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Tuesday, April 26, 2011

Rituais de Beltane

Começo este post com uma referência a outro post e ao texto de Ernesto Veiga de Oliveira.

Até ler Veiga de Oliveira, ainda que eu entendesse a necessidade de nos libertarmos daquilo que nos mutila ao longo dos diversos invernos da nossa vida, eu não ritualizava essa libertação em Beltane. Contudo, agora, isso parece-me absolutamente necessário.

Para provar o novo chá é necessário primeiro esvaziar a chávena. Se deitarmos o novo chá na chávena que ainda tem chá velho, não estaremos verdadeiramente a provar o novo chá...

O ritual de comer o caldo de castanhas, antes do nascer do sol de Beltane, rapidamente se tornou essencial, para mim. Porque considero que é essencial libertarmo-nos das forças do Inverno, do Inverno em nós, esvaziarmo-nos de tudo o que nos mutilou, morrer para nascer de novo. Só assim renascemos com a força do novo dia.

E que melhor maneira de nos libertarmos daquilo que já não queremos, o nosso Inverno, do que digerindo-o? As castanhas, naturalmente, vêm de Samhain, são o fruto do Inverno. Comemo-las e digerimo-las, e assim nos libertamos... e aceitamos libertos e vazios o novo, a outra metade do ano.

Há uma beleza e uma sabedoria maravilhosas nesses velhos e esquecidos rituais, que a tradição popular trouxe até nós. E que, na minha opinião, não deveriam ser ignorados.

Assim, dos meus rituais de Beltane, fazem parte a manducação cerimonial do caldo de castanhas antes do nascer do sol e o piquenique após o sol nascente, de onde regresso com as flores amarelas das giestas, que coloco na porta da minha casa, assumindo que também eu estou presente na regeneração do cosmos.

Termino com o link, para outro dos meus textos sobre Beltane.

Thursday, October 21, 2010

Lua Cheia de Samhain

Deparei com uma tese de mestrado sobre rituais do dia dos mortos, em que a autora diz claramente que Samhain era “celebrado no dia 1 de Novembro ou no dia, mais próxima desta data, em que surgia a lua nova”, não apresentando sequer outra possibilidade. Creio que há alguns sites new age que difundem esta ideia, sobretudo porque a lua nova parece mais apropriada, tratando-se de um início de ciclo. Eu não concordo. E, na verdade, também é possível encontrar defensores de outras opiniões. Vejamos um exemplo retirado da internet: “the Coligny calendar seems to indicate that the Samhain festival was celebrated on the day after the full moon” – Fonte: http://druidjournal.net/2009/02/11/the-coligny-calendar/ 
Data: 11 de Fevereiro de 2009.

Por sua vez, na introdução ao livro de Jean Markale, A Grande Epopeia dos Celtas, publicado pela Ésquilo, Paul Fetan diz que “sendo um facto que o ano celta possuía doze meses lunares, mais um mês intercalar para alcançar o ciclo solar, e que cada mês começava com a lua cheia, as festas de Samain e de Beltaine não calhavam em datas fixas: será mais concreto dizer «na lua cheia mais próxima do 1º de Novembro ou do 1º de Maio»”.

Contudo, há que dizê-lo, tudo isto são possibilidades, não há nenhuma certeza. Também há quem defenda que os meses para os celtas começavam com a lua nova, mas mesmo nesse caso, continua a haver quem pense que os festivais ocorriam na lua cheia: “There is some actual evidence that the Celts who used the Coligny style lunar calendar actually held their holy festivals in the middle of the month (presumably on the full moon).” – Fonte: http://technovate.org/web/coligny.htm
Data: 22 de Novembro de 2001.

Em qualquer caso, na minha opinião, e vivendo eu nas terras da Galécia, faz todo o sentido seguir um padrão antigo e celebrar na lua cheia, uma vez que sabemos que já em tempos imemoriais por aqui se celebrava a lua cheia, como refere este post: http://pedraserpe.blogspot.com/2010/07/culto-lua.html
Data: 19 de Julho de 2010.

