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Monday, May 30, 2011

Voltando ao conceito de paganismo

Em tempos, escrevi num fórum uma resposta emotiva, reagindo a um post que apresentava fotografias de galos sacrificados, restos de velas e mais não sei o quê, que tinham vindo num jornal local, e que apresentava aquilo como vestígios do paganismo. Bem, essa é uma das razões porque muitos grupos ligados a cultos ancestrais têm reservas na utilização de expressões como pagão ou paganismo.

Assim, permitam-me trazer de volta essa antiga resposta de um fórum e dizer, aqui no meu blog, o que o meu paganismo não é:

«Peço desculpa, mas não posso deixar de manifestar a minha indignação.

No teu post escreveste: “De vez em quando aparece nos jornais locais o descontentamento de alguns por descobrirem sob os penedos imponentes restos de "mezinhas" e "bruxedos".” E acrescentas que “o paganismo ainda não desapareceu”.

Eu, que sou pagã, que uso o termo bruxa com orgulho, já chorei de dor ao ver a profanação de lugares sagrados, com esses restos de mezinhas e supostos bruxedos.

Se olharmos para os mais famosos grimoires - o grupo de Honorius, o Sepher Raziel e os códices ingleses do Lemegeton – o que encontramos é:

1. Profanação dos mistérios da religião (quer do cristianismo, quer das antigas religiões);
2. Um sacrifício de sangue caracterizado com pormenores monstruosos e a consequente profanação do espaço, da natureza. (Que é sempre muitíssimo mau, mas quando a profanação é feita a antigos lugares sagrados, é crime!)

Sei bem que muitas vezes a profanação não é intencional, mas nem assim deixa de ser uma profanação.

Outra coisa: se tens dúvidas quanto às invocações que fazem, por favor, lê meia dúzia dos grimoires medievais (de onde derivam sempre este tipo de coisas). Verás, de imediato, que se trata de literatura cristã. Sim, cristã!

Vou dar um exemplo retirado do famoso Grimoire de Honorius. Não vou colocar a razão do pedido, nem os preparativos... o ritual propriamente dito começa assim:

“Após o nascer do sol, deverá recitar de joelhos a seguinte oração: «Meu Soberano Salvador Jesus Cristo, Filho do Deus perfeito! Tu que para a salvação de toda a humanidade sofreste a morte na cruz; Tu que, antes de seres abandonado aos Teus inimigos, por um impulso de inefável amor, instituíste o Sacramento do Teu Corpo; Tu que concedeste a nós, miseráveis criaturas, o privilégio de fazer comemorações diárias; concede a este Teu humilde servo, toda a força e capacidade para a boa aplicação desse poder que lhe foi concedido contra a horda dos espíritos rebeldes. Tu que és o seu verdadeiro Deus, e se eles tremerem à expressão do Teu Nome, sobre esse Santo Nome eu chamarei, gritando Jesus Cristo! Jesus, sê a minha ajuda, agora e para sempre! Amen.»
De seguida deve ser morto um galo preto, a primeira pena da sua asa esquerda deve ser arrancada e preservada para a utilização em devido tempo. Os olhos devem ser arrancados, o mesmo quanto à lingua e ao coração; esses devem ser secos ao sol e depois reduzidos a pó. Os restos devem...”

Creio que já chega.

Isto não é de modo nenhum paganismo. É disparate, demência e crime. E, acredita, é algo muito parecido com o que eu acabei de transcrever, retirado deste ou de outro das centenas de grimoires medievais, que esteve na origem dos rituais cujos vestígios mostras.

Para terminar, quero ainda dizer que eu acredito que a Magia no seu significado belo e original foi (e é) sinónimo de sabedoria. Mas a verdadeira Magia certamente não possui nenhuma ligação causal com os vestígios que aparecem nas tuas fotografias.»

O que é então o meu paganismo? Bem, sobre isto já muito escrevi por aqui, basta ver alguns dos posts dentro do tópico Caminhos. Ainda assim, gostaria de voltar a alguns conceitos, mostrando aquilo que significam para mim, mesmo que seja através as mesmas ideias, já tantas vezes expressas, quer neste blog quer noutros lugares. Volto a repetir que não se trata de definições, é apenas aquilo que estes conceitos significam para mim.

