Saturday, April 13, 2019

Voltando ao Primeiro de Maio

Voltando ao Primeiro de Maio (cópia de uma resposta que deixei num grupo do facebook)...
 
Há uma carta de 1385 que refere a tradição, também em Portugal, de celebrar a noite de Valpurgis. Sabemos, assim, que esta tradição se celebrava ainda no reinado de D. João I, mas já era vista como um costume diabólico e um crime de idolatria (in Festividades Cíclicas em Portugal, Ernesto Veiga de Oliveira, pág. 111).

Para Veiga de Oliveira, o que sobrou das grandes festas pagãs traduziu-se sobretudo em manjares cerimoniais. Os manjares cerimoniais associados à Véspera do Primeiro de Maio são dois: o caldo de castanhas (feito com castanhas piladas, que são castanhas desidratadas à moda antiga), no nordeste transmontano, e os queijinhos de figos e amêndoas, no Algarve. Estes manjares cerimoniais deveriam ser comidos ritualmente, antes do nascer do sol do primeiro dia de maio.

Eu ainda faço o caldo de castanhas e ainda o como ritualmente, antes daquele dia nascer, para me ligar aos meus antepassados que faziam esse mesmo ritual, mas também e principalmente para afastar o inverno que existe dentro de mim, devorando-o, digerindo-o e libertando-me dele, para deixar entrar o verão. É um processo poderoso! :)

As castanhas, em associação com a carne de porco, são o manjar cerimonial obrigatório da festa complementar: do Magusto (ou, se preferirmos outro nome, de Samhain). Reaparecem aqui, ligando as duas festividades. Com outra particularidade, a sopa tradicional de castanhas leva feijão branco, o que reporta a outra receita, um caldo que se comia no início da primavera, num dia em que estranhamente estavam proibidas as verduras. Mas isso é outra história. ;)

Outro ritual do Primeiro de Maio, que ainda se pratica nos nossos dias, sobretudo no norte de Portugal, é o ritual das Maias. As Maias são flores de giesta que se penduram nas portas, supostamente para afastar uma qualquer entidade maléfica. Eu não entendo dessa forma. Eu penduro as flores amarelas das giestas na porta de entrada da minha casa, para mostrar ao mundo que também eu participo do renascimento cósmico. Faço-o no momento em que começa a festa, quando o sol se põe, no dia 30 de abril. Dessa forma, quando nasce o sol do Primeiro de Maio, as flores das giestas marcam a minha porta, só assim o ritual se cumpre.

A Primavera é uma ressurreição da vida universal e, por conseguinte, da vida humana. Por este acto cósmico todas as forças da criação reencontram o seu vigor inicial. A vida é integralmente reconstituída, tudo começa de novo. A ideia de regeneração do ser humano por uma participação activa deste na ressurreição do mundo vegetal e, portanto, na regeneração do cosmos, está implícita no ritual das Maias.

As Maias são uma reminiscência da maior festa sagrada da religião celta, que por sua vez foi buscar esta data sagrada a uma tradição ainda mais antiga e imemorial. Assim, podemos dizer que, desde épocas recuadas e por toda a história religiosa do mundo antigo, o Primeiro de Maio foi e continua a ser a data sagrada por excelência. Antigamente, era no início de Maio que se reuniam nas florestas e nas montanhas imensas multidões que, pelo recolhimento religioso e depois pela santa e boa alegria, celebravam a Terra Mãe e a regeneração do cosmos. Participando na regeneração do cosmos, também o homem era regenerado.

Em 1946 estabeleceu-se, no dia 1 de Maio, a festa do trabalho em todas as nações. É o dia do trabalhador. Charroux afirma que isso aconteceu porque vários círculos iniciáticos tomaram, e ainda tomam, medidas para que o primeiro de Maio se venha a tornar na festa de todos os povos da terra. Ele diz que é preciso que a data da maior festa sagrada do nosso hemisfério se imponha novamente, começando assim o início da justa reposição das coisas.

Friday, October 26, 2018

A angustia perante a morte

No passado sábado, vi o filme Victoria, de Sebastian Schipper, 2015.

Há um momento em que dois assaltantes, a fugir da polícia, entram num prédio, encontram um homem nas escadas, apontam-lhe uma arma e obrigam-no a deixá-los entrar em casa dele. O que ele faz. Lá em casa, estavam a mulher e um bebé de meses, que os assaltantes acabam por levar como refém.

Antes de partirem, um deles ainda pergunta ao homem, que continua apavorado:

- Porque é que nos deixaste entrar, se tinhas cá dentro o teu bebé?...

Bem, eu estou absolutamente convencida que a reacção do homem, no filme, está de acordo com o modo como a maioria das pessoas reagiria.

O que é que nos tornou cobardes? Este modo vida, em que vivemos isolados nos nossos cubículos, certamente contribui muito para a cobardia do mundo moderno.

Outro elemento fundamental, para nos entendermos, é a nossa visão do tempo. O conceito do tempo linear, da seta do tempo, é moderno. Surge em oposição ao tempo cíclico, de antigamente. Com a mudança da percepção do tempo, deparamos com um terror impossível de vencer: a absoluta angústia perante a Morte, o Nada.

