou socorrer ao longo deste post. A quadra é relativa à noite da consoada, mas segundo este autor: “são muito numerosos e significativos os costumes e práticas próprias do Natal, que aparecem associadas à evocação dos defuntos, designadamente sob a forma de crença na sua comparência, nessa noite, na casa onde viveram”. A este respeito o autor remete-nos ainda para Consiglieri Pedroso, Leite de Vasconcelos e Alberto Viera Braga.

Temos que entender que a prática cristã de acender velas e colocar flores nas campas dos defuntos, ao mesmo tempo que se lhes rezam uns responsos, é muito diferente da velha ideia pagã de celebrar os mortos com manjares cerimoniais, confraternizando à volta da mesma mesa, partilhando uma refeição.

A dado momento a ceia de Samhain deixou de existir, passou a ser proibida, que mais restava àqueles que queriam celebrar à maneira antiga senão transferir esses costumes para outra data, para a única celebração do ano que ainda começava, à velha maneira pagã, após o pôr-do-sol, com uma ceia de confraternização. De resto, é ainda o mesmo tempo, continuamos no inverno, na metade do ano das trevas, no tempo da morte e do renascimento.

Vejamos, então, dois aspectos importantes da ceia de convívio com os que partiram:

Em primeiro lugar, o prato a mais na mesa, em memória daqueles que partiram. Veiga de Oliveira diz-nos que também “no Alto Minho, para a ceia da consoada, punha-se um talher a mais na mesa, que se destinava à pessoa de família falecida em data mais recente.”

Em segundo lugar, o aspecto de não retirar a comida da mesa, também um velho costume das terras do norte. “Em várias localidades, como Guimarães, terras de Barroso, Rio tinto, nos arredores do Porto, etc., a mesa da ceia da consoada, na véspera do Natal, não se levanta, para que os «alminhas», que nesta data comparecem, por vezes a altas horas, encontrem de comer.”

De notar ainda “o costume de se estender palha no chão, em redor da lareira, na noite de consoada, que se observa em vários pontos do Norte do País – em terras da Maia, na Póvoa de Varzim, em Vilarinho, no concelho de Vila do Conde, etc. – pode talvez ser interpretado como uma prática relacionada com o culto dos mortos, e como uma manifestação da crença na sua comparência na casa onde viveram, nessa data”. Naturalmente, as pessoas já não sabem o que esteve na origem deste costume e inventam razões. Mas, Veiga de Oliveira diz-nos ainda que também na Dinamarca este costume é observado e “que tem lugar a fim de que os mortos, que nessa noite comparecem, se possam deitar nas suas camas, daquela forma desocupadas: e parece-nos legítimo interpretar o costume português neste sentido, já porque a sua forma material é idêntica nos dois casos, já porque, como vimos, a associação das celebrações do Natal com a ideia da comparência dos mortos nessa noite se documenta entre nós pelos demais exemplos, tão significativos, que apontamos”.

Ainda segundo este autor, “A crença na visita das almas na noite de Natal existe também na Galiza, onde parece ter um carácter geral: e, a este respeito, Jesus Taboada, em 1958, escreveu: «É costume em muitas partes (daquela província) deixar-se na noite de Natal o fogo aceso e um lugar e guardanapo à mesa, para que o Menino Jesus desça a cear. E em San Millán (Cualadro) deixam para as almas a oferta de leite ou cera, parecendo assim que se honraram primeiro os mortos com estes banquetes familiares, e por influência cristã se estendeu o costume ao Menino Jesus em lugar dos antepassados, para se santificar a festa pagã.»”.

De tudo isto podemos concluir que, em Samhain ou no Solstício de Inverno, o tradicional banquete de confraternização com os antepassados existia nestas terras da Galécia. E, na minha opinião, é uma bela tradição.

Passemos agora, então, para os manjares cerimoniais, o que nos leva a novo post. :)

Nota: todas as citações foram retiradas do livro:
Ernesto Veiga de Oliveira, Festividades Cíclicas em Portugal, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 1984.

21 de outubro de 2010 (retirado de outro dos meus blogs, um onde não continuei a escrever)

Sunset in the Forest, 1904 by Ivan Trush.



Thursday, September 22, 2011

A história do homem que caiu das nuvens

Esta história foi-me contada pela minha avó materna, que dizia ter acontecido quando o avô dela era ainda um jovem. E foi ele quem lha contou. A história aconteceu numa tarde de verão, em que o avô da minha avó, os pais dele e alguns vizinhos andavam a apanhar feno nos lameiros do rio, tendo surgido de repente uma violenta tempestade, que fez os bois juntarem-se no meio do lameiro e levou as pessoas a refugiarem-se na azenha. Quando a trovoada acabou, saíram da azenha e viram no meio do rio, com água até à cintura, um homem despido e queimado do sol. Ficaram cheios de medo, pois sabiam bem que era um dos homens que andava nas nuvens a fazer as trovoadas e que tinha caído. Mas, como o avô da minha avó contava, ainda tiveram mais medo do que lhes podia acontecer se não o ajudassem, de modo que dois ou três homens foram ao meio do rio e trouxeram-no para a margem. O homem não falava e eles colocaram-no no carro de bois e levaram-no para a aldeia. Já na aldeia, vestiram-no, ajudaram-no a sentar-se a uma mesa e puseram à frente dele um pão de centeio e uma faca, para que comesse. Ele começou então a partir bocadinhos de pão e a fazer figuras estranhas na mesa, o que aterrorizou toda a aldeia. Como já tinha anoitecido, deixaram-no ficar até de manhã. Logo que amanheceu, montaram-no num cavalo e levaram-no para a aldeia seguinte, onde o deixaram. O homem continuava ainda sem falar. Quem o levou até à outra aldeia foi o avô da minha avó, que contava que daí o levaram também para a aldeia seguinte e assim sucessivamente, até deixarem de ouvir falar do homem que caiu das nuvens.