Magia

Para mim, a Magia é, acima de tudo, a Arte da integração com o mundo, um mago é aquele que se integra na natureza de um modo absoluto, como se fosse um lobo ou uma árvore. Só aquando da sua absoluta integração na natureza é que o mago é mago. Ao se integrar na natureza o mago reencontra-se, volta à realidade imanente, à sua verdadeira natureza. E transforma-se, transformando o mundo à sua volta, isto é, transforma o SEU mundo

Rituais

Na minha perspectiva, a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, que chamaríamos de espaço/tempo mágico ou sagrado, onde um ritual é solidário a qualquer outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. A utilização dos símbolos e de certas palavras é o meio pelo qual tento comunicar com o inconsciente, tentando a partir dali alcançar o inconsciente colectivo, ou a memória de espécie. E, através desta, o espaço/tempo sagrado.

Assim, penso que os rituais têm como objectivo devolver, ainda que por instantes, o homem à sua natureza intrínseca. Há muitas diferenças entre os rituais de natureza transcendente e de natureza imanente, residindo talvez a principal no facto de não haver uma verdadeira experiência imanente sem a intervenção dos sentidos...

Quatro Elementos

Para mim, Ar, Fogo, Água e Terra são diferentes manifestações da natureza, mas não a realidade de que derivam os seus nomes. São as quatro não-substâncias básicas que formam toda a substância (em diferentes proporções), toda a matéria, incluindo nós próprios. Quando os invocamos, invocamos o campo de todas as possibilidades onde podemos trabalhar a matéria-prima do universo e onde somos também nós seres criadores.

Citando Deepak Chopra: "A diferença entre uma coisa material e outra coisa material – por exemplo, a diferença entre um átomo de chumbo e um átomo de ouro – não se estabelece a nível da matéria. As partículas subatómicas, como os protões, os electrões, os quarks e os bosões que formam um átomo de ouro ou de chumbo são exactamente as mesmas. Além disso, embora lhes chamemos partículas, eles não são coisas materiais; constituem impulsos de energia e informação. Aquilo que torna o ouro diferente do chumbo é a organização e a quantidade desses impulsos de energia e informação.
Tudo na criação material se estrutura através de informação e energia. Todas as ocorrências quânticas constituem basicamente flutuações de energia e informação. E esses impulsos de energia e informação constituem a não-substância que forma tudo aquilo que consideramos substância ou matéria."

Deuses

Um dos mais belos pensamentos Taoistas diz o seguinte: "Aja com a força concentrada do masculino e conserve a suavidade alimentadora do feminino. Abrace a mágica e harmoniosa dança destes opostos e aprecie a sua dinâmica fusão no seu ser."

O modo como nos relacionamos com os deuses, quer trabalhando com eles internamente, na qualidade de arquétipos, quer atribuindo-lhes uma existência exterior a nós e cultuando-os, é sempre um processo pessoal, profundamente íntimo, sobre o qual não há muito a dizer.

O cristianismo relevou a face masculina de Deus e esqueceu a face feminina... e eu esforço-me por também cultura a Deusa. Contudo, para mim, mesmo Deus e Deusa são meros rótulos, sei bem que a natureza divina não é cognoscível.

Roda do Ano

Porquê viver a passagem do tempo, as estações, as mudanças no mundo e os ritmos cósmicos? Porquê valorizá-los? Antes de mais, porque acredito que, como seres da natureza, participamos das mudanças na própria natureza. Assim, é importante que sintamos o Inverno e o Verão, a chuva e o sol. É importante que tenhamos momentos determinados para reviver a primavera do mundo. É importante que sejamos capazes de nos regenerar e participar na regeneração do cosmos.

Festividades Celtas

Celebro as festas pagãs e de influência celta, misturando um certo e necessário revivalismo moderno, com uma verdadeira tradição, daqui, destas gentes e lugares. Uma tradição que, por assim dizer, faz parte da minha herança cultural

A tradição celta, por estar inscrita no quadro de uma civilização que rejeitava a escrita, é conhecida através de outras civilizações, não havendo acesso directo à fonte, à origem. E a interpretação que é feita é de acordo com a visão de alguém que vive no século XXI, outro tempo e outro mundo.

Assim, por mais que eu procure os sinais, que tente conhecer os antigos mitos, que procure em alguns rituais cristianizados o velho culto, tudo isso é sempre sujeito a uma interpretação, a minha interpretação, de acordo com o meu saber e o meu sentir. E nunca poderá ser mais do que isso.

