Thursday, June 16, 2011
Saudade
Saudade, a saudade galaico-portuguesa, não é uma palavra, é um método de ascensão, de transfiguração.
Saudade é peregrinação. Seguir a cartografia da saudade é subir degrau a degrau o «caminho da paixão libertação».
«Na Idade Média, aqui na Península, no território galaico-português, duas vias em direcção ao centro, como vias de depuração e libertação, teriam sido oferecidas ao Ocidente. Uma, a Peregrinação a Santiago de Compostela, dada abertamente e então seguida por toda a sua humanidade.
Mas uma outra, mais secreta, não traçada nos caminhos concretos da terra exterior, mas nos caminhos concretos da terra interior, a do espírito, teria ficado aqui, só vivida escondida e nunca depois conhecida e dada a partilhar ao Ocidente e ao futuro. Como Peregrinação da Saudade.
Será essa, agora finalmente neste século, que cumprirá desvendar e oferecer. Para outro caminhar até a um centro. Sempre o mesmo. Mas agora traçado no espaço do espírito.
A saudade é o segredo de Apolo.
24-VIII-1974»
Dalila Pereira da Costa, A Nova Atlântida.
The sleep of Titania by John Simmons (1823-1876).
Wednesday, June 01, 2011
Caminhos Solitários
Eu tenho-me interrogado sobre isso, se será ou não vital pertencer a um grupo que partilhe, pelo menos em parte, a nossa visão espiritual. Ainda não tenho respostas, mas para aqueles que tal como eu se debatem com este dilema, gostaria de deixar um pensamento de Paul Connerton, do seu livro Como as Sociedades Recordam, em que o autor diz que aquilo que une as nossas memórias não é o facto de serem contíguas no tempo, mas o facto de fazerem parte de um conjunto de pensamentos comuns a um grupo. Para Connerton é através da pertença a um grupo social que os indivíduos são capazes de adquirir, localizar e evocar as suas memórias.
Interessante, não é? E certamente dá que pensar… Assim, na demanda espiritual solitária, que acontecerá então às nossas memórias não partilhadas e que não conseguimos enquadrar na vivência espiritual de nenhum grupo? Desvanecem-se na bruma?...
Monday, May 30, 2011
Voltando ao conceito de paganismo
Assim, permitam-me trazer de volta essa antiga resposta de um fórum e dizer, aqui no meu blog, o que o meu paganismo não é:
«Peço desculpa, mas não posso deixar de manifestar a minha indignação.
No teu post escreveste: “De vez em quando aparece nos jornais locais o descontentamento de alguns por descobrirem sob os penedos imponentes restos de "mezinhas" e "bruxedos".” E acrescentas que “o paganismo ainda não desapareceu”.
Eu, que sou pagã, que uso o termo bruxa com orgulho, já chorei de dor ao ver a profanação de lugares sagrados, com esses restos de mezinhas e supostos bruxedos.
Se olharmos para os mais famosos grimoires - o grupo de Honorius, o Sepher Raziel e os códices ingleses do Lemegeton – o que encontramos é:
1. Profanação dos mistérios da religião (quer do cristianismo, quer das antigas religiões);
2. Um sacrifício de sangue caracterizado com pormenores monstruosos e a consequente profanação do espaço, da natureza. (Que é sempre muitíssimo mau, mas quando a profanação é feita a antigos lugares sagrados, é crime!)
Sei bem que muitas vezes a profanação não é intencional, mas nem assim deixa de ser uma profanação.
Outra coisa: se tens dúvidas quanto às invocações que fazem, por favor, lê meia dúzia dos grimoires medievais (de onde derivam sempre este tipo de coisas). Verás, de imediato, que se trata de literatura cristã. Sim, cristã!
Vou dar um exemplo retirado do famoso Grimoire de Honorius. Não vou colocar a razão do pedido, nem os preparativos... o ritual propriamente dito começa assim:
“Após o nascer do sol, deverá recitar de joelhos a seguinte oração: «Meu Soberano Salvador Jesus Cristo, Filho do Deus perfeito! Tu que para a salvação de toda a humanidade sofreste a morte na cruz; Tu que, antes de seres abandonado aos Teus inimigos, por um impulso de inefável amor, instituíste o Sacramento do Teu Corpo; Tu que concedeste a nós, miseráveis criaturas, o privilégio de fazer comemorações diárias; concede a este Teu humilde servo, toda a força e capacidade para a boa aplicação desse poder que lhe foi concedido contra a horda dos espíritos rebeldes. Tu que és o seu verdadeiro Deus, e se eles tremerem à expressão do Teu Nome, sobre esse Santo Nome eu chamarei, gritando Jesus Cristo! Jesus, sê a minha ajuda, agora e para sempre! Amen.»
De seguida deve ser morto um galo preto, a primeira pena da sua asa esquerda deve ser arrancada e preservada para a utilização em devido tempo. Os olhos devem ser arrancados, o mesmo quanto à lingua e ao coração; esses devem ser secos ao sol e depois reduzidos a pó. Os restos devem...”
Creio que já chega.
Isto não é de modo nenhum paganismo. É disparate, demência e crime. E, acredita, é algo muito parecido com o que eu acabei de transcrever, retirado deste ou de outro das centenas de grimoires medievais, que esteve na origem dos rituais cujos vestígios mostras.
Para terminar, quero ainda dizer que eu acredito que a Magia no seu significado belo e original foi (e é) sinónimo de sabedoria. Mas a verdadeira Magia certamente não possui nenhuma ligação causal com os vestígios que aparecem nas tuas fotografias.»
O que é então o meu paganismo? Bem, sobre isto já muito escrevi por aqui, basta ver alguns dos posts dentro do tópico Caminhos. Ainda assim, gostaria de voltar a alguns conceitos, mostrando aquilo que significam para mim, mesmo que seja através as mesmas ideias, já tantas vezes expressas, quer neste blog quer noutros lugares. Volto a repetir que não se trata de definições, é apenas aquilo que estes conceitos significam para mim.
Magia
Para mim, a Magia é, acima de tudo, a Arte da integração com o mundo, um mago é aquele que se integra na natureza de um modo absoluto, como se fosse um lobo ou uma árvore. Só aquando da sua absoluta integração na natureza é que o mago é mago. Ao se integrar na natureza o mago reencontra-se, volta à realidade imanente, à sua verdadeira natureza. E transforma-se, transformando o mundo à sua volta, isto é, transforma o SEU mundo
Rituais
Na minha perspectiva, a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, que chamaríamos de espaço/tempo mágico ou sagrado, onde um ritual é solidário a qualquer outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. A utilização dos símbolos e de certas palavras é o meio pelo qual tento comunicar com o inconsciente, tentando a partir dali alcançar o inconsciente colectivo, ou a memória de espécie. E, através desta, o espaço/tempo sagrado.
Assim, penso que os rituais têm como objectivo devolver, ainda que por instantes, o homem à sua natureza intrínseca. Há muitas diferenças entre os rituais de natureza transcendente e de natureza imanente, residindo talvez a principal no facto de não haver uma verdadeira experiência imanente sem a intervenção dos sentidos...
Quatro Elementos
Para mim, Ar, Fogo, Água e Terra são diferentes manifestações da natureza, mas não a realidade de que derivam os seus nomes. São as quatro não-substâncias básicas que formam toda a substância (em diferentes proporções), toda a matéria, incluindo nós próprios. Quando os invocamos, invocamos o campo de todas as possibilidades onde podemos trabalhar a matéria-prima do universo e onde somos também nós seres criadores.
Citando Deepak Chopra: "A diferença entre uma coisa material e outra coisa material – por exemplo, a diferença entre um átomo de chumbo e um átomo de ouro – não se estabelece a nível da matéria. As partículas subatómicas, como os protões, os electrões, os quarks e os bosões que formam um átomo de ouro ou de chumbo são exactamente as mesmas. Além disso, embora lhes chamemos partículas, eles não são coisas materiais; constituem impulsos de energia e informação. Aquilo que torna o ouro diferente do chumbo é a organização e a quantidade desses impulsos de energia e informação.
Tudo na criação material se estrutura através de informação e energia. Todas as ocorrências quânticas constituem basicamente flutuações de energia e informação. E esses impulsos de energia e informação constituem a não-substância que forma tudo aquilo que consideramos substância ou matéria."
Deuses
Um dos mais belos pensamentos Taoistas diz o seguinte: "Aja com a força concentrada do masculino e conserve a suavidade alimentadora do feminino. Abrace a mágica e harmoniosa dança destes opostos e aprecie a sua dinâmica fusão no seu ser."
O modo como nos relacionamos com os deuses, quer trabalhando com eles internamente, na qualidade de arquétipos, quer atribuindo-lhes uma existência exterior a nós e cultuando-os, é sempre um processo pessoal, profundamente íntimo, sobre o qual não há muito a dizer.
O cristianismo relevou a face masculina de Deus e esqueceu a face feminina... e eu esforço-me por também cultura a Deusa. Contudo, para mim, mesmo Deus e Deusa são meros rótulos, sei bem que a natureza divina não é cognoscível.