Antigamente, o próprio tempo cíclico levava a que conhecêssemos a morte intimamente, obrigando-nos a morrer inúmeras vezes, para renascer como outra coisa.

Morrendo e ressuscitando continuamente, o homem tendia com todo o seu ser para a conquista da morte. E a imortalidade renovava-se a cada dia.

Voltando ao filme, o homem deixou-os entrar, por causa de um medo terrível da sua própria morte. Mas, na verdade, ele morreu no instante em que os deixou entrar na sua casa. Morreu tal como era e tornou-se outro. Inevitavelmente.

E pronto, acho que vou terminar com uma música de uma banda fantástica: Danheim. :) A musica é Ulfhednar.

Até outro dia.

Thursday, September 27, 2018

O caminho do bem

Eu continuo à procura da minha tribo, daquelas pessoas que caminharão comigo na paisagem dos nossos antepassados. Não tenho dúvidas que, um destes dias, elas irão aparecer na minha vida. :)

Bem, a verdadeira amizade é algo extraordinário, algo que desenvolve a nossa compaixão e que, sem dúvida, nos torna melhores pessoas.

Platão, nos seu Diálogos, diz o seguinte: «diz-se por vezes que andar em busca da nossa outra metade é que é amar, mas eu afirmo, meu caro, que amar não é andar em busca da nossa outra metade ou, sequer, do todo, quando essa metade e esse todo não forem bons» (Diotima para Sócrates).

Na verdade, a paixão é sempre motivada pelo belo. Pelo belo e não pelo bom, ou pelo bem. A motivação da paixão é simplesmente a imortalidade. Ou, dito de um modo mais terra a terra, a pulsão da necessidade de procriação. Não somente de sexo, mas de procriação.

A amizade profunda e verdadeira, por sua vez, sendo ainda amor, é um amor diferente do amor paixão. Um amor que só pode estar submetido ao princípio supremo: o bem. A amizade é, então, o caminho da bondade, da partilha e da alegria pela felicidade do outro.

Termino dizendo que me podes escrever, sabes? Email: triskelzinho@gmail.com

Eu tenho um casamento sólido e feliz, mas quase não tenho amigos. Tenho poucos amigos no mundo real, quero eu dizer. E são sobretudo esses que eu procuro: pessoas que vivam relativamente perto de mim, ou em Trás-os-Montes, onde eu vou muitas vezes.

Bem, tenho consciência que é tudo muito superficial, nestes tempos modernos, incluindo a amizade. Mas, para mim, uma amizade superficial não é uma verdadeira amizade. Então, quem sabe se não nos espera uma grande e bela amizade? :)

De resto, eu concordo com a ideia de que estranhos se podem tornar os melhores amigos, com tanta facilidade como os melhores amigos se podem tornar estranhos.




Friday, September 21, 2018

A propósito de Nabia

Transcrevo um pequeno comentário que fiz, a propósito de Nabia, referida como deusa dos rios, dos montes e dos castros.

Rodriguez Colmenero (in Deuses da Planície: Nabia e Assimilados), bem como J.  Pokorny, M. L. Albertos, entre outros, insistem que o teónimo Nabia, tal como o homófono topónimo Nava, não tem conotações hídricas, derivando originalmente do vocábulo indo-europeu *naus, que se aplicaria a formas de relevo não montanhosas. Tratando-se de planuras, ou terras baixas, estenderiam a sua denominação à dos cursos fluviais que atravessavam o seu território. 

Parece-me um pouco confuso que também estivesse ligada aos montes. E quanto aos castros, ainda tenho mais dúvidas. Segundo vários historiadores, sobretudo J. M. Blázquez (in Divindades Indigenas e Interpretatio Romana), o mais comum nos castros do noroeste peninsular era os deuses não só carecerem de nomes, como nada ser definido quanto à sua aparência, qualidades, género e número. Também F. Marco (in Interpretatio Romana y Asimilación Indígena, bem como in Religio Deorum) refere que aquilo a que eram atribuídos nomes era aos lugares que eram consagrados à divindade, como bosques, arvoredos, fontes, etc. F. Villar (in Un Elemento de la Religiosidad Indoeuropea) também expressa uma opinião similar.

«Os deuses, tal como os cães, respondem apenas quando são chamados pelos seus nomes.» A frase é de Cícero no tratado De Natura Deorum. Nas religiões gregas e romanas, sem dúvida que o conhecimento do nome era um pré-requisito essencial em qualquer forma de comunicação com qualquer entidade divina. F. Marco Simon (in Diis Deabvsqve A Indefinição Primordial do Divino) refere que tal não acontecia na região norte da Península Ibérica.

Ainda in A Indefinição Primordial do Divino, F. Marco Simon cita uma passagem de Jâmblico, dizendo que em cada povo há características linguísticas impossíveis de se expressarem na língua de outro povo e que, mesmo quando tal fosse possível, um nome traduzido (ou romanizado) carecia de poder.

Mais tarde, continuei com outro comentário, que também transcrevo.

