Wednesday, December 30, 2009

Peregrinos

«Vamos dedicar um pensamento a todos aqueles que, século após século, tomavam o bordão do peregrino, fossem pagãos ou cristãos, e partiam por estradas, que mal chegavam a ser trilhos, através de rios, que quase se não podiam vadear, pelo meio de florestas, onde o lobo caçava em alcateias, através de pauis de lama movediça, onde se enluravam serpentes-de-água venenosas: sujeitos à chuva, aos temporais ventosos, ao granizo saraivante, atingidos pelo sol ou gelados pelo frio, tendo à noite, como único abrigo, a fralda do hábito puxada por cima da cabeça; tudo isto depois de deixarem lar e família sem saber se os voltavam a ver, para chegar - pelo menos uma vez na vida - a um lugar onde habitava a divindade.»

Louis Charpentier, Les Mystéres de la Cathédrale de Chartres

Ao visitarmos os lugares sagrados recebemos a energia do lugar, mas também nós deixamos lá a nossa energia.
Interrogo-me se, nos tempos modernos de conforto e facilidade de acesso aos antigos lugares sagrados, não nos fará falta a longa, difícil e árdua peregrinação?

Senhora da Barca

Monday, December 21, 2009

Feliz Solstício!

Desejo a todos um Abençoado Solstício, que a Luz esteja sempre presente nas vossas vidas.

E que haja alegria!...





Friday, December 18, 2009

Tuesday, December 15, 2009

KYMATICA

Kymatica, é o novo filme de Ben Stewart, músico e filósofo, criador do controverso Esoteric Agenda. Se é verdade que Ben Stewart insiste na teoria da conspiração e está muito voltado para os Estados Unidos, e nem tudo o que diz parece ser credível, também é verdade que nos incita a assumirmos as nossas repsonsabilidades e que nos apresenta uma visão diferente de vários temas espirituais.

Kymatica é um documentário de 2009 muito interessante e inovador, ainda que bastante controverso e, por vezes, pouco documentado. Mas, que nos apresenta ideias que merecem refexão. E que nos dá uma visão abrangente da espiritualidade, centrando-se na humanidade como um todo, focando a ideia da evolução e salvação de toda a humanidade e não tanto de cada indivíduo isolado.

Cymatics, do grego “κύμα” (kyma), que significa onda, e “τα κυματικά” (ta kymatica), que significa assuntos relativos às ondas, é o estudo dos fenómenos de onda.

Kymatica no youtube, traduzido.

Quanto a mim, confesso que me identifico com muito do que foi apresentado neste documentário, mas também há pensamentos do Ben Stewart que eu não partilho, de modo nenhum. E, se hoje fico por aqui, em futuros posts apresentarei a minha reflexão sobre alguns dos temas de Kymatica.

Monday, December 14, 2009

E se a vida fosse apenas uma viagem?

"Bill Hicks costumava terminar os seus espectáculos assim: a vida é como uma viagem num parque de diversões. E quando optas por viajar, julgas ser real, pois é o quanto poderosas as nossas mentes são. Na viagem, sobes e desces, andas às voltas, tens emoções fortes e é muito brilhante e colorida. Há muito barulho e é divertido por um bocado.

Alguns viajam há muito tempo e começam a questionar: será isto real? Ou é só uma viagem?

E outros lembram-se, viram-se para nós e dizem:

- Ei, não te preocupes, não tenhas medo, nunca. Isto é só uma voltinha.

E matamos essas pessoas.

- Calem-no! Investi imenso nesta viagem, calem-no! Olhem para a minha conta bancária e para a minha família... isto tem que ser real.

E é só uma voltinha. Mas matamos sempre aquelas boas pessoas que nos dizem: já reparaste?

Mas não importa, porque é só uma viagem. E podemos mudá-la sempre que quisermos.

É apenas uma escolha. Sem esforço, sem trabalho, sem profissão, sem poupanças. Só uma escolha, agora mesmo. Uma escolha entre o medo e o amor."