Foi assim que eu ouvi contar esta lenda. Sem outro nome que não fosse o homem que caiu das nuvens. Muito mais tarde encontrei, em lendas relacionadas com esta, a terminologia Secular das Nuvens, assim como a referência à Caçada Selvagem, no livro do Consiglieri Pedroso - Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988. - Note-se que esta lenda está também intimamente relacionada com o Nubeiro do folclore galego. Por tudo isto, parece-me algo importante e muito gostaria de ver algum estudo académico acerca desta bela lenda. Nesse sentido, transmiti-a por email, no dia 15 de Junho de 2011, ao Doutor Alexandre Parafita. Hoje, decidi deixar aqui a referência, na esperança de que alguém se interesse por estas lendas e prossiga os estudos do senhor Consiglieri Pedroso.

Já agora, deixo aqui o cenário da lenda (ainda que o caminho tenha sido feito ao contrário, da aldeia em direção ao rio): Rio Tuela

Tuesday, July 12, 2011

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna é um texto escrito por um habitante da Gallaecia romana, do século XI, que conta como encontrou a Ilha do Solstício, para lá da Torre de Hércules, na Corunha, e onde viveu sete anos. Trata-se de um relato na primeira pessoa, muito interessante, de alguém que encontrou a mítica Ilha do Verão, dos celtas.
Se tivermos este texto em mente, Santiago de Compostela, ou mesmo Finisterra, não poderão representar o término da peregrinação, que necessariamente continuará, talvez pela bela Costa da Morte, até à Torre de Hércules, na Corunha. Ou, quem sabe, até a uma ilha que não existe. :)

Sunday, May 22, 2011

Feiticeiras

«A natureza fê-las feiticeiras. É o espírito próprio da Mulher e o seu temperamento. Ela nasce Fada. Pelo retorno regular da exaltação, é Sibila. Pelo amor, torna-se Mágica. Pela finura e malícia (muitas vezes fantasiosa e benéfica), é Feiticeira e enfeitiça, ou pelo menos adormece e ilude os males.

Todos os povos primitivos têm o mesmo princípio; vemo-lo através das Viagens. O homem caça e combate. A mulher recorre ao espírito, imagina; cria sonhos e deuses. É vidente em certos dias; possui a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor contar o tempo, observa o céu. Mas a terra não está menos no seu coração. Com os olhos amorosamente postos nas flores, também ela jovem e flor, trava com elas um conhecimento pessoal. Como mulher, pede-lhes que curem aqueles que ama.»

As Feiticeiras, Jules Michelet

Em Trás-os-Montes conta-se a história da Maria Feiticeira, uma bela história que Alexandre Parafita recria num dos seus livros de contos e lendas da tradição oral, para miúdos e graúdos. No livro Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras, lá aparece a Maria Feiticeira e a sua velhinha peneira, porque, tal como nos diz o autor, «segundo a tradição popular, a peneira é o objecto mágico das feiticeiras, tal como a vassoura é o objecto mágico das bruxas e a varinha de condão é o das fadas». E que fazia então a tia Maria Feiticeira com a sua peneira? Bem, é muito simples, em tempo quente, peneirava o estio para que viesse o frio, e quando arrefecia, peneirava o frio para que viesse o estio.

Munida da sua peneira, a feiticeira «peneirava o sol, peneirava a noite, a solidão, a tristeza... e o que mais lhe conviesse». E assim a velha feiticeira, a mulher a quem cabia gerar, criar e amar, peneirava a fome e o frio, peneirava o medo e a dor, peneirava o desespero e a morte... que outro objecto poderíamos escolher para a feiticeira que não fosse a sua velha peneira? Círculo mágico que a feiticeira faz dançar nas suas mãos, ao mesmo tempo que vai recriando o seu mundo... dando-lhe vida, alegria e cor.

Saturday, May 21, 2011

A Dama Pé de Cabra

Bem perto da aldeia onde nasci, em Trás-os-Montes, conta-se a lenda da bela princesa moura que vivia numa torre, onde recebia os cavaleiros que a procuravam ou, segundo outra versão, que ela escolhia, sem que nenhum voltasse a sair vivo dessa torre. Até que um deles, mais astuto, deixou a princesa adormecer e roubou-lhe um anel, que mostrou às sentinelas da torre que, assim, o deixaram passar. Quando a princesa acordou e viu que o cavaleiro tinha partido, soube que o seu segredo tinha sido revelado - a princesa tinha pernas de cabra.
Depois, conforme a versão da lenda, a princesa ou se atira à sua cisterna e morre, ou desaparece num encantamento. E assim termina a história da bela princesa
Dona Chamorra,
pernas de cabra,
cara de senhora.