Eu estou consciente da associação de Nabia com o culto da água. Sei que Leite de Vasconcelos propôs até a interpretação do nome na Fonte do Ídolo, como «a divindade da fonte pela qual se jura». Mas podia estar enganado. De qualquer forma, a Fonte do Ídolo é um templo na parte baixa da cidade, actualmente é preciso descer alguns metros até ao recinto do antigo templo. Este templo foi erigido na época romana, pela família de Celicus Fronto, sendo que este era um estrangeiro, alguém que provinha de fora da Galécia e cujo conhecimento das divindades locais era limitado. Associado ao templo, havia um recinto de lazer, um tanque alimentado por uma pequena nascente. Se não houvesse nenhuma nascente, a construção do espaço que lazer (que existiu!) seria impossível. De modo que a nascente pode estar lá, por diversas razões. Não deixa de ser estranho que, num espaço onde há imensas fontes sagradas, esta não o seja na tradição popular.

Também não conheço nenhum ritual relacionado com o culto da água, nos rios Neiva ou Nabão, mas esses rituais existem, em relação a outros rios. Leite de Vasconcelos refere alguns rios do noroeste Peninsular que “requeriam” sacrifícios, refere outros aos quais a tradição popular associava seres míticos ligados à água e refere ainda outros rios, em que se praticavam ainda velhos cultos pagãos. Por acaso, falhou o ritual mais importante deles todos, nunca o encontrou e não o referiu. Muitos o referiram, mas apenas aqui e ali, dispersamente. E eu estou profundamente grata ao meu marido, que dedicou a sua tese de mestrado precisamente a um ritual muito antigo do culto da água, com várias referências, mas muito dispersas e que, apesar de tudo, chegou aos nossos dias, não só em termos de referências como também da continuidade do culto. Em diversos locais, em vários rios, tanto no Minho como em Trás-os-Montes, o mesmo ritual, de um intenso e emotivo culto da água, não só chegou aos nossos dias, como ainda se pratica. Contudo, este é o tempo do fim de um ritual pagão e profundo, ao qual é impossível ficarmos indiferentes.

Tudo isto para dizer que eu sei muito bem que o culto da água é o elemento mais marcante e mais vincado do paganismo do norte de Portugal. Mas, na minha modesta opinião, talvez seja preciso deixar de o associar apenas com Nabia, se é que tem alguma associação com esta divindade, e encontrá-lo de verdade.

p. s. Já agora, se alguém quiser ler a tese que referi, é a tese de Mestrado em Património e Turismo Cultural, de Alexandre da Silva Marques, publicada no site da Universidade do Minho.
A tese começou com a Ponte da Misarela e acabou mantendo o nome, mas refere várias pontes, de diferentes rios, onde se praticava o belíssimo ritual do Baptismo no Ventre. Link:
Lugares de memória : a Ponte da Misarela

Wednesday, September 19, 2018

O Lugar do Início


O livro O Lugar do Início, de Ursula K. Le Guin (uma escritora de quem sempre gostei muito), começa com uma citação de Jorge Luis Borges: Que rio é este pelo qual corre o Ganges?... 

Acerca disso deixei este pequeno comentário a um amigo: 

Não há como fugir a isso, pois não? O lugar do início da nossa tribo encontra-nos sempre. Por mais elaborados que sejam os nomes ou as litanias, acaba sempre tudo por regressar à verdade simples e imediata da paisagem. Para mim, quero eu dizer. :)

A paisagem que moldou a tribo, de alguma maneira, é imutável. Os montes tornam-se vales, os rios correm em diferentes leitos, as velhas árvores desaparecem e outras, de diferentes espécies, passam a ser dominantes. Tudo muda e, ainda assim, a paisagem que foi corpo da tribo, ainda é. Não há nada naquela paisagem que possa ser diferente, mesmo que os nossos olhos nos digam o contrário. 

Que sentido é verdadeiro? O que é real? Se fecharmos os olhos, o cheiro e o som tornam-se outros. Se continuarmos de olhos fechados, a cada passo que damos entramos mais e mais no corpo da tribo. E é assim até começarmos a sentir aquela velha sensação, também ela invariável. Nesse momento, podemos abrir os olhos: a floresta encontrou-nos.


Outro pensamento acerca da paisagem

Eu sou incapaz de basear a minha relação com os meus deuses em documentos. Sofro da paixão historiográfica, que invadiu o mundo moderno, face a muita coisa, mas não em relação aos deuses.

A minha relação com os meus deuses só faz sentido se se basear no meu modo de sentir e no meu modo de pensar. O documento não transmite o meu modo de pensar e de sentir, é limitativo. E, no enquadramento das minhas divindades pagãs, está sempre imbuído do modo de pensar, de sentir e de ver o mundo de uma cultura distinta daquela, de tradição oral, de onde partiu esse documento. Uma cultura que já pouco valoriza a alma da tribo, os mitos, mas que desvaloriza ainda mais o corpo da tribo: a paisagem. Para mim, a paisagem é fundamental.

No mês passado, eu estava, por mero acaso, no lugar onde antigamente havia um templo pagão, na aldeia onde nasci, quando, novamente mais ou menos por acaso, me volto e vejo a lua cheia a nascer. Foi só isso, mas desencadeou algo incrivelmente intenso dentro de mim. Por escassos segundos, liguei-me aos ancestrais da minha tribo, que pisaram aquele chão e que viram um nascer de lua cheia, em circunstâncias similares. E liguei-me aos descendentes da minha tribo que, num qualquer momento futuro, hão-de sentir, naquele lugar, o nascer da lua cheia.