Retirado do filme Zeitgeist, disponível no google. Versão portuguesa aqui.

Zeitgeist

"E eu a pensar que gastei os primeiros 30 anos da minha vida a tentar ser alguma coisa. Eu tentava ser bom nas coisas, no ténis, na escola e nas notas. E tudo me parecia correr nessa perspectiva. Eu nunca estive bem comigo, mas se fosse bom nas coisas... Aí percebi que estava a fazer tudo ao contrário. O que eu devia era tentar saber quem no fundo eu realmente era."

"Eu não nasci como Richard Albert, eu nasci apenas como um ser humano. E só depois aprendi toda essa história de quem sou eu, serei bom ou mau, ou do que alcancei ou não... tudo isso é aprendido ao longo do caminho."

"Na nossa cultura fomos treinados para que as nossas individualidades se destacassem. Por isso, olhas para cada pessoa e ele é imediatamente mais esperta, mais burra, mais velha, mais nova, mais rica, mais pobre, e fazemos todas essas distinções dimensionais, pomo-la em categorias e tratamo-la dessa maneira. E chegamos ao ponto em que só vemos os outros separados de nós, o modo como eles estão separados. E uma das características mais dramáticas da experiência é estar com outra pessoa e de repente reparar nos aspectos em que ela é exactamente igual a ti, e não diferente de ti, e experienciar o facto de que aquilo que é essência em ti, e que é essência em mim, é uma coisa só, o compreender que não há um outro. Somos todos um."

Retirado do filme Zeitgeist, disponível no google. Versão portuguesa aqui.

Friday, December 11, 2009

Espaço-tempo mágico

Seguindo a ideia de Mircea Eliade, eu costumo usar a definição de espaço-tempo mágico como o universo do aqui e agora. Nesta formulação, todos os instantes e todos os lugares são solidários, isto é, existem em simultâneo. Neste universo tudo é possível, e nós somos verdadeiros criadores.

Mas vamos lá tentar explicar isto um pouco melhor. :)

Em primeiro lugar, convém que estejamos familiarizados com a noção de espaço curvo. E nem sempre estamos. Pensamos muitas vezes em termos de geometria plana, como se fosse tudo o que existe, mas não é assim. A geometria plana é a que nos foi ensinada pelo matemático grego Euclides, há mais de 2000 anos. Sem dúvida muito útil. Mas não é uma formulação única. Einstein descobriu que as leis da geometria plana, ou euclidiana, são válidas apenas em regiões restritas do espaço, não se aplicando ao universo em larga escala.

Devemos ter em atenção que quando dizemos, por exemplo, que a soma dos 3 ângulos de um triângulo é 180º, que isso é verdadeiro, mas só é verdadeiro na geometria plana, isto é, só é verdadeiro nas superfícies da geometria plana. Numa superfície da geometria curva, estes cálculos não são correctos. E se na relatividade especial, as propriedades métricas implicam que o espaço-tempo é geometricamente plano, na relatividade geral, apresentam-nos um espaço-tempo curvo. E lá porque não somos capazes de imaginar um espaço curvo tridimensional, isso não quer dizer que não exista ou que não possa existir. É um bocado como a ideia que temos da terra: quando andamos na rua da nossa cidade, o mundo parece-nos plano, mas quando o vemos do espaço, vemo-lo curvo.

A relatividade geral apresenta igualmente uma nova conceptualização do tempo, o tempo e o espaço tridimensional passam a ser visualizados matematicamente como uma estrutura única, de quatro dimensões, chamada espaço-tempo. Um acontecimento seria assim um ponto no espaço-tempo. Mas pontos no espaço-tempo também são chamados eventos. Cada evento ou acontecimento é, então, definido por quatro coordenadas, referindo uma delas a velocidade com que um observador se move no tempo.