Dalila Pereira da Costa refere «a provável existência entre nós do xamanismo. Vestígios da existência de seus poderes extáticos, poderão estar na inconografia do monumento de Sá, do Museu Martins Sarmento, que representa um morto ou vivo glorificado, ascendendo ao céu montado num cavalo; e ainda na figura lendária da Dama pé de cabra, possuindo fortes características de mulher xamã, no seu poder de voar, na sua íntima ligação com o onagro, o cavalo primitivo, nas suas artes mágicas e toda sua natureza marcadamente infernal».

Dalila Pereira da Costa, Da Serpente à Imaculada, Lello & Irmão Editores, Porto: 1984, pp.10

Faun And Nymph by Pal Szinyei Merse, 1868.


Thursday, May 19, 2011

Sempre Verde

Sempre verde venerado
Nado sem ser semeado...

Muitas das nossas rezas populares e benzeduras começam assim, com a referência ao sempre verde venerado. Mas, sobre isso já falei noutros posts. Hoje, quero deixar apenas uma resposta à questão: o que é o sempre verde? De acordo com Leite Vasconcelos, o sempre verde é o sabugueiro - José Leite de Vasconcelos, Tradições Populares de Portugal, Livraria Portuense de Clavel & Companhia Editores, Porto: 1882, pp. 122.

Thursday, May 13, 2010

Caldeirão na Encruzilhada

Em tempos escrevi num fórum, a propósito de uma velha festa transmontana, o seguinte:

Na pequena aldeia de Cidões, concelho de Vinhais, ainda se mantém uma velhinha tradição. Na noite das bruxas, a 31 de Outubro, celebra-se como sempre se celebrou esta noite mágica, numa noite de folia e transgressão, de generosidade e alegria.

Canhotos é o que por aqui chamam aos troncos que hão-de criar a magnífica fogueira desta noite noitíssima. Uma fogueira que ainda se faz numa encruzilhada... e ai daquele que não se aquecer nesta fogueira ou não comer do banquete que Cidões oferece a todos os forasteiros que os velhos deuses trouxerem àquela encruzilhada...

Enormes panelas de três pernas, que aqui se chamam potes, cozinham velhas e boas cabras. E do velho caldeirão há-de sair um repasto que chegue para todos... suculenta carne de cabra, pão cozido em antigos e comunitários fornos de lenha, castanhas assadas, maçãs, figos e nozes.

Aqui a tradição é o que sempre foi, não há bruxas de vassouras e chapéus cónicos nem há abóboras iluminadas. Há o que sempre houve: a velha tradição de dar de comer a quem aparecer, o interminável vinho e aguardente que aquece a noite escura e fria, as histórias de arrepriar de outros tempos, as tropelias dos rapazes que evocam as energias renovadoras e propiciatórias do caos que caracteriza o fim e princípio de ciclo... e há a fogueira intemporal e eterna, para que também nós sejamos faróis na noite escura.

Há o que sempre houve...

Ao reler o livro de Teófilo Braga, O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, 1885, deparo com a referência à feiticeira que adivinha pelo caldeirão (o alguidar), nas encruzilhadas. Teófilo Braga diz-nos que era nas encruzilhadas, ou no encontro dos caminhos, que colocavam o caldeirão mágico. Cita Garret que, no Arco de Sant'Anna refere feitiços que fervem n'um caldeirão de trez pés. No mesmo livro está ainda a seguinte citação, de Gil Vicente, Auto das Fadas:

Este caminho vae para lá
Est'outro atravessa cá;
Vós no meio, alguidar,
Que aqui cruz não hade estar.

Wednesday, April 21, 2010

As Maias – Ernesto Veiga de Oliveira

"É clássica a hipótese que procura a filiação das consagrações florais do Primeiro de Maio nas festas públicas romanas das «florália», dedicadas a Flora, que celebravam o renascer da vida na Primavera; mas o parentesco entre essas festividades e as celebrações actuais do Primeiro de Maio é muito problemático e não se pode estabelecer em termos gerais e concretos; o cenário cerimonial de umas e outras pouco tem em comum, e é difícil de admitir entre elas qualquer relação de derivação global directa. A ideia de que se deve ajudar ritualmente o renascer das forças da Natureza no princípio da Primavera tem contudo carácter universal, e cremos legítimo por vezes interpretar estas cerimónias – que existem em termos afins em inúmeros povos e civilizações – de acordo com tal ideia.

O Primeiro de Maio corresponde à noite de Valpurgis, que a demonologia medieval germânica povoou de bruxas invisíveis que andavam no ar e praticavam as suas obras infernais, certamente por herança da crença pagã nos espíritos nocivos do Inverno e da Morte, de que era necessário purificar ritualmente a terra no início do ano agrário. E de facto, na Alemanha, na Áustria, na Suécia, na Inglaterra, etc., faziam-se nessa noite grandes fogueiras paras as queimar; por vezes queimava-se um boneco, que as figurava; em alguns casos tinham lugar combates entre a Rainha do Inverno e a de Maio; na Escócia, além das fogueiras comiam-se bolos cerimoniais; e em várias partes, punham-se flores às portas dos estábulos, para preservar o gado dos malefícios das bruxas.

Não é portanto de excluir a hipótese de que todas estas formas beberam a sua origem em complexos rituais próprios desses remotíssimos cultos agrários, dos quais derivariam as próprias festas romanas e celtas, e as crenças associadas à noite de Valpurgis: mas tais formas, além de terem sofrido um sem-número de outras influências de ordem vária, evoluíram e apresentam-se de modo diferente nos diversos países.