O que eu quero dizer é que, na tradição oral, mesmo numa tradição oral inserida num contexto cristão, o corpo da tribo continua a ser valorizado, mas esse corpo da tribo tem cada vez menos relevo no documento, pela sua própria natureza muito mais selectivo, muito mais censurado.

Se esquecermos o corpo da tribo, esquecemos demasiado.

Para mim, Lugh é por excelência uma divindade ligada à paisagem, ao corpo da tribo, ao lugar. Assim, quando eu senti tão intensamente aquele momento em abril, agradeci também a Lugh por me permitir sentir a memória daquele lugar.

A memória do lugar é, na minha opinião, algo que urge trazer de volta.

Maio de 2017.

Autumn Memories by Frederick Mccubbin, 1899.


Monday, September 17, 2018

Tentando voltar ao caminho

Sinto que devo voltar a escrever acerca do corpo da tribo. Mas eu já não tenho as palavras. Também eu sou, cada vez mais, intrinsecamente turista. E quando somos turistas não encontramos a memória da paisagem, que também não nos diz a cada passo quem nós somos.

De resto, quando eu percorro a paisagem, que é o corpo da minha tribo, eu não tenho conceitos, só experiências. Mas quererei falar delas, em público? Não estarei já farta dos meus patéticos espectáculos de vaudeville?...

Hmm, talvez eu não tenha nada contra o vaudeville e o que me aborreça seja o pressuposto da narrativa explicada. Bem, se não explicada, pelo menos algo com sentido, o que acarreta ainda o cansativo desdobramento entre actor e expectador.

Eu estou a mudar de pele, a entrar cada vez mais no meu novo eu: nocturno, onírico e abstracto. Já nem sequer quero ser compreendida. Por que razão me preocupo ainda com tudo isso?

Talvez por, no fundo, ainda persistir a convicção de que o único espaço onde eu faço falta é no corpo da minha tribo, onde talvez eu ainda seja capaz de abrir novos caminhos. E eu simplesmente não sou capaz de me afastar, quando faço falta.

Assim, em qualquer momento, haverá um verdadeiro regresso e eu estarei de novo no caminho, voltarei a peregrinar.

Nas minhas peregrinações, eu nunca procurei a reconstrução, que nunca deixaria de ser algo novo, por maior que fosse a sua beleza. Eu sempre quis encontrar o que ainda era original, mesmo que estivesse esquecido e cheio de entulho.


A paisagem (o corpo da minha tribo)

Publiquei este post em setembro de 2010, no meu blog Clareirazinha. Hoje trago-o de volta, porque sim. ;)

Para mim a Galécia é, antes de mais, a terra: os carvalhos e as pedras que, mais do que me dizerem quem são, dizem-me quem eu sou. E quem eu sou é um eco que eu não encontro noutros lugares, por maior que seja a sua beleza ou antiguidade, o que é quase impossível de explicar a um cidadão do mundo, como o meu marido e como a maior parte dos meus amigos. Mas, mesmo não sendo entendido pelos outros, contínua a ser esse o meu sentir. E a Galécia é a terra que me diz quem eu sou.

Há lugares, por esse vasto e maravilhoso mundo, que me deslumbraram e que ficaram para sempre guardados nas minhas memórias. Há outros que me transformaram, que me deram esse sentir ainda mais raro: a chegada – o sentimento simples e, ao mesmo tempo, arrebatador de chegar, a sensação de que aquele lugar é uma meta na minha viagem. - Contudo, volto a repetir: a Galécia é a terra que me diz quem eu sou, a cada instante e a cada passo...

A paisagem agreste e montanhosa do nordeste transmontano moldou-me, desde os meus primeiros anos. Na minha infância, o rio chamava-se Tuela. E Montesinho é ainda a terra onde não há memórias das primeiras vezes, ao contrário do Gerês, que comecei visitar apenas na idade adulta, mas pelo qual senti de imediato um amor igualmente intenso. E, de verdade, poucos lugares são, para mim, comparáveis à velha Mata de Albergaria, que em cada encontro me redefine.

A primeira vez que percorri as pedras gastas da velha Citânia de Briteiros, por um estranho acaso no dia do Lughnasadh, é bem mais do que uma memória, é um instante eterno que ainda ecoa dentro de mim, recriando um momento em que me senti estranhamente inteira, como se só nesse instante tivesse encontrado uma parte de mim que eu nem sequer sabia que estava em falta.

E o que é que, nas minhas memórias, se pode comprar à chegada, quase ao pôr-do-sol, a Finisterra? O terminus de uma viagem de vários dias que percorreu toda a Costa da Morte, numa travessia de saudade, profundamente marcada pelo Espírito do Lugar.

Outro anoitecer. O final de um dia no Penedo Durão, ou a primeira vez em que parti do Porto e acompanhei no comboio as curvas do rio, saboreando o Alto Douro vinhateiro. Outras memórias, os mesmo lugares. Instantes que dentro de mim permaneceram eternos: encostas de caminhos íngremes e pedregosos, imensidão de amendoeiras em flor e a maravilha das gravuras rupestres de Foz Côa.