Mangetsu Full Moon by Yajuro Takashima, 1963.


Thursday, July 29, 2010

Espírito do Carvalho de Calvos

É quase Lughnasadh outra vez. No ano passado, foi para mim um momento de profundo desespero, de um sofrimento quase impossível de suportar. Mas, ao mesmo tempo, foi um intenso momento de mudança. Ainda que na altura eu não soubesse, o sofrimento terminou nesse momento. O meu longo, muito longo lamento foi ouvido e as minhas preces foram atendidas.

O Lughnsadh de 2009 criou entre mim e o Carvalho de Calvos uma ligação indelével. É certo que já antes gostava desta majestosa árvore, mas ainda não fazia parte de mim. Nem do meu filho. Algumas semanas depois, levei lá o meu menino, que logo agarrou, com as suas mãos pequeninas que mal agarravam coisa alguma, uma pequena saliência do tronco deste Velho.

Este ano, pensei em levar lá alguns amigos, celebrar e falar-lhe do Espírito do Velho Carvalho, contudo, sei bem que isso é ainda e só a minha crença, a minha religião. E aquilo que faz sentido para mim, não faz para os outros. Nem tinha que fazer.

Na verdade, não sei como vai ser, o que farei ou onde estarei no próximo Lughnasadh, mas, esteja eu onde estiver, neste e nos anos vindouros, no Lughnasadh o meu coração estará sempre com o Carvalho de Calvos.


Excerto de um texto publicado num fórum no ano passado:
Na véspera do Lughnasadh, o meu marido deixou-me no hospital e foi procurar um lugar para estacionar o carro. Até ali aquilo nunca tinha acontecido, entrávamos sempre juntos. Nesse dia cheguei sozinha, mas a verdade é que nem me deixaram entrar na sala da neonatologia, uma enfermeira veio ter comigo e disse-me que o meu filho tinha tido novamente uma recaída, estava com outra infecção generalizada. Entrei e vi o meu filho com o soro nas veias da cabeça - já tinha sido tantas vezes picado que não havia mais veias que se pudessem usar. Não consegui aguentar mais! Poucos minutos depois estava já a sair do hospital, cruzei-me com o meu marido que estava a entrar... sabia bem que fugia, mas não sabia como não fugir. 

Andei a vaguear pelas ruas, completamente perdida e acabei por entrar na Sé. Sentei-me num canto e chorei. O meu choro rapidamente se tornou incontrolável. Entretanto, alguém me tocou no ombro, uma, duas vezes... ainda a soluçar olhei para cima, vi uma mulher que me perguntou se eu sabia a que horas era a próxima missa. Eu fiquei tão estupefacta que ela repetiu a pergunta. Ainda a chorar, disse que não e ela afastou-se. Sem sequer me agradecer ou pedir desculpa pelo incómodo... fiquei arrepiada e apressei-me a sair dali. Continuei sempre a chorar, enquanto andava pelas ruas, sem destino. 

Mais tarde, fui até ao Carvalho de Calvos. Onde mais poderia ir? Cheguei e o parque estava completamente vazio. Descalcei-me e entrei de imediato na fenda do carvalho, sentei-me e encostei-me lá dentro, bem no fundo, completamente dentro do velho carvalho. Dois ou três minutos depois, apareceu uma mulher velha que me perguntou o que eu fazia ali, disse-lhe que precisava estar ali um bocadinho. E ela disse-me que eu não podia ficar dentro do carvalho, mas foi-se embora e eu pensei que me estava a conceder aqueles minutos... logo de seguida, apareceram outras duas mulheres, uma delas era uma adolescente, a outra mais velha, foi essa que falou e exigiu que eu saísse de dentro do carvalho. Horrorizada, reconheci a Deusa na sua face tríplice: a donzela, a mãe e a anciã. Comecei novamente a chorar, pedi-lhe que me deixasse estar lá só um bocadinho, disse que já não aguentava mais... mas a mulher foi irredutível e continuou a exigir a minha saída. Saí, porque a Deusa assim o queria. A mulher ainda me perguntou se eu queria ir até ao café conversar... claro que não quis. Foram para o tal café lá no parque e eu afastei-me do carvalho... Nem sei dizer o que senti. Era como se tivesse deixado de haver chão debaixo de mim e eu estivesse permanentemente em queda livre. 