Em Portugal, as «Maias» comemoram-se, de um modo geral, por duas formas principais:

I – Consagrações florais, por todo o País, pela aposição de certas flores nas portas, janelas, aldrabas, das casas e currais, nas cancelas, animais e barcos, hoje mesmo em camionetas e locomotivas.

No noroeste, a flor característica das «Maias» é a giesta, só ou com outras, em ramos ou em coroas, por vezes de papel, com fitas e laços; e a celebração, ali, consta apenas dessa costumeira. (...)

Numa versão corrente, esta prática explica-se como comemoração do facto que consta da lenda segundo a qual «quando Cristo andava pelo mundo, foi procurado pelos judeus para o matarem, e como estes o vissem entrar para uma casa, colocaram-lhe à porta um ramo de giestas, para no dia seguinte o prenderem. Nesse dia, porém, todas as casas da povoação apareceram marcadas, e os judeus não puderam dar com ele». (...)

Em Trás-os-Montes, no Leste Beirão e nas províncias do Sul, o costume das «Maias» existe a par com outras figurações floridas, com aspectos e sentidos muito diferentes. Em Montalegre e em certas aldeias do Barroso, as pastoras neste dia enfeitavam o melhor godalho do rebanho com fitas e flores, correndo a povoação a cantar e a dançar em volta dele, com as suas pandeiretas e castanhetas, pendurando-lhe por vezes uma laranja em cada chifre e pondo-lhe à cabeça uma boneca a fiar, e levando-o à frente do rebanho conduzido por duas delas vestidas de branco. Em vila Real, além das giestas às portas, as pessoas percorrem as ruas com um rapaz vestido com as mesmas plantas – o «Maio moço» –, que canta versos alusivos à ocasião, a que a comitiva responde, e que em várias terras também pede donativos. E em Bragança encontramos igualmente o «Maio moço» vestido de giestas, e as pessoas seguem-no, cantando e dançando em volta dele, e outras práticas semelhantes a estas.

Na Beira Alta e em numerosos lugares da Beira Baixa, são também rapazes vestidos de giestas quem personifica o «Maio»; mas eles aqui parecem sobretudo centralizar o peditório cerimonial que se faz neste dia, com o fim principal de obter donativos, em dinheiro ou nomeadamente em castanhas, que constituem um dos manjares específicos mais importantes desta celebração, a que adiante nos referiremos. (...)

II – Manjares cerimonias – a castanha, em Trás-os-Montes e nas Beiras interiores; bolos especiais, na Estremadura e no Alentejo; e «queijinhos de Maio», que são grandes bolos de figo seco, amêndoa, açúcar e canela, no Algarve. De um modo geral, estes manjares devem-se comer logo ao acordar, e o mais cedo possível. Em diversas áreas, fazem-se merendas nos campos, que por vezes constam de alguns daqueles manjares.

A aposição das flores faz-se na noite da véspera, como é regra no cenário de várias celebrações cíclicas; aqui, parece ter-se em vista que as casas estejam floridas quando começa o dia, para que o «Maio» ou o «Burro» não entrarem. Além disso, há um preceito geral matutino, que manda levantar cedo, para que o Maio não entre, e, em certas partes, faz-se à porta dos dorminhocos surriada com um burro. Com maior força ainda é o preceito em relação à manducação dos manjares cerimoniais do dia, que não só devem ser a primeira colação do dia, mas mesmo serem ingeridos especialmente cedo, também para que o «Maio» ou «Burro» não «mordam», «saltem» ou «entrem» – precisamente, portanto, a mesma combinação que vimos a respeito da aposição das flores, que devem por isso representar práticas convergentes embora diferentes, tendo em vista o mesmo fim, regendo-se pela mesma lei.

O significado daquelas entidades, evocadas numa espécie de ameaça, é claramente dado em certos casos: a «entrada» do «Burro» ou do «Maio» identifica-se com as maleitas.

O «Burro» ou o «Maio» são pois uma entidade nociva, cujo malefício se pretende conjurar com a aposição de flores ou a manducação de certas espécies, antes mesmo ou logo ao começar o dia.

As figurações floridas, flores ou personagens enfeitadas com flores, ambulantes ou hieráticas, podem pois talvez na sua origem mais remota ter represenatdo corporizações do espírito fecundo da Primavera, Espíritos da Vegetação, na terminologia clássica, que se opõem às forças negativas do Inverno, latentes na ideia de entidade maléfica – o «Burro», o «Maio», ou os «Judeus» na lenda cristã – embora na realidade a memória do povo nenhuma ideia concreta e expressa conserve nesse sentido. As manducações cerimoniais, paralelamente, seriam consagrações, também em vista da fertilidade, de certas espécies cosmestíveis representativas – a castanha, outrora alimento basilar nas regiões nortenhas; os «queijinhos» de figo e amêndoa no Algrave –, cujo desenvolvimento e abundância convinha estimular por um repasto ritual. (...)

Nos variados aspectos, por vezes tão distintos, das celebrações do Primeiro de Maio, ter-se-ia pois operado um sincretismo de práticas e crenças, talvez de origens diferentes, mas todas convergentes, ramificações de uma mesma ideia, com idêntico sentido de purificação e exaltação da fertilidade e abundância, por meio de actos diversos de magia ritual imitativa, propiciatórios ou profilácticos.

De facto, a celebração, entre nós, era associada a uma ideia pagã ainda no tempo de D. João I, que numa carta de 1385 a considera como um costume diabólico e um crime de idolatria."