Consideremos, agora, que aumentamos a velocidade com que um observador se move no tempo, até atingirmos a velocidade da luz. Que aconteceria? Depararíamos com a fronteira que a ciência chama de horizonte de evento, ou horizonte de acontecimento. Todo o nosso universo observável aparece, assim, limitado pela fronteira do horizonte de acontecimento. Não se trata de uma fronteira física, é o ponto de mudança, a partir do qual as concepções de espaço e de tempo, tal como as consideramos no nosso dia-a-dia, pura e simplesmente deixam de funcionar.

Num espaço curvo, atravessando a fronteira que é o horizonte de acontecimento, poderíamos entrar no mundo do aqui e agora, onde todos os espaços e todos os instantes são solidários, ou seja, são o mesmo espaço e o mesmo instante. Tudo é aqui e agora.

Em termos físicos, nem o nosso corpo nem a nossa mente poderiam sobreviver à passagem do horizonte de acontecimento, mas e o nosso espírito, a nossa alma? Poderemos considerar a hipótese do nosso espírito abandonar o nosso corpo e a nossa mente e, sozinho, ultrapassar a velocidade da luz e atravessar o horizonte de acontecimento, entrando assim no espaço-tempo mágico?

Wednesday, July 15, 2009

Senhora, há aqueles que nos dizem que são engenheiros ou doutores e isso define-os. Eu não sei até que ponto tinha verdadeira percepção, mas ser tua era uma parte muito grande da minha identidade. Quando isso desapareceu, bem, simplesmente deixei de saber exactamente quem era. Sabia que uma nova identidade se iria construir, a pouco e pouco, e eu haveria de ficar outra. Fui dizendo a mim própria que sentir-me perdida era natural, uma vez que toda a minha identidade se estava a refazer.
Não sei quantas vezes repeti que pouco me importava que me tivesses retirado o dom, se é que havia algum dom, ou o que quer que fosse. Insisti até me convencer, que apenas me custava esse processo em que eu tinha deixado de ser quem era e o meu novo eu ainda não estava completamente definido.
Nunca senti que me estivesse a afastar de ti. Achei sempre que tu, Senhora, é que me tinhas abandonado. Quantas vezes implorei a tua ajuda? E a tua ajuda simplesmente não chegou...
Quando entrei em privação de sono e pensei que ia enlouquecer, pedi-te que me enviasses alguém capaz de te encarnar, alguém que me ouvisse por ti. Senhora, não fiz eu isso umas quantas vezes?...
Bem, não considerei que o psiquiatra, que veio ter comigo no hospital, fosse enviado por ti. Mesmo assim, dei-lhe o benefício da dúvida. Mas, não, nada tinha a ver contigo.

Ó virgem entre todas singular, mãe amantíssima, senhora da sabedoria... que te posso eu dizer?

Ontem à tarde, o meu marido levou-me à gruta da Senhora da Lapa. Apenas uns minutos depois de termos chegado, apareceu uma jovem que abriu a capela/gruta. Ela vinha completamente vestida de vermelho e isso, por si só, fez-me pensar se não seria uma sinal teu. E, de imediato, disse a mim própria que isso era irrelevante, uma vez que eu já não acreditava em sinais.
Entramos e ela disse-nos se não queríamos beber água da gruta, que era água sagrada. Já sabíamos disso. Eu já tinha bebido aquela água, noutro tempo. Ainda por sugestão dela, o meu marido foi ao carro buscar uma garrafa, para levar água para casa. Eu fiquei sentada num banco de madeira... depois, num impulso, levantei-me, descalcei-me e dirigi-me à parede da gruta, junto ao altar. Foi nessa altura que começou a ouvir-se um som estranho na gruta, mas não liguei, pensei que era apenas o som de água a correr. Mais tarde, a rapariga dirigiu-se a mim, tratou-me por senhora e perguntou-me se eu sabia que som era aquele. Perguntei-lhe se não era água. Ela disse que não. Insistiu que nunca ouvira aquele som antes. Mas eu não quis saber, ignorei o barulho. Contudo, durante escassos segundos em que me concentrei no som que parecia vir da pedra, por trás do altar, pensei que, o que quer que fosse, fazia-me pensar num coração a bater. Lembrei-me das minhas pedras-coração. E mais nada.
A rapariga retirou algumas flores das que estavam no altar e deu-mas, disse-me que a Senhora da Lapa queria que eu ficasse com as flores. Achei o gesto bonito e agradeci. E fomos embora.
Ainda estávamos a meio das escadas, quando a rapariga veio a correr à porta e nos disse que o som tinha terminado quando deixamos a capela.
Foi nesse instante, e só nesse instante, que eu decidi que era um sinal teu. E que tu, Senhora, estavas de volta ao meu mundo, ao meu coração... e que a minha fé estava a ser restaurada.
Que assim seja, Senhora!