Sentei-me no chão, fechei os olhos e recusei-me a pensar fosse o que fosse. Só queira ficar assim um bocadinho, antes de me ir embora... Mas fui ficando, apareceram algumas pessoas, que rapidamente se foram embora. E, por maior que fosse o meu desespero, a verdade é que eu já não tinha qualquer contacto com a natureza há muito tempo, tanto tempo que aquele bocado no parque, apesar de todas as circunstâncias, era algo que parecia entrar dentro de mim, ligando-me à Terra e não me deixando sair dali. Ainda hesitante, voltei para junto do carvalho... e fiquei lá imenso tempo, deitada no chão e de olhos fechados, esforçando-me por não pensar em nada. Até que ouvi novamente a voz da mulher velha, que me disse que estavam a fechar o bar e que se iam embora. Entendi o que estava implícito: se eu ainda quisesse voltar para dentro do carvalho, já o podia fazer. Fiquei admiradíssima. Agradeci e ela foi-se embora, não sem antes me desejar que tudo me corresse bem. 

Algum tempo depois, entrei de novo no carvalho. Fiz o meu ritual. Um longo, longo ritual. O meu primeiro ritual desde que o meu filho tinha nascido. Ninguém me perturbou. Quando decidi que era altura de sair do carvalho, senti imensos pingos, não sei bem de quê, a caírem em cima de mim ... aceitei-os como um bom presságio. Nesse momento, acreditei que tudo iria correr bem. 

No dia seguinte, no hospital, disseram-nos que afinal já estava tudo bem com o meu filho. Ainda continuou mais algum tempo na neonatologia, mas sempre sem perigo, era ainda muito pequeno e só podia ser alimentado pela sonda. Até que chegou o tempo em que teve finalmente alta, veio para casa e tudo corre bem, com a graça dos Deuses. E eu continuo profundamente agradecida ao Espírito do Carvalho de Calvos.

Monday, February 01, 2010

Festa das Luzes

















Acendemos uma vela nesta noite sagrada
Para dar força à Luz Abençoada!
Nesta noite, o espírito do fogo celebramos
E na escuridão o nosso Caminho iluminamos.

Deixamos a Luz clarear os escuros dias já vividos.
E com a natureza e os cordeirinhos recém-nascidos
Louvamos a Lua do Leite desta e doutra era...
E em nós e no mundo nasce a Promessa da Primavera!

Nesta noite, o arquétipo da criança invocamos...
Trazemos fé aos nossos sonhos e acreditamos
Que também nós podemos fazer a vida acontecer!
Somos jovens como o Sol, somos o mundo a crescer!


Obrigada, Senhora minha, por teres feito com que, na minha casa, Imbolc fosse celebrado. E obrigada por todas as tuas dádivas... Obrigada!

Monday, December 21, 2009

Feliz Solstício!

Desejo a todos um Abençoado Solstício, que a Luz esteja sempre presente nas vossas vidas.

E que haja alegria!...





Monday, March 09, 2009

O tempo cíclico

Hoje ao responder a um post no blog de um amigo, voltei ao sempre eterno tema do tempo cíclico. É um dos meus estandartes. Vejamos a este respeito o que nos diz Philip Carr-Gomm:

“Pensa na tua vida e nos respectivos acontecimentos. Coloca-os numa linha com o teu nascimento numa ponta e a morte na outra. E aqui tens uma linha isolada, que começa e termina no vazio. (...) Existem outras linhas que podem estender-se em paralelo com a tua, colidir com ela ou atravessá-la, mas todas elas terminarão como começaram: com nada. (...) Mas ambos sabemos que a vida não é bem assim: sabemos que a morte é seguida pelo renascer, tal como nos comprova o renascer da vida que ocorre na Primavera e, se tivermos sorte, vemos isso também quando procuramos no fundo da nossa memória.”

