Thursday, January 28, 2010

Imbolc

Afinal, a mãe dele vai cá estar, de modo que não vai dar para celebrar Imbolc.

É tudo tão simples, Senhora. Tudo tão simples. E certamente foi sempre tudo simples, eu é que compliquei. É a minha natureza.

Dói-me, Senhora, como sempre me doeu. Dói-me que o meu coração, o melhor de mim, o meu mundo, seja algo que deve ser escondido. Algo vergonhoso. E não foi sempre assim, Senhora?

Neste Imbolc, eu ia finalmente libertar a miúda que, dentro de mim, ainda chora em desespero, fechada num sítio terrível. E o sinal que me deste foi este.

Senhora, deixa-me lembrar de um ensinamento de outro tempo...

"Um dia, quando eu era uma criança pequena, brincava na sacada com um jarro verde e vasos de malvas ainda por florir. O Laribau parou na rua e olhou para mim. Ele já era um homem naquela altura, um homem doido. Perguntou-me que ervas eram aquelas, que eu tinha nos vasos? Respondi que não eram ervas, mas sim flores. Chamavam-se malvas. Ele riu-se de mim e disse que as minhas ervas, se calhar, eram couves. Não sabia eu que as flores tinham pétalas e cores e perfumes e faziam o mundo parecer outro? Porque lhe chamava flores? Porque sim, insisti eu. Ele ficou sério, de repente. Disse-me que porque sim estava bem. Talvez as minhas ervas se tornassem flores, porque sim."

Na verdade, Senhora, as minhas ervas nunca se tornaram flores. E se eu vi sempre flores, deve ter sido por pura cegueira. Talvez seja este o momento de começar a ver. De acordar. Sim, talvez seja este o momento em que devo acordar, de um longo, mesmo muito longo, sono.

Que importa que as trevas devorem o meu coração? Senhora, é apenas o meu coração... que o devorem, pois então.

Nada mais tenho para te dizer.

Tuesday, January 26, 2010

Invoco e louvo o Espírito dos Antepassados

O que podem ser os mouros da tradição popular

“As tradições populares, a que anda ligado o nome de mouros, são alguns séculos mais velhas que a aparição dos mouros (árabes) na Península; ou, para tirarmos a esta afirmativa o seu ar paradoxal, o nome de mouros intrometeu-se sub-repticiamente num corpo de tradições, que estavam formadas, muito antes da invasão árabe na Espanha.” (…) “Assim os monumentos atribuídos aos mouros não só estavam em ruínas muito antes da aparição dos mouros no nosso país, mas as tradições, que neles se localizaram, ou nunca se formariam, ou datam necessariamente do dia em que o paganismo, deixando de ser uma realidade, começou a entrar na sua elaboração lendária.” (…) “Como o nome de mouro veio ingerir-se e dominar nas legendas do velho mundo pagão, é o que o mesmo nome de pagão nos parece explicar. Pagão era, como se sabe, a denominação favorita, dada pelos cristãos aos religionários que eles vieram destronar. Ora que este nome não somente estava em uso ao tempo da invasão do árabes, mas que foi, conjuntamente com o de mouros, transferido para os árabes, vê-se tanto pelas antigas crónicas (Chronicon Conimbricense, etc.); como pelos instrumentos públicos (Viterbo, Eluc., V. Terra de pagons). Os nomes de mouro e pagão tornaram-se sinónimos, e, como quase sempre sucede no conflito de dois sinónimos, prevaleceu o vocábulo que tinha por si uma realidade objectiva: o nome abstracto de pagão desaparece, o étnico de mouro fica, substituindo aquele em todas as suas aplicações, sem embargo dos mais grosseiros Anacronismos.” (…) “Pois que contra esta identificação não reagiu a qualidade de estrangeiro, saliente no árabe, claro é que a reminiscência do laço étnico, que prendia os construtores dos antigos monumentos do nosso país aos seus subsequentes habitantes, estava completamente obliterada. Este fenómeno, a muitos respeitos deplorável, é um produto legitimo da revolução cristã. A vitória do Cristianismo tinha como resultado infalível abrir um abismo profundo entre a geração, que o abraçou definitivamente, e as gerações passadas, que o haviam combatido: dum lado a cidade de Deus, doutro a cidade dos demónios. A negação de todo o parentesco moral entre o cristão e o pagão continha em si a tendência para a negação de todo o parentesco material, e esta tendência apenas podia ser contrariada pela autenticidade das tradições genealógicas. Mas este elemento de resistência, que só conseguiria tirar forças da perpetuidade do velho culto dos mortos, dissolve-se depressa em virtude do facto contrário: as gerações cristãs não só não tinham que ir fazer aos túmulos dos seus passados, mas deviam esforçar-se por esquecer quanto antes aquela desonrosa ascendência. Concebe-se pois uma época, em que os pagãos, esses fautores duma civilização destruída e amaldiçoada, que se sumiram no nada sem deixar representantes, nem, ao que parecia, descendentes, comecem a desenhar-se no vago do passado, como um povo, a todas as luzes estranho aos povos cristãos, e principalmente notável pela guerra ímpia, feita ao Cristo e à sua Igreja — característica que é a afinidade electiva e única que os aproxima dos mouros e determina a sua identificação com eles. Contra a indiferença, com que a tradição popular deixa cair no olvido as suas origens étnicas, parece protestar o vivo interesse, que ela consagra às histórias dos «mouros encantados», e o zelo com que no-las tem transmitido de geração em geração.” (…) “Lembremos que o Cristianismo acreditava tão deveras na realidade dos deuses pagãos e no seu poder taumatúrgico, como os próprios pagãos. O que os propagandistas da religião nova não concediam era a sua natureza divina. Tinham-nos por demónios. Mas, deuses, ou demónios, eram imortais, de sorte que a crença popular nestas entidades sobre-humanas e nos seus milagres não tinha sido ofendida no essencial, antes fora robustecida com uma consagração solene e insuspeita. E o que se vê também é que esta crença manteve uma independência tal qual contra o ensino da Igreja. Esta não pôde naturalizar os velhos deuses no pandemónio católico, pois que os vemos hoje ainda, bem que sombras duma sombra, nos mesmos lugares das suas antigas glórias (Fontes, etc.), sem feição alguma que os assemelhe ao diabo.” (…) “Resulta do que fica dito, que neste mundo de mouros encantados se amontoam muitíssimas reminiscências do antigo mundo pagão, e só do mundo pagão, numa confusão aparente, que a crítica está no caso de deslindar. O que há aí de realmente histórico é a memória dum povo, hostil ao Cristianismo, que deixou inumeráveis vestígios da sua existência nos mil monumentos em ruínas dispersos pelo país — os Pagãos.”

Excertos do texto de Martins Sarmento, O que podem ser os mouros da tradição popular, 1881.
Texto integral aqui.

Fica também um texto de André Pena, sobre os mouros galegos.

E para terminar, deixo o link para um bela compilação de lendas de mouros na região de Trás-os-Montes.