E para sempre a memória da subida à velha ruína de Penas Róias, também ao pôr-do-sol de um longo dia de verão, depois de um dia perfeito nas escarpas do Douro. Poucos lugares detém um significado tão absoluto, para mim. Penas Róias foi durante toda a minha infância um lugar mágico, antigo e distante. Era o cenário de muitas batalhas que alimentavam as minhas noites de inverno. Histórias contadas à lareira que partiam da Canção de Rolando e iam sendo reinventadas, numa miscelânea que, para a criança que eu era, fazia todo o sentido. A minha espada, que tantas vezes imaginei na infância e que só encontrei muito mais tarde. A minha espada maravilhosa com a cabeça de um leão no punho. A minha espada que não faz de mim uma guerreira, mas que eu tenho precisamente porque sou uma guerreira.

Uma longínqua ida a uma romaria que permanece como um dia luminoso e eterno. Um monte sagrado onde nunca mais voltei, uma das muitas montanhas da minha terra. Um santuário que mal recordo, mas guardo com carinho a memória da longa caminhada que começou ainda de noite, ao luar. Um dia intenso, pleno de alegria e de deslumbramento.

A primeira vez que me senti enamorada e o modo como, para sempre, dentro de mim, as estações de comboios e, em especial, a linha do Tua, ficaram associadas a algo que nos transporta para fora de nós mesmos, a uma estranha sensação de agigantamento.

Há muitas outras memórias, que se parecem com um sonho recorrente e que me levam sempre de volta a esta terra. Esta terra que me faz esquecer as minhas viagens por outros lugares. Esta terra que me viu nascer, esta terra onde hei-de morrer. Esta terra que é minha, porque está no meu coração. Galécia... a terra que me diz quem eu sou.

Friday, August 31, 2018

Conceitos

Wittgenstein dizia que era preciso ter consciência da desordem dos nossos conceitos e entender que isso era um problema, mas que esse problema poderia ser solucionado se os colocássemos em ordem.

Contudo, como não é habitual repensarmos as nossas ideias, não temos consciência da sua completa desordem e da crescente superficialidade de muitas delas.

Muitos dos nossos conceitos não passam de rótulos. E os rótulos, dando-nos a ilusão do conhecimento, afastam-nos cada vez mais da essência e da verdadeira sabedoria.

A título de exemplo, imaginemos que alguém me pedia um texto que tivesse religião, política, sexo e mistério. Parece complicado, não? Só é complicado na proporção da profundidade que eu quiser dar a cada um desses conceitos. Pode ser absolutamente superficial e simples:

– Meu Deus! – disse a filha de Donald Trump, – estou grávida e não sei quem é o pai.

Anedótico, bem sei. E não serão anedóticas muitas das nossas formulações – essenciais para o nosso crescimento, a nossa maturidade e a nossa compreensão do mundo e de nós próprios – sobre as quais nunca reflectimos?

Termino com uma fotografia da escultura de Rodin, O Pensador – Musée Rodin, Paris.
(Não sei quem é o autor desta fotografia, origem: net)



Thursday, August 30, 2018

Inteligência, imaginação e vontade

Quem me dera ser uma feiticeirinha de abril, como a bela jovem dos contos de Bradbury que, na quietude do seu pequeno quarto, era capaz de sonhar todos os sonhos do mundo.

Como é que se sonham todos os sonhos do mundo?...

Ocorre-me a frase do Pessoa, que diz «sou nada, serei sempre nada» e acrescenta: «à parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo».

Talvez para sonharmos todos os sonhos do mundo, seja preciso que aceitemos a nossa insignificância, que aceitemos que na vastidão imensa do universo somos e seremos sempre nada.

Sabermos e, mais do que isso, sentirmos que somos nada, liberta-nos. Como nos libertam o silêncio e a escuridão, quando deixamos de os estranhar e temer.

Santo Agostinho dizia que nós, na essência, somos uma tríade composta por vontade, memória e inteligência.

Se tu choras, eu nunca poderei conhecer o teu choro, mas posso intui-lo. Começo pela vontade, que me leva a querer conhecer o teu choro, segue-se a memória que, através das minhas experiências, me apresenta uma realidade similar à tua. Por fim, a inteligência compõe o quadro e cria o padrão da minha empatia.

Contudo, não será insignificante uma empatia que se baseia em experiências pessoais? E que valor poderão ter as minhas memórias? Tudo nelas é subjectivo, verdadeiro à luz das minhas sucessivas interpretações.

Substitua-se, então, a memória por imaginação. O que é que muda? A minha empatia deixa de estar limitada por um padrão criado pelas minhas experiências e passa a ser definida por uma infinidade de padrões, trazidos pela minha imaginação.

« (...)
As coisas que me cercam silenciosas
São almas a chorar que me procuram.
Quantas vagas palavras misteriosas
Neste ar que aspiro, trémulas, murmuram!

Vozes de encanto vêm aos meus ouvidos,
Beijam meus olhos sombras de mistério.
Sinto que perco, às vezes, os sentidos
E que vou a flutuar num rio aéreo...»