“Nascemos, vivemos e morremos. (...) O que é que está no centro deste círculo? O quê ou quem é responsável por este movimento circular? (...) A minha alma, a minha verdadeira identidade, que perdura em todas as minhas vidas.”

“Agora esqueçamo-nos do indivíduo e olhemos para o mundo. As estações do ano são claramente cíclicas: sucedem-se umas às outras, inexoravelmente. Por isso podemos dispô-las num círculo, o círculo do ano. O mesmo acontece com os dias: cada dia nasce de madrugada, atinge o seu ponto alto ao meio dia e depois começa a escurecer, dando lugar à noite, altura em que morre, renascendo depois na madrugada seguinte. (...) O círculo do dia e o círculo do ano tem afinidades: o Inverno é como a morte da noite, quando tudo fica quieto. A Primavera é como o nascer do dia, quando os pássaros acordam e louvam o céu. O Verão é como o meio-dia, uma altura de calor máximo e em que o crescimento é maior. E o Outono é como o fim de tarde, pois até mesmo as suas cores se parecem com as cores do pôr-do-sol. Temos assim dois ciclos da Terra em sintonia. (...) aquilo que provoca especificamente o ciclo do dia e as estações do ano é o sol. É ele que faz girar a roda. (...) E que ligação julgas existir entre o teu ciclo e o ciclo da Terra? (...) A primavera corresponde à época da tua infância, o Verão à fase mais jovem da idade adulta, o Outono à tua fase madura e o Inverno à tua morte. E no centro da tua vida está a tua alma, tal como o centro da roda da Terra está o sol.”

A roda do ano, a roda óctupla, “baseia-se na profunda e misteriosa ligação entre a fonte das nossas vidas individuais e a fonte da vida do Planeta, reconhecendo oito períodos particulares durante o ciclo anual que são muito significativos e marcados por observâncias especiais. Desses períodos, quatro são de carácter astral (directamente associados à posição do sol no céu), enquanto os outro quatro se encontram relacionados com a vida da Terra e as fases da lua. Se associarmos o sol ao princípio masculino e a lua ao princípio feminino, verificamos que este esquema oferece um conjunto equilibrado de ligações entre as observâncias correspondentes a um e a outro desses princípios.”

Citações retiradas do livro Os Mistérios dos Druidas, de Philip Carr-Gomm, Editora Zéfiro, 2008.

p.s. Já agora, deixo o link para o lugar dos meus sonhos e devaneios: Clareirazinha. :)

Wednesday, October 01, 2008

Que o caminho se abra à tua frente...


Caminho com a roda do ano, para o fim de um ciclo. E o início de outro ciclo. Todos os meus sentidos estão despertos, o meu mundo amadurece em cores e aromas intensos, é Outubro.

Em Outubro o caminho abre-se à minha frente na terra arada, negra e fecunda. E do Norte e da Terra, caminho para o Este e para o Ar, levada pela intensidade do cheiro a terra molhada, que me faz pensar em mim própria como uma semente, que me faz querer voltar ao ventre da Terra Mãe e encolher com a estação, ficar de novo pequenina, libertar-me do supérfluo, deixar para trás as minhas máscaras, que inadvertidamente criei ao longo do ano, para renascer com a minha própria face em Yule.

Mas é ainda cedo, Outubro é tempo de colheita, as últimas colheitas do ano. E nada se compara à intensidade das cores, dos sabores e dos aromas de Outono. O cheiro das castanhas assadas que suavemente começa a aparecer nas ruas da minha cidade. Os dias a meio da semana, que se transformam em fantásticos fins de tarde solarengos, em clareiras em maravilhosos tons outonais, que sobrestimulam os sentidos. Os fins de semana a apanhar bolota e outros frutos silvestres. Os últimos piqueniques. E a minha cozinha transformada no meu laboratório alquímico, com os aromas das tartes de maçã e de abóbora a cozer no forno, com a cor intensa das taças de marmelada a apanhar sol junto à janela.