Thursday, April 16, 2009

"E agora algo completamente diferente..."

Ultimamente sinto-me aprisionada nas minhas oito horas de trabalho em frente a um computador. Quero ser livre e crescer na minha liberdade.

Estou farta de calcular minutos, horas, dias. Coisas que não passam de meros conceitos teóricos, o que medimos na verdade é a rotação da terra. Contudo, ai de nós se nos atrevermos a falar da roda do ano, se sentirmos no nosso corpo o ritmo da terra, que para este nosso mundo moderno já nada mais é do que um conceito teórico.

Somos devorados pelo tempo, não porque se vive no tempo, mas porque se crê no tempo.

...

Bem, ultimamente tenho lidado com umas quantas pessoas que apregoam até ao infinito as suas certezas. Certezas científicas. Interrogo-me se saberão que entrando num campo científico por excelência, a mecânica quântica, não deparamos com certezas, mas com probabilidades. Um átomo não está numa determinada posição nem se movimenta numa determinada direcção. Há a possibilidade de ele estar em qualquer lugar, movimentando-se em diferentes direcções e velocidades.

Estou farta de certezas. Estou farta que me digam o que devo fazer. Estou farta de normas. Contudo, reconheço que existem sempre normas. Não podemos fugir disso. Mesmo quando não reconhecemos outra norma que não seja a nossa norma, temos ainda essa norma. A nossa liberdade baseia-se sempre na norma.

Monday, March 09, 2009

O tempo cíclico

Hoje ao responder a um post no blog O Galaico, voltei ao sempre eterno tema do tempo cíclico. É um dos meus estandartes. Vejamos a este respeito o que nos diz Philip Carr-Gomm:

“Pensa na tua vida e nos respectivos acontecimentos. Coloca-os numa linha com o teu nascimento numa ponta e a morte na outra. E aqui tens uma linha isolada, que começa e termina no vazio. (...) Existem outras linhas que podem estender-se em paralelo com a tua, colidir com ela ou atravessá-la, mas todas elas terminarão como começaram: com nada. (...) Mas ambos sabemos que a vida não é bem assim: sabemos que a morte é seguida pelo renascer, tal como nos comprova o renascer da vida que ocorre na Primavera e, se tivermos sorte, vemos isso também quando procuramos no fundo da nossa memória.”

“Nascemos, vivemos e morremos. (...) O que é que está no centro deste círculo? O quê ou quem é responsável por este movimento circular? (...) A minha alma, a minha verdadeira identidade, que perdura em todas as minhas vidas.”