Mas, quando recrio, à minha maneira, no meu tempo e no meu mundo, as festas celtas da roda do ano estou a fazer aquilo que posso para que antigas tradições voltem, por amor e respeito por uma antiga religião, mesmo que desse antigo culto só tenha um vislumbre e eu não seja capaz de o intuir ou compreender na sua totalidade.

Para terminar, resta dizer que quando talho o círculo na clareira de uma antiga floresta, debaixo de carvalhos sagrados, isso é apenas a minha religião.

Sunday, May 22, 2011

Feiticeiras

«A natureza fê-las feiticeiras. É o espírito próprio da Mulher e o seu temperamento. Ela nasce Fada. Pelo retorno regular da exaltação, é Sibila. Pelo amor, torna-se Mágica. Pela finura e malícia (muitas vezes fantasiosa e benéfica), é Feiticeira e enfeitiça, ou pelo menos adormece e ilude os males.

Todos os povos primitivos têm o mesmo princípio; vemo-lo através das Viagens. O homem caça e combate. A mulher recorre ao espírito, imagina; cria sonhos e deuses. É vidente em certos dias; possui a asa infinita do desejo e do sonho. Para melhor contar o tempo, observa o céu. Mas a terra não está menos no seu coração. Com os olhos amorosamente postos nas flores, também ela jovem e flor, trava com elas um conhecimento pessoal. Como mulher, pede-lhes que curem aqueles que ama.»

As Feiticeiras, Jules Michelet

Em Trás-os-Montes conta-se a história da Maria Feiticeira, uma bela história que Alexandre Parafita recria num dos seus livros de contos e lendas da tradição oral, para miúdos e graúdos. No livro Bruxas, feiticeiras e suas maroteiras, lá aparece a Maria Feiticeira e a sua velhinha peneira, porque, tal como nos diz o autor, «segundo a tradição popular, a peneira é o objecto mágico das feiticeiras, tal como a vassoura é o objecto mágico das bruxas e a varinha de condão é o das fadas». E que fazia então a tia Maria Feiticeira com a sua peneira? Bem, é muito simples, em tempo quente, peneirava o estio para que viesse o frio, e quando arrefecia, peneirava o frio para que viesse o estio.

Munida da sua peneira, a feiticeira «peneirava o sol, peneirava a noite, a solidão, a tristeza... e o que mais lhe conviesse». E assim a velha feiticeira, a mulher a quem cabia gerar, criar e amar, peneirava a fome e o frio, peneirava o medo e a dor, peneirava o desespero e a morte... que outro objecto poderíamos escolher para a feiticeira que não fosse a sua velha peneira? Círculo mágico que a feiticeira faz dançar nas suas mãos, ao mesmo tempo que vai recriando o seu mundo... dando-lhe vida, alegria e cor.

Monday, April 18, 2011

Velhas Orações Populares

Já noutro post fiz referência a estas velhas orações populares: http://peregrinar.blogspot.com/2010/02/outeiro.html

Contudo, hoje gostava de partilhar convosco uma bela oração de proteção, recolhida por Consiglieri Pedroso em Briteiros, Guimarães.

Oca, marnoca,
Três vezes oca;
Pé no pé,
Freio na boca.
Tista com tista,
Três vezes tista,
S. Pedro, S. Paulo, S. João Evangelista
Derredor da nossa casa assista.

Consiglieri Pedroso, Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988, pp 268.

Nas Constituições do Bispado de Évora, de 1534, proibe-se o uso de palavras innotas. Teófilo Braga, no seu livro O Povo Portuguez nos seus Costumes, Crenças e Tradições diz que o poder das palavras é tanto maior quanto ellas são mais desconhecidas. No mesmo livro faz-se referência ao Sermão de Santo Eloy, do século VII, onde se diz expressamente que nenhum christão ligue credito ás rimas nem aos cantos magicos, porque são obra do diabo.

Não devemos esquecer que feitiço é uma palavra sagrada que produz um encantamento. Vejamos, a este respeito, a definição de Nostradamus: o feitiço é uma fórmula em verso ou em prosa medida, à qual se atribui a virtude de perturbar a ordem da natureza. O encantamento é a acção de pronunciar essa fórmula.
Nostradamus, Excellent et Moult Utile Opuscule, 1555.

Incantation by Carleton Grant (1860-1930).