É Outubro, o tempo místico das primeiras fogueiras, do fumo branco que faz pensar em brumas misteriosas e mágicas, que me transporta para outros mundos. Volto-me, então, para o Fogo e para o Sul, agradecendo o suave calor do sol, sentindo fortemente a luz dos meus dias.

Nunca, em nenhuma outra altura do ano, sinto assim tanto a necessidade de apreciar o sol quando o dia é claro e luminoso, e a chuva quando chove. A maravilhosa chuva de Outono, que alimenta a terra ressequida nos meses de estio, que me vivifica. Estou, agora, no mundo da Água, no Oeste. Caminho descalça na minha praia vazia, na areia húmida, e o mundo à minha volta é um mundo que, a cada instante, se revela. É Outubro.

Thursday, September 18, 2008

Preparando a festa do Equinócio do Outono.

O Equinócio do Outono, sendo um equinócio, um momento em que a noite é igual ao dia, é assim uma altura em que o Yin e o Yang se equilibram. É sobretudo isso, um tempo de equilíbrio.

Este ano, eu estou realmente a precisar de encontrar o meu equilíbrio, de modo que vou começar a preparar esta minha festa, onde tentarei também eu interiorizar esse equilíbrio.

Reservo o dia do Equinócio de Outono, na próxima segunda-feira, para as minhas celebrações pessoais. Começarei, então, a celebrar no domingo à tarde, em parte por questões laborais. O que também está certo...

Eu e os meus amigos, começaremos então no domingo à tarde, vamos plantar árvores, cada um de nós levará uma árvore para plantar - até porque agora é que é a altura certa para plantar árvores e não na primavera. Depois, teremos o habitual chá e scones no meio da natureza. Terminaremos com um jantar na minha casa. :)

Que mais? Lembraremos o tradicional mito desta festa, o mito de Perséfone. Conhecem-no, certamente. Mesmo assim, permitam-me resumi-lo.

Segundo o antigo mito, no dia do Equinócio de Outono, Hades (o deus grego do Submundo) encontrou a bela e jovem Perséfone, que colhia flores. Ficou tão encantado com a sua beleza que, instantaneamente, se apaixonou por ela. Agarrou-a, raptou-a e levou-a para a escuridão do seu reino, no Submundo. A deusa Deméter, mãe de Perséfone, procurou-a por todos os lugares mas, não a encontou. O seu sofrimento foi tão intenso que as flores e as árvores começaram imediatamente a murchar e a morrer. Os outros deuses viram-se então obrigados a negociar com Hades o retorno de Perséfone. Hades aceitou devolvê-la, desde que ela nada comesse no seu reino. Porém, a bela Perséfone foi enganada e comeu uma pequena semente de romã, tendo, então, que passar metade de cada ano com Hades no Submundo, por toda a eternidade.

E também nós comeremos as tradicionais sementes de romã. Comemo-las de livre vontade, sem enganos, assumindo que também nós aceitamos sem medo descer ao nosso submundo, porque sabemos que o regresso à claridade será sempre inevitável. É um ponto importante, sabem? Precisamos dos mitos que nos indicam o caminho... nesse momento de equilíbrio no mundo, com a noite igual ao dia, lembraremos a jornada de Perséfone. Lembraremos a nós próprios que precisamos tanto da noite como do dia, e lembraremos que o equilíbrio é sempre possível. E que temos que aceitar a nossa luz e as nossas trevas...

É este o mito. Um mito universal, como são todos os mitos.

É este o festival.

São estes os rituais.

É este o meu paganismo.

Thursday, July 24, 2008

Convite para Lughnasadh

Celebraremos Lughnasadh entre 1 e 2 de Agosto. É a festa de Lugh, guerreiro solar. É um momento para invocarmos o arquétipo de Lugh, do guerreiro que há em nós, da coragem e da alegria de um dia de sol intenso, onde somos fortes e vitoriosos.