Roda do Ano
Porquê viver a passagem do tempo, as estações, as mudanças no mundo e os ritmos cósmicos? Porquê valorizá-los? Antes de mais, porque acredito que, como seres da natureza, participamos das mudanças na própria natureza. Assim, é importante que sintamos o Inverno e o Verão, a chuva e o sol. É importante que tenhamos momentos determinados para reviver a primavera do mundo. É importante que sejamos capazes de nos regenerar e participar na regeneração do cosmos.
Festividades Celtas
Celebro as festas pagãs e de influência celta, misturando um certo e necessário revivalismo moderno, com uma verdadeira tradição, daqui, destas gentes e lugares. Uma tradição que, por assim dizer, faz parte da minha herança cultural
A tradição celta, por estar inscrita no quadro de uma civilização que rejeitava a escrita, é conhecida através de outras civilizações, não havendo acesso directo à fonte, à origem. E a interpretação que é feita é de acordo com a visão de alguém que vive no século XXI, outro tempo e outro mundo.
Assim, por mais que eu procure os sinais, que tente conhecer os antigos mitos, que procure em alguns rituais cristianizados o velho culto, tudo isso é sempre sujeito a uma interpretação, a minha interpretação, de acordo com o meu saber e o meu sentir. E nunca poderá ser mais do que isso.
Mas, quando recrio, à minha maneira, no meu tempo e no meu mundo, as festas celtas da roda do ano estou a fazer aquilo que posso para que antigas tradições voltem, por amor e respeito por uma antiga religião, mesmo que desse antigo culto só tenha um vislumbre e eu não seja capaz de o intuir ou compreender na sua totalidade.
Para terminar, resta dizer que quando talho o círculo na clareira de uma antiga floresta, debaixo de carvalhos sagrados, isso é apenas a minha religião.
Thursday, July 29, 2010
Espírito do Carvalho de Calvos
O Lughnsadh de 2009 criou entre mim e o Carvalho de Calvos uma ligação indelével. É certo que já antes gostava desta majestosa árvore, mas ainda não fazia parte de mim. Nem do meu filho. Algumas semanas depois, levei lá o meu menino, que logo agarrou, com as suas mãos pequeninas que mal agarravam coisa alguma, uma pequena saliência do tronco deste Velho.
Este ano, pensei em levar lá alguns amigos, celebrar e falar-lhe do Espírito do Velho Carvalho, contudo, sei bem que isso é ainda e só a minha crença, a minha religião. E aquilo que faz sentido para mim, não faz para os outros. Nem tinha que fazer.
Na verdade, não sei como vai ser, o que farei ou onde estarei no próximo Lughnasadh, mas, esteja eu onde estiver, neste e nos anos vindouros, no Lughnasadh o meu coração estará sempre com o Carvalho de Calvos.
Excerto de um texto publicado num fórum no ano passado:
Na véspera do Lughnasadh, o meu marido deixou-me no hospital e foi procurar um lugar para estacionar o carro. Até ali aquilo nunca tinha acontecido, entrávamos sempre juntos. Nesse dia cheguei sozinha, mas a verdade é que nem me deixaram entrar na sala da neonatologia, uma enfermeira veio ter comigo e disse-me que o meu filho tinha tido novamente uma recaída, estava com outra infecção generalizada. Entrei e vi o meu filho com o soro nas veias da cabeça - já tinha sido tantas vezes picado que não havia mais veias que se pudessem usar. Não consegui aguentar mais! Poucos minutos depois estava já a sair do hospital, cruzei-me com o meu marido que estava a entrar... sabia bem que fugia, mas não sabia como não fugir.
Andei a vaguear pelas ruas, completamente perdida e acabei por entrar na Sé. Sentei-me num canto e chorei. O meu choro rapidamente se tornou incontrolável. Entretanto, alguém me tocou no ombro, uma, duas vezes... ainda a soluçar olhei para cima, vi uma mulher que me perguntou se eu sabia a que horas era a próxima missa. Eu fiquei tão estupefacta que ela repetiu a pergunta. Ainda a chorar, disse que não e ela afastou-se. Sem sequer me agradecer ou pedir desculpa pelo incómodo... fiquei arrepiada e apressei-me a sair dali. Continuei sempre a chorar, enquanto andava pelas ruas, sem destino.
Mais tarde, fui até ao Carvalho de Calvos. Onde mais poderia ir? Cheguei e o parque estava completamente vazio. Descalcei-me e entrei de imediato na fenda do carvalho, sentei-me e encostei-me lá dentro, bem no fundo, completamente dentro do velho carvalho. Dois ou três minutos depois, apareceu uma mulher velha que me perguntou o que eu fazia ali, disse-lhe que precisava estar ali um bocadinho. E ela disse-me que eu não podia ficar dentro do carvalho, mas foi-se embora e eu pensei que me estava a conceder aqueles minutos... logo de seguida, apareceram outras duas mulheres, uma delas era uma adolescente, a outra mais velha, foi essa que falou e exigiu que eu saísse de dentro do carvalho. Horrorizada, reconheci a Deusa na sua face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Comecei novamente a chorar, pedi-lhe que me deixasse estar lá só um bocadinho, disse que já não aguentava mais... mas a mulher foi irredutível e continuou a exigir a minha saída. Saí, porque a Deusa assim o queria. A mulher ainda me perguntou se eu queria ir até ao café conversar... claro que não quis. Foram para o tal café lá no parque e eu afastei-me do carvalho... Nem sei dizer o que senti. Era como se tivesse deixado de haver chão debaixo de mim e eu estivesse permanentemente em queda livre.
Sentei-me no chão, fechei os olhos e recusei-me a pensar fosse o que fosse. Só queira ficar assim um bocadinho, antes de me ir embora... Mas fui ficando, apareceram algumas pessoas, que rapidamente se foram embora. E, por maior que fosse o meu desespero, a verdade é que eu já não tinha qualquer contacto com a natureza há muito tempo, tanto tempo que aquele bocado no parque, apesar de todas as circunstâncias, era algo que parecia entrar dentro de mim, ligando-me à Terra e não me deixando sair dali. Ainda hesitante, voltei para junto do carvalho... e fiquei lá imenso tempo, deitada no chão e de olhos fechados, esforçando-me por não pensar em nada. Até que ouvi novamente a voz da mulher velha, que me disse que estavam a fechar o bar e que se iam embora. Entendi o que estava implícito: se eu ainda quisesse voltar para dentro do carvalho, já o podia fazer. Fiquei admiradíssima. Agradeci e ela foi-se embora, não sem antes me desejar que tudo me corresse bem.
Algum tempo depois, entrei de novo no carvalho. Fiz o meu ritual. Um longo, longo ritual. O meu primeiro ritual desde que o meu filho tinha nascido. Ninguém me perturbou. Quando decidi que era altura de sair do carvalho, senti imensos pingos, não sei bem de quê, a caírem em cima de mim ... aceitei-os como um bom presságio. Nesse momento, acreditei que tudo iria correr bem.
No dia seguinte, no hospital, disseram-nos que afinal já estava tudo bem com o meu filho. Ainda continuou mais algum tempo na neonatologia, mas sempre sem perigo, era ainda muito pequeno e só podia ser alimentado pela sonda. Até que chegou o tempo em que teve finalmente alta, veio para casa e tudo corre bem, com a graça dos Deuses. E eu continuo profundamente agradecida ao Espírito do Carvalho de Calvos.
Thursday, May 13, 2010
Todos os Deuses e todas as Deusas
O Deus e a Deusa que invoco, assim, sem outras designações, são a própria consciência da Terra, na sua manifestação passada, presente e futura.
Todos os deuses e todas as deusas são a consciência total e infinita que abarca e sustenta todas as consciências, infra-humanas, humanas e sobre-humanas.
Monday, February 15, 2010
Carnaval
A dualidade na percepção do mundo e da vida humana sempre existiu, sempre esteve presente nas civilizações antigas. No folclore dos povos da Europa encontra-se, paralelamente aos cultos ditos sérios, a existência de cultos cómicos, o riso ritual.Para os nossos longínquos antepassados, que agora tão facilmente chamamos de primitivos, os aspectos sérios e cómicos da divindade, do mundo e do próprio homem eram igualmente sagrados. A par da solenidade, existia também o valor ritual do riso e da alegria.
«No primitivo estado romano, durante a cerimónia de triunfo, celebrava-se e escarnecia-se o vencedor em igual proporção; do mesmo modo durante os funerais chorava-se (ou celebrava-se) e ridicularizava-se o defunto.»
É desta cultura ancestral que nos chegam os festejos carnavalescos. Com o carnaval assistimos a uma manifestação pura da vida em si mesma, sem distinção entre actores e espectadores. É um acto de liberdade e de regeneração, que vem da antiguidade longínqua.