“Agora esqueçamo-nos do indivíduo e olhemos para o mundo. As estações do ano são claramente cíclicas: sucedem-se umas às outras, inexoravelmente. Por isso podemos dispô-las num círculo, o círculo do ano. O mesmo acontece com os dias: cada dia nasce de madrugada, atinge o seu ponto alto ao meio dia e depois começa a escurecer, dando lugar à noite, altura em que morre, renascendo depois na madrugada seguinte. (...) O círculo do dia e o círculo do ano tem afinidades: o Inverno é como a morte da noite, quando tudo fica quieto. A Primavera é como o nascer do dia, quando os pássaros acordam e louvam o céu. O Verão é como o meio-dia, uma altura de calor máximo e em que o crescimento é maior. E o Outono é como o fim de tarde, pois até mesmo as suas cores se parecem com as cores do pôr-do-sol. Temos assim dois ciclos da Terra em sintonia. (...) aquilo que provoca especificamente o ciclo do dia e as estações do ano é o sol. É ele que faz girar a roda. (...) E que ligação julgas existir entre o teu ciclo e o ciclo da Terra? (...) A primavera corresponde à época da tua infância, o Verão à fase mais jovem da idade adulta, o Outono à tua fase madura e o Inverno à tua morte. E no centro da tua vida está a tua alma, tal como o centro da roda da Terra está o sol.”

A roda do ano, a roda óctupla, “baseia-se na profunda e misteriosa ligação entre a fonte das nossas vidas individuais e a fonte da vida do Planeta, reconhecendo oito períodos particulares durante o ciclo anual que são muito significativos e marcados por observâncias especiais. Desses períodos, quatro são de carácter astral (directamente associados à posição do sol no céu), enquanto os outro quatro se encontram relacionados com a vida da Terra e as fases da lua. Se associarmos o sol ao princípio masculino e a lua ao princípio feminino, verificamos que este esquema oferece um conjunto equilibrado de ligações entre as observâncias correspondentes a um e a outro desses princípios.”

Citações retiradas do livro Os Mistérios dos Druidas, de Philip Carr-Gomm, Editora Zéfiro, 2008.

Thursday, January 22, 2009

O lado feminino da divindade

No mundo da espada e da guerra, esquecem-se os cultos aos falos de pedra e à fertilidade, que vinham de outro tempo, do tempo da Deusa. Mas nem tudo se perdeu completamente, o Concílio de Éfeso, no ano 431 d.C., proclamou que Maria era a Mãe de Deus. Bem, convém não nos esquecermos que Éfeso tinha, à época, um dos maiores templos, no Império Romano, dedicado à deusa Ártemis. Há necessariamente uma sabedoria feminina por trás desse acontecimento. E a verdade é que as imagens da Virgem com o Menino tornaram-se o que de mais comum há na iconografia cristã. E que maravilha que é a celebração das Madonas Negras nas catedrais francesas, que naturalmente se chamam Notre Dame. E não se pense sequer que os cristãos não sabiam da analogia de Isis a amamentar o seu filho Hórus, porque, segundo Campbell, estavam de tal modo conscientes disso que afirmaram: "aquelas formas, meras formas mitológicas no passado, agora são verdadeiras e encarnam o nosso Salvador".

A Mãe com o seu Filho. O mistério da vida. O mistério sexual. Campbell diz-nos que nas religiões da Deusa, "o mistério sexual é um mistério sagrado. É o mistério da geração da vida. O acto de gerar uma criança é um acto cósmico e deve ser entendido como sagrado. Por isso, o símbolo que mais claramente representa o mistério do despejar da energia da vida, no campo do tempo, é do lingam e da yoni, os poderes masculino e feminino, em conjunção criativa."

Claro que o cristinianismo, incapaz de lidar com a sexualidade, apresenta-nos uma Mãe virgem. O que nem sequer é uma ideia original, em si mesma, apenas mal interpretada. A ideia do nascimento virginal é comum na mitologia, referindo-se contudo a um segundo nascimento, um nascimento espiritual. Bom, mas também o mito da morte e ressurreição é comum e nem por isso os cristãos deixaram de o tornar seu, incorporando-o como se fosse único.