Depois deste excerto d'O Poeta, de Teixeira de Pascoaes, termino com uma questão: tudo o que a nossa imaginação nos dá, não são apenas sonhos? Talvez, mas como dizia Fellini: o que há de mais honesto do que um sonho? ;)


(A imagem é do artista extraordinário Frank Kelly Freas.)

Saturday, July 28, 2018

Pedra coração

Um artigo de 1905, publicado n' O Archeologo Português, fala-nos de um templo já desaparecido, em Trás-os-Montes, e que o autor comparou ao santuário de Panóias. Este templo localizava-se perto das margens do Tuela, na minha aldeia...

Deixo a única foto que conheço do templo, tirada em 1905, na vertente sul. Esta foto pouco ou nada mostra do templo desaparecido, contudo, para mim é profundamente significativa, porque mostra a face de uma pedra com o formato de um coração. Vi esta foto pela primeira vez em 2010 e impressionou-me imenso, por se tratar de uma pedra coração. Não fazia ideia. Contudo, toda a minha vida procurei pedras com o formato de um coração, pedras naturais, sem intervenção humana.. Sempre acreditei que essas pedras me mostravam o caminho de regresso a casa. E num dos momentos mais difíceis da minha vida, vi pedras coração por todo o lado, só que eu já não queria saber de nada daquilo. Então, num instante em que estava à sombra debaixo de um sobreiro, caiu em cima de mim um pequeno pedaço de cortiça, também com o formato de um coração. E eu voltei a acreditar nas minhas pedras.

Thursday, July 26, 2018

Eu vejo a lua

Um post de um amigo fez-me pensar em Rumi, assim, aqui fica o pensamentos dele que eu mais aprecio:

Vejo a lua
- ela não precisa estar cheia.
Eu vejo a lua
- ela não precisa ter nascido.


p.s. Já agora, deixo o link para o lugar dos meus sonhos e devaneios: Clareirazinha.

Monday, July 09, 2018

Destino

Começo com um excerto do rubaiyat de Omar Khayyam:

Admito que já resolveste o enigma da Criação;
e o teu destino? Aceito que desvendaste a Verdade;
e o teu destino? Está bem, viveste cem anos felizes
e ainda tens muitos para viver; e o teu destino?

Durante muito tempo, pensei que o meu destino era manter o meu coração puro e que estava irremediavelmente condenada ao fracasso.

Algo mudou, esta manhã.

Ontem, quando me deitei estava tristíssima, mas de manhã, ao acordar, já estava bem. Não sei exactamente por que razão me sentia feliz, talvez fosse apenas por ser um novo dia. Foi nesse instante que me ocorreu que, se era quase impossível manter sempre um coração puro, ele poderia, ainda assim, regressar integro e inteiro, todas as manhãs. Dentro de nós, um coração tão novo como o dia.

Na verdade, manter um coração puro talvez nem seja um destino, em si mesmo, mas é certamente a primeira etapa do caminho, qualquer que seja o nosso destino.

Wednesday, July 04, 2018

Percepção

Antes de começar a escrever, gostaria de alertar para o facto de as minhas verdades serem, em grande parte, verdades à La Palice. Mas são o que são…


A nossa visão do mundo, e consequente representação do mundo, com o foco no sujeito, em quem vê, é um conceito moderno.

O entendimento cartesiano da fenomenologia relaciona a transcendência do mundo, do que é visível, com a imanência da consciência de quem vê.

Nesta representação do mundo, não é o mundo em si mesmo que detém o foco central, mas sim o sujeito que vê.

Assim, na minha humilde opinião, não nos é possível ver o mundo dos deuses, a menos que nos libertemos do sujeito que vê, ou seja, a menos que nos libertemos da nossa consciência, que colocamos na nossa visão de cada parte do mundo.

Eu penso que não é possível, de todo, ver o mundo, tal como ele realmente é, a menos que o papel central deixe de ser de quem vê e passe a ser do mundo, em si mesmo.

Vasarely, no Manifeste Jaune, propôs que, ao olhar uma pintura, o sujeito suspende-se a sua consciência, que o olhar eliminasse a bagagem da significação, de toda a significação. Então, se quem vê se visse privado da sua consciência de ver, poderia ser visto pela pintura?

Eu considero esta abordagem absolutamente fascinante.

Contudo, por muito longe que nos levasse a reflexão do domínio da percepção, quer em termos artísticos, quer filosóficos, esse não é propriamente o objectivo deste texto.

Mas mantém-se a questão: os dois olhares distintos – o do sujeito que vê e que, no acto de ver, vê apenas e só através da sua consciência; e o do mundo, que nos olha de volta – podem coexistir num ponto, do espaço/tempo?

Eu considero que não.

Nesse caso, encontrar o mundo dos deuses é, apenas e só, ser visto por… e não ser o sujeito quem vê.

Assim, para encontrar o mundo dos deuses, eu teria que abdicar voluntariamente da minha consciência, abdicar da minha representação do mundo, abdicar da familiaridade de ver, deixando em suma de ser eu quem vê, para ser visto.

Como é que se altera esta percepção? Todos nós sabemos que há vários métodos, que não será preciso enumerar aqui. Há ainda os métodos inerentes a cada um de nós, pessoais e privados.

Contudo, novamente na minha humilde opinião, o primeiro passo para encontrar o mundo dos deuses é, precisamente, não o querer ver.