Nesse sentido, o carnaval não era uma forma artística de espectáculo teatral, mas uma forma concreta (embora provisória) da própria vida, que não era simplesmente representada no palco, antes pelo contrário, vivida enquanto durava o carnaval. Isso pode expressar-se da seguinte maneira: durante o carnaval é a própria vida que representa e interpreta (sem cenário, sem palco, sem actores, sem espectadores, ou seja, sem os atributos específicos de todo o espectáculo teatral) uma outra forma livre da sua representação, isto é, o seu próprio renascimento e renovação sobre melhores princípios. Aqui a forma efectiva da vida é ao mesmo tempo a sua forma ideal ressuscitada.
Em resumo, durante o carnaval é a própria vida que representa, e por um certo tempo o jogo se transforma em vida real. Essa é a natureza específica do carnaval, o seu modo particular de existência.
O carnaval é a segunda vida do povo, baseada no princípio do riso. É a sua vida festiva. A festa é a propriedade fundamental de todas as formas de ritos e espectáculos cómicos da Idade Média.
Todas essas formas apresentam um elo exterior com as festas religiosas. Mesmo o carnaval, que não coincidia com nenhum facto de história sagrada, com nenhuma festa de santo, realizava-se nos últimos dias que precediam a grande quaresma (daí os nomes franceses de Mardi gras ou Carême-Prenant e, nos países germânicos, de Fast-nacht). O elo genético que une essas formas aos festejos pagãos agrícolas da antiguidade, e que incluem no seu ritual o elemento cómico, é mais essencial ainda.
As festividades (qualquer que seja o seu tipo) são uma forma primordial marcante, da civilização humana. Não é preciso considerá-las nem explicá-las como um produto das condições e finalidades práticas do trabalho colectivo nem, interpretação mais vulgar ainda, da necessidade biológica (fisiológica) de descanso periódico. As festividades tiveram sempre um conteúdo essencial, um sentido profundo, exprimiram sempre uma concepção do mundo. Os "exercícios" de regulamentação e aperfeiçoamento do processo do trabalho colectivo, o "jogo no trabalho", o descanso ou a trégua no trabalho nunca chegaram a ser verdadeiras festas. Para que o sejam, é preciso um elemento a mais, vindo de uma outra esfera da vida corrente, a do espírito e das ideias. A sua sanção deve emanar não do mundo dos meios e condições indispensáveis, mas daquele dos fins superiores da existência humana, isto é, do mundo dos ideias. Sem isso, não pode existir nenhum clima de festa.
As festividades têm sempre uma relação marcada com o tempo. Na sua base, encontra-se constantemente uma concepção determinada e concreta do tempo natural (cósmico), biológico e histórico. Além disso, as festividades, em todas as suas fases históricas, ligaram-se a períodos de crise, de transtorno, na vida da natureza, da sociedade e do homem. A morte e a ressurreição, a alternância e a renovação constituíram sempre os aspectos marcantes da festa. E são precisamente esses momentos – nas formas concretas das diferentes festas – que criaram o clima típico da festa.
Sob o regime feudal existente na Idade Média, esse carácter de festa, isto é, a relação da festa com os fins superiores da existência, a ressurreição e a renovação, só podia alcançar a sua plenitude e a sua pureza, sem distorções, no carnaval e em outras festas de que se revestia a segunda vida do povo, o qual penetrava temporariamente no reino utópico da universalidade, liberdade, igualdade e abundância.
Por outro lado, as festas oficiais – tanto as da igreja como as do Estado feudal – não arrancavam o povo à ordem existente, não criavam essa segunda vida. Pelo contrário, apenas contribuíam para consagrar o regime em vigor, para fortificá-lo. O elo com o tempo tornava-se puramente formal, as sucessões e crises ficavam totalmente relegadas ao passado. Na prática, a festa oficial olhava apenas para trás, para o passado de que se servia para consagrar a ordem social presente. A festa oficial, às vezes mesmo contra as suas intenções, tendia a consagrar a estabilidade, a imutabilidade e a perenidade das regras que regiam o mundo: hierarquias, valores, normas e tabus religiosos, políticos e morais correntes. A festa era o triunfo da verdade pré-fabricada, vitoriosa, dominante, que assumia a aparência de uma verdade eterna, imutável e peremptória. Por isso o tom da festa oficial só podia ser o da seriedade sem falha, e o princípio cómico era-lhe estranho. Assim, a festa oficial traía a verdadeira natureza da festa humana e desfigurava-a. No entanto, como o carácter autêntico desta era indestrutível, tinham que tolerá-lo e às vezes até mesmo legalizá-lo parcialmente nas formas exteriores e oficiais da festa e conceder-lhe um lugar na praça pública.
Ao contrário da festa oficial, o carnaval era o triunfo de uma espécie de libertação temporária da verdade dominante e do regime vigente, de abolição provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus. Era a autêntica festa do tempo, a do futuro, das alternâncias e das renovações. Opunha-se a toda a perpetuação, a todo o aperfeiçoamento e a toda a regulamentação, apontava para um futuro ainda incompleto. »

«Ao longo de séculos de evolução, o carnaval da Idade Média, preparado pelos ritos cómicos anteriores, velhos de milhares de anos (incluindo, na Antiguidade, as saturnais), originou uma linguagem própria de grande riqueza, capaz de expressar as formas e símbolos do carnaval e de transmitir a percepção carnavalesca do mundo, peculiar, porém complexa, do povo. Essa visão, oposta a toda a ideia de acabamento e de perfeição, a toda essa pretensão de imutabilidade e de eternidade, necessitava de se manifestar através de formas de expressão dinâmicas e mutáveis (proteicas), flutuantes e activas. Por isso todas as formas e todos os símbolos da linguagem carnavalesca estão impregnados do lirismo e da alternância e da renovação, da consciência da alegre relatividade das verdades e autoridades no poder. Caracteriza-se, principalmente, pela lógica original das coisas “ao avesso”, “ao contrário”, das permutações constantes do alto e do baixo (“a roda”), da face e do traseiro, e pelas diversas formas de paródias, travestis, degradações, profanações, coroamentos e destronamentos bufões. A segunda vida, o segundo mundo da cultura popular constrói-se de certa forma com a paródia da vida ordinária, como um “mundo ao revés”. É preciso assinalar, contudo, que a paródia carnavalesca está muito distante da paródia moderna puramente negativa e formal; com efeito, mesmo negando, aquela ressuscita e renova ao mesmo tempo. A negação pura e simples é quase sempre alheia à cultura popular.»

Posto isto, resta ainda a questão do nome... porquê "carnaval"?
«Desde a segunda metade do século XIX, numerosos autores alemães defenderam a tese da origem alemã da palavra carnaval, que teria a sua etimologia de karne ou karth, ou “lugar santo” (isto é, a comunidade pagã, os deuses e os seus servidores) e de val (ou wal) ou “morto”, “assassinado”. Carnaval significaria, ortanto, a procissão dos deuses mortos.»
Este é um elemento introduzido pelo Cristianismo. Contudo, não nos podemos esquecer que o elemento carnavalesco já existe nas antigas lendas celtas. Os símbolos carnavalescos são dotados de uma riqueza e de uma originalidade exterior ao Cristianismo, são um legado muitíssimo mais antigo, são um património pagão.
E como poderia o universo cristão compreender a natureza complexa e ambivalente do riso carnavalesco? Que «é, antes de mais, um riso festivo. Não é, portanto, uma reacção individual diante de um ou outro facto “cómico” isolado. O riso carnavalesco é, em primeiro lugar, um património do povo (esse carácter popular, como dissemos, é inerente à própria natureza do carnaval); todos riem, o riso é "geral"; em segundo lugar, é universal, atinge todas as coisas e todas as pessoas (inclusive as que participam no carnaval), o mundo inteiro parece cómico e é percebido e considerado no seu aspecto jocoso, no seu alegre relativismo; por último, esse riso é ambivalente: alegre e cheio de alvoroço, mas ao mesmo tempo burlador e sarcástico, nega e afirma, amortalha e ressuscita simultaneamente.»
Este riso popular e festivo nada tem a ver com o riso satírico e humorista a que estamos habituados, nestes tempos modernos. «O autor satírico que apenas emprega o humor negativo, coloca-se fora do objecto aludido e opõe-se a ele; isso destrói a integridade do aspecto cómico do mundo, e então o risível (negativo) torna-se um fenómeno particular. Ao contrário, o riso popular ambivalente expressa uma opinião sobre um mundo em plena evolução no qual estão incluídos os que riem.» Sim, porque não nos podemos esquecer que «uma qualidade importante do riso na festa popular é que escarnece dos próprios burladores. O povo não se exclui do mundo em evolução. Também ele se sente incompleto; também ele renasce e se renova com a morte.»
«O problema do riso popular deve ser colocado de maneira conveniente. Os estudos que lhe foram consagrados incorrem no erro grosseiro de modernizá-lo grosseiramente, interpretando-o dentro do espírito da literatura cómica moderna, seja como um humor satírico negativo, seja como um riso alegre destinado unicamente a divertir, ligeiro e desprovido de profundidade e força.»