Vejamos ainda o próprio papel de Jesus. Em termos mitológicos, "a divindade que desce ao campo do tempo era originalmente uma deusa", como nos diz Campbell, que afirma ainda que "Jesus assumiu o que é, na verdade, o papel de uma deusa, nisso de descer até nós encarnando a compaixão". A Grande Compaixão, que abarca todos os seres, porque todos são filhos da Deusa.

Continuando com Campbell: as tradições "que se oferecem como revelações da Grande Deusa, mãe do universo e de nós todos, ensinam compaixão por todos os seres vivos." Sem esquecer "a santidade da terra, em si, porque ela é o corpo da Deusa. Ao criar, Jeová cria o homem a partir da terra, do barro, e sopra vida no corpo já formado. Ele próprio não está ali, presente, nessa forma. Mas a Deusa está ali dentro, assim como continua aqui fora.
O corpo de cada um é feito do corpo dela. Nessas mitologias dá se o reconhecimento dessa espécie de identidade universal."

Identidade essa que muitas vezes nos falta nas sociedades patriarcais, industrializadas, onde os rios e montanhas são esventrados e profanados, onde proliferam prédios e mais prédios de cimento no corpo sagrado da Mãe Terra. Deviam ter-nos ensinado a amar a Mãe, a respeitar a natureza. Mas o facto de não nos terem ensinado isso, não nos desculpabiliza a nós, indivíduos. Cada um de nós tem que fazer o que puder para que a natureza seja preservada, para que o corpo da Terra Mãe não mais seja profanado.

Eu, por mim, quero também voltar aos cumes de outrora e celebrar, como se celebrava noutros tempos. Campbell diz-nos que "muitos dos reis hebreus são condenados, no Velho Testamento, por terem cometido o pecado da idolatria, no topo das montanhas. Essas montanhas eram símbolos da Deusa. E, entre os hebreus, havia uma forte discriminação contra a Deusa." Também por cá tiveram dificuldades com os santuários no topo dos montes, não conseguindo retirar-nos esse culto, cristianizaram-no.

Que volte para nós o lado feminino da divindade!

Ainda para Campbell, "o feminino representa a maya. O feminino representa o que, em termos kantianos, chamamos de formas da sensibilidade. Ela é espaço e tempo, e o mistério para além dela é o mistério para além de todos os pares de opostos. Assim, não é masculina nem feminina. Nem é, nem deixa de ser. Mas tudo está dentro dela, de modo que os deuses são seus filhos. Tudo quanto você vê, tudo aquilo em que possa pensar, é produto da Deusa." Actualmente usamos a expressão "campo morfogenético, o campo que produz formas. Eis o que a Deusa é, o campo que produz formas." E "voltar à natureza certamente trará à tona, outra vez, o princípio da mãe". Que assim seja!

Alimento sagrado

CAMPBELL: Nenhum de nós estaria aqui se não estivéssemos comendo continuamente. O que você come é sempre algo que, um momento antes, estava vivo. Este é o mistério sacramental do alimento e da comida, que raramente nos vem à mente, quando nos sentamos para comer. Se dizemos graças, antes das refeições, agradecemos a essa figura provinda da Bíblia, pelo nosso alimento. Mas, nas mitologias primitivas, quando se preparavam para comer, as pessoas agradeciam ao animal, que estavam prestes a consumir, por ter se doado, em sacrifício voluntário.
Há um dito magnífico, num dos Upanixades: "Oh maravilhoso, oh maravilhoso, oh maravilhoso, eu sou alimento, eu sou alimento, eu sou alimento! Eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento, eu sou um comedor de alimento!"
Já não pensamos assim, hoje, a respeito de nós mesmos. Mas agarrando-se a você mesmo, e não se permitindo ser alimento, você pratica o acto negativo primordial, enquanto negação da vida. Você interrompe o fluxo! E a liberação do fluxo é a grande experiência do mistério, inerente ao acto de agradecer a um animal, que está prestes a ser comido, por ter se doado.
Você também será doado, quando chegar o momento.

O Poder do Mito, Joseph Campbell