Outro nome do festival é Lammas, que segundo creio significa a massa de Lugh. E isso deve-se ao costume de se colherem os primeiros grãos e fazer um pão que era dividido entre todos. Os nossos ancestrais faziam um pão comunitário, que era consagrado junto com o vinho e repartido dentro do círculo. Sendo esta festividade também chamada A Festa do Pão.

Onde está o nosso costume ancestral de partilhar o pão? Onde está a nossa generosidade quase arquetípica?...

Este é o primeiro dos três festivais da colheita. É um tempo para agradecer, festejar e partilhar o nosso pão... E é para isso que vos convidamos: para partilharem o nosso pão.

Resta só uma pergunta: onde será? Possivelmente em Viana, no monte de Santa Luzia. Porquê em Santa Luzia? Porque é um dos sítios desde sempre dedicados a Lugh, neste caso na sua vertente feminina, Lusina ou Luzia. A Igreja Católica mudou um pouco os rótulos, cristianizou os montes, mas os antigos lugares de poder continuam lá... inteiros!

Se quiserem juntar-se a nós, acreditem que serão bem-vindos! Mandem-me um mail para combinarmos alguns pormenores: triskelzinho@gmail.com

Assim, terminamos repetindo os votos de outros anos:
Que Lugh seja o sol na tua face nua, sem máscaras e sem medos... e que também a tua alma se inflame de amor pela luz, pela coragem e pela generosidade.

Wednesday, August 01, 2007

Porque hoje é 1 de Agosto...

"Perguntam-me como me fiquei louco?
Foi assim:

Há muito tempo, muitíssimo,
muito antes de terem nascido os deuses,
despertei de uma profunda letargia
e reparei que todas as minhas máscaras
tinham sido roubadas.

Sim, as sete máscaras
que para mim tinha fabricado e utilizado
nas minhas sete vidas.

Corri sem máscara
pelas ruas cheias de gente
gritando:
- Ladrões! Malditos ladrões!

Homens e mulheres riram-se de mim,
e muitos fecharam-se em casa,
cheios de medo.

Quando cheguei à praça do mercado,
um rapaz que estava de pé
no telhado da casa,
gritou apontando-me com o dedo:
- é um louco!

Ergui os olhos para o ver,
e foi então que o sol banhou
pela primeira vez
o meu rosto despido.

Pela primeira vez,
o sol banhou o meu rosto despido
e a minha alma
encheu-se de amor pelo sol,
e desde então
nunca mais quis usar máscara.

Depois gritei
como se estivesse em transe:
- Benditos! Benditos ladrões
que me roubaram as máscaras!

Foi assim que me tornei louco.

Encontrei muita liberdade
e segurança
na minha loucura;
a liberdade da solidão
e a segurança de nunca ser compreendido,
porque aqueles que nos compreendem
fazem de nós escravos.

Mas não deixem
que me orgulhe demasiado
da minha segurança;
nem o ladrão encarcerado
está livre de encontrar outro ladrão."

O Louco, Khalil Gibran.

Lugh, meu senhor, também eu sinto hoje o sol beijando a minha face nua... e também a minha alma se inflama de amor pelo sol... Obrigada!

Thursday, June 21, 2007

Solstício de Verão - dia 21 às 19h06

Não se esqueçam de sonhar, pois o que sonharem nesta noite mágica, realizar-se-á!

p.s. Fotografia retirada da Wikipédia.

Portas Solsticiais

O Sol, fonte de vida, está na origem de muitas das crenças do homem primitivo. Nas antigas civilizações, o homem via os solstícios como aberturas opostas do céu, como portas por onde o Sol entrava e saía, ao terminar o seu curso, em cada círculo tropical. No panteão romano, esse conceito foi personificado pelo deus Janus. O seu nome deriva de janua, palavra latina que significa porta. Janus era representado com duas faces simetricamente opostas, pois era aquele que olhava para o passado e em simultâneo para o futuro. Na concepção do homem primitivo, que representava o tempo de um modo cíclico, Janus presidia ao Solstício de Inverno e ao seu oposto na roda do ano, o Solstício de Verão. Representava as duas portas solsticiais, as portas do céu. Como guardião das portas do céu, era por vezes representado com um molho de chaves na mão – alegoria que passa para S. Pedro, já sem relação com os solstícios e, por essa razão, desprovida da sua verdadeira essência.