Festividades Cíclicas em Portugal, Ernesto Veiga de Oliveira

Friday, March 26, 2010

Lourenço e Margarida

O sol chámanlle Lourenzo,
e á luna Margarida;
Margarida anda de noite
e Lourenzo pol-o día.

Cancionero Popular Gallego, José Pérez Ballesteros, Madrid, 1886.

Summer Idyll by Auguste Levêque (1866 -1921).


Thursday, March 11, 2010

Sermão do Santo Eloy

Sermão de Santo Eloy, do século VII :

Que nenhum christão não repare no dia em que saia de casa, nem na hora em que entre, porque todos os dias são obras de Deus;

Que ninguem se regule pela lua para emprehender qualquer cousa;

Que nenhum christão ligue credito ás rimas nem aos cantos magicos, porque são obra do diabo;

Que na festa de S. João, e em outras solenidades dos santos, que se não faça caso do solstício;

Que nenhum christão accenda candeias, nem faça votos nos templos pagãos á borda das fontes, ao pé das árvores, nas florestas ou nas encruzilhadas;

Que ninguém suspenda amuletos ao pescoço de um homem ou de qualquer animal;

Que ninguém faça lustrações para a prosperidade das ervas ou das cearas;

Que ninguém faça passar os seus rebanhos através das arvores ocas, ou de excavações no solo, porque é ao demónio que os querem consagrar;

Que nenhuma mulher se enfeite com collares de ambar;

Que ao tecer ou tingir a têa não invoqueis nem Minerva nem outra divindade funesta;

Não temais começar qualquer obra na lua nova;

Não invoqueis o Sol e a Lua com o nome de Senhores, não jureis por elles...

O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições, Teófilo Braga, 1885

Wednesday, March 03, 2010

A Serração da Velha

Hoje é a terceira quarta-feira da quaresma, noite tradicional da serração da velha.

Teófilo Braga, no seu livro O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições - volume II, de 1885, diz o seguinte: "A Quaresma é representada como uma entidade, e logo que se chega a metade d'este período de sete semanas, faz-se a Serração da Velha. Entre os Árabes, os sete dias de solsticio do inverno são chamados os dias da Velha; Gil Vicente, no Triumpho do Inverno representou o inverno como a Velha, perseguida pelo Maio moço ou o verão." (...) "As cerimonias populares da Serração da Velha variam segundo as localidades; porém sempre na noute da quarta feira da terceira semana da quaresma: celebra-se à luz de archotes, com musica e algazarras, fingindo-se serrar através do corpo uma velha mettida n'um cortiço, e chamada Maria Quaresma. O testamento da velha, enfiada de pulhas em verso de pé quebrado, tem sido por muitas vezes feito e impresso."

E, como é esta a noite, aqui fica a transcrição de um belo testamento da serração da velha.

Monday, February 15, 2010

Carnaval

A dualidade na percepção do mundo e da vida humana sempre existiu, sempre esteve presente nas civilizações antigas. No folclore dos povos da Europa encontra-se, paralelamente aos cultos ditos sérios, a existência de cultos cómicos, o riso ritual.

Para os nossos longínquos antepassados, que agora tão facilmente chamamos de primitivos, os aspectos sérios e cómicos da divindade, do mundo e do próprio homem eram igualmente sagrados. A par da solenidade, existia também o valor ritual do riso e da alegria.

«No primitivo estado romano, durante a cerimónia de triunfo, celebrava-se e escarnecia-se o vencedor em igual proporção; do mesmo modo durante os funerais chorava-se (ou celebrava-se) e ridicularizava-se o defunto.»

É desta cultura ancestral que nos chegam os festejos carnavalescos. Com o carnaval assistimos a uma manifestação pura da vida em si mesma, sem distinção entre actores e espectadores. É um acto de liberdade e de regeneração, que vem da antiguidade longínqua.
Mikhail Bakhtin, no seu livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, diz-nos que: «a ideia do carnaval foi percebida e manifestou-se de maneira muito sensível nas saturnais romanas, experimentada como um retorno efectivo e completo (embora provisório) ao país da idade de ouro. As tradições das saturnais permanecem vivas no carnaval da Idade Média, que representou, com maior plenitude e pureza do que outras festas da mesma época, a ideia da renovação universal. Os outros festejos de tipo carnavalesco eram limitados e encarnavam a ideia do carnaval de uma forma menos plena e pura; no entanto, a ideia subsistia e era concebida como uma fuga provisória dos moldes da vida ordinária (isto é, oficial).

Nesse sentido, o carnaval não era uma forma artística de espectáculo teatral, mas uma forma concreta (embora provisória) da própria vida, que não era simplesmente representada no palco, antes pelo contrário, vivida enquanto durava o carnaval. Isso pode expressar-se da seguinte maneira: durante o carnaval é a própria vida que representa e interpreta (sem cenário, sem palco, sem actores, sem espectadores, ou seja, sem os atributos específicos de todo o espectáculo teatral) uma outra forma livre da sua representação, isto é, o seu próprio renascimento e renovação sobre melhores princípios. Aqui a forma efectiva da vida é ao mesmo tempo a sua forma ideal ressuscitada.

Em resumo, durante o carnaval é a própria vida que representa, e por um certo tempo o jogo se transforma em vida real. Essa é a natureza específica do carnaval, o seu modo particular de existência.

O carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É a sua vida festiva. A festa é a propriedade fundamental de todas as formas de ritos e espectáculos cómicos da Idade Média.
Todas essas formas apresentam um elo exterior com as festas religiosas. Mesmo o carnaval, que não coincidia com nenhum facto de história sagrada, com nenhuma festa de santo, realizava-se nos últimos dias que precediam a grande quaresma (daí os nomes franceses de Mardi gras ou Carême-Prenant e, nos países germânicos, de Fast-nacht). O elo genético que une essas formas aos festejos pagãos agrícolas da antiguidade, e que incluem no seu ritual o elemento cómico, é mais essencial ainda.

As festividades (qualquer que seja o seu tipo) são uma forma primordial marcante, da civilização humana. Não é preciso considerá-las nem explicá-las como um produto das condições e finalidades práticas do trabalho colectivo nem, interpretação mais vulgar ainda, da necessidade biológica (fisiológica) de descanso periódico. As festividades tiveram sempre um conteúdo essencial, um sentido profundo, exprimiram sempre uma concepção do mundo. Os "exercícios" de regulamentação e aperfeiçoamento do processo do trabalho colectivo, o "jogo no trabalho", o descanso ou a trégua no trabalho nunca chegaram a ser verdadeiras festas. Para que o sejam, é preciso um elemento a mais, vindo de uma outra esfera da vida corrente, a do espírito e das ideias. A sua sanção deve emanar não do mundo dos meios e condições indispensáveis, mas daquele dos fins superiores da existência humana, isto é, do mundo dos ideias. Sem isso, não pode existir nenhum clima de festa.

As festividades têm sempre uma relação marcada com o tempo. Na sua base, encontra-se constantemente uma concepção determinada e concreta do tempo natural (cósmico), biológico e histórico. Além disso, as festividades, em todas as suas fases históricas, ligaram-se a períodos de crise, de transtorno, na vida da natureza, da sociedade e do homem. A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação constituíram sempre os aspectos marcantes da festa. E são precisamente esses momentos – nas formas concretas das diferentes festas – que criaram o clima típico da festa.

Sob o regime feudal existente na Idade Média, esse carácter de festa, isto é, a relação da festa com os fins superiores da existência, a ressurreição e a renovação, só podia alcançar a sua plenitude e a sua pureza, sem distorções, no carnaval e em outras festas de que se revestia a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância.

Por outro lado, as festas oficiais – tanto as da igreja como as do Estado feudal – não arrancavam o povo à ordem existente, não criavam essa segunda vida. Pelo contrário, apenas contribuíam para consagrar o regime em vigor, para fortificá-lo. O elo com o tempo tornava-se puramente formal, as sucessões e crises ficavam totalmente relegadas ao passado. Na prática, a festa oficial olhava apenas para trás, para o passado de que se servia para consagrar a ordem social presente. A festa oficial, às vezes mesmo contra as suas intenções, tendia a consagrar a estabilidade, a imutabilidade e a perenidade das regras que regiam o mundo: hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais correntes. A festa era o triunfo da verdade pré-fabricada, vitoriosa, dominante, que assumia a aparência de uma verdade eterna, imutável e peremptória. Por isso o tom da festa oficial só podia ser o da seriedade sem falha, e o princípio cómico era-lhe estranho. Assim, a festa oficial traía a verdadeira natureza da festa humana e desfigurava-a. No entanto, como o carácter autêntico desta era indestrutível, tinham que tolerá-lo e às vezes até mesmo legalizá-lo parcialmente nas formas exteriores e oficiais da festa e conceder-lhe um lugar na praça pública.

Ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternâncias e das renovações. Opunha-se a toda a perpetuação, a todo o aperfeiçoamento e a toda a regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto. »

«Ao longo de séculos de evolução, o carnaval da Idade Média, preparado pelos ritos cómicos anteriores, velhos de milhares de anos (incluindo, na Antiguidade, as saturnais), originou uma linguagem própria de grande riqueza, capaz de expressar as formas e símbolos do carnaval e de transmitir a percepção carnavalesca do mundo, peculiar, porém complexa, do povo. Essa visão, oposta a toda a ideia de acabamento e de perfeição, a toda essa pretensão de imutabilidade e de eternidade, necessitava de se manifestar através de formas de expressão dinâmicas e mutáveis (proteicas), flutuantes e activas. Por isso todas as formas e todos os símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo e da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao contrário”, das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”), da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões. A segunda vida, o segundo mundo da cultura popular constrói-se de certa forma com a paródia da vida ordinária, como um “mundo ao revés”. É preciso assinalar, contudo, que a paródia carnavalesca está muito distante da paródia moderna puramente negativa e formal; com efeito, mesmo negando, aquela ressuscita e renova ao mesmo tempo. A negação pura e simples é quase sempre alheia à cultura popular.»


Posto isto, resta ainda a questão do nome... porquê "carnaval"?

«Desde a segunda metade do século XIX, numerosos autores alemães defenderam a tese da origem alemã da palavra carnaval, que teria a sua etimologia de karne ou karth, ou “lugar santo” (isto é, a comunidade pagã, os deuses e os seus servidores) e de val (ou wal) ou “morto”, “assassinado”. Carnaval significaria, ortanto, a procissão dos deuses mortos.»

Este é um elemento introduzido pelo Cristianismo. Contudo, não nos podemos esquecer que o elemento carnavalesco já existe nas antigas lendas celtas. Os símbolos carnavalescos são dotados de uma riqueza e de uma originalidade exterior ao Cristianismo, são um legado muitíssimo mais antigo, são um património pagão.