Mas, este riso pagão e popular, é algo mais. «Devemos assinalar especialmente o carácter utópico e o valor de concepção do mundo desse riso festivo, dirigido contra toda a superioridade.» É um riso mítico, que «mantém viva ainda a burla ritual da divindade, tal como existia nos antigos ritos cósmicos». É um riso purificador, que faz desaparecer todos os elementos culturais limitativos, deixando apenas «os elementos humanos, universais e utópicos».

Todos os excertos são do livro A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, de Mikhail Bakhtin.
Fotos retiradas daqui.
Tuesday, January 26, 2010
Friday, December 11, 2009
Espaço-tempo mágico
Mas vamos lá tentar explicar isto um pouco melhor. :)
Em primeiro lugar, convém que estejamos familiarizados com a noção de espaço curvo. E nem sempre estamos. Pensamos muitas vezes em termos de geometria plana, como se fosse tudo o que existe, mas não é assim. A geometria plana é a que nos foi ensinada pelo matemático grego Euclides, há mais de 2000 anos. Sem dúvida muito útil. Mas não é uma formulação única. Einstein descobriu que as leis da geometria plana, ou euclidiana, são válidas apenas em regiões restritas do espaço, não se aplicando ao universo em larga escala.
Devemos ter em atenção que quando dizemos, por exemplo, que a soma dos 3 ângulos de um triângulo é 180º, que isso é verdadeiro, mas só é verdadeiro na geometria plana, isto é, só é verdadeiro nas superfícies da geometria plana. Numa superfície da geometria curva, estes cálculos não são correctos. E se na relatividade especial, as propriedades métricas implicam que o espaço-tempo é geometricamente plano, na relatividade geral, apresentam-nos um espaço-tempo curvo. E lá porque não somos capazes de imaginar um espaço curvo tridimensional, isso não quer dizer que não exista ou que não possa existir. É um bocado como a ideia que temos da terra: quando andamos na rua da nossa cidade, o mundo parece-nos plano, mas quando o vemos do espaço, vemo-lo curvo.
A relatividade geral apresenta igualmente uma nova conceptualização do tempo, o tempo e o espaço tridimensional passam a ser visualizados matematicamente como uma estrutura única, de quatro dimensões, chamada espaço-tempo. Um acontecimento seria assim um ponto no espaço-tempo. Mas pontos no espaço-tempo também são chamados eventos. Cada evento ou acontecimento é, então, definido por quatro coordenadas, referindo uma delas a velocidade com que um observador se move no tempo.
Consideremos, agora, que aumentamos a velocidade com que um observador se move no tempo, até atingirmos a velocidade da luz. Que aconteceria? Depararíamos com a fronteira que a ciência chama de horizonte de evento, ou horizonte de acontecimento. Todo o nosso universo observável aparece, assim, limitado pela fronteira do horizonte de acontecimento. Não se trata de uma fronteira física, é o ponto de mudança, a partir do qual as concepções de espaço e de tempo, tal como as consideramos no nosso dia-a-dia, pura e simplesmente deixam de funcionar.
Num espaço curvo, atravessando a fronteira que é o horizonte de acontecimento, poderíamos entrar no mundo do aqui e agora, onde todos os espaços e todos os instantes são solidários, ou seja, são o mesmo espaço e o mesmo instante. Tudo é aqui e agora.
Em termos físicos, nem o nosso corpo nem a nossa mente poderiam sobreviver à passagem do horizonte de acontecimento, mas e o nosso espírito, a nossa alma? Poderemos considerar a hipótese do nosso espírito abandonar o nosso corpo e a nossa mente e, sozinho, ultrapassar a velocidade da luz e atravessar o horizonte de acontecimento, entrando assim no espaço-tempo mágico?
Le villi, 1906 by Bartolomeo Giuliano.
Saturday, December 06, 2008
Espírito e Matéria
Bem, como eu estou aqui para aprender com os homens de outras épocas, dou-me ao luxo de considerar que Descartes não sabia sequer do que falava. ;)
Hum, é sábado de manhã, o meu amor está a dormir e enquanto eu espero que ele acorde para preparar um pequeno-almoço com panquecas e café, penso em Descartes. O que não incomoda de modo nenhum o meu amado, que certamente ficaria bem mais aborrecido se eu estivesse a pensar no Brad Pitt. :P
Bem, para os homens de outras épocas, a divindade ainda não se chamava apenas Deus, a divindade era Deus e Deusa, Céu e Terra, Activo e Passivo, Espírito e Matéria. A matéria era vista como uma manifestação da divindade, de modo algum totalmente separada do espírito, o seu complemento indispensável. A divindade surgia como dois pólos que jamais se poderiam separar, porque em tudo quanto a Terra produzia, o Céu estava presente como força criadora. Poderíamos igualmente dizer que as ideias celestiais precisavam da essência terrestre para "serem". Assim, para a humanidade "arcaica" a divindade manifestava-se de dois modos distintos, ainda que indissociáveis, que se relacionavam entre si como Masculino e Feminino, como Homem e Mulher, como Pai e Mãe, como Deus e Deusa.
Para a philisophia perennis, que, até ao advento do racionalismo, foi comum ao Oriente e Ocidente, as duas origens, a activa e a passiva, representam, para lá de toda a manifestação visível, os pólos primários da existência, regentes de todas as coisas.

Mas o mundo mudou e a matéria passou a ser apenas "coisa", desprovida do sagrado. Convém aqui notar que para o homem primitivo, a matéria também possuía este aspecto meramente físico, só que, apesar disso, não se considerava que a matéria preenchia por si só toda a realidade e que no final da realidade observável, estava apanas o NADA. Toda a matéria continha na sua essência o sagrado, o que induziria que a realidade física era na sua essência constituida por entidades metafísicas.
Um perfeito disparate, não? Nem por isso. A física diz-nos actualmente que a natureza das coisas materiais revela-se como não-material. As componentes elementares das coisas reais formam uma espécie de realidade que é diferente das coisas que produzem. Ao nível das partículas elementares, estados com aparência de ideias adquirem aparência material. Lothar Schäfer insiste que a mensagem da física contemporânea é que, nas suas fronteiras, a realidade observável não se desvanece no nada, mas na metafísica. Diz-nos ainda que: "Se o universo é de aparência mental, é mais provável que comunique com a nossa mente, do que não o faça."
Muito mais haveria a dizer mas, tenho que tratar do pequeno-almoço. ;)
Termino com as palavras de Muhyi-d-Dîn Ibn Arabî, um dos grandes mestres da mística islâmica, que descrevia a Natureza Universal como sendo a parte feminina e maternal da criação, autor desta frase iluminada: "O mundo da natureza consiste em múltiplas formas reflectidas num único espelho. Não, melhor dizendo, é antes uma única forma reflectida em múltiplos espelhos".
Tuesday, November 18, 2008
Voltando ao Paganismo
Há dois momentos no filme que quero relembrar: o instante em que nos contam a história do suicida que se afasta de casa de madrugada, pára junto a uma árvore e sobe para prender a corda com que irá enforcar-se. Ao prender a corda, sente nas mãos algo macio, com um cheiro intenso, apercebe-se que é fruta e leva-a à boca. Cerejas (ou amoras). E o homem deixa-se estar um bocadinho, a saborear as cerejas... entretanto, o sol começa a nascer. E é esse o momento de revelação, o momento em que os sentidos que pareciam estar entorpecidos, voltam em pleno. E com o presente, com o agora, acordamos. Ao acordarmos, a sensação de que a vida é absolutamente maravilhosa é inevitável.
Não foi o mundo que se modificou, foi a nossa visão do mundo...
Mostram-nos que é sempre a vida que se revela. Aquilo que nos salva e que nos devolve a nós próprios é algo que sempre esteve lá, algo que nunca perdemos verdadeiramente... a própria vida, feita de pequeninos instantes.
O segundo momento do filme que quero relembrar é o fim. O filme tem um final verdadeiramente assombroso e, na minha opinião, perfeito. O filme acaba precisamente mostrando-nos imagens da equipa de realização, do actor a confraternizar... e não será um pouco assim também na vida? Não estaremos de certa forma a representar também um papel, do qual muitas vezes já não sabemos sair é certo, mas ainda assim e só um papel...
Talvez só estejamos verdadeiramente vivos quando estamos realmente no presente, sem passados e sem futuros. Sem máscaras e sem personagens... agora.
É isso que eu gostaria que fizéssemos nos nossos rituais: permitirmo-nos estar lá, estar lá completamente... como só as crianças sabem estar. Deixarmos de lado todas as máscaras e olharmos de novo com a visão inocente das crianças. Eu sempre disse que a minha via do paganismo era a via da Inocência. Quando recuperamos a inocência, a fé surge novamente. E para voltar a acreditar com a fé inabalável das crianças não é preciso aprender nada novo... mas, talvez seja preciso desaprender algumas das convicções que fomos adquirindo ao longo da vida e que, acima de tudo, nos limitam.