Se o sujeito, quem vê, nunca se liberta das suas representações, se tudo o que vê está imbuído da sua própria consciência, então, não entendo como poderá ver o mundo dos deuses. Mas, ainda assim, poderá sempre olhar precisamente para não ver, permitindo-se ser visto.

Dancing Fairies, 1866, by August Malmstrom,


Thursday, May 31, 2018

O corpo da tribo


De vez em quando, sinto a necessidade de fazer alguma coisa com aqueles terrenos em Trás-os-Montes, perto do Parque de Montesinho. Contudo, a tarefa é demasiado árdua para mim e acabo por não fazer nada. De resto, a verdade é que eu nem sequer sei o que se poderia fazer por lá… talvez limpar alguns caminhos, permitindo o acesso a vestígios arqueológicos muito interessantes, eventualmente sinalizá-los. Talvez criar uma ou outra estrutura.

Hmm, creio que é uma necessidade um pouco mais abrangente…

Já vos disse que é uma terra de lendas muito antigas? Mais do que preservar aquelas lendas em quaisquer folhas de papel, eu gostava de as devolver à paisagem, que sempre foi o corpo da tribo… para tal, seria preciso não só divulgar as lendas, mas também mostrar os lugares onde essas lendas aconteciam. Roteiros. Livros, certamente. Mas livros onde a paisagem é o elemento principal.

Tuela: o nome do rio, com mais de 20 castros, num percurso de cerca de 25 km. Grutas praticamente inexploradas, povoadas de lendas de mouras encantadas. Imensas florestas, velhas rochas graníticas cheias de covinhas.

Há um mundo antigo e mágico por lá, que ainda chama por alguns de nós… E eu temo que qualquer dia desapareça para sempre, na bruma. Mas, se nos juntarmos e nos apressarmos, talvez ainda possamos fazer com que esse chamamento permaneça para as próximas gerações.

Bem, se quiserem participar nesta aventura, contactem-me por favor.  :)

Thursday, October 19, 2017

Relação com a divindade

Nestes dois dias, com todas essas imagens de terra queimada na minha mente, não consegui deixar de pensar como tantas vezes, ao longo da minha vida, consciente ou inconscientemente, eu levei a minha relação com os meus deuses para terrenos onde pouco podia crescer.

A minha relação com a divindade foi sempre demasiada para a minha coragem. 

Sinto as palavras de Rilke como se estivessem vivas, dentro de mim. Sinto e sei que qualquer relação com a divindade é uma coisa viva, apenas intuída, nunca verdadeiramente compreendida, e que está muito para lá da nossa existência. 

Hmm… será que já não me vai faltar a coragem?... 


Tuesday, April 30, 2013

Um pequeno bosque

Boa tarde.

Permitam-me que lhes fale um bocadinho do meu bosque. Fica a cerca de 200km da minha casa e, por isso, não vou lá muitas vezes. Mas, dedico todos os dias alguns minutos àquele lugar. Mesmo assim, não consigo protegê-lo. O ano passado cortaram um jovem abrunheiro e deixaram-no lá, caído no chão. Não sei por que o fizeram. Disseram-me que talvez tenha sido «apenas» para experimentar o gume de uma foice. O que causa ainda mais tristeza... Bem, creio que nunca fariam isso a uma oliveira ou qualquer outra fruteira. O corte dos sobreiros e das azinheiras é proibido por lei, mas nem isso é respeitado. E, na mente dos meus conterrâneos, que importância pode ter um abrunheiro, um espinheiro-alvar ou um sabugueiro? Cortam-nos se lhe apetecer, mesmo que estejam em terras que não lhes pertencem.

Os teixos praticamente desapareceram, em parte devido aos pastores, que os cortavam sempre que os viam. O veneno do teixo condenou-o...e, pelo menos no meu mundo, das teixeiras já só há memórias. Tenho alguns pés a crescer em vasos, mas ainda não me atrevi a colocá-los no meu bosque.

Depois, bem depois há ainda os caçadores, sobretudo os caçadores furtivos. Há javalis que frequentemente percorrem o meu bosque e todos os dias peço aos deuses que olhem por aqueles belos animais, para que os seus trilhos sejam seguros. Contudo, a ameaça dos caçadores furtivos mantém-se bem real. Sei que muitos deles apanham os javalis com armadilhas. Cortam uma árvore, um freixo ou um carvalho e prendem-no à armadilha. Quando o animal é apanhado, não morre logo, corre em desespero amarrado a uma árvore, causado imensa devastação e sofrendo uma morte lenta e dolorosa. Nem é só a questão de matarem um animal, o que é pior é que o matam de um modo vergonhoso. E eu arrepio-me só de pensar nisso.

E temo também por um belo freixo que já faz parte de mim e que, infelizmente, está numa posição que o candidata a ser uma dessas árvores abatidas e presas às armadilhas.

Oh! Como eu gostava que o mundo fosse diferente...