E como poderia o universo cristão compreender a natureza complexa e ambivalente do riso carnavalesco? Que «é, antes de mais, um riso festivo. Não é, portanto, uma reacção individual diante de um ou outro facto “cómico” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar, um património do povo (esse carácter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é "geral"; em segundo lugar, é universal, atinge todas as coisas e todas as pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cómico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente.»

Este riso popular e festivo nada tem a ver com o riso satírico e humorista a que estamos habituados, nestes tempos modernos. «O autor satírico que apenas emprega o humor negativo, coloca-se fora do objecto aludido e opõe-se a ele; isso destrói a integridade do aspecto cómico do mundo, e então o risível (negativo) torna-se um fenómeno particular. Ao contrário, o riso popular ambivalente expressa uma opinião sobre um mundo em plena evolução no qual estão incluídos os que riem.» Sim, porque não nos podemos esquecer que «uma qualidade importante do riso na festa popular é que escarnece dos próprios burladores. O povo não se exclui do mundo em evolução. Também ele se sente incompleto; também ele renasce e se renova com a morte.»

«O problema do riso popular deve ser colocado de maneira conveniente. Os estudos que lhe foram consagrados incorrem no erro grosseiro de modernizá-lo grosseiramente, interpretando-o dentro do espírito da literatura cómica moderna, seja como um humor satírico negativo, seja como um riso alegre destinado unicamente a divertir, ligeiro e desprovido de profundidade e força.»

Mas, este riso pagão e popular, é algo mais. «Devemos assinalar especialmente o carácter utópico e o valor de concepção do mundo desse riso festivo, dirigido contra toda a superioridade.» É um riso mítico, que «mantém viva ainda a burla ritual da divindade, tal como existia nos antigos ritos cósmicos». É um riso purificador, que faz desaparecer todos os elementos culturais limitativos, deixando apenas «os elementos humanos, universais e utópicos».


Todos os excertos são do livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, de Mikhail Bakhtin.
Fotos retiradas daqui.

Thursday, February 11, 2010

Chamar a alma do porco

Para que o sangue do porco fique bem cosido, é preciso chamar pelo animal, como se elle estivesse vivo. No Minho chamam-se os porcos de differentes modos: «cocho! cocho!—cochinho! cochinho! —guri, guri; mas ha um quarto modo, que a escrita não sabe reproduzir, —um estalido redobrado, que tem o seu quê de chiante, e que só pôde comprehender quem o ouviu,—e que é o único empregado na operação que nos occupa. O curioso da superstição está no titulo porque ella é conhecida: «chamar a alma do porco».

F. Martins Sarmento
Annuario para o estudo das Tradições Populares Portuguezas, dirigido por J. Leite Vasconcellos, 1º Anno – 1883, pag. 36.

Wild boar foraging in the snow at dusk by Y. F. Kollenbach (German, 19th Century).


Wednesday, February 10, 2010

Oração ao Sol

«Já Unamuno, observador do espírito português, proclamou o paganismo e o panteísmo da nossa religiosidade, contraposto ao católico espírito castelhano. Essa afirmação documenta-se claramente no nosso cancioneiro.
Até o culto do Sol, comum a todos os povos arianos, cujos vestígios alguns mitólogos vão buscar às festas de S. João e do Natal, que coincidem com o Solstício do Verão e o Solsticio do Inverno, existe bem evidente no cancioneiro, quer isolado, quer fundido com os símbolos cristãos. Haja em vista esta curiosíssima cantiga, que nós deparamos na Revista de Guimarães:

ORAÇÃO AO SOL

Vou-me despedir de vós,
Adeus, oh! Sol que te vais,
Deixais-me ficar sósinha
No meio dos pinheirais.

Oh! Sol, torna amanhã,
Eu quero-te ver nascer,
Só a vós é que eu adoro,
Só por vós quero morrer.

A seguir ha esta nota: «Esta oração só deve ser dita ao pôr do Sol; a qualquer outra hora é pecado».

Perante este precioso documento não podem restar dúvidas de que existam entre nós restos daquele culto. Demais, em muitas cantigas aparece a expressão Sol divino, como teremos ainda ocasião de ver. Outro curioso documento mas este da fusão do mito solar com o cristianismo ou do reaparecimento daquele sob as representaçõis cristãs, posteriormente recebidas, é o Terço da Aurora, coligido nas Tradiçõis de Serpa, na Revista Lusitana, por M. Dias Nunes e cuja notícia queremos dar tal e qual ali aparece, por ser muito significativa:

O TERÇO DA AURORA

Esta cerimónia religiosa realiza-se por ocasião das festas em louvor da Senhora dos Remédios, Conceição, Prazeres, e também pela Páscoa e Quinta-feira de Ascensão. Na madrugada do dia em que a festividade se celebra, os devotos que primeiro chegam á respectiva igreja, saem em grupo, e vão de porta em porta a procurar os seus confrades retardatários, cantando:

A ADORAÇÃO

Os devotos que hão de vir a rezar o sacratíssimo rosário de Maria Aurora—podem vir que é tempo—para que esta soberana não diga—que nos entregamos—ao esquecimento.— Podem vir que é tempo.