Muitas vezes pensamos que se acreditarmos na beleza da vida acabamos desiludidos, temos medo de sofrer... e esquecemo-nos que, mesmo temendo tudo e fechados na nossa concha, podemos sofrer de milhares de modos diferentes.
Ao longo da vida, a rotina vai-se instalando e o mundo perde as cores de outrora. Não é? Não necessariamente. Depende de nós, daquilo que estamos dispostos a fazer para continuarmos inteiros.
Falemos, por exemplo, do último ritual de Lua Cheia. Pensam que alguma das pessoas que esteve nesse ritual entrou em transe? Não entrou! Nem pouco mais ou menos. Mas, também nem sequer era isso que se pretendia. Tentamos sentir a noite. Esquecemos isso de sermos seres à parte, e caminhamos descalços na terra molhada e fria, deixando que as nossas energias voltassem à terra e que da terra nos viessem energias novas. Que mais? Expressamos na noite os nossos desejos mais profundos. Falamos, dissemos alto e bom som o que realmente queríamos, qual a mudança profunda que necessitávamos. Têm ideia de quão difícil isso é?... De quanto precisamos nos libertar para simplesmente não nos acharmos apenas ridículos?...
Nos nossos rituais certamente não andamos no chão a rebolar e a espumar. Nada disso! Pretende-se tão só que sejamos capazes de ser quem verdadeiramente somos... e assumir o arquétipo dos deuses, se for preciso. Quero dizer com isto, encarná-lo. E manifestá-lo face à necessidade de outrem. Por exemplo, se alguém me abraçar e eu sentir que mais do que a abraçar-me a mim, está a abraçar a Mãe, a Deusa, a trazer de volta esse arquétipo para a sua vida... Bem, que miserável ser limitado seria eu se não fosse capaz de, naquele preciso instante, encarnar esse arquétipo e abraçar com todo o meu ser?...
Que fique bem entendido que não estamos lá para receber, estamos lá para dar. Claro que também recebemos, recebemos na medida em que damos. Mas, que seja a dádiva que nos motiva... E, a pouco e pouco, as mudanças acontecem. Acreditem, acontecem. E se formos capazes de aceitar essas pequenas mudanças, o velho mundo pagão regressa...
Entendem agora o que fazemos? Nós estamos aqui para recriar os velhos templos do paganismo... e nós somos esses templos!...
Na próxima lua cheia, vamos assumir o velho espírito pagão que deu origem a uma das mais bonitas tradições de natal, a troca de presentes. Vamos assumir a mudança que começou para nós naquele instante da última lua cheia, na primeira lua do novo ciclo. E vamos fazer a energia circular. Muitas vezes, queremos provar o novo chá, mas esquecemo-nos de esvaziar a chávena. Se não esvaziarmos completamente a chávena, nunca estaremos a provar o novo chá. Assim, vamos libertar-nos de algumas coisas do passado, que já não nos fazem falta, que não usamos, mas que de algum modo ainda são importantes, enfim, vamos dá-las, e havemos de as dar com alegria. Para que a energia circule, para que na nossa vida comece a haver lugar para o novo... para podermos renascer verdadeiramente no próximo Solstício de Inverno, prontos para uma nova etapa, uma nova vida. Um pouco mais tarde, em Imbolc, acederemos imensas velas nas nossas casas para ajudar a luz do mundo a crescer e, ao mesmo tempo, alimentar a nossa renascida fé. E é assim que nós vivenciamos o tempo cíclico, que tentamos ser um com a roda do ano...
É este o nosso paganismo!
Monday, November 10, 2008
Doação e entrega
A verdade era que, mesmo tendo terminado a invocação, o círculo continuava à minha volta. Senti que havia algo que faltava, que o ritual não se completara. A minha amiga começou a falar-me de todas as vezes que sentiu que existia algo mais no universo, estava emocionada... E eis que nessa altura, quase à meia noite, chegam dois homens que abrem a capela da Senhora da Lapa, uma pequena capela numa antiga gruta. Nós estávamos sentadas junto à porta. Um dos homens pergunta-nos se não queremos beber água da fonte sagrada, diz-nos que há muitas pessoas que vão lá só para beber aquela água. Incrível, dentro da capela havia uma fonte, no ponto mais interior da gruta. Eu não fazia ideia, nunca tinha encontrado a gruta/capela aberta...
Eu segurei a caneca de água, com as mãos a tremer, e dei-a à minha amiga, que bebeu um pequenino gole, quase com relutância. Quando eu bebi, o líquido na minha garganta era a água primordial, era água viva. Agradeci em silêncio à Senhora, agradeci-lhe com todo o meu coração. As dúvidas desapareceram. Senti-me acompanhada. Senti que de modo algum fazia os meus rituais sozinha. E agradeci também àqueles que me acompanhavam. Mentalmente fiz a invocação da velha oração celta que começa com "Que o caminho se abra à tua frente". Quando acabei, a energia dissipou-se e o ritual terminou. A espiral voltou para a terra, o círculo foi devolvido ao universo. A minha amiga começou a falar de coisas mais terra a terra e tudo voltou ao normal.
Mas há instantes que valem uma vida inteira... há instantes em que deixamos de ser quem somos, deixamos de ser um pequenino lugar e somos todo o universo. Apenas temos que ser capazes de nos entregar com todo o nosso ser a esses instantes, para que se realizem.
Wednesday, October 01, 2008
Que o caminho se abra à tua frente...

Friday, September 05, 2008
Aos homens de outros tempos, àqueles que viviam no cimo das montanhas...
Rainer Maria Rilke diz-nos que: "estas mudanças geram subitamente muitas outras e, como acontecia ao homem no cimo da montanha, nascem então percepções invulgares e sensações estranhas que parecem exceder o limite do suportável. Mas também elas têm por força de ser vividas. Temos de aceitar a nossa existência, por mais longe que ela chegue; tudo nela tem de ser possível, mesmo o inaudito. É no fundo esta a única forma de coragem que nos é exigida: que encaremos ousadamente o mais estranho, o mais fabuloso, o mais inexplicável. Que os homens tenham sido cobardes a este respeito trouxe incontáveis danos à vida; as experiências a que se chama "aparições", o "mundo dos espíritos", a morte, todas estas coisas tão familiares foram expulsas da vida por uma resistência quotidiana, de tal forma que os sentidos com que as poderíamos apreender regrediram. Já para não falar de Deus. Mas o medo do inexplicável não empobreceu apenas a existência do indivíduo, cerceou também as relações entre uma pessoa e outra, como se as retirasse do leito do rio das possibilidades infinitas e as levasse para o terreno baldio das margens onde nada acontece. Pois não é apenas por inércia que as relações humanas são tão indizivelmente monótonas, repetindo-se de caso para caso sem renovação, é porque os homens receiam qualquer experiência que julguem ultrapassar as suas forças. Mas só quem está preparado para tudo, só quem nada exclui, nem mesmo o mais enigmático, viverá como uma coisa viva a relação com outra pessoa e irá ele próprio até ao limite da sua existência. Pois se concebermos a existência do indivíduo como um espaço maior ou mais pequeno, percebemos que muitos conhecem apenas um canto do seu espaço, um lugar à janela, uma passadeira por onde caminham para trás e para diante."
De que temos medo afinal? Rilke bem que insiste connosco que "não temos razão para desconfiar do nosso mundo porque ele não está contra nós. Se o mundo tem sustos, são os nossos sustos, se tem abismos, são abismos que nos pertencem, se tem perigos, temos que tentar amá-los. E se guiarmos a nossa vida pelo princípio de nos atermos sempre ao difícil, veremos que o que agora ainda nos parece estranho se tornará familiar e leal. Como podíamos nós esquecer os velhos mitos que estão na origem de todos os povos; o mito do dragão que no último momento se transforma em princesa; os dragões da nossa vida são porventura todos eles princesas que apenas esperam ver-nos belos e valorosos por uma vez. No fundo, o que nos parece terrível talvez seja indefeso, talvez espere a nossa ajuda."
Álbum de Família
É a verdade. :)
As coisas mais importantes da minha vida, começaram com sonhos e intuições.
Deixem-me contar como encontrei o meu amor. Numa tarde, há mais de 8 anos, falei com os deuses e disse-lhes que tinha chegado o momento do meu guardador de sonhos aparecer na minha vida. Nesse mesmo dia, ao início da noite, alguém na net com o nick de dreamkeeper dirigiu-se a mim. Só fiquei admirada porque esperava que demorasse um pouco mais a aparecer... mas nem sequer me passou pela cabeça chamar-lhe coincidência, sabia bem que o nome correcto era destino. E foi, é destino.
Eu amo o meu guardador de sonhos de um modo que eu nunca imaginei sequer que fosse possível amar alguém. Dizer que ele faz parte da minha vida a cada instante é quase ridículo, pois ele é a minha vida. Ainda me acontece acordar de noite e ficar quietinha, profundamente feliz, só a vê-lo dormir. Tive uma ou outra paixão antes de o conhecer que, agora, olhando para trás, já nem me parecem lá muito reais, são insignificantes comparadas com o que sinto há anos pelo meu senhor menino. Não há dia nenhum em que eu não agradeça aos deuses o amor belo e profundo que existe na minha vida. Agradeço por amar e também por ser amada.