Tuesday, February 02, 2010

Outeiro

"...
No chão deste outeiro
Talho o círculo por inteiro!
..."

Eu digo sempre Outeiro, mesmo quando talho o círculo no meu quarto... É sempre Outeiro!
Outeiro deriva do latim altariu, que significa altar. Outeiro é o monte, a colina... que é altar.

Eu, naturalmente, gosto de todos os lugares que ainda são chamados de Outeiros. Algo ainda comum na nossa terra. :)

Por vezes, temos que procurar o escondido, o que não é imediato... mesmo nas palavras. ;)

Já agora, o povo distingue entre reza e prece. Prece - que deriva do latim precari, que quer dizer suplicar, rogar - é, antes de mais, um pedido que se faz em voz baixa, que depende sobretudo da intenção, e não tanto da cadência das palavras. Mas reza é algo distinto. Rezar deriva do latim recitare, que também originou em português recitar. Na reza, a expressão sonora é determinante. Vejamos um exemplo duma reza popular da Trovoada:

"S. Jerónimo se levantou,
Seu sapatinho d’ouro calçou,
Seu cacheirinho agarrou,
Seu caminho caminhou.
Deus Nosso Senhor o encontrou.
– Onde vais, S. Jerónimo?
– Vou espalhar esta trovoada
Que por cima de nós anda armada.
– Espalha-a lá para bem longe,
Para onde não haja pão nem vinho,
Nem flor de rosmaninho,
Nem eira nem beira,
Nem raminho de oliveira,
Nem gadelhinho de lã,
Nem alminha cristã."

Nas rezas populares a criação léxico-semântica, que nem sempre faz sentido, visa acima de tudo potenciar uma certa sonoridade, criar um ritmo narrativo, abrir um caminho de acesso ao mágico-sagrado. Devemos valorizar esta nossa herança, que vêm da tradição Oral. E entender que a base fónica - composta por vários tipos de rima, aliterações, assonâncias - não surge por acaso, mas pela necessidade de criar um certo ritmo, um determinado som. As rezas são o que resta de uma manifestação sensorial, inseridas numa espiritualidade já muito pouco voltada para os sentidos.

As rezas populares têm origem em práticas pagãs, em invocações mágicas. E são o que de mais genuíno temos, relativamente ao modo como se deve fazer uma invocação num ritual mágico. Assim, uma invocação mágica deverá valorizar igualmente a componente métrico-rítmica. Deverá ter ritmo e um som forte, deverá potenciar os sentidos.

Fairy Dance by Hans Zatzka (1859 - 1945).


Friday, December 11, 2009

Espaço-tempo mágico

Seguindo a ideia de Mircea Eliade, eu costumo usar a definição de espaço-tempo mágico como o universo do aqui e agora. Nesta formulação, todos os instantes e todos os lugares são solidários, isto é, existem em simultâneo. Neste universo tudo é possível, e nós somos verdadeiros criadores.

Mas vamos lá tentar explicar isto um pouco melhor. :)

Em primeiro lugar, convém que estejamos familiarizados com a noção de espaço curvo. E nem sempre estamos. Pensamos muitas vezes em termos de geometria plana, como se fosse tudo o que existe, mas não é assim. A geometria plana é a que nos foi ensinada pelo matemático grego Euclides, há mais de 2000 anos. Sem dúvida muito útil. Mas não é uma formulação única. Einstein descobriu que as leis da geometria plana, ou euclidiana, são válidas apenas em regiões restritas do espaço, não se aplicando ao universo em larga escala.

Devemos ter em atenção que quando dizemos, por exemplo, que a soma dos 3 ângulos de um triângulo é 180º, que isso é verdadeiro, mas só é verdadeiro na geometria plana, isto é, só é verdadeiro nas superfícies da geometria plana. Numa superfície da geometria curva, estes cálculos não são correctos. E se na relatividade especial, as propriedades métricas implicam que o espaço-tempo é geometricamente plano, na relatividade geral, apresentam-nos um espaço-tempo curvo. E lá porque não somos capazes de imaginar um espaço curvo tridimensional, isso não quer dizer que não exista ou que não possa existir. É um bocado como a ideia que temos da terra: quando andamos na rua da nossa cidade, o mundo parece-nos plano, mas quando o vemos do espaço, vemo-lo curvo.