Depois de todos reunidos—todos os irmãos particularmente convidados para tomarem parte no terço—percorrem as principaes ruas da vila entoando repetidas vezes em coro e num ritmo extremamente arrastado e monótono o padre-nosso, â ave-maria e a gloriapatri; tendo o cuidado de sempre que se aproximam de qualquer igreja du de qualquer passo fazer um poiso e recitar o

OFERECIMENTO

Soberana, divina Aurora
Mãe do eterno Sole,
Quem como vós pudera,
Soccorrer-nos melhore!

Quando o sol é nado, recolhem á igreja donde saíram, e ahi pronunciam em altas vozes:

(Voz), Gloria patri, é filho, é desprito santo,
(Coro). Secundire de príncipe, é de nunca é semper, é de sedo sécloro. Amei;

É de notar que a cerimónia se realisa de madrugada até que o Sol é nado e a clara substituição ou fusão da Virgem com a divina Aurora e de Cristo com o eterno Sol.
E essa Oração ao Sol nascente, conjuração de bruxa ciumenta, exortando o Sol, numa rajada de ardorosa paixão, a que lhe sirva de intermediário e realise, com o divino poder, os seus desatinados e raivosos desejos!»

Jamie Cortesão, Cancioneiro Popular, Antologia Precedida Dum Escudo Crítico, 1914, pag 35, 36,37.

Winter landscape by Osterlehner Erwin.


Cantigas de S.João

«O conflito entre a tradição católica e a popular aparece mesmo numa cantiga, em que S. João é representado tendo, a custódia numa das mãos, como convinha ao Precursor, mas empunhando na outra um ramalhete, mais próprio duma divindade pagã.
Mas é sob este último aspecto, que ele vive na alma popular, moço e rústico pastor, de figura e alma tão paganisada, que se permite todas as aventuras duma divindade do Olimpo, e partilhando a vida dos mortais, vai aos montes colher braçadas de giesta para as suas fogueiras, beija as raparigas, faz uma fonte de prata para as ver, mistura-se nos seus divertimentos e desmanda-se a ponto, o bom do santo, que lhe chamam velhaco!

Lá vem o Baptista abaixo,
Vestido de azul ferrete.
Numa mão traz a custódia
E na outra um ramalhete.

Além vem o barco novo,
Que fizeram os pastores,
Trazem dentro S. João,
Todo coberto de flores.

Para fazer as fogueiras
Na noite da sua festa,
S. João traz lá do monte
Um braçado de giestas.

Ai! meu rico S. João,
Ouve as trovas dos festeiros
Faz as moças bem doidas
E os velhos bem gaiteiros.

S. João, quando era novo,
Tinha uns sapatinhos brancos,
Pra visitar as raparigas
Domingos e dias santos.

S. João era bom moço,
Se não fora tão velhaco,
Foi com três moças á fonte,
Foi com três, veio com quatro.

S. João, por ver as moças,
Fez uma fonte de prata;
As moças não vão à fonte
S. João todo se mata.

S. João se adormeceu
Nas escadinhas do coro,
Deram as freiras com ele
Depenicaram-no todo.

Lá vem o Baptista abaixo.
Comendo num cacho d'uvas,
Dando os bagos ás solteiras,
Os engaços ás viuvas.

Lá vem o Baptista abaixo,
Subindo aquellas ladeiras,
Dando abraços ás viuvas,
E beijinhos ás solteiras.»

Jamie Cortesão, Cancioneiro Popular, Antologia Precedida Dum Escudo Crítico, 1914, pag. 39, 106, 107.

Wednesday, February 03, 2010

Velhos rituais

A velha amassava o pão, levantando em círculos a massa, de farinha de centeio. As mãos elevavam a massa. As palmas voltadas para o corpo da velha, subiam e desciam, sempre em círculos, num movimento de dentro para fora. A massa era batida. Mas, se a farinha fosse de trigo, o movimento era outro. O pão era amassado em suaves movimentos circulares, ao longo da masseira, sem nunca levantar nem bater a massa.

A velha dividia a massa, criando pães redondos, que colocava a levedar. Benzendo cada um dele: “S. Mamede te levede, S. Vicente te acrescente, S. João te faça pão”. Sem esse velho gesto, outrora livre e pagão, agora cristianizado, o processo não estava completo.

Enquanto o pão levedava, a velha começava a aquecer o antigo forno comunitário, também de formato circular, feito de pedras de granito escurecidas e gastas. Aquecer o forno era igualmente um acto ritual, onde tudo se fazia como sempre se fez, começando com as giestas e acabando com os feixes de vides, pelo meio outra lenha era queimada, inebriando a velha com o aroma intenso da esteva e reconfortando-a com o suave crepitar da oliveira.

Neste ritual do pão, o círculo estava sempre presente, do princípio ao fim. Mas, agora era outro tempo. E ao acabar de colocar o pão no forno, a velha fazia com a pá uma cruz na entrada do forno, antes de o fechar. Mas nem sempre foi assim. E, na memória, ainda ficou o nome para esse gesto final: “talhar o forno”.

O pão era sagrado. E a velha apanhava-o e beijava-o quando este caía ao chão. O pão que se comia até à última migalha. E quando um daqueles grandes pães acabava, era sempre a velha quem encetava outro, benzendo-o novamente quando cortava a primeira fatia.

O pão estava sempre presente, na mesa de todos os dias e nas festas. O cesto de pão que a velha distribuía às vizinhas, quando em casa nascia mais uma criança. Ou o carolo que a velha trazia do mortório e comia mais tarde, sozinha e em silêncio, para dar paz ao defunto. O pão participava do nascimento e da morte.