Tradicionalmente, tanto para o mundo oriental quanto para o ocidental, o solstício de Câncer (Caranguejo), ou da Esperança, Verão no Hemisfério Norte, é a porta cruzada pelas almas mortais e, por isso, chamada de Porta dos Homens, enquanto que o solstício de Capricórnio, ou do Reconhecimento, Inverno no Hemisfério Norte, é a porta cruzada pelas almas imortais e, por isso, denominada Porta dos Deuses.

No simbolismo cristão, as festas dos solstícios são, em última análise, as festas de São João Batista e de São João Evangelista. São dois São João e há, aí, uma evidente relação com o deus romano Janus e suas duas faces. Tendo sido a semelhança entre as palavras Janus e Joannes o que facilitou a troca do Janus pagão pelo João cristão. Continua, aí, a dualidade transmitida por Janus, como princípio da vida: diante de Câncer (Caranguejo), Capricórnio; diante dos dias mais longos, do verão, os dias mais curtos, do inverno; diante de São João (do inverno), com as trevas, Capricórnio e a Porta de Deus, o São João (do verão), com a luz, Câncer e a Porta dos Homens.

E se com o tempo se perdeu, em parte, a festa solsticial de São João Evangelista, já o mesmo não aconteceu com a festa do nascimento de Cristo. Sabemos bem que Cristo não nasceu realmente no Natal. Contudo, que melhor alegoria do que colocar o nascimento de Cristo na festa solsticial da Porta dos Deuses, tendo diante de si a Porta dos Homens? Senão, vejamos a simbologia associada à configuração da constelação de Caranguejo: na tradição hebraica, as duas estrelas principais da constelação de Caranguejo são chamadas de Haiot Ha-Kadosh, ou seja, animais de santidade, designados pelas duas primeiras letras do alfabeto hebraico, Aleph e Beth, correspondentes ao burro e ao boi. Estas duas estrelas chamam-se em latim Asellus, diminutivo de Asinus, referindo-se portanto a burricos. Diante delas, há um pequeno conglomerado de estrelas, denominado, em latim, Praesepe, que significaria estrebaria, curral, manjedoura, ou presépio.

Esse simbolismo dá sentido ao nascimento de Jesus a 25 de dezembro, sob o signo de Capricórnio, durante o Solstício de Inverno, sendo colocado numa manjedoura, entre um burro e uma vaca, apontando dessa forma, simbolicamente, para a constelação de Caranguejo e para o Solstício de Verão. Tal como Janus, Jesus aponta as duas portas solsticiais: da Porta dos Deuses, aponta para a Porta dos Homens.

Este post é baseado no texto São João e a Tradição Maçônica, de Wagner Veneziani Costa e Celso Ferrarini.

Friday, April 13, 2007

Antecipando e preparando o Primeiro de Maio

Donde vem a tradição de se ir para o campo no primeiro de Maio? Porquê esta sacralidade em comunhão com a natureza? Bem, para começar, as árvores e a vegetação encarnam sempre a vida inesgotável: o que corresponde na tradição pagã à realidade absoluta, ao sagrado por excelência. Talvez seja por isso que, em várias religiões, o cosmos é simbolizado por uma árvore.