A relatividade geral apresenta igualmente uma nova conceptualização do tempo, o tempo e o espaço tridimensional passam a ser visualizados matematicamente como uma estrutura única, de quatro dimensões, chamada espaço-tempo. Um acontecimento seria assim um ponto no espaço-tempo. Mas pontos no espaço-tempo também são chamados eventos. Cada evento ou acontecimento é, então, definido por quatro coordenadas, referindo uma delas a velocidade com que um observador se move no tempo.

Consideremos, agora, que aumentamos a velocidade com que um observador se move no tempo, até atingirmos a velocidade da luz. Que aconteceria? Depararíamos com a fronteira que a ciência chama de horizonte de evento, ou horizonte de acontecimento. Todo o nosso universo observável aparece, assim, limitado pela fronteira do horizonte de acontecimento. Não se trata de uma fronteira física, é o ponto de mudança, a partir do qual as concepções de espaço e de tempo, tal como as consideramos no nosso dia-a-dia, pura e simplesmente deixam de funcionar.

Num espaço curvo, atravessando a fronteira que é o horizonte de acontecimento, poderíamos entrar no mundo do aqui e agora, onde todos os espaços e todos os instantes são solidários, ou seja, são o mesmo espaço e o mesmo instante. Tudo é aqui e agora.

Em termos físicos, nem o nosso corpo nem a nossa mente poderiam sobreviver à passagem do horizonte de acontecimento, mas e o nosso espírito, a nossa alma? Poderemos considerar a hipótese do nosso espírito abandonar o nosso corpo e a nossa mente e, sozinho, ultrapassar a velocidade da luz e atravessar o horizonte de acontecimento, entrando assim no espaço-tempo mágico?

Le villi, 1906 by Bartolomeo Giuliano.


Saturday, December 06, 2008

Espírito e Matéria

As grandes religiões monoteístas deram a pouco e pouco ao mundo ocidental aquilo que, actualmente, é quase uma verdade universal: a separação entre espírito e matéria. Descartes definiu, para o mundo moderno, espírito e matéria como sendo duas realidades totalmente distintas entre si. E condenou-nos a uma visão do mundo da matéria completamente despojado de todo o seu conteúdo espiritual, deixando-nos ainda a braços com um conceito de espírito cada vez mais abstracto e vazio.

Bem, como eu estou aqui para aprender com os homens de outras épocas, dou-me ao luxo de considerar que Descartes não sabia sequer do que falava. ;)

Hum, é sábado de manhã, o meu amor está a dormir e enquanto eu espero que ele acorde para preparar um pequeno-almoço com panquecas e café, penso em Descartes. O que não incomoda de modo nenhum o meu amado, que certamente ficaria bem mais aborrecido se eu estivesse a pensar no Brad Pitt. :P

Bem, para os homens de outras épocas, a divindade ainda não se chamava apenas Deus, a divindade era Deus e Deusa, Céu e Terra, Activo e Passivo, Espírito e Matéria. A matéria era vista como uma manifestação da divindade, de modo algum totalmente separada do espírito, o seu complemento indispensável. A divindade surgia como dois pólos que jamais se poderiam separar, porque em tudo quanto a Terra produzia, o Céu estava presente como força criadora. Poderíamos igualmente dizer que as ideias celestiais precisavam da essência terrestre para "serem". Assim, para a humanidade "arcaica" a divindade manifestava-se de dois modos distintos, ainda que indissociáveis, que se relacionavam entre si como Masculino e Feminino, como Homem e Mulher, como Pai e Mãe, como Deus e Deusa.

Para a philisophia perennis, que, até ao advento do racionalismo, foi comum ao Oriente e Ocidente, as duas origens, a activa e a passiva, representam, para lá de toda a manifestação visível, os pólos primários da existência, regentes de todas as coisas.

Mas o mundo mudou e a matéria passou a ser apenas "coisa", desprovida do sagrado. Convém aqui notar que para o homem primitivo, a matéria também possuía este aspecto meramente físico, só que, apesar disso, não se considerava que a matéria preenchia por si só toda a realidade e que no final da realidade observável, estava apanas o NADA. Toda a matéria continha na sua essência o sagrado, o que induziria que a realidade física era na sua essência constituida por entidades metafísicas.