Mas voltemos ao álbum de família. Da minha família pagã. Diferente da família onde nasci, diferente dos meus amigos. Sei bem que existe. Mas a minha família pagã tarda em aparecer. Há na minha vida uma espécie de "destino" ainda por cumprir... que passa por um caminho que na verdade não se escolhe... sim, cada vez mais sinto que, pelo contrário, é o Caminho que nos escolhe...
Creio que chegou o momento do Caminho trazer para a minha vida aqueles que devem caminhar comigo. :)
Tuesday, August 26, 2008
Poderá um grupo de indivíduos ou um indivíduo isolado fazer realmente alguma diferença?
Apanhados entre as inflexíveis leis da natureza e o capricho de acontecimentos muito para lá de qualquer previsibilidade, que podemos nós fazer senão ir com a onda? Um fatalismo resignado parece ser a resposta mais racional à irracionalidade da vida. Na prática, isto significa desistir da responsabilidade, da reflexão e da escolha. Significa seguir automaticamente quaisquer necessidades ou desejos que os genes tenham codificado nos nossos cromossomas, pelo menos dentro dos limites aceites pela sociedade em que vivemos. Ocuparmo-nos do mais importante – o nosso conforto, prazeres e ambições – é, de acordo com este cenário, praticamente tudo o que podemos fazer.
Neste ponto, começa a emergir um estranho paradoxo. Se toda a gente adoptar esta atitude – se todos nos submetermos às forças determinantes da causalidade – é muito improvável que a humanidade consiga sobreviver. Os que têm acesso aos recursos continuarão a açambarcá-los a um ritmo cada vez mais acelerado, os que nada têm erguer-se-ão para exigir o seu quinhão, e a guerra de todos contra todos será inevitável."
Volto a perguntar: poderá um pequeno grupo de indivíduos ou um indivíduo isolado fazer realmente alguma diferença?
Vou deixar que Mihaly Csinkszentmihalyi continue a responder por mim: "Está na moda afirmar que nenhuma acção individual pode ter um efeito significativo no curso da história. Se Sócrates e Joana d’Arc não se tivessem sacrificado por aquilo em que acreditavam, postula esta teoria, quaisquer outros teriam assumido as respectivas causas. Em todo o caso, os seus gestos, por muito espectaculares que tenham sido, não tiveram uma influência real no curso dos acontecimentos, que é determinado pelo vector das forças sociais e não por escolhas individuais.
Este argumento pode ter mérito no que toca às descobertas científicas e tecnológicas. Se, em vez de conseguirem fazer voar o seu avião, os irmãos Wright tivessem falhado – como tantos outros haviam falhado antes deles – qualquer outra pessoa teria acabado por aperfeiçoar, um ou dois anos mais tarde, uma máquina voadora. A ciência e a tecnologia têm até agora seguido a sua própria trajectória de desenvolvimento, que a mente humana tem aceitado acompanhar passivamente. Mas nem todas as acções humanas são assim determinadas. Os indivíduos verdadeiramente criativos são aqueles que conseguem, contra todas as pressões do instinto e do conhecimento actual, visualizar um modo de vida capaz de tornar muitos outros indivíduos mais livres e mais felizes.
Romper com a aceitação fatalista dos programas genéticos ou históricos exige, no mínimo, que se acredite na liberdade e na autodeterminação. Dificilmente alguém aceitará correr riscos e trabalhar para o bem comum se não acreditar que isso fará alguma diferença. Estará, porém, uma tal pessoa simplesmente a iludir-se a si mesma? Ao fim e ao cabo, os axiomas da ciência postulam que todos os acontecimentos têm que ter causas e, portanto, se S. Francisco decidiu distribuir todos os seus bens pelos pobres e retirar-se para uma vida de oração com outros jovens, foi com certeza porque queria irritar um pai rico, ou porque era um homossexual latente, ou talvez porque tinha um qualquer desequilíbrio hormonal.
É, no entanto, possível aceitar o axioma da causalidade sem nos tornarmos reducionistas. Das muitas causas que determinaram as acções de S. Francisco, uma das principais foi a convicção de que elas eram importantes, e de que ele próprio tinha a obrigação de transformar o mundo que o rodeava. Esta convicção é, em si mesma, uma causa. A ideia do livre-arbítrio é uma profecia que se cumpre a si mesma: os que a seguem libertam-se do determinismo absoluto das forças externas."
Eu acredito que nós temos a obrigação de transformar o mundo que nos rodeia, nós temos a responsabilidade de descobrir porque estamos aqui e para onde vamos, nós temos direito de escolha, podemos escolher evoluir como seres humanos, ir mais longe.
Eu acredito, de verdade, que um grupo de indivíduos ou um indivíduo isolado pode fazer realmente a diferença.
Wednesday, November 15, 2006
Velhos Caminhos

Acredito que quando escolhemos ser caminhantes, isto é, quando entramos na senda da espiritualidade com um genuíno espírito de peregrinos, o caminho também nos escolhe... e talvez não sejamos apenas nós quem escolhe aqueles que nos acompanham na caminhada.Também acredito que cada um de nós percorre inevitavelmente o seu próprio e único caminho, contudo, há momentos em que necessitamos dos ensinamentos e da companhia de outros caminhantes, outros peregrinos... não é verdade?
Já que falo em caminhos, quero deixar claro que eu apenas me defino verdadeiramente como caminhante, todos os outros rótulos esotéricos passam-me ao lado. Mesmo quando digo que sou pagã, digo-o à minha maneira, estando o conceito de paganismo inserido num contexto que pode muito bem ser apenas o meu contexto... seja como for, quero voltar a dizer que estou disponível para estudar, reflectir e falar abertamente de espiritualidade, sem dogmas, mas também sem preconceitos. E sempre sem colocarmos rótulos a nós próprios ou aos outros... já sabem, se assim o entenderem, escrevam-me, em qualquer altura. :))
Tuesday, February 07, 2006
Imanência versus Transcendência
olhando profundamente para a verdadeira natureza do ser,
estamos a ser instantaneamente iluminados!
Na senda da espiritualidade, sigo o meu próprio caminho que, acima de tudo, se define pela tentativa de olhar cada coisa e ver a sua própria realidade. A sua realidade diferente, isto é, única e distinta do todo. Assim, o meu caminho é o caminho da procura da inocência. Da visão inocente. Mas quem vê inocentemente? Aquele que vê para lá dos rótulos. Aquele que vê a realidade intrínseca de cada coisa. Aquele que vê a realidade tanto na sua natureza transcendente, como na sua natureza imanente.
Sei bem que estamos mais habituados a lidar com um caminho espiritual que não procura a realidade inerente ao homem, mas sim a realidade que o transcende. A questão é: afinal o que é que nós vemos, se apenas nos concentrarmos no transcendente?
Os cristãos crêem que o mundo é uma criação de Deus. Pronto, temos todas as coisas devidamente rotuladas. Que pode, então, um cristão ver? Nada para além da própria criação. O cristão dá a cada elemento do mundo não o seu próprio e intrínseco valor, mas o valor que está subjacente ao facto de ser uma criação de Deus. Na realidade, tudo começa e acaba aí. O cristão vê, a cada instante, a transcendência. E mais nada.
O budismo faz algo muito parecido, embora sem a "ajuda" de Deus. Ao assumir que cada elemento é indissociável do todo, já não pode ver o elemento em si. Vê apenas a sua participação no todo. Vê também, a cada instante, a transcendência. E mais nada.
Vejamos o que nos diz a este respeito o Sutra Imutável: "Os fenómenos da vida podem comparar-se a um sonho, a um fantasma, a uma bolha de ar, a uma sombra, ao orvalho cintilante, ao brilho do relâmpago, e é assim que os devemos contemplar."
Na verdade, tanto os cristãos como os budistas procuram, não a realidade intrínseca ao próprio homem, mas a realidade que transcende o homem. Assim, podemos dizer que cheguem onde chegarem, nunca chegarão à verdadeira natureza humana, pois o seu caminho começa logo por transcender essa mesma natureza humana.
Assim, no cristianismo temos um êxtase onde o espírito se transcende a si próprio em Deus; no budismo temos um êxtase onde o espírito se transcende a si próprio em si. Mas, em ambos, temos a transcendência. A necessidade da transcendência...
O que está na origem da necessidade da transcendência? O conceito de imperfeição. O homem sendo imperfeito, necessita de se transcender para chegar à perfeição. Bom, mas e se o homem já for perfeito e apenas viver a ilusão da imperfeição?
Pois, se o homem já for perfeito, não precisa de se libertar da ilusão da imperfeição pelo caminho da transcendência, precisa do caminho da imanência. Isto é, do regresso à sua verdadeira natureza, à sua essência. Mas sem perder as suas qualidades humanas. Digamos que o homem atingiria então a perfeição, através do verdadeiro conhecimento da sua própria natureza humana, sem contudo perder essa mesma natureza.