Sir James Frazer, estudou várias crenças e rituais religiosos e criou a chamada "escola da mitologia vegetal", em que afirma que a maioria das divindades eram originalmente espíritos das árvores. Diz também que o culto das árvores, em especial dos bosques sagrados, constituía uma forma universal de comportamento religioso. Provavelmente a mais primitiva... Mas, se reparares, mesmo em termos bíblicos tudo começa no Jardim. Pois é... :)

Os Druidas oficiavam em plena natureza, debaixo de uma árvore, preferencialmente um carvalho com visco. Mas a própria Bíblia estabelece: Louvar-me-eis num altar da terra; Se fizerdes um altar de pedra não o construireis com pedras talhadas, porque será manchado se empregardes cinzel (Êxodo 20: 25, segundo creio). O que dizer, então, das magnificas catedrais? Mas já me estou a distrair... deixemos isso para outro post.

Mircea Eliade diz que a fecundidade, a prosperidade, a saúde ou, a um nível mais elevado, a imortalidade e a juventude eterna, estão concentradas nas plantas ou nas árvores. Assim, tudo o que é vivo e criador, em estado de regeneração contínua, se exprime por símbolos vegetais. O cosmos é representado sob a forma de uma árvore porque, da mesma forma que esta, ele regenera-se periodicamente.

A Primavera é uma ressurreição da vida universal e, por conseguinte, da vida humana. Por este acto cósmico todas as forças de criação reencontram o seu vigor inicial. A vida é integralmente reconstituída, tudo começa de novo. Em resumo, repete-se o acto primordial da criação cósmica, porque toda a regeneração é um novo nascimento, um regresso a esse tempo mítico em que apareceu, pela primeira vez, a forma que se regenera.

A ideia de regeneração do ser humano por uma participação activa deste na ressurreição do mundo vegetal e, portanto, na regeneração do cosmos, está implícita no ritual das Maias. As Maias são uma reminiscência da maior festa sagrada da religião celta (que por sua vez foi buscar esta data sagrada a uma tradição ainda mais antiga e imemorial). Os celtas chamavam-lhe Mai-Eve, Belténe ou Beltaine.

Bem, podemos dizer que, desde épocas recuadas e por toda a história religiosa do mundo antigo, o primeiro de Maio foi e continua a ser a data sagrada por excelência. Na tradição celta, Beltaine era religiosamente consagrado à Grande Mãe. Antigamente, era no início de Maio que se reuniam nas florestas e nas montanhas imensas multidões que, pelo recolhimento religioso e depois pela santa e boa alegria, celebravam a Terra Mãe e a regeneração do cosmos. E participando na regeneração do cosmos, também o homem era regenerado.

Só para acabar: em 1946 estabeleceu-se, no dia 1 de Maio, a festa do trabalho em todas as nações. É o dia do trabalhador. Charroux afirma que isso aconteceu porque vários círculos iniciáticos tomaram, e ainda tomam, medidas para que o primeiro de Maio se venha a tornar na festa de todos os povos da terra. Ele diz que é preciso que a data da maior festa sagrada do nosso hemisfério se imponha novamente, começando assim o início da justa reposição das coisas.

Não quererás também tu ir até ao campo neste primeiro de Maio, sim, para celebrar as Maias? Eu comungarei com a Natureza, celebrarei a regeneração cósmica, interiorizarei a Primavera da Vida. Sim, porque por muito que o Inverno nos mutile, há-de sempre chegar a Primavera e, com ela, também nós voltaremos inteiros. Não achas que essa capacidade de voltarmos inteiros é importante? Então, porque não seguir a tradição e no dia 1 de Maio celebrá-la, isto é, lembrar que essa capacidade de nos regenerarmos existe em nós (elementos integrantes da natureza) assim como em toda a natureza...

Por fim, levarei para a minha casa as giestas floridas, seguindo esta tradição imemorial. Enfeitarei com as giestas a casa e, muito especialmente, a porta de entrada, mostrando ao mundo que também eu participo do renascimento cósmico.

A sério, não queres também tu participar neste ritual de regeneração? Acredita, isso dos rituais é importante...

Em qualquer caso, desejo-te um primeiro de Maio verdadeiramente regenerador, espero que fiques em paz contigo próprio e que a felicidade se manifeste.
p.s. Escrevi este texto nos fóruns do SAPO, em 26.04.2000