Bem, na semana passada, descobri que as minhas aveleiras tinham desaparecido. Sei bem que o responsável foi o meu vizinho que, provavelmente, pensou que me estava a fazer um favor. Eram pequenos pés, plantados no último outono. Jovens rebentos imersos num mar de erva alta, que havia de ser tirada, com cuidado. Mas, antes que eu tivesse oportunidade de tirar a erva, o meu vizinho limpou essa parte do terreno com uma roçadora e lá se foram as aveleiras. Confesso que nunca pensei que as aveleiras corressem perigo...

Na verdade, no último Lughnasadh, que foi quando comecei a dedicar-me a este bosque/jardim, tinha uma visão de tudo isto bem mais romântica... Era um terreno que eu conhecia, mas onde já não ia há muito tempo. Quando lá voltei, deparei logo na entrada com um maravilhoso urzal, que me deixou num estado de espírito fantástico. Sentei-me num rochedo a observar uma águia. De repente, tive consciência da coincidência e senti-me transportada para a canção de Amergin, foi um momento de revelação. Fiquei com a convicção de que seria um caminho muito fácil de percorrer, mas isso não é verdade. É um caminho árduo, que me causa tristeza, mas também imensa alegria. Vou tendo fracassos - as minhas bétulas não nasceram -, mas também há sucessos - deparei com uma macieira silvestre, que eu nem sabia que lá estava, com uma floração magnífica, que me deixou com o coração em festa.

Contudo, não me sinto mais perto das respostas. Na verdade, nem sei ainda quais as questões que devo colocar. Mas, isso é a meta. E, de alguma forma, a meta deixou de importar. Podia dizer que é o calcorrear do caminho que é importante, mas eu nem sei bem se isto é um caminho, no sentido espiritual, quero eu dizer. É quanto muito um sonho. Um sonho que eu gosto de sonhar, só me custa saber que não sou capaz de proteger aquele pequeno bosque.


Thursday, September 22, 2011

A história do homem que caiu das nuvens

Esta história foi-me contada pela minha avó materna, que dizia ter acontecido quando o avô dela era ainda um jovem. E foi ele quem lha contou. A história aconteceu numa tarde de verão, em que o avô da minha avó, os pais dele e alguns vizinhos andavam a apanhar feno nos lameiros do rio, tendo surgido de repente uma violenta tempestade, que fez os bois juntarem-se no meio do lameiro e levou as pessoas a refugiarem-se na azenha. Quando a trovoada acabou, saíram da azenha e viram no meio do rio, com água até à cintura, um homem despido e queimado do sol. Ficaram cheios de medo, pois sabiam bem que era um dos homens que andava nas nuvens a fazer as trovoadas e que tinha caído. Mas, como o avô da minha avó contava, ainda tiveram mais medo do que lhes podia acontecer se não o ajudassem, de modo que dois ou três homens foram ao meio do rio e trouxeram-no para a margem. O homem não falava e eles colocaram-no no carro de bois e levaram-no para a aldeia. Já na aldeia, vestiram-no, ajudaram-no a sentar-se a uma mesa e puseram à frente dele um pão de centeio e uma faca, para que comesse. Ele começou então a partir bocadinhos de pão e a fazer figuras estranhas na mesa, o que aterrorizou toda a aldeia. Como já tinha anoitecido, deixaram-no ficar até de manhã. Logo que amanheceu, montaram-no num cavalo e levaram-no para a aldeia seguinte, onde o deixaram. O homem continuava ainda sem falar. Quem o levou até à outra aldeia foi o avô da minha avó, que contava que daí o levaram também para a aldeia seguinte e assim sucessivamente, até deixarem de ouvir falar do homem que caiu das nuvens.

Foi assim que eu ouvi contar esta lenda. Sem outro nome que não fosse o homem que caiu das nuvens. Muito mais tarde encontrei, em lendas relacionadas com esta, a terminologia Secular das Nuvens, assim como a referência à Caçada Selvagem, no livro do Consiglieri Pedroso - Contribuições para uma Mitologia Popular Portuguesa e outros Escritos Etnográficos, Pub. Dom Quixote, Lisboa, 1988. - Note-se que esta lenda está também intimamente relacionada com o Nubeiro do folclore galego. Por tudo isto, parece-me algo importante e muito gostaria de ver algum estudo académico acerca desta bela lenda. Nesse sentido, transmiti-a por email, no dia 15 de Junho de 2011, ao Doutor Alexandre Parafita. Hoje, decidi deixar aqui a referência, na esperança de que alguém se interesse por estas lendas e prossiga os estudos do senhor Consiglieri Pedroso.

Já agora, deixo aqui o cenário da lenda (ainda que o caminho tenha sido feito ao contrário, da aldeia em direção ao rio): Rio Tuela

Tuesday, July 12, 2011

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna

Trezenzonii Solistitionis Insula Magna é um texto escrito por um habitante da Gallaecia romana, do século XI, que conta como encontrou a Ilha do Solstício, para lá da Torre de Hércules, na Corunha, e onde viveu sete anos. Trata-se de um relato na primeira pessoa, muito interessante, de alguém que encontrou a mítica Ilha do Verão, dos celtas.
Se tivermos este texto em mente, Santiago de Compostela, ou mesmo Finisterra, não poderão representar o término da peregrinação, que necessariamente continuará, talvez pela bela Costa da Morte, até à Torre de Hércules, na Corunha. Ou, quem sabe, até a uma ilha que não existe. :)