Neste caso, teríamos a absoluta integração do homem com a natureza a que pertence, mas sempre como elemento humano. Preservaríamos a sua natureza humana. Dito de outra forma, o homem perfeito integra-se na natureza perfeita, mas integra-se mantendo a sua qualidade humana intrínseca que é, aliás, onde reside a sua perfeição.
O Homem, no seu estado humano perfeito, vê a perfeita natureza.
Este é o caminho da espiritualidade que vem com a vida, com a vida quotidiana concreta... A mão que abre a janela para deixar entrar a luz na casa e dentro de nós. O alimento que se cozinha amorosamente e amorosamente se recebe, como uma dádiva da vida. A espiritualidade que está em cada olhar, em cada sorriso, em cada rosto, quando vemos de facto cada rosto e cada sorriso e cada olhar. Quando os vemos por aquilo que são. Quando aquele olhar é para nós todo o universo. Quando vemos o divino na sua qualidade imanente.
Mas, por outro lado, sinto que também preciso da união com o cosmos, preciso fundir-me com o próprio Universo. E esse é o caminho da transcendência. Espalhamo-nos pelo universo e sentimos outro nível de espiritualidade. Encontramos o divino na sua qualidade transcendente.
Assim, sigo a via do meio, mas dou mais relevo à via imanente. Sigo o caminho que começa em todo o lado e a cada instante, e não termina em lugar nenhum. Todavia, conduz a um lugar verdadeiro...
p.s. este é um texto antigo, um dos primeiros posts que coloquei nos foruns do sapo. Aqui fica, de novo, devidamente reciclado. :)
Wednesday, January 04, 2006
Estaremos a seguir uma via espiritual, quando nos centramos em nós próprios?
Um caminho em que estamos voltados para nós próprios é certamente um caminho legitimo, mas será espiritual?
Bem, vou citar o Dalai-Lama no livro Ética para o Novo Milénio:
"Penso que há uma importante distinção a fazer entre religião e espiritualidade. Considero que religião diz respeito à crença numa forma de salvação específica a cada tradição, um aspecto dessa religião consiste na crença numa realidade metafísica ou sobrenatural que inclua, por exemplo, a noção de céu ou de nirvana. Ligam-se a ela os ensinamentos religiosos ou dogmas, os rituais, a oração, etc. Considero que espiritualidade diz respeito ao cuidado a ter com as qualidades do espírito humano como o amor e a compaixão, a paciência, a tolerância, o perdão, o contentamento, o sentido de responsabilidade e da harmonia, que trazem felicidade para si e para os outros. O ritual e a oração, bem como o nirvana e a salvação, estão directamente ligados à fé religiosa mas estas qualidades interiores não. Por conseguinte, não há razão para que um indivíduo não as desenvolva, mesmo num grau elevado, sem depender de qualquer sistema religioso ou metafísico. É a razão pela qual afirmo, por vezes, que talvez possamos dispensar a religião. Mas o que não podemos dispensar são estas qualidades espirituais básicas.
Aqueles que praticam uma religião podem, e com razão, dizer que tais qualidades ou virtudes, são frutos de um esforço religioso genuíno e que, por conseguinte, a religião tem tudo a ver com esse desenvolvimento e com o que se pode chamar de prática espiritual. Mas deixem-me ser claro neste ponto. A crença religiosa implica uma prática espiritual. Porém, parece que há muita confusão, tanto entre crentes como não crentes, sobre em que consiste a prática espiritual. A característica comum a todas as qualidades que descrevi como "espirituais" é o interesse pelo bem-estar dos outros. Quando pensamos nessas qualidades, descobrimos que cada uma delas se define graças a uma preocupação implícita pelo bem-estar alheio. Mais ainda: aquele que tem compaixão, amor, paciência, tolerância, perdão, etc., reconhece, pelos menos até certo ponto, o impacte potencial das suas acções nos outros e modela o seu comportamento em função disso. Por conseguinte, a prática espiritual, de acordo com esta descrição, implica agirmos com a preocupação do bem-estar alheio. Mas implica também transformarmo-nos a nós próprios de forma a estarmos mais facilmente dispostos a fazê-lo. Falar de prática espiritual em termos que não estes não tem significado."
Sim, creio que o caminho passa por transformarmo-nos a nós próprios no sentido de agirmos cada vez mais com a preocupação do bem estar alheio, mesmo sabendo que o mundo é uma ilusão, mesmo tendo percepção de que a realidade tal como a vemos não existe.
Bom, mas já que falo numa realidade ilusória, deixem-me dizer que mesmo que teorizemos que o mundo material é ilusão, creio que isso apenas nos permite concluir que se há uma realidade que está para lá da ilusão, será uma realidade vazia de matéria. Não creio que possamos dizer que a realidade última é o vazio, como se teoriza por exemplo na Magia do Caos, não me parece que isso faça sentido. Terá que ser vazia de matéria, concordo. Mas isso é diferente.
A Magia do Caos aponta-nos um caminho onde tudo nos é permitido. Contudo, parece-me que num caminho onde tudo nos é permitido, porque tudo é ilusório, glorificamos o ego. E não será o ego também uma ilusão, uma vez que é apenas sustentado pelo mundo ilusório? Mas se a realidade última fosse o vazio, também a consciência seria uma ilusão, não?... Eu acho que não, porque a consciência, tal como o amor e a compaixão, são na sua essência realidades vazias de matéria, ou seja, na sua essência não pertencem ao universo da realidade ilusão.
Termino este post com outra questão: já pensaram que talvez seja o caminho em si que importa e não a meta? Talvez a meta apenas faça sentido por nos induzir à caminhada. Talvez seja este o meio de fazer a tal jangada que outros nos diziam ser tudo o que precisávamos para chegar à outra margem. Pergunto eu: uma jangada de consciência, à custa do ego? Uma jangada de não-matéria, à custa da matéria?
Friday, December 09, 2005
... sobre o amor
Na verdade, quando somos peregrinos na senda do amor, sangramos de bom grado com as feridas do amor... sim, porque o amor depende apenas de nós, da nossa entrega, da nossa doação ao próprio amor. O amor existe em nós e é em nós que se manifesta. Se aceitarmos incondicionalmente o amor, isto é, se aceitarmos o amor cada vez que este nasce em nós, mesmo quando sabemos que não o poderemos realizar do modo como gostariamos, seja lá por que razão for, nessa altura crescemos no amor e, desse modo, o amor purifica-nos e leva-nos ao encontro da nossa verdadeira essência: amor.
Porque haveríamos de ter medo de sofrer? Sofrer não é nada.Todos nós sofremos por amor, mais tarde ou mais cedo. Só não podemos fechar-nos ao amor, com medo do sofrimento. Se o fizermos, perdemo-nos. E o que é pior: não temos quaisquer garantias de não voltarmos a sofrer, poderemos não sofrer por amor, mas sofreremos outras dores, talvez ainda mais amargas, porque reflectem o vazio da nossa vida...
Que sentido faz o amor se olharmos para as diferenças entre nós e aqueles que amamos? Que sentido faz o amor se acharmos que deveríamos ser amados, ou até como deveríamos ser amados?... O amor é um milagre, um milagre que se repete a cada instante e que devemos agradecer a cada instante. Nós ou outro não amamos por querer amar ou dever amar, amamos porque, volto a repetir, um milagre acontece na nossa vida. Não somos nós que escolhemos o amor. É o amor que nos escolhe. E, para aqueles que seguem o caminho do amor, o amor faz aquilo que o rei sugeriu que a Alice fizesse: "começa pelo princípio e vai até ao fim". O amor purifica-nos. E, se deixarmos, purifica-nos completamente. Apenas temos que nos abrir ao amor, a começar pelo amor por nós próprios. Livrarmo-nos do medo e do egoísmo, permitindo-nos amar verdadeiramente, independemente do que o outro sente por nós. Quando damos amor, também recebemos. Sim, pode acontecer que esse amor se concretize numa direcção diferente daquela para onde pensávamos canalizar o nosso próprio amor... Mas isso já são novamente os caminhos do amor, que nos transcendem. Seja como for, é possível recebermos aquilo que precisamos, simplesmente dando.
...
O amor como caminho só pode estar submetido ao princípio supremo: o Bem. O amor é, assim, o caminho do Bem, da bondade, da felicidade.
Platão, nos seu diálogos, dizia o seguinte: Diotima para Sócrates: "diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons, já que os homens até consentem que lhes cortem pés e mãos, sempre que essas partes de si mesmos lhe pareçam malignas." É preciso que mesmo Eros seja ainda um amor bom, positivo, um amor que nos torna melhores, doutra forma Eros não evoluirá. Mas temos que estar de sobreaviso, porque a paixão é SEMPRE motivada pelo Belo. Pelo Belo e não pelo Bom, ou pelo Bem. Mas a paixão ainda não é a felicidade, ou o caminho de volta à nossa verdadeira casa. A motivação da paixão é outra: a imortalidade. Exactamente, a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.