Um perfeito disparate, não? Nem por isso. A física diz-nos actualmente que a natureza das coisas materiais revela-se como não-material. As componentes elementares das coisas reais formam uma espécie de realidade que é diferente das coisas que produzem. Ao nível das partículas elementares, estados com aparência de ideias adquirem aparência material. Lothar Schäfer insiste que a mensagem da física contemporânea é que, nas suas fronteiras, a realidade observável não se desvanece no nada, mas na metafísica. Diz-nos ainda que: "Se o universo é de aparência mental, é mais provável que comunique com a nossa mente, do que não o faça."

Muito mais haveria a dizer mas, tenho que tratar do pequeno-almoço. ;)

Termino com as palavras de Muhyi-d-Dîn Ibn Arabî, um dos grandes mestres da mística islâmica, que descrevia a Natureza Universal como sendo a parte feminina e maternal da criação, autor desta frase iluminada: "O mundo da natureza consiste em múltiplas formas reflectidas num único espelho. Não, melhor dizendo, é antes uma única forma reflectida em múltiplos espelhos".

Friday, December 09, 2005

Magia e Rituais


Mircea Eliade dizia referindo-se à criação/necessidade do ritual pelo homem primitivo, que ao transformar até os actos mais insignificantes em cerimónias, em rituais onde se repete um arquétipo realizado in illo tempore pelos antepassados ou pelos deuses, o homem primitivo esforça-se por passar além, por se projectar para lá do tempo, na eternidade. E é também neste sentido que eu entendo os rituais.

Eu acredito que na religião a ritualização visa acima de tudo libertar-nos do espaço/tempo profano. É como se existisse uma linha temporal paralela, o tal espaço/tempo sagrado, onde um ritual é a continuação imediata de outro ritual, ainda que separado no espaço/tempo profano. No espaço/tempo sagrado estamos num tempo fora do tempo e num espaço fora do espaço, comunicamos com milhões de seres humanos, em diferentes momentos da história do mundo... é outra realidade.

Creio, no entanto, que na actualidade se torna mais difícil alcançar realmente este espaço/tempo sagrado (qualquer que seja o método), basicamente porque nós valorizamos demasiado o conceito de espaço/tempo. Medimos a rotação da terra e somos levados a acreditar que esta nossa noção de espaço-tempo é tudo o que existe. Mas estes conceitos ganharam consistência com as leis de Newton, isto é, como conceitos são relativamente recentes. Assim, pode muito bem ser tudo o que existe para nós agora, mas certamente não era tudo o que existia na mente do homem primitivo. E a mim interessa-me sobretudo a visão inocente do homem primitivo, profundamente integrado com a natureza. O homem primitivo que vivenciava uma experiência religiosa, isto é, projectava-se numa dimensão espaço/tempo sagrada, pela simples contemplação de um símbolo. O símbolo revelava-lhe por si e em si mesmo toda a sua sacralidade. Se encaramos isso num contexto de espaço/tempo sagrado, nós em qualquer instante da actualidade, ao contemplarmos um símbolo, estaríamos na mesma realidade do homem que produziu esse símbolo e, desse modo, seríamos capazes de o entender integrados na realidade da sua criação.

O problema é encontrar essa realidade nua e pura, que existe para lá dos conceitos. Porque, repito, quer queiramos quer não, mesmo espaço e tempo não passam de conceitos, são abstracções da realidade, esquemas desenvolvidos pelo intelecto para representar a realidade e não a realidade per se. Definições. Definimos uma coisa e partimos do princípio que tudo está representado, conhecido. Isso apenas nos limita. Não limita a realidade, limita a nossa compreensão dessa mesma realidade. Por isso é que eu falo insistememente na busca da inocência, na procura da visão que vê para lá dos rótulos e dos conceitos...

O que eu sinto muitas vezes, sobretudo na abordagem wicca, é que os símbolos ganham outra vida, já não são um meio mas um fim em si mesmo. Mesmo os próprios conceitos de Deus e Deusa são em si mesmo limitadores quando nos prendemos a eles em demasia, uma vez que na verdade representam uma realidade desconhecida, sem nome... e nunca nos podemos esquecer disso. Deus e Deusa são conceitos que nunca conheceremos e, partir do princípio que sabemos tudo sobre esses conceitos afasta-nos ainda mais da realidade para onde esses símbolos nos deveriam canalizar. Contudo, muitos pagãos ou wiccans falam de deuses quase como se fossem personagens de um romance – são elementos arquétipos que necessariamente temos que encontrar e vivenciar em nós... mas certamente nada será literal nem tão conhecido como nos fazem crer.