Não quero dizer com isto que a paixão seja negativa, muito pelo contrário. É muitas vezes o umbral, não apenas o ponto de partida, mas para muitos de nós o único ponto de partida possível... quando eu conheci o Alexandre, apaixonei-me perdidamente, como outras vezes me tinha apaixonado, mas desta vez entreguei-me completamente ao que sentia e fui também amada. Com o tempo, o amor carnal evoluiu para o amor ternura. E este novo amor ternura por vezes manifesta-se de tal forma que eu não posso deixar de amar também toda a humanidade... nessas alturas, citando o Gibran, sinto verdadeiramente que "eu estou no coração de Deus".
Eu creio que é como nos dizem Gitton e Antier, no livro da sabedoria e das virtudes reencontradas: "... à medida que se avança na sabedoria e na virtude, desligamo-nos dos desejos egoístas e elevamo-nos nos graus do amor. Primeiro, só se ama a si mesmo, depois o outro e depois os outros."
Contudo, creio que tudo isto pressupõe conhecimento. Temos que estar conscientes de quem somos, das nossas motivações, daquilo que queremos alcançar. Sabendo isto, poderemos servir-nos da nossa força e mantermo-nos perseverantes no caminho do amor. Se só nos amarmos a nós mesmos, não evoluimos, não conhecemos outros graus de amor. Moralidades à parte, é ainda um estado limitativo.
Sim, sei bem que cada um de nós segue o seu próprio caminho. Eu acredito, como sempre acreditei que o meu caminho de volta a casa é o caminho de Ágape. Eu acredito que quando vivencio o verdadeiro amor, enriqueço-me de um modo fabuloso. Mas vivenciar o amor é acima de tudo transmiti-lo. Que importa que eu sinta o amor, se eu não tenho empatia suficiente para intuir a real necessidade do amor em alguém e num momento, esse sim transcendente, transmitir o amor? O que eu quero dizer é que sentir o amor é um acto natural, os bebés sentem-no, todos. Mas, transmitir o amor já é um acto transcendente. Começa logo por ser um acto que não ocorre espontaneamente, mas sim devido a uma necessidade alheia. Ao intuirmos essa necessidade, ao nos assumirmos como seres perfeitos face a essa mesma necessidade e ao libertarmos o outro da sua limitação, dando-lhe por momentos a verdade da sua perfeição, naturalmente transcendemo-nos. E já não somos simplesmente Um com o universo, somos Um numa tríade: nós, o outro e o espírito unificador do Amor.
Mas, voltemos a Gitton e Antier: Ágape "é o ideal. «O ideal da santidade», sublinha Kant. Ele guia-nos e ilumina-nos. É uma virtude pois é uma excelência. E, milagre, «o amor que realiza a moral liberta-nos dela». «Ama e faz o que quiseres», dizia Santo Agostinho. O amor é pois o começo de tudo."
Mas, como eu dizia, por vezes Eros é o ponto de partida... se assim for, temos que ter cuidado e estar atentos. E pronto, nada mais tenho a dizer. Quero apenas terminar com o poema de Gibran:
"Quando o amor vos chamar, segui-o,
embora seus caminhos sejam agrestes e escarpados;
e quando ele vos envolver com suas asas, cedei-lhe,
embora a espada oculta na sua plumagem possa ferir-vos;
e quando ele vos falar, acreditai nele,
embora sua voz possa despedaçar vossos sonhos
como o vento devasta o jardim.
Pois, da mesma forma que o amor vos coroa,
assim ele vos crucifica.
E da mesma forma que contribui para vosso crescimento,
trabalha para vossa queda.
E da mesma forma que alcança vossa altura
e acaricia vossos ramos mais tenros que se embalam ao sol,
assim também desce até vossas raízes
e as sacode no seu apego à terra.
Como feixes de trigo, ele vos aperta junto ao seu coração.
Ele vos debulha para expor vossa nudez.
Ele vos peneira para libertar-vos das palhas.
Ele vos mói até a extrema brancura.
Ele vos amassa até que vos torneis maleáveis.
Então, ele vos leva ao fogo sagrado e vos transforma
no pão místico do banquete divino.
Todas essas coisas, o amor operará em vós
para que conheçais os segredos de vossos corações
e, com esse conhecimento,
vos convertais no pão místico do banquete divino.
Todavia, se no vosso temor,
procurardes somente a paz do amor e o gozo do amor,
então seria melhor para vós que cobrísseis vossa nudez
e abandonásseis a eira do amor,
para entrar num mundo sem estações,
onde rireis, mas não todos os vossos risos,
e chorareis, mas não todas as vossas lágrimas.
O amor nada dá senão de si próprio
e nada recebe senão de si próprio.
O amor não possui, nem se deixa possuir.
Porque o amor basta-se a si mesmo.
Quando um de vós ama, que não diga:
"Deus está no meu coração",
mas que diga antes:
"Eu estou no coração de Deus".
E não imagineis que possais dirigir o curso do amor,
pois o amor, se vos achar dignos,
determinará ele próprio o vosso curso.
O amor não tem outro desejo
senão o de atingir a sua plenitude.
Se, contudo, amardes e precisardes ter desejos,
sejam estes os vossos desejos:
de vos diluirdes no amor e serdes como um riacho
que canta sua melodia para a noite;
de conhecerdes a dor de sentir ternura demasiada;
de ficardes feridos por vossa própria compreensão do amor
e de sangrardes de boa vontade e com alegria;
de acordardes na aurora com o coração alado
e agradecerdes por um novo dia de amor;
de descansardes ao meio-dia
e meditardes sobre o êxtase do amor;
de voltardes para casa à noite com gratidão;
e de adormecerdes com uma prece no coração para o bem-amado,
e nos lábios uma canção de bem-aventurança."
:)
Magia e Rituais

Mircea Eliade dizia referindo-se à criação/necessidade do ritual pelo homem primitivo, que ao transformar até os actos mais insignificantes em cerimónias, em rituais onde se repete um arquétipo realizado in illo tempore pelos antepassados ou pelos deuses, o homem primitivo esforça-se por passar além, por se projectar para lá do tempo, na eternidade. E é também neste sentido que eu entendo os rituais.
Eu acredito que na religião a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, o tal espaço/tempo sagrado, onde um ritual é a continuação imediata de outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. No espaço/tempo sagrado estamos num tempo fora do tempo e num espaço fora do espaço, comunicamos com milhões de seres humanos, em diferentes momentos da história do mundo... é outra realidade.
Creio, no entanto, que na actualidade se torna mais difícil alcançar realmente este espaço/tempo sagrado (qualquer que seja o método), basicamente porque nós valorizamos demasiado o conceito de espaço/tempo. Medimos a rotação da terra e somos levados a acreditar que esta nossa noção de espaço-tempo é tudo o que existe. Mas estes conceitos ganharam consistência com as leis de Newton, isto é, como conceitos são relativamente recentes. Assim, pode muito bem ser tudo o que existe para nós agora, mas certamente não era tudo o que existia na mente do homem primitivo. E a mim interessa-me sobretudo a visão inocente do homem primitivo, profundamente integrado com a natureza. O homem primitivo que vivenciava uma experiência religiosa, isto é, projectava-se numa dimensão espaço/tempo sagrada, pela simples contemplação de um símbolo. O símbolo revelava-lhe por si e em si mesmo toda a sua sacralidade. Se encaramos isso num contexto de espaço/tempo sagrado, nós em qualquer instante da actualidade, ao contemplarmos um símbolo, estaríamos na mesma realidade do homem que produziu esse símbolo e, desse modo, seríamos capazes de o entender integrados na realidade da sua criação.
O problema é encontrar essa realidade nua e pura, que existe para lá dos conceitos. Porque, repito, quer queiramos quer não, mesmo espaço e tempo não passam de conceitos, são abstracções da realidade, esquemas desenvolvidos pelo intelecto para representar a realidade e não a realidade per se. Definições. Definimos uma coisa e partimos do princípio que tudo está representado, conhecido. Isso apenas nos limita. Não limita a realidade, limita a nossa compreensão dessa mesma realidade. Por isso é que eu falo insistememente na busca da inocência, na procura da visão que vê para lá dos rótulos e dos conceitos...
O que eu sinto muitas vezes, sobretudo na abordagem wicca, é que os símbolos ganham outra vida, já não são um meio mas um fim em si mesmo. Mesmo os próprios conceitos de Deus e Deusa são em si mesmo limitadores quando nos prendemos a eles em demasia, uma vez que na verdade representam uma realidade desconhecida, sem nome... e nunca nos podemos esquecer disso. Deus e Deusa são conceitos que nunca conheceremos e, partir do princípio que sabemos tudo sobre esses conceitos afasta-nos ainda mais da realidade para onde esses símbolos nos deveriam canalizar. Contudo, muitos pagãos ou wiccans falam de deuses quase como se fossem personagens de um romance – são elementos arquétipos que necessariamente temos que encontrar e vivenciar em nós... mas certamente nada será literal nem tão conhecido como nos fazem crer.


